quarta-feira, 18 de junho de 2008

Eu vi a luz! — Ou de como me tornei ateu

por Júnior Camilo
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Eu nasci numa família católica e fui criado para ser um cristão praticante. Durante minha adolescência, minha dedicação à igreja era tamanha que tomei uma decisão: resolvi que queria ser padre! Mas, como ainda não havia acabado o ensino médio, tudo o que pude fazer foi tentar ter uma idéia da vida nos seminários (visitei vários, de diferentes ordens religiosas) durante esses períodos de teste normalmente conhecidos como “experiência vocacional”.
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Nessa época, eu era um ativo membro da Renovação Carismática Católica (uma espécie de facção pentecostal que, feito uma cria bizarra, surgiu como uma adolescente hiperativa e dopada com ecstasy, saída do ventre malsão de uma velha decadente: a “Santa Madre Igreja”). Como todas as vítimas que tombam sob o peso da ignorância, contaminadas por esse “vírus da mente”, que é a fé religiosa, numa expressão emprestada de Dawkins, também eu sentia a “presença do Espírito Santo” em tudo ao meu redor. Acreditava no poder das orações e nos milagres de Deus, embora jamais tivesse visto nem mesmo o mais fervoroso cristão, que tivesse perdido a perna depois de um acidente, passar pela experiência de ter um novo membro inferior crescendo no lugar do que foi amputado — algo que, sem dúvida, seria um milagre! Na verdade, erguia minhas mãos por sobre os fiéis, enquanto eu ou outra pessoa pregava, e acreditava que de mim invisíveis raios cósmicos eram disparados sobre eles, como se eu fosse um super-herói de gibi, cujos poderes emanavam diretamente dos céus.
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Mais tarde, ouvíamos aqueles testemunhos delirantes. Gente que afirmava ter se curado de um “caroço”, algum nódulo misterioso, de que nenhum médico tinha conseguido tratar. Gente que contava histórias de algum parente ou conhecido que tinha uma doença fatal e foram curadas pela fé. Normalmente, pessoas (como eu mesmo, na época) com pouco ou nenhum conhecimento do funcionamento de nosso organismo nem de como ele pode ser afetado por nosso estado emocional, de como nossas próprias interpretações dos fatos podem ser influenciadas (não raro infladas) por esse mesmo estado, gente que, portanto, simplesmente ignorava dados, como o fato de que, por exemplo, a amígdala (um órgão em nosso cérebro que não tem nada a ver com o outro de mesmo nome, mais conhecido das pessoas), que ajuda a investir emoção em nossas lembranças, ativa-se — isto é, mostra maior atividade metabólica no cérebro — quando vemos ou ouvimos algo conotativamente assimilado de forma impactante. Não tinha o menor conhecimento de que, nessas situações, como salienta o cientista cognitivo, Steven Pinker, num de seus artigos, apresentamos reações que não são apenas emocionais mas também involuntárias. E podemos nos sentir afetados, por um lado, bem como podemos exagerar as dimensões desse efeito sobre nós. E tudo simplesmente porque, as palavras que ouvimos não são tratadas por nosso cérebro como meros ruídos sem sentido; com efeito, de forma reflexiva, vasculhamos nossa memória e respondemos a seu significado, inclusive seus aspectos conotativos. Em outras palavras: eu não entendia essa intrigante dinâmica entre palavras e emoções, tão explorada no meio religioso, em termos de nossas reações psicobiológicas, não percebia que palavras não eram apenas palavras. (q.v. PINKER, Steven. “Why We Curse” [Por Que Xingamos]. In: The New Republic, 08/10/2007.)
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Em todo caso, naquela época, eu sentia que Deus era algo real, tão real quanto a minha cama ou a roupa que eu vestia. E queria saber tudo sobre ele, de modo que estudar o máximo que pudesse sobre a religião tornou-se minha obsessão. Até mesmo porque, se eu fosse mesmo virar padre, queria ser um expert em tudo relacionado ao tema.
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E foi aí que começou a mudança.
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Ao longo de cerca de dez anos, eu me dediquei a ler tudo o que podia sobre a Bíblia, sobre Teologia, Filosofia, Hermenêutica Bíblica. Comecei a estudar a história dos textos bíblicos, as análises especializadas de suas traduções. E, na ânsia de ser bom naquilo a que me propunha, pus-me também a estudar História Antiga, Arqueologia e outras ciências, a fim de tentar fazer como muitos cristãos delirantes, que se esforçam risivelmente no intento de conciliar o conhecimento científico com a visão teísta do mundo, sempre que possível, e de refutar tudo o que não desse para fazer convergir entre os dois.
