por Júnior Camilo
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Durante os últimos dias, três pessoas diferentes, em diferentes ocasiões, disseram-me coisas que chamaram muito minha atenção. A primeira veio de uma mulher indignada, reclamando da atitude, que muitos eleitores têm, de votarem num determinado canditado a cargo político apenas se conseguirem obter dele alguma vantagem pessoal. Ela temia que o político a quem apóia, e em cuja seriedade administrativa acredita, pudesse acabar não se reelegendo por causa do comportamento interesseiro dessas pessoas, que vendem seus votos sem o menor resquício de vergonha na cara. Este era o conteúdo de sua reclamação. Porém, sua manifestação verbal de revolta terminou com a seguinte frase: “É por isso que eu digo: a Bíblia tem mesmo razão, viu? ‘O povo tem o governo que merece!’ A Bíblia está certa!”
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Desculpe-me, mas... o que é que tem razão?
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Não pude deixar de pensar em quantas outras coisas as pessoas devem acreditar que estejam escritas na Bíblia, quando na verdade não estão, ao passo que nem sequer imaginam que haja muitas coisas lá, muito bem afirmadas, que são um verdadeiro acervo de absurdos. E tenho certeza de que a imensa maioria desses crentes é simplesmente ignorante da maior parte do que diz seu próprio livro sagrado, não tendo noção do conteúdo daninho do livro que carregam debaixo dos braços. É como se coisas imorais ou mesmo perversas não pudessem, de forma alguma, ser extraídas das páginas desse livro, ao passo que qualquer ditado que lhes parecesse plausível só pudesse ter tido sua origem ali. No entanto, neste caso mesmo da frase acima, para deixar bem claro, foi Joseph de Maistre, filósofo francês, conservador e apologista da monarquia, crítico do regime instalado pela Revolução Francesa, quem de fato disse as palavras que essa cristã indignada acreditava terem emanado do próprio Deus ou de um de seus autores “divinamente inspirados”.
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E seu equívoco ocorreu no início da mesma semana em que duas outras pessoas me diriam as seguintes frases, respectivamente: 1) “Viver sem acreditar em Deus é muito triste; por isso, sinto que você deve ser uma pessoa triste”; 2) “Se o homem deixar de acreditar em Deus e na Bíblia, tudo vai se transformar num caos; todo mundo vai matar, roubar, estuprar, fazer as piores coisas que alguém possa imaginar”.
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Confesso que, se estou agora escrevendo este texto, é um pouco para botar para fora a angústia que sinto ao perceber que, assim como essas três pessoas, a imensa maioria dos fiéis mundo afora constitui-se de gente que desconhece quase que totalmente o que diz a Bíblia. Ou então são do tipo que conhece apenas o que lhe ensinaram seus estudos bíblicos supervisionados, feitos durante sua educação religiosa, na maioria das vezes por meio da seleção de partes mais apropriadas, acompanhadas das convenientes e persuasivas interpretações de pastores ou padres, enquanto são oferecidas desculpas esfarrapadas (mas igualmente aceitas por mentes crédulas e acríticas) para aquelas passagens mais polêmicas.
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No entanto, basta parar um minuto para pensar... Olhe para o mundo à sua volta! O que você vê? Como é a sociedade em que vive? Hoje em dia, duvido que alguma pessoa de bom senso acharia aceitável qualquer uma das práticas enumeradas a seguir:
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1) escravizar outras pessoas;
2) não dar direitos civis às mulheres equiparáveis aos dos homens;
3) assassinar comunidades inteiras de pessoas;
4) punir inocentes por crimes que outras pessoas cometeram;
5) aprovar a prática de estupro;
6) aprovar o roubo e a utilização de práticas enganosas para tirar vantagens materiais de outras pessoas;
7) defender a intolerância racial e religiosa.
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Portanto, se muitos cristãos fundamentalistas, por um lado, manifestam sua veemente oposição à legalização do casamentos entre homossexuais, ou à da venda de drogas, ou à do aborto, da eutanásia, das pesquisas com células troncos, etc., por outro, acredito que qualquer pessoa, sendo cristã ou não, acharia inaceitáveis e absurdas as medidas enumeradas acima.
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Dito isso, olhe para a Bíblia. O que esse conjunto de livros tidos por sagrados, que tanta gente considera a palavra de seu próprio deus aos homens, tem a dizer-lhe quanto aos valores morais sobre os quais estão fundamentadas as atuais sociedades ocidentais? Lembrando que estes mesmos princípios básicos são o que nos fazem ter uma opinião geralmente concordante acerca dos tópicos listados acima, não importando a nacionalidade, o credo religioso ou a visão político-partidária que as pessoas possam ter.
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Antes de mais nada, é importante ter em mente que não é por acaso que você, cristão — católico, protestante ou evangélico — sente essa sensação de certeza, quando afirma que a Bíblia é a verdadeira e infalível palavra de Deus. Afinal, foi exatamente isso que você aprendeu desde criança, quando seus primeiros educadores religiosos embriagaram-no com passagens extraídas do Velho e do Novo Testamento, em que se asseverava precisamente isso. Passagens tais como:
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Durante os últimos dias, três pessoas diferentes, em diferentes ocasiões, disseram-me coisas que chamaram muito minha atenção. A primeira veio de uma mulher indignada, reclamando da atitude, que muitos eleitores têm, de votarem num determinado canditado a cargo político apenas se conseguirem obter dele alguma vantagem pessoal. Ela temia que o político a quem apóia, e em cuja seriedade administrativa acredita, pudesse acabar não se reelegendo por causa do comportamento interesseiro dessas pessoas, que vendem seus votos sem o menor resquício de vergonha na cara. Este era o conteúdo de sua reclamação. Porém, sua manifestação verbal de revolta terminou com a seguinte frase: “É por isso que eu digo: a Bíblia tem mesmo razão, viu? ‘O povo tem o governo que merece!’ A Bíblia está certa!”
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Desculpe-me, mas... o que é que tem razão?
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Não pude deixar de pensar em quantas outras coisas as pessoas devem acreditar que estejam escritas na Bíblia, quando na verdade não estão, ao passo que nem sequer imaginam que haja muitas coisas lá, muito bem afirmadas, que são um verdadeiro acervo de absurdos. E tenho certeza de que a imensa maioria desses crentes é simplesmente ignorante da maior parte do que diz seu próprio livro sagrado, não tendo noção do conteúdo daninho do livro que carregam debaixo dos braços. É como se coisas imorais ou mesmo perversas não pudessem, de forma alguma, ser extraídas das páginas desse livro, ao passo que qualquer ditado que lhes parecesse plausível só pudesse ter tido sua origem ali. No entanto, neste caso mesmo da frase acima, para deixar bem claro, foi Joseph de Maistre, filósofo francês, conservador e apologista da monarquia, crítico do regime instalado pela Revolução Francesa, quem de fato disse as palavras que essa cristã indignada acreditava terem emanado do próprio Deus ou de um de seus autores “divinamente inspirados”.
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E seu equívoco ocorreu no início da mesma semana em que duas outras pessoas me diriam as seguintes frases, respectivamente: 1) “Viver sem acreditar em Deus é muito triste; por isso, sinto que você deve ser uma pessoa triste”; 2) “Se o homem deixar de acreditar em Deus e na Bíblia, tudo vai se transformar num caos; todo mundo vai matar, roubar, estuprar, fazer as piores coisas que alguém possa imaginar”.
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Confesso que, se estou agora escrevendo este texto, é um pouco para botar para fora a angústia que sinto ao perceber que, assim como essas três pessoas, a imensa maioria dos fiéis mundo afora constitui-se de gente que desconhece quase que totalmente o que diz a Bíblia. Ou então são do tipo que conhece apenas o que lhe ensinaram seus estudos bíblicos supervisionados, feitos durante sua educação religiosa, na maioria das vezes por meio da seleção de partes mais apropriadas, acompanhadas das convenientes e persuasivas interpretações de pastores ou padres, enquanto são oferecidas desculpas esfarrapadas (mas igualmente aceitas por mentes crédulas e acríticas) para aquelas passagens mais polêmicas.
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No entanto, basta parar um minuto para pensar... Olhe para o mundo à sua volta! O que você vê? Como é a sociedade em que vive? Hoje em dia, duvido que alguma pessoa de bom senso acharia aceitável qualquer uma das práticas enumeradas a seguir:
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1) escravizar outras pessoas;
2) não dar direitos civis às mulheres equiparáveis aos dos homens;
3) assassinar comunidades inteiras de pessoas;
4) punir inocentes por crimes que outras pessoas cometeram;
5) aprovar a prática de estupro;
6) aprovar o roubo e a utilização de práticas enganosas para tirar vantagens materiais de outras pessoas;
7) defender a intolerância racial e religiosa.
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Portanto, se muitos cristãos fundamentalistas, por um lado, manifestam sua veemente oposição à legalização do casamentos entre homossexuais, ou à da venda de drogas, ou à do aborto, da eutanásia, das pesquisas com células troncos, etc., por outro, acredito que qualquer pessoa, sendo cristã ou não, acharia inaceitáveis e absurdas as medidas enumeradas acima.
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Dito isso, olhe para a Bíblia. O que esse conjunto de livros tidos por sagrados, que tanta gente considera a palavra de seu próprio deus aos homens, tem a dizer-lhe quanto aos valores morais sobre os quais estão fundamentadas as atuais sociedades ocidentais? Lembrando que estes mesmos princípios básicos são o que nos fazem ter uma opinião geralmente concordante acerca dos tópicos listados acima, não importando a nacionalidade, o credo religioso ou a visão político-partidária que as pessoas possam ter.
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Antes de mais nada, é importante ter em mente que não é por acaso que você, cristão — católico, protestante ou evangélico — sente essa sensação de certeza, quando afirma que a Bíblia é a verdadeira e infalível palavra de Deus. Afinal, foi exatamente isso que você aprendeu desde criança, quando seus primeiros educadores religiosos embriagaram-no com passagens extraídas do Velho e do Novo Testamento, em que se asseverava precisamente isso. Passagens tais como:
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Seca a erva, murcha a flor, mas a palavra de nosso Deus subsiste para sempre. (Isaías 40:8)
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A lei do Senhor é perfeita... (Salmo 19:8*)
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Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17)
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Com efeito, toda carne é como erva e toda a sua glória como a flor da erva. Secou a erva e sua flor caiu; mas a Palavra do Senhor permanece para sempre. (1 Pedro 1:24-25)
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Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas os homens impelidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus. (2 Pedro 1:20-21)
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* Dependendo da tradução consultada, a passagem poderá estar no Sl. 18:8 ou Sl. 19:7.
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Não é à toa, portanto, que a idéia de perfeição da Bíblia, de sua infalibilidade, de sua autoridade inquestionável, esteja profundamente enraizada em sua mente, sobretudo de você que é mais fundamentalista, de forma que treme de pavor só de pensar que alguém possa ousar questionar qualquer coisa sobre não interessa qual dos livros que compõem a “palavra de Deus”. Você nem mesmo se pergunta o porquê de ter tanto medo, tanto horror, na verdade, de fazer algo que possa contrariar esse mesmo ser divino que todos os cristãos insistem em dizer que ama todas as criaturas com o mais perfeito e infinito amor. Que tipo de amor é esse que lhe inspira tanto pavor de ser castigado a toda hora?
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Bem... O fato é que, a julgar pelas passagens acima, a Bíblia deveria conter tudo o que Deus determina para sua vida bem como para a de todos os crentes, de modo que pudessem fazer o bem e criar um código moral fundamentado nas mais excelsas virtudes. As Escrituras deveriam portanto lhe servir de fonte para seus princípios morais, bem como para a normatização de sua vida em sociedade, no convívio de uns com os outros. Se os livros da Bíblia fossem mesmo obras perfeitas, inspiradas por um ser onisciente, conhecedor inclusive das coisas futuras, deveriam de fato ser de um valor inestimável, tanto ontem quanto hoje. Sobretudo porque uma lei perfeita, criada por um ser que tudo sabe, não pode conter falhas, nem mesmo dizer coisas que só valham para um tempo, mas não para outras épocas posteriores — tenham as palavras da Bíblia vindo direto do próprio Deus ou por via indireta, através da mente inspirada de seus autores humanos, verdade é que, se você acredita mesmo que esses livros sejam obras perfeitas emanadas de um ser divino, perfeição é isso: algo que não tem falhas.
Não é à toa, portanto, que a idéia de perfeição da Bíblia, de sua infalibilidade, de sua autoridade inquestionável, esteja profundamente enraizada em sua mente, sobretudo de você que é mais fundamentalista, de forma que treme de pavor só de pensar que alguém possa ousar questionar qualquer coisa sobre não interessa qual dos livros que compõem a “palavra de Deus”. Você nem mesmo se pergunta o porquê de ter tanto medo, tanto horror, na verdade, de fazer algo que possa contrariar esse mesmo ser divino que todos os cristãos insistem em dizer que ama todas as criaturas com o mais perfeito e infinito amor. Que tipo de amor é esse que lhe inspira tanto pavor de ser castigado a toda hora?
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Bem... O fato é que, a julgar pelas passagens acima, a Bíblia deveria conter tudo o que Deus determina para sua vida bem como para a de todos os crentes, de modo que pudessem fazer o bem e criar um código moral fundamentado nas mais excelsas virtudes. As Escrituras deveriam portanto lhe servir de fonte para seus princípios morais, bem como para a normatização de sua vida em sociedade, no convívio de uns com os outros. Se os livros da Bíblia fossem mesmo obras perfeitas, inspiradas por um ser onisciente, conhecedor inclusive das coisas futuras, deveriam de fato ser de um valor inestimável, tanto ontem quanto hoje. Sobretudo porque uma lei perfeita, criada por um ser que tudo sabe, não pode conter falhas, nem mesmo dizer coisas que só valham para um tempo, mas não para outras épocas posteriores — tenham as palavras da Bíblia vindo direto do próprio Deus ou por via indireta, através da mente inspirada de seus autores humanos, verdade é que, se você acredita mesmo que esses livros sejam obras perfeitas emanadas de um ser divino, perfeição é isso: algo que não tem falhas.