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No entanto, os primeiros problemas, as primeiras dúvidas, a primeira centelha da razão iminente em minha vida, surgiram já nessa fase de estudo mais cuidadoso das escrituras. Foi a primeira vez em que me deparei com as discrepâncias, as contradições, os erros de tradução, as interpolações. Foi a primeira vez em que percebi as falhas e os plágios de outras culturas. Foi a primeira vez em que me lembro de ter perguntado a mim mesmo: Será?
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Coisas sem sentido que lemos na Bíblia e que não paramos para pensar a respeito
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Não vou repetir aqui toda a lista de inúmeras passagens bíblicas que fedem a uma imoralidade repulsiva, que discuti num outro artigo meu neste blog — q.v. “Das questões morais — 1ª parte”, 03/05/2008 —, mas vou dizer que foi nesta época que me deparei com cada uma delas. Contudo, não foram apenas as passagens que traziam ensinamentos moralistas mais do que condenáveis que se destacavam como falhas da Bíblia. Havia outras questões, algumas das quais quero comentar aqui.
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Na verdade, como é possível tomar conhecimento da descrição do mito sumério de Zi-ud-sura, o personagem avisado por um deus sobre a destruição do mundo numa gigantesca inundação, a fim de que construísse uma embarcação e se salvasse, ou do mito acádio de Atrahasis, também instruído divinamente a criar um barco que o salvasse da inundação punitiva que destruiria a humanidade, ou do mito babilônico descrito no Épico de Gilgamesh, onde lemos a história de Utnapishtim e sua mulher se salvando da grande inundação enviada pelos deuses para dizimar a humanidade, num barco construído sob instruções de um desses deuses, no qual Utnapishtim pôde salvar sua família, seus amigos, seus bens e seu gado, e estar ciente de que cada um destes mitos são bem mais antigos do que o livro do Gênesis, e, mesmo assim, insistir em não aceitar que a história da arca de Noé (Gên. 6:5 — 8:22) é uma óbvia adaptação dessas narrativas, ou seja, alguém contando as lendas de outros povos, seguidores de outros cultos religiosos, fazendo apenas as mudanças necessárias para encaixá-las na sua versão, onde os personagens são o seu povo e o seu deus? Dito de outra maneira, como tomar conhecimento desses mitos mais antigos e não ver que a história de Noé não teve “inspiração de Deus” coisa nenhuma?
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Como tomar conhecimento da lei de Ur-Nammu (de cerca de 2050 antes da era cristã), ou do Código de Hamurábi (1760 AEC), e não perceber que a lei de Moisés (que tradicionalmente diz-se datar de 1400 AEC) tem clara semelhança com essas leis de reis tidos por pagãos? Aliás, fica mais óbvia ainda a influência (e, portanto, a não-inspiração divina) quando sabemos que, se por um lado a história bíblica diz que a lei de Deus foi inscrita em tabletes de pedra que nunca foram encontrados até hoje, por outro lado, o código do rei da babilônia, que serviu de inspiração para quem quer que tenha escrito as leis que estão na Bíblia, foi mesmo esculpido numa estela de basalto, de quase 3800 anos, encontrada em 1902 por um arqueólogo francês, e que pode ser vista hoje por qualquer turista em visita ao museu do Louvre, em Paris. Além disso, praticamente as mesmíssimas palavras que encontramos no livro do Êxodo (20:23-25), Levítico (24:17-20) e Deuteronômio (19:21) sobre a lei de talião, que ali estão como prescrições de Deus aos homens, aparecem na lei de Hamurábi, deixando clara a sua origem: “Se um homem vaza o olho de outro homem, seu olho deve ser vazado. Se ele quebra os ossos de outro homem, seus ossos devem ser quebrados. (...) Se um homem arranca os dentes de outro seu semelhante, seus dentes devem ser arrancados” (Código de Hamurábi 196-197.200).
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Além desse tipo de conflito evidente — entre o que o estudo histórico das culturas religiosas vizinhas aos primeiros hebreus nos revela de sua influência no que veio a ser o Antigo Testamento, de um lado, e a fé cega na inspiração divina de cada página da Bíblia, de outro —, há ainda tantas questões internas, que a simples leitura mais atenta das escrituras poderia nos mostrar.
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E eu ia enfrentando cada uma dessas questões, à medida que meus estudos avançavam. E, só para citar um primeiro exemplo, algumas importunas indagações emergiram quando confrontei a narrativa da mesma história na Bíblia, conforme dois livros diferentes do Antigo Testamento.
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Em 2 Sam. 24:1, há um versículo curioso — “A ira de Yahweh se acendeu contra Israel e incitou Davi contra eles: ‘Vai’, disse ele, ‘e faze o recenseamento de Israel e de Judá’”. Inúmeras são as vezes em que lemos isso (como eu mesmo fiz por muitos anos) e não enxergamos todos os problemas que esse versículo encerra. E se vocês não entenderam, deixe-me explicar direito!