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E você deve saber disso muito bem, porque, afinal de contas, essa é a fonte de sabedoria que você carrega por toda parte, de onde tira citações e mais citações, com que tenta persuadir as pessoas, convencê-las de suas opiniões religiosas. Além disso, esse é um livro de autoridade tão cegamente não questionada, que nos Estados Unidos, por exemplo, há até mesmo o procedimento ridículo de exigir-se num tribunal que o depoente jure por sobre a Bíblia dizer a verdade, mesmo que este seja ateu, hindu, muçulmano, budista, ou tenha qualquer outra perspectiva da vida que não inclua venerar as escrituras sagradas do cristianismo.
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Assim, volte-se de novo para a Bíblia e veja o que ela de fato afirma sobre os tópicos enumerados nos parágrafos acima. Que valores esse acervo de livros sagrados está realmente ensinando a cada um de vocês?
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A escravidão
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Embora qualquer pessoa que não seja um monstro de preconceito e desumanidade vá sem dúvida concordar que a prática de escravizar outro ser humano é asquerosa, a Bíblia nos ensina que na verdade é algo totalmente aceitável, contra o que a divindade adorada por judeus e cristãos não faz a menor objeção.
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Em Êxodo 20:17 e Deuteronômio 5:21, por exemplo, trechos em que se descrevem as palavras de Deus na lei transmitida a Moisés, proíbe-se que se cobice os escravos de seu próximo (mas o “Deus de amor”, que exige que seja morto quem desobedecer suas ordens, não proíbe a prática absurda de um homem escravizar outro seu semelhante). Em Êxodo 21:20-21.26-27, Deus deixa claro algumas normas quanto ao tratamento para com escravos: podemos ter escravos, podemos espancá-los — desde que não os matemos de tanto bater (permitindo-se, inclusive, que os deixemos “arrebentados” por até dois dias, como resultado da surra) —, devemos apenas tomar muito cuidado para não ferir os olhos nem quebrar os dentes do pobre diabo, afinal de contas, escravo custa dinheiro e tais danos fazem depreciar seu valor de comércio.
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Por sua vez, claras informações sobre os procedimentos para dar-se alforria a um escravo depois de determinado tempo de servidão (com claras distinções feitas quanto a como proceder com um escravo israelita, uma escrava israelita e qualquer escravo estrangeiro), são fornecidas com detalhes nas seguintes passagens: Êx. 21:1-4; Êx. 21:7; Deut. 15:12-18; Lev. 25:44-46, e Lev. 25:48-53.
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Em Êx. 21:7-8, regulariza-se a prática de revenda de escravas hebréias. Afinal, embora qualquer escravo seja tratado como um bem, sendo portanto permitida a sua revenda a outra pessoa, são estabelecidas regras especiais no caso de a escrava ser uma filha de Israel. Se um homem comprasse uma mulher israelita, adquirindo-a diretamente do próprio pai, como era comum acontecer, e acabasse se desagradando dela mais tarde, a lei divina impunha que tal homem não poderia vendê-la a nenhum estrangeiro. Se a escrava tivesse sido comprada para servir de mulher para algum filho do comprador, este deveria tratá-la com os mesmos direitos de suas próprias filhas. Se o comprador a adquirisse para ser sua mulher e, mais tarde, resolvesse arranjar outra esposa, teria de tratar a primeira como a tratava antes de casar-se de novo, garantindo seus direitos adquiridos. Se o dono, no entanto, não cumprisse com essas normas, a lei rezava que a mulher deveria ser libertada, sem que o dono, porém, tivesse que lhe compensar pelo transtorno: ele não teria a obrigação de dar-lhe nem um centavo nem garantir-lhe qualquer outro meio de se sustentar a partir dali. Em outras palavras, os artigos da lei divina eram quase um conselho de “camarada”, informando ao sujeito que o ideal seria que ele comprasse a mulher, aproveitasse-se dela pelo tempo que achasse conveniente e, depois, de forma intencional e planejada, parasse de cumprir com suas obrigações para com ela, para poder despachá-la de sua vida, sem ter de esquentar a cabeça com o rumo que ela fosse tomar, ao levar um chute no traseiro. Esta é uma bela lição moral, não concorda?
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Em Lev. 19:20-22, prescreve-se que, quando um homem tivesse relações sexuais (forçadas ou consensuais) com uma escrava que já estivesse comprometida com outro homem, o “pecador” deveria sacrificar um animal no templo, a fim de obter o perdão divino. E ele e a mulher receberiam uma punição, provavelmente um castigo físico. No entanto, se a escrava não estivesse comprometida com ninguém, não há qualquer pena prescrita em parte alguma da Bíblia contra o homem que a estuprasse.
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Em Lev. 25:39-41, a lei divina dá a um israelita o direito de comprar um irmão seu, que resolvesse se vender ao irmão mais rico por força de dificuldades econômicas que estivesse enfrentando. A lei concorda com tal compra de um irmão pelo outro, determinando apenas que se lhe trate com direitos especiais, um tipo de servo assalariado. Porém, mais uma vez, o deus bíblico acha bem justificável a servidão.
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Lendo as passagens de Êx. 21:16, Êx. 22:3, Deut. 24:7, e 2 Reis 4:1, aprendemos o seguinte: se um israelita fosse raptado e escravizado, o responsável por isso deveria ser morto a pedradas; os israelitas, por sua vez, poderiam fazer de escravo qualquer ladrão fosse apanhado por eles, que não pudesse restituir o que roubou, ou algum devedor que não conseguisse pagar sua dívida. Ou seja, a questão aqui é o velho clichê: um peso e duas medidas. A lei divina é claramente parcial e partidária!
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Em Deut. 20:14 e Deut. 21:10-14, outra linda lição: em tempos de guerra contra outros povos, qualquer “homem de Deus” poderia pegar as mulheres do povo inimigo como escravas sexuais. E, mais tarde, quando se cansassem delas, deveriam libertá-las, sendo que a única proibição imposta por Deus era a de que os “servos do Senhor” ainda resolvessem fazer algum “dinheirinho extra”, vendendo as coitadas a outro comprador de escravos.
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E a sociedade judaica seguia direitinho o que lhe era ensinado pelas Escrituras. Por exemplo, como lemos em Marcos 14:66, os sacerdotes ainda tinham escravos nos tempos de Jesus, tal como lhes era permitido tê-los desde os tempos da antiga lei: Números 31:28-47. Os padres e pastores cristãos também adotariam a prática até bem pouco tempo atrás; afinal, são bons seguidores da Bíblia!