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Em Êx. 32:32-34, faz-se menção a um livro em que Deus manteria registrado o nome de cada um dentre seu povo e que conteria as ações dos homens bem como descreveria seu destino (tal como mais tarde dirão os Salmos 69:28-29 e 139:16). Um livro através do qual Deus contaria seu povo e controlaria o número dos que nascem e morrem. Em face disso, entendia-se que todo recenseamento era, portanto, uma espécie de momento em que os homens faziam algo que era uma prerrogativa divina apenas. Pois a contagem deveria ser só a que Deus fazia em seu livro, em princípio. Mas, como os homens precisavam saber quantos integravam sua sociedade, o censo acabava sendo uma necessidade de tempos em tempos. Por isso, como lemos em Êx. 30:11-12, Deus resolveu que, sempre que fosse feito um desses censos, cada pessoa contada deveria pagar um tributo a ele, para que nenhuma desgraça recaísse sobre essa pessoa — e uma pergunta que me ocorreu de pronto, mas que logo tratei de espantar da mente foi: por que Deus precisaria de dinheiro e de fazer chantagem para consegui-lo?
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Não obstante isso, os pontos realmente estapafúrdios dessa história começam aqui: 1) aparentemente, Deus considerou que o povo precisava ser punido por seus pecados (mas, se era assim, por que em vez de puni-los por algo já feito, decidiu fazê-los pecar primeiro, para depois poder puni-los?); 2) para isso, Deus usou seu poder para hipnotizar Davi, o rei, e fazê-lo obrigar o povo a passar por um novo e súbito recenseamento (o que acarretaria os problemas perante a intransigência divina citados no parágrafo anterior); 3) quando Davi saiu do transe, viu que tinha cometido “um grande pecado” (v. 10) — apesar de o texto ser claro: a culpa não foi dele, foi de Deus mesmo! —, 4) e foi quando Deus deu a ele três escolhas, para que o rei decidisse qual seria a maneira sádica pela qual o Altíssimo atormentaria o povo, que, como fica claro, era inocente nessa história: entre 7 anos de fome avassaladora, 3 meses de derrota das tropas de Davi perante os exércitos inimigos ou 3 dias de peste assassina no país, o rei foi logo dizendo que podia ser tudo menos a segunda alternativa — embora a antiga tradução grega tenha acrescentado um versículo, que não consta das outras versões, dizendo que Davi escolheu então a peste — (vs. 12-14); 5) assim, Deus mandou a peste, que dizimou 70 mil homens do povo (v. 15).
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A narrativa é tão bizarra que, muito tempo depois de o segundo livro de Samuel ter sido escrito, apareceu o primeiro livro das Crônicas, que voltaria a contar essa mesma estranhíssima história. Todavia, há um dado importante aqui, no sentido de mostrar que a Bíblia é apenas fruto dos delírios religiosos de um povo, em conformidade com a cultura de seu tempo: em algum ponto do tempo entre essa primeira versão da história, no livro de Samuel, e a segunda, nas Crônicas, a visão teológica a respeito de Deus mudou. Antes, imperava uma perspectiva monística da divindade monoteística, segundo a qual haveria apenas um deus e mais nada equiparável a ele, sendo este portanto a causa sobrenatural tanto do bem quanto do mal. Todavia, uma visão dualística foi gradualmente se impondo, resultando bem posteriormente na hoje tão conhecida batalha entre os dois super-arquiinimigos: Deus e o Diabo.
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E foi assim que o autor desse trecho das Crônicas, acabou reformulando a frase do outro livro e recontando a história, porém agora atribuindo a hipnose sobre Davi não mais a Deus, mas sim a seu recém-criado rival: “Satanás levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel” (1 Crôn. 21:1). Curiosamente, se o cronista resolveu mudar o nome do tentador de Davi, por outro lado, manteve o resto da história original, inclusive a parte em que é Deus quem lança a peste assassina sobre o povo, que na verdade não tinha feito nada de errado (v. 14).
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Em todo caso, uma pergunta passou logo pela minha cabeça, quando li as duas versões: como podemos aceitar que ambos os livros tenham sido inspirados por Deus, sendo relatos de indiscutíveis verdades históricas, uma vez que um deles afirma que a ira de Deus foi a força inspirando Davi a recensear o povo, ao passo que o outro diz que foi Satanás? Se admitirmos que um dos livros está certo, é claro que o outro estará errado — logo, por que não arrancá-lo da Bíblia, já que está ali apenas para confundir nossa fé? Por outro lado, se eu admitir que ambos estão certos, será o mesmo que dizer que vejo Deus e Satanás como sendo a mesma pessoa. A questão tornava-se complexa para aqueles que, como eu, afirmavam crer em cada página das escrituras, sem jamais duvidar de nada.
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Um outro caso: quem nunca tomou conhecimento da passagem em Gên. 19:1-11, onde se conta um episódio da vida de Ló, que resultaria na destruição de Sodoma e Gomorra? A causa da destruição também é sabida: foi por conta da tara obsessiva dos homens dali, que cismaram porque cismaram que queriam transar com dois anjos que Ló resolveu convidar a sua casa — há coisas na Bíblia que hoje leio e não sei se é para rir ou para chorar! Mas bem... Essa história, que nossas avós decerto não contariam em detalhes a suas netas, é praticamente a mesma que lemos num livro bem posterior, para ser preciso, em Juízes 19:10; só que, aqui, com personagens diferentes e cidade diferente. Mas o enredo é claramente o mesmo. Uma evidência descarada de uma história recontada, que nunca poderia ser considerada inspirada por um deus onisciente. Afinal, ele deveria saber que a história era uma cópia de outra, não é mesmo? (Lembrei-me de uma frase que li uma vez, enquanto estudava latim, brincando com uma notória frase de crítica aos erros encontrados na obra de Homero —“Quandoque bonus dormitat Homerius” — que alguém reformulou assim: “Quandoque Sanctus dormitat Spiritus”, isto é, “O Espírito Santo às vezes cochila”.)
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Com efeito, às vezes, até mesmo uma passagem aparentemente normal na Bíblia pode trazer informações que não fazem sentido, que não batem de jeito nenhum, quando resolvemos avaliar melhor o que dizem. E eu pude perceber isso várias vezes.
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Por exemplo, em Marcos 5:1-13, Lucas 8:26-33 e Mateus 8:28-32, lemos o relato do exorcismo praticado por Jesus, com que libertou um homem de uma legião de demônios. Conhecemos bem a história: os supostos demônios do homem são transferidos para uma vara de porcos que pastavam por perto do local onde Jesus exorcizava o sujeito, e estes então partem desembestados e se jogam no mar da Galiléia (também chamado de Lago de Tiberíades ou Lago de Genesaré). Os pontos curiosos que chamaram minha atenção e que muitos ignoram começam aqui: enquanto Marcos e Lucas dizem que tais acontecimentos se deram “na região dos gerasenos”, isto é, nos limites da vila de Gerasa, atual Djerash, Mateus situa os fatos no “país dos gadarenos”, ou seja, nos limites de Gadara. Acontece no entanto que a contradição de locais entre os autores não é o mais notável nestes textos, mas sim o fato de que, caso os dois primeiros estejam certos, mais impressionante do que o milagre da expulsão de tantos demônios de uma só vez seria a constatação de que Jesus fez desses porcos os mais obstinados a cometer suicídio de que já se ouviu falar — pois, afinal de contas, eles tiveram de correr nada menos do que 50 Km para poderem enfim se matar no lago, já que esta é a distância que separa Gerasa do mar da Galiléia! Diante disso, talvez a solução seja esquecer o que Marcos e Lucas dizem e ficar com Mateus. Só que tampouco este evangelista se sai bem ao contar essa história.
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Gadara, a cidade onde Mateus diz ter acontecido o exorcismo, encontra-se por sobre uma íngreme colina, a quase 10 Km a sudeste do lago, tendo entre este e a cidade um vale profundo, entrecortado por um rio de águas turbulentas. Logo, se a história deste autor estivesse correta, os porcos seriam também aqui verdadeiros camicases. Afinal, teriam descido a ladeira, atravessado esse rio violento, subido a encosta do vale do outro lado, num percurso total de quase dez mil metros, para finalmente se jogar no mar. Tal versão não faz mais sentido do que a dos outros dois mencionados acima. (Sem falar que, na história de Mateus, ainda há o detalhe de que os demônios em questão estão no corpo de dois homens, não de um só, como nos outros evangelhos.)
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Diante desses dados desconcertantes, eu até tentei me apoiar em alguns defensores da verdade bíblica, que procuram explicar que, na realidade, os fatos narrados aconteceram na vila de Gergesa (ou Ghersa, Kersa, Kursi ou Corsi, dependendo do autor), uma vila bem mais próxima à costa. Mas o certo é que toda a argumentação deles, tão dependente de interpretações de dados que não estão nos textos bíblicos, levava-me era a perguntar mais coisas, como: que coerência há em nosso comportamento se resolvemos nos agarrar a dados externos sempre que ajudarem a defender a suposta historicidade da narrativa bíblica, mas rejeitá-los completamente toda vez em que mostrarem que o que lemos nas escrituras não bate com as evidências históricas e arqueológicas? Perguntas assim me assombravam, naquela época.
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Bem, vejamos mais um caso desse tipo — o último que vou citar aqui, para não me alongar demais neste assunto cujos exemplos não faltam. Diz respeito ao relato mais importante de toda a história do cristianismo, ou seja, a suposta ressurreição de Jesus.