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Isso porque nem o Novo Testamento fez muito esforço para mudar essa visão absurda a favor da escravidão — e preciso acrescentar que nem deveria; afinal, é tudo fruto da justiça perfeita do mesmo ser divino, não é mesmo? Por isso, não nos surpreende que, nos evangelhos, Jesus seja citado falando da escravidão em suas parábolas sem jamais criticar a instituição: Mateus 18:23-34 e Lucas 12:45-48. E conta-se que curou o servo de um centurião romano, sem jamais repreender este homem por manter escravos a seu serviço — pelo contrário, o centurião é citado como sendo uma pessoa íntegra e de “muita fé” (Lc. 7:2-10).
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E ainda vamos encontrar mais aprovações à prática repulsiva de uma pessoa escravizar outra, determinando apenas algumas regras de comportamento por parte dos donos em relação aos escravos, em outras partes do Novo Testamento, como: Efésios 6:5-9; Colossenses 4:1, e 1 Timóteo 6:1-2.
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Curiosamente, embora Paulo de Tarso tenha procurado dizer em algumas passagens que um escravo é equiparável a seu dono perante os olhos de Deus (1 Cor. 12:13; Gál. 3:28 e Col. 3:11), revela sua hipocrisia em outros momentos. (a) Em nenhuma linha de sua carta a Filêmon, um converso cristão que era dono de escravos, ele tocou no assunto para fazer alguma crítica — basta ler a breve epístola, no Novo Testamento, para que constatemos isso. (b) Todavia, embora haja uma curiosa passagem da lei (Deut. 23:15-16), que determinava que ao se deparar com um escravo foragido nenhum “homem de Deus” deveria entregá-lo a seu antigo dono e, ao mesmo tempo, exigia-se que se lhe aceitasse como homem livre, Paulo fez exatamente o oposto do que o Antigo Testamento mandava fazer nessa passagem, quando devolveu o escravo fugido, Onésimo, a Filêmon, presumidamente seu antigo dono. A única coisa que Paulo fez foi insinuar que, uma vez que tinha agora convertido Onésimo à sua visão do Cristo ressuscitado, seria interessante que Filêmon o libertasse. Porém, não disse nada explicitamente, não exigiu nada de forma clara. Ficou tudo nas entrelinhas. Veja: Fil. 1:10-17. (c) De qualquer maneira, na passagem de sua carta a Timóteo citada no fim do parágrafo anterior, Paulo não apenas fala aos escravos para servirem com devida obediência a seus donos, como ainda acrescenta que, se o seu dono for um cristão, deveriam se esforçar ainda mais em seu trabalho pesado, pois seus donos, neste caso, eram também seus “irmãos de fé”. Então, se era assim, melhor seria então que não o fossem, não é verdade?
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Diante dessas e ainda outras passagens do Velho Testamento que dão legitimidade ao absurdo da escravidão, não é de admirar que tenhamos escutado tanta gente, ao longo da história, justificar tal prática, fundamentando-se na autoridade divina da Bíblia, que a aprova.
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Um interessante exemplo disso é o conhecido o fato de que muitos dos primeiros batistas no Brasil, provenientes dos estados sulistas dos Estados Unidos, passaram a imigrar em massa, de lá para cá, quando os estados escravagistas perderam a guerra civil e a escravidão passou a ser proibida em todo aquele país. Na época, ainda não havia sido assinada a Lei Áurea aqui. E muitos pastores batistas tinham escravos negros dos quais se recusavam a abrir mão, de modo que aqui, logo concluíram, poderiam adquirir vastas terras produtivas onde a mão de obra escrava era permitida pelo governo imperial. Contudo, seus planos foram por água abaixo, outra vez, quando a abolição foi decretada também neste país. Depois do que, com a nova ordem social do ocidente pós-Revolução Industrial determinando o fim do escravagismo em todas as partes, os batistas e outros religiosos ex-donos de escravos, impedidos de manter a posse sobre estes, resolveram dar à sua libertação pelo menos algum proveito lucrativo, do ponto de vista do aumento de fiéis para sua congregação, e, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, a política instantaneamente adotada foi a de converter os agora ex-escravos, aumentando a massa de crentes em suas igrejas — e aumentando a coleta de dízimo também, é claro! Um resultado curioso disso hoje em dia: para denominações que costumavam ter apenas homens brancos entre seus membros, é notável o imenso número de negros e mulatos dentre os batistas de nossos tempos, tanto no Brasil quanto na América do Norte.
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Todavia, levando-se em conta apenas o que diz a Bíblia sobre o assunto, não estava equivocado o pastor batista, Richard Furnan, da Carolina do Sul, quando naquele mesmo século da abolição, disse: “O direito de manter escravos está claramente estabelecido nas Escrituras Sagradas, tanto por meio de preceitos quanto por meio de exemplos dados”. Ao que faziam eco as palavras de outro pastor batista, o Rev. Richard Fuller: “Aquilo que Deus autorizou no Velho Testamento, e permitiu no Novo, não pode ser pecado”. Exatamente! É esse o tipo de mentalidade e prática virtuosas que lhe ensinam as Escrituras Sagradas.
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Assim, volte-se de novo para a Bíblia e veja o que ela de fato afirma sobre os tópicos enumerados nos parágrafos acima. Que valores esse acervo de livros sagrados está realmente ensinando a cada um de vocês?
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A escravidão
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Embora qualquer pessoa que não seja um monstro de preconceito e desumanidade vá sem dúvida concordar que a prática de escravizar outro ser humano é asquerosa, a Bíblia nos ensina que na verdade é algo totalmente aceitável, contra o que a divindade adorada por judeus e cristãos não faz a menor objeção.
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Em Êxodo 20:17 e Deuteronômio 5:21, por exemplo, trechos em que se descrevem as palavras de Deus na lei transmitida a Moisés, proíbe-se que se cobice os escravos de seu próximo (mas o “Deus de amor”, que exige que seja morto quem desobedecer suas ordens, não proíbe a prática absurda de um homem escravizar outro seu semelhante). Em Êxodo 21:20-21.26-27, Deus deixa claro algumas normas quanto ao tratamento para com escravos: podemos ter escravos, podemos espancá-los — desde que não os matemos de tanto bater (permitindo-se, inclusive, que os deixemos “arrebentados” por até dois dias, como resultado da surra) —, devemos apenas tomar muito cuidado para não ferir os olhos nem quebrar os dentes do pobre diabo, afinal de contas, escravo custa dinheiro e tais danos fazem depreciar seu valor de comércio.
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Por sua vez, claras informações sobre os procedimentos para dar-se alforria a um escravo depois de determinado tempo de servidão (com claras distinções feitas quanto a como proceder com um escravo israelita, uma escrava israelita e qualquer escravo estrangeiro), são fornecidas com detalhes nas seguintes passagens: Êx. 21:1-4; Êx. 21:7; Deut. 15:12-18; Lev. 25:44-46, e Lev. 25:48-53.