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Durante meus estudos, entendi a importância de se procurar ordenar os livros da Bíblia de forma cronológica, a fim de analisar o avanço gradual das idéias religiosas por trás dos textos. Por isso, uma datação precisa ficar clara aos que pouco conhecem sobre a história da Bíblia. Como vim a tomar conhecimento, ao contrário do que a disposição dos livros ao longo do Novo Testamento sugere, não foi o Evangelho de Mateus o primeiro a ser escrito. A ordem cronológica em que esses textos foram produzidos é a seguinte, conforme aceitam a imensa maioria dos estudiosos: Marcos (por volta do ano 70 da era cristã), Lucas (entre 80 e 90 EC), Mateus (entre 80 e 100 EC) e finalmente João (entre 95 e 100 EC). Além disso, é importante saber que Mateus e Lucas contaram com o evangelho de Marcos, para escreverem suas próprias versões. O de João já não traz essa relação clara, daí o porquê de suas histórias sobre Jesus serem muito freqüentemente distintas das que encontramos nos outros três livros.
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Pois bem! O fato é que, uma coisa que eu nunca havia feito até então, após ordenar devidamente os evangelhos, resolvi ler de forma consecutiva o que os quatro dizem ao narrar os acontecimentos na manhã do domingo da suposta ressurreição. E tive uma grande surpresa! Explico o porquê:
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1) Se lermos a narrativa contida em Marcos 16:1-8, ficamos sabendo que as mulheres chegaram no túmulo de Jesus, onde haviam ido para ungir o cadáver com aromas, e encontraram a pedra que o lacrava removida, nenhum guarda presente, e um jovem vestido com uma túnica branca, que estava lá dentro. Foi ele quem disse a elas que o corpo não estava mais ali, que Jesus havia ressuscitado e ido embora para a Galiléia.
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2) Quando lemos a mesma história em Lucas 24:1-6, as mulheres chegam ao túmulo vazio, sem nenhum guarda presente, e lá encontram dois homens com vestes fulgurantes, que fazem o papel do moço no livro de Marcos.
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3) Na versão encontrada em Mateus 28:1-7, as mulheres chegam ao túmulo ainda lacrado. Então, um anjo descendo do céu em roupas alvas como a neve remove a pedra, diante dos olhos delas. Os guardas ainda estavam ali, de vigia, e ficam apavorados com a aparição. Apesar de o túmulo ter acabado de ser aberto, Jesus já não está lá dentro. O anjo então diz às mulheres que ele ressuscitou e foi-se para a Galiléia.
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4) Finalmente, a versão de João 20:1-18 diz que Madalena (só ela) chega ao túmulo e o encontra aberto e vazio. Procura Pedro e outro discípulo e informa-lhes que roubaram o corpo. Pedro e o outro vão ao túmulo e encontram apenas os panos de linho que cobriam Jesus bem como o sudário que envolvia sua cabeça. Os dois voltam para casa. Madalena continua ali, chorando. Nisso, ela avista dentro do túmulo dois anjos vestidos de branco e fala com eles. Em seguida, conversa com o próprio Jesus ressuscitado, que também aparece por ali, sem que ela o reconheça a princípio. Enfim, ela percebe que é Jesus, e este lhe pede que conte aos outros que estiveram juntos.
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O que se verifica facilmente é que, à partir da história de Marcos, escrita mais de 40 anos depois da data em que Jesus teria morrido, e que nos apresenta um jovem vestindo uma túnica branca, passamos pela versão de Mateus, acrescentando a tradicional imagem dos guardas de vigia, até culminarmos na visão alucinada de João, em que estão ali dois anjos de roupas brancas, além do próprio Jesus em pessoa. A impressão que se tem é que, à medida que passaram os anos e surgiram as novas versões, tudo fez valer o velho ditado popular que diz: “Quem conta um conto, sempre aumenta um ponto”.
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Aliás, há mais um detalhe quanto a isso, no tocante ao texto de Mateus, que fala dos guardas. Este evangelista diz que, assim que foram informadas por um anjo que Jesus havia ressuscitado, as mulheres foram atrás dos apóstolos, porém, no caminho foram interceptadas pelo próprio nazareno ressurreto, a quem todas abraçaram, caindo em seguida de joelhos diante dele. Nesse momento, o autor narra que Jesus lhes diz as seguintes palavras: “Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia; lá me verão” (28:10).
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A este versículo, segue o seguinte trecho:
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Enquanto elas iam, eis que alguns da guarda foram à cidade e anunciaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que acontecera. Estes, depois de se reunirem com os anciãos e deliberarem com eles, deram aos soldados uma vultosa quantia de dinheiro, recomendado: “Dizei que os seus discípulos vieram de noite, enquanto dormíeis, e o roubaram. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e vos deixaremos sem complicação”. Eles pegaram o dinheiro e agiram de acordo com as instruções recebidas. E espalhou-se essa história entre os judeus até o dia de hoje. (28:11-15)
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Bem, qualquer leitor atento poderá perceber, como eu então percebi, o problema que temos aqui: este trecho todinho foi interpolado no Evangelho de Mateus, muito tempo depois de o texto já existir. E como se pode concluir isso? Simples: 1) o versículo 15 deixa claro que a passagem não foi escrita por um judeu (e o evangelista, quem quer que tenha sido, foi um judeu que tentou fazer de tudo para conciliar a narrativa da vida de Jesus com as profecias do Antigo Testamento), além do que, a expressão “até o dia de hoje” deixa claro que quem escreveu essa parte estava fazendo-o muito, muito tempo depois daqueles supostos eventos; 2) nem Marcos nem Lucas nem João falam qualquer coisa sobre esse suposto suborno aos guardas; 3) como o evangelista poderia saber o que foi combinado entre os sacerdotes e os soldados, já que com certeza ele não estava presente nessa suposta reunião?
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Além disso, basta ler o texto, pulando esse trecho inteiro, para ver como a história apresenta clara continuidade, ao passo que o trecho quebra todo o ritmo narrativo. Passado do versículo 10 para o 16, temos:
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Então Jesus disse: “Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia; lá me verão” (...) Os onze discípulos caminharam para a Galiléia, à montanha que Jesus lhes determinara. Ao vê-lo, prostraram-se diante dele. (28:10.16-17)
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Como se vê sem muito esforço, algum espertinho achou que a versão original de Mateus não estava boa o bastante — ou, em outras palavras, não contava lorotas o suficiente — e resolveu adicionar ali esse trechinho, que ajudou ainda mais a fomentar nos cristãos seu ódio assassino pelos judeus, que perdurou até bem pouco tempo atrás; sendo que hoje os judeus estão tendo a chance de praticar o mesmo contra os palestinos muçulmanos, que, por sua vez, não deixam barato e devolvem na mesma moeda, resultando tudo neste caos interminável que vemos nos noticiários diariamente.
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No fim, todos os exemplos que citei até agora são apenas algumas das coisas mais óbvias que o estudo mais cuidadoso da Bíblia me possibilitou enxergar. Há muitas outras coisas mais complexas, no âmbito da tradução de originais ou no da interpretação hermenêutica, em que não vou me aprofundar aqui. O que me interessa deixar claro é que, quando comecei a estudar a Bíblia com cuidado e meticulosidade, a fim de me tornar um apto conhecedor de seu conteúdo, deparei-me com um livro forjado, imoral e enganador, que nunca poderia ter sido fruto de uma inspiração divina. Esse foi o primeiro baque que levei em minha fé outrora inabalável.
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O cristão sem Bíblia e sem religião
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Ao deparar-me com inutilidade das escrituras, minha fé ainda persistia. Afinal, ainda havia as grandes questões. Como surgiu o universo? Como explicar a complexidade da vida? Enquanto meus estudos de Física Teórica e Biologia ainda engatinhavam, vivi uma esquisitíssima fase de “cristão moderado” — que é o que vejo hoje como sendo na verdade o estado de inércia de um crente perdido no meio do fogo cruzado em sua mente. O duelo entre a racionalidade imponente e a credulidade enraizada.
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Nessa época, resolvi creditar tudo o que fosse sobrenatural ao campo pseudocientífico do parapsicológico: havia algo em nossas mentes (como se fôssemos algum daqueles X-Men dos gibis) que causava qualquer coisa que alguém aparecesse dizendo ser um milagre divino. Assim, parei de me preocupar com anjos e demônios, e passei a adotar uma visão bem “politicamente correta” — expressão que pode muitas vezes ser traduzida por factualmente incorreta — em que eu estava pronto para respeitar todas as religiões do universo, até a cientologia do Tom Cruise e o culto primitivo à pobreza de espírito do funk carioca. Eu acreditava que havia um Deus por trás do mundo e da vida, e a figura de Jesus me inspirava, particularmente, como um revolucionário político, um Che Guevara galileu — sim, sim... perdido como eu estava, acabei comprando o peixe da Teologia da Libertação! (Creindeuspai!)