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Em Êx. 21:7-8, regulariza-se a prática de revenda de escravas hebréias. Afinal, embora qualquer escravo seja tratado como um bem, sendo portanto permitida a sua revenda a outra pessoa, são estabelecidas regras especiais no caso de a escrava ser uma filha de Israel. Se um homem comprasse uma mulher israelita, adquirindo-a diretamente do próprio pai, como era comum acontecer, e acabasse se desagradando dela mais tarde, a lei divina impunha que tal homem não poderia vendê-la a nenhum estrangeiro. Se a escrava tivesse sido comprada para servir de mulher para algum filho do comprador, este deveria tratá-la com os mesmos direitos de suas próprias filhas. Se o comprador a adquirisse para ser sua mulher e, mais tarde, resolvesse arranjar outra esposa, teria de tratar a primeira como a tratava antes de casar-se de novo, garantindo seus direitos adquiridos. Se o dono, no entanto, não cumprisse com essas normas, a lei rezava que a mulher deveria ser libertada, sem que o dono, porém, tivesse que lhe compensar pelo transtorno: ele não teria a obrigação de dar-lhe nem um centavo nem garantir-lhe qualquer outro meio de se sustentar a partir dali. Em outras palavras, os artigos da lei divina eram quase um conselho de “camarada”, informando ao sujeito que o ideal seria que ele comprasse a mulher, aproveitasse-se dela pelo tempo que achasse conveniente e, depois, de forma intencional e planejada, parasse de cumprir com suas obrigações para com ela, para poder despachá-la de sua vida, sem ter de esquentar a cabeça com o rumo que ela fosse tomar, ao levar um chute no traseiro. Esta é uma bela lição moral, não concorda?
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Em Lev. 19:20-22, prescreve-se que, quando um homem tivesse relações sexuais (forçadas ou consensuais) com uma escrava que já estivesse comprometida com outro homem, o “pecador” deveria sacrificar um animal no templo, a fim de obter o perdão divino. E ele e a mulher receberiam uma punição, provavelmente um castigo físico. No entanto, se a escrava não estivesse comprometida com ninguém, não há qualquer pena prescrita em parte alguma da Bíblia contra o homem que a estuprasse.
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Em Lev. 25:39-41, a lei divina dá a um israelita o direito de comprar um irmão seu, que resolvesse se vender ao irmão mais rico por força de dificuldades econômicas que estivesse enfrentando. A lei concorda com tal compra de um irmão pelo outro, determinando apenas que se lhe trate com direitos especiais, um tipo de servo assalariado. Porém, mais uma vez, o deus bíblico acha bem justificável a servidão.
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Lendo as passagens de Êx. 21:16, Êx. 22:3, Deut. 24:7, e 2 Reis 4:1, aprendemos o seguinte: se um israelita fosse raptado e escravizado, o responsável por isso deveria ser morto a pedradas; os israelitas, por sua vez, poderiam fazer de escravo qualquer ladrão fosse apanhado por eles, que não pudesse restituir o que roubou, ou algum devedor que não conseguisse pagar sua dívida. Ou seja, a questão aqui é o velho clichê: um peso e duas medidas. A lei divina é claramente parcial e partidária!
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Em Deut. 20:14 e Deut. 21:10-14, outra linda lição: em tempos de guerra contra outros povos, qualquer “homem de Deus” poderia pegar as mulheres do povo inimigo como escravas sexuais. E, mais tarde, quando se cansassem delas, deveriam libertá-las, sendo que a única proibição imposta por Deus era a de que os “servos do Senhor” ainda resolvessem fazer algum “dinheirinho extra”, vendendo as coitadas a outro comprador de escravos.
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E a sociedade judaica seguia direitinho o que lhe era ensinado pelas Escrituras. Por exemplo, como lemos em Marcos 14:66, os sacerdotes ainda tinham escravos nos tempos de Jesus, tal como lhes era permitido tê-los desde os tempos da antiga lei: Números 31:28-47. Os padres e pastores cristãos também adotariam a prática até bem pouco tempo atrás; afinal, são bons seguidores da Bíblia!
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Isso porque nem o Novo Testamento fez muito esforço para mudar essa visão absurda a favor da escravidão — e preciso acrescentar que nem deveria; afinal, é tudo fruto da justiça perfeita do mesmo ser divino, não é mesmo? Por isso, não nos surpreende que, nos evangelhos, Jesus seja citado falando da escravidão em suas parábolas sem jamais criticar a instituição: Mateus 18:23-34 e Lucas 12:45-48. E conta-se que curou o servo de um centurião romano, sem jamais repreender este homem por manter escravos a seu serviço — pelo contrário, o centurião é citado como sendo uma pessoa íntegra e de “muita fé” (Lc. 7:2-10).
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E ainda vamos encontrar mais aprovações à prática repulsiva de uma pessoa escravizar outra, determinando apenas algumas regras de comportamento por parte dos donos em relação aos escravos, em outras partes do Novo Testamento, como: Efésios 6:5-9; Colossenses 4:1, e 1 Timóteo 6:1-2.
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Curiosamente, embora Paulo de Tarso tenha procurado dizer em algumas passagens que um escravo é equiparável a seu dono perante os olhos de Deus (1 Cor. 12:13; Gál. 3:28 e Col. 3:11), revela sua hipocrisia em outros momentos. (a) Em nenhuma linha de sua carta a Filêmon, um converso cristão que era dono de escravos, ele tocou no assunto para fazer alguma crítica — basta ler a breve epístola, no Novo Testamento, para que constatemos isso. (b) Todavia, embora haja uma curiosa passagem da lei (Deut. 23:15-16), que determinava que ao se deparar com um escravo foragido nenhum “homem de Deus” deveria entregá-lo a seu antigo dono e, ao mesmo tempo, exigia-se que se lhe aceitasse como homem livre, Paulo fez exatamente o oposto do que o Antigo Testamento mandava fazer nessa passagem, quando devolveu o escravo fugido, Onésimo, a Filêmon, presumidamente seu antigo dono. A única coisa que Paulo fez foi insinuar que, uma vez que tinha agora convertido Onésimo à sua visão do Cristo ressuscitado, seria interessante que Filêmon o libertasse. Porém, não disse nada explicitamente, não exigiu nada de forma clara. Ficou tudo nas entrelinhas. Veja: Fil. 1:10-17. (c) De qualquer maneira, na passagem de sua carta a Timóteo citada no fim do parágrafo anterior, Paulo não apenas fala aos escravos para servirem com devida obediência a seus donos, como ainda acrescenta que, se o seu dono for um cristão, deveriam se esforçar ainda mais em seu trabalho pesado, pois seus donos, neste caso, eram também seus “irmãos de fé”. Então, se era assim, melhor seria então que não o fossem, não é verdade?