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Mas essa fase — para o bem da minha sanidade mental e num prazo assaz curto para que eu tivesse tido tempo de fazer muita coisa de que me envergonharia hoje (já que conciliar marxismo com religião é uma forçação de barra ridícula por demais!) — não sobreviveu à minha paixão pelas ciências naturais, que finalmente aconteceu, na hora em que comecei a entender melhor o que ela tinha a trazer para a minha vida. Se a Arqueologia já havia me ajudado a perceber que muitas coisas na Bíblia não poderiam ser verdades históricas, a compreensão da mecânica clássica de Newton, da teoria da relatividade de Einstein, dos modelos recentes de expansão do Universo, dos princípios da Termodinâmica, os estudos sobre a natureza dos buracos negros, realizados por Hawking, a teoria quântica, tudo isso ajudou-me a entender duas coisas importantes:
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1) A teoria do Big Bang é de fato a que apresenta maior índice de dados corroborantes até o momento, a fim de explicar como o universo pode ter surgido; todavia, não é uma teoria definitiva (o próprio Stephen Hawking, em seu livro Uma Nova História do Tempo, reconhece: “Quando combinamos a mecânica quântica com a relatividade geral, parece existir uma nova possibilidade que não surgiu antes: que, juntos, os espaço e o tempo poderiam formar um espaço quadridimensional sem singularidade nem contornos, como a superfície da Terra, mas com mais dimensões. Parece que esta idéia poderia explicar muitas das características observadas do universo, tais como sua uniformidade em larga escala e explicar também os desvios de homogeneidade em pequena escala, inclusive galáxias, estrelas e até seres humanos” — HAWKING, Stephen & MLODINOW, Leonard. Uma Nova História do Tempo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, pág. 143s).
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2) Em todo caso, quer o Big Bang seja definitivamente confirmado em seus mínimos detalhes, quer um novo modelo de espaço-tempo surja de uma iminente teoria unificada da Física, a partir da fusão da teoria quântica com a relatividade geral, o fato inegável é que a ciência avança cada vez mais em sua compreensão do cosmo, em seu entendimento de como tudo surgiu (ou não surgiu, no caso do universo auto-contido proposto por Hawking, sem começo nem fim), e progride de uma maneira fascinante, séria e bem fundamentada. Logo, já não era mais difícil para mim perceber que é totalmente descabido apelar para a figura de um Deus criador que vá nas lacunas ainda não preenchidas pelo atual estágio do conhecimento físico do universo. Na verdade, quando paramos para refletir bem sobre a questão, a hipótese de um complexo “designer inteligente” original não fornece uma resposta; pelo contrário, ela lança contra nós um problema ainda maior: como explicar a existência de tal ser? Apelar para os clichês do tipo “Isso é um mistério insondável!” é uma atitude inútil e infantil.
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No entanto, foi através de meus estudos de Biologia que minhas últimas respostas foram encontradas. Entender o que realmente queria dizer a teoria de Darwin foi um dos momentos mais marcantes de minha vida. Só de lembrar ainda fico comovido, eu confesso! Aquele foi um momento de libertação em minha jornada pessoal. Foi quando se abriram as portas do calabouço escuro da ignorância para a luz extasiante da razão! Eu entendia finalmente como vim a existir, encontrei enfim o meu lugar no mundo! Pela Biologia, também pude compreender que toda a complexidade dos organismos viventes não significa perfeição: pude tomar conhecimento de todos os nossos “defeitos de fabricação”, nossos vestígios de uma evolução não-racional, de nosso desenvolvimento cumulativo não projetado por nenhuma inteligência superior. Pude entender que, nos organismos, seus traços não deixavam base de sustentação para nenhum “design inteligente”. Compreendi como somente a seleção natural oferecia uma explicação condizente com todos os detalhes observados e observáveis.
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Conclusão: o ateu definitivo
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É... Já faz algum tempo desde então! E o que hoje me é tão claro, tão lógico, tão cristalino, parece simplesmente insondável para aqueles que ainda não atingiram a idade da razão. É como numa cena estapafúrdia que uma vez usei para ilustrar a situação, em que eu aponto alguém na rua e digo à pessoa a meu lado: “Aquele cara ali é primo do meu pai — meu bisavô é avô dele!” E então o outro com quem converso, coça a cabeça e pergunta: “Como assim? Você não se parece com esse cara!”
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Entendem agora? É disso que eu falo: como assim? Eis o quanto a ignorância nos torna míopes. Eis o quanto ela já impediu também a mim de enxergar o óbvio, no passado. Afinal, é claro que não me pareço com meu parente distante. Nem deveria! O fato de termos um ancestral comum não significa que somos idênticos. Mas por um motivo idiota, simplesmente sem pé nem cabeça, toda vez que falamos que não acreditamos num Deus criador, e defendemos o processo evolutivo, alguém (como eu mesmo, em outros tempos) vem logo dizendo a frase batida e reveladora do quanto desconhecemos das coisas: “Então você acredita em quê? Que o homem veio do macaco?”