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Diante dessas e ainda outras passagens do Velho Testamento que dão legitimidade ao absurdo da escravidão, não é de admirar que tenhamos escutado tanta gente, ao longo da história, justificar tal prática, fundamentando-se na autoridade divina da Bíblia, que a aprova.
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Um interessante exemplo disso é o conhecido o fato de que muitos dos primeiros batistas no Brasil, provenientes dos estados sulistas dos Estados Unidos, passaram a imigrar em massa, de lá para cá, quando os estados escravagistas perderam a guerra civil e a escravidão passou a ser proibida em todo aquele país. Na época, ainda não havia sido assinada a Lei Áurea aqui. E muitos pastores batistas tinham escravos negros dos quais se recusavam a abrir mão, de modo que aqui, logo concluíram, poderiam adquirir vastas terras produtivas onde a mão de obra escrava era permitida pelo governo imperial. Contudo, seus planos foram por água abaixo, outra vez, quando a abolição foi decretada também neste país. Depois do que, com a nova ordem social do ocidente pós-Revolução Industrial determinando o fim do escravagismo em todas as partes, os batistas e outros religiosos ex-donos de escravos, impedidos de manter a posse sobre estes, resolveram dar à sua libertação pelo menos algum proveito lucrativo, do ponto de vista do aumento de fiéis para sua congregação, e, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, a política instantaneamente adotada foi a de converter os agora ex-escravos, aumentando a massa de crentes em suas igrejas — e aumentando a coleta de dízimo também, é claro! Um resultado curioso disso hoje em dia: para denominações que costumavam ter apenas homens brancos entre seus membros, é notável o imenso número de negros e mulatos dentre os batistas de nossos tempos, tanto no Brasil quanto na América do Norte.
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Todavia, levando-se em conta apenas o que diz a Bíblia sobre o assunto, não estava equivocado o pastor batista, Richard Furnan, da Carolina do Sul, quando naquele mesmo século da abolição, disse: “O direito de manter escravos está claramente estabelecido nas Escrituras Sagradas, tanto por meio de preceitos quanto por meio de exemplos dados”. Ao que faziam eco as palavras de outro pastor batista, o Rev. Richard Fuller: “Aquilo que Deus autorizou no Velho Testamento, e permitiu no Novo, não pode ser pecado”. Exatamente! É esse o tipo de mentalidade e prática virtuosas que lhe ensinam as Escrituras Sagradas.
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Obs.: O fato de eu ter citados vários batistas como exemplos até aqui, como ainda hei de citar mais um mais adiante, não quer dizer que tenham sido apenas estes os cristãos que um dia aprovaram esse tipo de prática. Na verdade, praticamente todas as denominações cristãs são culpáveis por posturas semelhantes, sendo que, no Brasil, nossos padres católicos não eram menos escravagistas do que esses pastores sulistas estadunidenses.
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Em todo caso, a coisa não pára por aí! Você ainda tem muito a aprender com a Bíblia com relação aos outros tópicos mencionados no início deste texto. Observe agora o que ela lhe tem a dizer sobre as mulheres.
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O machismo do deus bíblico
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Uma vez que já me estendi por demais no tópico anterior, não vou me prolongar tanto neste aqui. Somente pelos parágrafos que julgo ser necessário discutir. Até porque, assim que começamos a marcar na Bíblia as passagens que falam das mulheres, damo-nos conta de que os exemplos absurdos são doentiamente abundantes. Daria para escrever um livro inteiro apenas sobre o assunto.
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Para começar, fica evidente que Deus, conforme a visão bíblica, considera as mulheres em geral como seres inferiores aos homens. Já no próprio relato da criação, tal como descrita no capítulo 2 de Gênesis, vemos a mulher sendo criada a partir do homem, para auxiliar o homem, e sendo nomeada pelo homem. Neste contexto, é importante ter-se em mente que em tempos antigos, em determinadas culturas, acreditava-se que o ato da nomeação dava autoridade ao nomeador sobre aquilo que é nomeado.
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Ao longo de todo o Antigo Testamento, são inúmeras as passagens que inferiorizam a mulher em relação ao homem, que as tratam com pouca ou nenhuma consideração nem pela sua integridade física, que dirá pelos seus sentimentos, que jamais são, em hipótese alguma, levados em consideração em lugar nenhum na Bíblia. Aliás, é como se as pessoas, e principalmente as mulheres, não tivessem sentimentos. Além do que, a opinião da mulher nunca é levada em conta. E há uma passagem que chega a estabelecer que, mesmo numa situação em que uma mulher grávida perdesse o filho ao ser atingida por dois homens brigando, o agressor teria de pagar uma indenização ao marido da grávida atingida, não a ela. No mais, mulheres eram consideradas impuras, após darem à luz ou menstruarem, e tratadas como as criaturas mais nojentas e virulentas do planeta nestas situações. Mulheres não eram contadas em recenseamentos. E o filho varão tinha direito a toda a herança do pai, que só iria para uma filha se este tivesse apenas filhas. Ao mesmo tempo, enquanto o homem tornava-se pecador apenas quando cometia um erro, a mulher já nascia, crescia e vivia pecadora, pois aquilo que lhe era natural (a menstruação e o parto) lhe torna imunda aos olhos de Deus. Em suma: as passagens da Bíblia listadas abaixo tiram da mulher todos os direitos que hoje, sem hesitação, reconhecemos que elas detêm em igualdade com os homens, além de tirar-lhes sua própria dignidade. Veja abaixo quantas citações com lições assim podem ser encontradas em cada livro do Velho Testamento:
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Gênesis: 3:16; 4:19; 16:2; 19:8, e 21:10.
Êxodo: 20:17; 21:2-4; 21:7; 21:22-25, e 22:16-17.
Levítico: 12:1-5 e 27:6.
Números: 3:15; 5:11-31, e 27:8-11.
Deuteronômio: 21:10-13; 22:13-21; 22:28-29; 24:1; 25:5-10, e 25:11.
Juízes: 19:16-30.
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Além disso, mulheres que usam o sexo como arma para seduzir os homens e conseguir atingir seus objetivos são sempre o modelo das vilãs bíblicas: Gên. 19:30-36; Juízes 16, e 1 Reis 11. Lembre-se de que os homens, por sua vez, podiam usar do sexo de várias maneiras nem um pouco louváveis, sem problema algum. A Bíblia apresenta a mulher no papel de trapaceira, mentirosa e indigna de confiança: Gên. 39:7-20. Além de determinar castigos exclusivos para mulheres que se casassem sem ter o hímen intacto, órgão que, aliás, poderia ter se rompido por causa outra que não uma relação sexual, como não é raro acontecer, bem como há casos de mulheres que já nascem sem hímen; não importa, elas poderiam ser punidas com a morte: Deut. 12:13-21. Não existe punição para o homem que se casasse sem ser virgem.