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De novo, de novo e de novo a mesma pergunta maldita, que expõe nossa imbecilidade crônica, resultante em grande parte da péssima qualidade do ensino que recebemos, combinada à cegueira religiosa quanto ao mundo ao nosso redor. Eis um sintoma patente da infecção por esse vírus da ignorância, que faz com que insistamos em não entender um conceito simples: que dizer que homens e macacos já tiveram um ancestral comum não significa que sejam a mesma coisa. Apenas são parentes distantes. No caso dos símios, sobretudo dos chimpanzés, nem tão distantes assim — quando se sabe que temos em comum com estes nossos “primos”, por exemplo, entre 98% e 99 % de nosso DNA. (Obs.: E já vou logo deixando claro que, do ponto de vista da Genética, dizer que homens e chimpanzés têm apenas uma diferença de 1% no total de seu DNA significa muita coisa; serve para montar uma árvore genealógica baseada em nossa ancestralidade comum, no nosso nível de parentesco, mas não significa dizer que somos semelhantes — na verdade, em teoria, poderíamos até mesmo ter genes 100% diferentes dos de um chimpanzé, com diferença de 1% em cada um deles.)
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O que nos impede de entender isso, o que nos impede de aceitar isso, é tão-somente ela: a Ignorância, deusa da credulidade humana! E, quando estamos metidos nas bitolas alienantes da religião, ela nos faz espantar com dados assim. E é como me deparo com tantos hoje em dia que me perguntam, boquiabertos, se eu acredito mesmo na evolução, ao passo que vão logo dizendo que eles não acreditam. Não vêem a falta de coerência em suas próprias palavras. Não percebem que é mais ou menos como se dissessem que não acreditam em aritmética ou que o Brasil seja um país da América do Sul.
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Não enxergam a grande diferença: que eu posso dizer que não acredito em duendes — afinal não sou a Xuxa! —, mas que não faz sentido algum dizer que não acredito que a madeira de um guarda-roupas um dia já foi parte de uma árvore. Tal como no caso da evolução, essas coisas são fatos! Elas não estão ali, como um santo de barro, esperando você acreditar ou não que ele seja real e tenha poderes milagrosos. Você acreditar ou deixar de acreditar nessas coisas não muda nada, pois elas são reais. Mesmo para você!
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A jornada foi longa e árdua, mas atingi a idade da razão: tornei-me ateu, ciente de meu lugar no mundo. E encontrei serenidade neste estágio definitivo de minha vida. Ao contrário do que muitos crentes julgam, o ateísmo não é uma perspectiva niilista da vida, não é o desgosto diário de uma existência sem razão de ser. Para aqueles que precisam se agarrar à religião, como um aleijado que precisa de muletas para se apoiar, manter-se em pé, talvez um mundo sem Deus possa parecer algo vácuo, triste, sem sentido. Mas não é assim! Não acreditar num ser supremo nem em vida após a morte não faz da minha existência terrena um esgoto fétido, sem beleza alguma. Aliás, a crença numa vida besta de adoração eterna a um Deus tirânico, num “paraíso” espiritual, só é atraente para mentes perturbadas pelo delírio da fé, impedidas de refletir sobre o fato de que já lhes é custoso assistir a duas horas de missa ou de culto dominical, que dirá passar um tempo infinito participando de um rito de adoração infernal, que nunca acaba! Apenas mentes masoquistas encontrariam gozo num tormento assim.
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Por outro lado, ser ateu é dar-se a chance de ver as cores vivas do mundo através das lentes da ciência e entender o quanto isso é simplesmente inspirador! É viver livre da tirania de um Deus ególatra, que exige contínua adoração de todos os que o criaram em suas mentes infantis, enquanto se deixam escravizar por um mito que se perpetua graças ao medo que as pessoas têm de morrer. Ser ateu é entender que não há razão para temer a morte, quando se compreende o que é estar vivo, o que significa estar aqui, a imensa sorte que tivemos. É como as palavras de Dawkins, no primeiro capítulo de seu cativante Desvendando o Arco-Íris:
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Nós vamos morrer, e isso faz de nós afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar aqui em meu lugar, mas que na verdade nunca vão ver a luz do dia, são mais numerosas do que os grãos de areia do Saara. Com certeza, esses fantasmas não-nascidos incluem poetas maiores do que Keats, cientistas maiores do que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas por nosso DNA excede em muito o conjunto das pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos você e eu, com toda nossa banalidade, que estamos aqui (DAWKINS, Richard. Desvendando o Arco-Íris. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 17).

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Ser ateu é, sob a luz da razão, ver a beleza das coisas. As mesmas que a fé nos priva de ver, em sua ignorância obscura.
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1 comentários:

Carlos Rosa disse...

encontrei o link para seu post na comunidade céticos e ateus hehe...muito interessante todo o texto, meus parabéns pela sua libertação pessoal haha

eu passei pelo mesmo processo, porém, foi de evangélico para ateu e como não tenho um grande qi precisei ver o zeitgeist e ler deus não é grande para chegar a mesma conclusão que você

grande abraço!!

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