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Algumas poucas passagens do Antigo Testamento falam de punições iguais para quem ferisse ou amaldiçoasse a mãe ou o pai de alguém, ou para quem matasse ou quebrasse os dentes de um escravo ou escrava. Porém, não acho que isso seja o suficiente para apagar todos os absurdos citados até aqui, fazendo da Bíblia um magnífico livro de preceitos igualitários entre homens e mulheres.
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Bem, o Novo Testamento, você, meu caro cristão, insiste em afirmar, traz uma revisão radical da antiga lei — aliás, pergunto eu não pela primeira vez, por quê? A lei de um ser divino perfeito e que tudo sabe não é perfeita e imutável? É esquisito demais isso, você não acha? Mas, seja como for, verdade é que a visão acerca das mulheres não melhora muito nessa lei revisada, meu amigo! Veja:
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Em Mateus 1:1-16 e Lucas 3:23-38, são apresentadas genealogias, cujo objetivo é mostrar que Jesus é descendente de Davi (genealogias que não batem uma com a outra, aliás, mostrando que tudo não passa de “conversa para boi dormir”). Contudo, o machismo fica claro de novo, uma vez que as genealogias mostram que as linhas de descendência convergem em José — e José, pelo que você e todos os cristãos acreditam, não é o pai biológico de Jesus. Portanto, as genealogias de Mateus e Lucas, além de não conferirem entre si, são ridículas, já que Jesus, como se alega, não é filho de José (e, portanto, provar que José é descendente de Davi não prova nada acerca de Jesus, de acordo com aquilo que você mesmo insiste em acreditar como sendo verdade sobre a natureza de seu Cristo). Em todo caso, a árvore genealógica não poderia ser feita em relação aos antepassados de Maria, o que seria bem mais lógico aqui, simplesmente porque ela era essa coisa indigna de menção chamada mulher.
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É curioso notar ainda que, em alguns raros trechos dos evangelhos, Jesus seja citado criticando passagens do Antigo Testamento, inclusive algumas que tratam mulheres como vermes — aliás, Jesus, sendo filho de Deus e Deus próprio num só ser, está criticando o quê? Não foi ele mesmo, na forma do Pai, que inspirou aquelas antigas leis? Insisto em indagar: por que Deus mudou de idéia quanto à sua primeira lei, se ela já era produto de uma mente onisciente e infalível?
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Bem... O fato é que, em Marcos 5:25-34, por exemplo, fala-se da cura de uma mulher que sofria de excesso de fluxo menstrual e da conversa de Jesus com ela; em outras palavras: Jesus violou, de uma só vez, o artigo da lei sobre os rituais de purificação da mulher menstruada, que aparece entre as citações acima, e a proibição social de um homem judeu falar com outra mulher que não seja sua esposa e sua filha. E, em Marcos 10:11-12, Jesus reformulou a lei do divórcio — a antiga lei de Deus que permitia que um homem se divorciasse de sua mulher quando quisesse, mas nunca dava o mesmo direito a uma mulher —, fazendo uma afirmação que, pessoalmente, não acho que seja a mais sábia das resoluções para o problema: ele diz que o divórcio era inaceitável tanto para o homem quanto para a mulher, que nenhum dos dois tinha esse direito, depois de casados. Jesus, pelo visto, não era muito melhor legislador do que o Deus-Pai, não! Aliás, o que eu estou dizendo? Eles são a mesma pessoa, não é mesmo? Que vacilo meu!
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De resto, não há muito mais que se possa tirar da Bíblia para defender a boa visão que esta tenha acerca das mulheres. A Bíblia não vê as mulheres com bons olhos! Isso é tudo. Não há o que discutir. Basta ler o resto do Novo Testamento e veremos que nada ou pouquíssima coisa mudou, em relação à antiga lei.
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Em 1 Coríntios 11:3.7-9, Paulo fala do homem como sendo a cabeça da mulher, bem como afirma que a mulher foi criada para o homem e não o contrário. Em Efésios 5:22-24, repete a afirmação de que os homens são a cabeça das mulheres e exige que estas sejam-lhes submissas em tudo. Em 1 Timóteo 2:11-15, o apóstolo escreve o seguinte:
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Em todo caso, a coisa não pára por aí! Você ainda tem muito a aprender com a Bíblia com relação aos outros tópicos mencionados no início deste texto. Observe agora o que ela lhe tem a dizer sobre as mulheres.
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O machismo do deus bíblico
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Uma vez que já me estendi por demais no tópico anterior, não vou me prolongar tanto neste aqui. Somente pelos parágrafos que julgo ser necessário discutir. Até porque, assim que começamos a marcar na Bíblia as passagens que falam das mulheres, damo-nos conta de que os exemplos absurdos são doentiamente abundantes. Daria para escrever um livro inteiro apenas sobre o assunto.
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Para começar, fica evidente que Deus, conforme a visão bíblica, considera as mulheres em geral como seres inferiores aos homens. Já no próprio relato da criação, tal como descrita no capítulo 2 de Gênesis, vemos a mulher sendo criada a partir do homem, para auxiliar o homem, e sendo nomeada pelo homem. Neste contexto, é importante ter-se em mente que em tempos antigos, em determinadas culturas, acreditava-se que o ato da nomeação dava autoridade ao nomeador sobre aquilo que é nomeado.
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Ao longo de todo o Antigo Testamento, são inúmeras as passagens que inferiorizam a mulher em relação ao homem, que as tratam com pouca ou nenhuma consideração nem pela sua integridade física, que dirá pelos seus sentimentos, que jamais são, em hipótese alguma, levados em consideração em lugar nenhum na Bíblia. Aliás, é como se as pessoas, e principalmente as mulheres, não tivessem sentimentos. Além do que, a opinião da mulher nunca é levada em conta. E há uma passagem que chega a estabelecer que, mesmo numa situação em que uma mulher grávida perdesse o filho ao ser atingida por dois homens brigando, o agressor teria de pagar uma indenização ao marido da grávida atingida, não a ela. No mais, mulheres eram consideradas impuras, após darem à luz ou menstruarem, e tratadas como as criaturas mais nojentas e virulentas do planeta nestas situações. Mulheres não eram contadas em recenseamentos. E o filho varão tinha direito a toda a herança do pai, que só iria para uma filha se este tivesse apenas filhas. Ao mesmo tempo, enquanto o homem tornava-se pecador apenas quando cometia um erro, a mulher já nascia, crescia e vivia pecadora, pois aquilo que lhe era natural (a menstruação e o parto) lhe torna imunda aos olhos de Deus. Em suma: as passagens da Bíblia listadas abaixo tiram da mulher todos os direitos que hoje, sem hesitação, reconhecemos que elas detêm em igualdade com os homens, além de tirar-lhes sua própria dignidade. Veja abaixo quantas citações com lições assim podem ser encontradas em cada livro do Velho Testamento:
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Gênesis: 3:16; 4:19; 16:2; 19:8, e 21:10.
Êxodo: 20:17; 21:2-4; 21:7; 21:22-25, e 22:16-17.
Levítico: 12:1-5 e 27:6.
Números: 3:15; 5:11-31, e 27:8-11.
Deuteronômio: 21:10-13; 22:13-21; 22:28-29; 24:1; 25:5-10, e 25:11.
Juízes: 19:16-30.
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Além disso, mulheres que usam o sexo como arma para seduzir os homens e conseguir atingir seus objetivos são sempre o modelo das vilãs bíblicas: Gên. 19:30-36; Juízes 16, e 1 Reis 11. Lembre-se de que os homens, por sua vez, podiam usar do sexo de várias maneiras nem um pouco louváveis, sem problema algum. A Bíblia apresenta a mulher no papel de trapaceira, mentirosa e indigna de confiança: Gên. 39:7-20. Além de determinar castigos exclusivos para mulheres que se casassem sem ter o hímen intacto, órgão que, aliás, poderia ter se rompido por causa outra que não uma relação sexual, como não é raro acontecer, bem como há casos de mulheres que já nascem sem hímen; não importa, elas poderiam ser punidas com a morte: Deut. 12:13-21. Não existe punição para o homem que se casasse sem ser virgem.
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Algumas poucas passagens do Antigo Testamento falam de punições iguais para quem ferisse ou amaldiçoasse a mãe ou o pai de alguém, ou para quem matasse ou quebrasse os dentes de um escravo ou escrava. Porém, não acho que isso seja o suficiente para apagar todos os absurdos citados até aqui, fazendo da Bíblia um magnífico livro de preceitos igualitários entre homens e mulheres.
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Bem, o Novo Testamento, você, meu caro cristão, insiste em afirmar, traz uma revisão radical da antiga lei — aliás, pergunto eu não pela primeira vez, por quê? A lei de um ser divino perfeito e que tudo sabe não é perfeita e imutável? É esquisito demais isso, você não acha? Mas, seja como for, verdade é que a visão acerca das mulheres não melhora muito nessa lei revisada, meu amigo! Veja:
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Em Mateus 1:1-16 e Lucas 3:23-38, são apresentadas genealogias, cujo objetivo é mostrar que Jesus é descendente de Davi (genealogias que não batem uma com a outra, aliás, mostrando que tudo não passa de “conversa para boi dormir”). Contudo, o machismo fica claro de novo, uma vez que as genealogias mostram que as linhas de descendência convergem em José — e José, pelo que você e todos os cristãos acreditam, não é o pai biológico de Jesus. Portanto, as genealogias de Mateus e Lucas, além de não conferirem entre si, são ridículas, já que Jesus, como se alega, não é filho de José (e, portanto, provar que José é descendente de Davi não prova nada acerca de Jesus, de acordo com aquilo que você mesmo insiste em acreditar como sendo verdade sobre a natureza de seu Cristo). Em todo caso, a árvore genealógica não poderia ser feita em relação aos antepassados de Maria, o que seria bem mais lógico aqui, simplesmente porque ela era essa coisa indigna de menção chamada mulher.
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É curioso notar ainda que, em alguns raros trechos dos evangelhos, Jesus seja citado criticando passagens do Antigo Testamento, inclusive algumas que tratam mulheres como vermes — aliás, Jesus, sendo filho de Deus e Deus próprio num só ser, está criticando o quê? Não foi ele mesmo, na forma do Pai, que inspirou aquelas antigas leis? Insisto em indagar: por que Deus mudou de idéia quanto à sua primeira lei, se ela já era produto de uma mente onisciente e infalível?
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Bem... O fato é que, em Marcos 5:25-34, por exemplo, fala-se da cura de uma mulher que sofria de excesso de fluxo menstrual e da conversa de Jesus com ela; em outras palavras: Jesus violou, de uma só vez, o artigo da lei sobre os rituais de purificação da mulher menstruada, que aparece entre as citações acima, e a proibição social de um homem judeu falar com outra mulher que não seja sua esposa e sua filha. E, em Marcos 10:11-12, Jesus reformulou a lei do divórcio — a antiga lei de Deus que permitia que um homem se divorciasse de sua mulher quando quisesse, mas nunca dava o mesmo direito a uma mulher —, fazendo uma afirmação que, pessoalmente, não acho que seja a mais sábia das resoluções para o problema: ele diz que o divórcio era inaceitável tanto para o homem quanto para a mulher, que nenhum dos dois tinha esse direito, depois de casados. Jesus, pelo visto, não era muito melhor legislador do que o Deus-Pai, não! Aliás, o que eu estou dizendo? Eles são a mesma pessoa, não é mesmo? Que vacilo meu!
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De resto, não há muito mais que se possa tirar da Bíblia para defender a boa visão que esta tenha acerca das mulheres. A Bíblia não vê as mulheres com bons olhos! Isso é tudo. Não há o que discutir. Basta ler o resto do Novo Testamento e veremos que nada ou pouquíssima coisa mudou, em relação à antiga lei.
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Em 1 Coríntios 11:3.7-9, Paulo fala do homem como sendo a cabeça da mulher, bem como afirma que a mulher foi criada para o homem e não o contrário. Em Efésios 5:22-24, repete a afirmação de que os homens são a cabeça das mulheres e exige que estas sejam-lhes submissas em tudo. Em 1 Timóteo 2:11-15, o apóstolo escreve o seguinte:
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.Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que conserve, pois, o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, caiu em transgressão. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que, com modéstia, permaneça na fé, no amor e na santidade.
Numa só passagem, aprendemos que 1) enquanto o padre ou pastor fala, a mulher baixa a orelha; 2) mulher não tem direito de ensinar nada a homem nenhum; 3) todo o erro em torno do mito do pecado original deve-se apenas à mulher, pois foi Eva, e não Adão, que foi seduzida; 4) portanto, a mulher só encontra salvação abrindo as pernas para um homem e ficando grávida dele; 5) isso, se não acabar cometendo um deslizezinho na manutenção da “modéstia” (leia-se “total submissão ao homem”), enquanto segue na vivência diária de uma rigorosa vida de beata.
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Sabem de uma coisa? Eu tenho até medo de um dia ter uma filha, e ela se deixar seduzir e convencer por um livro como este!
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Bem... Prosseguindo: em Tito 2:3-5, aprendemos que, enquanto no mesmo capítulo aconselha-se que os homens de idade sejam respeitáveis e fortes na fé, ao passo que os jovens rapazes sejam íntegros e cultos, às mulheres cabe o seguinte:
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Sabem de uma coisa? Eu tenho até medo de um dia ter uma filha, e ela se deixar seduzir e convencer por um livro como este!
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Bem... Prosseguindo: em Tito 2:3-5, aprendemos que, enquanto no mesmo capítulo aconselha-se que os homens de idade sejam respeitáveis e fortes na fé, ao passo que os jovens rapazes sejam íntegros e cultos, às mulheres cabe o seguinte:
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.As mulheres idosas, igualmente, devem proceder como convém a pessoas santas: não sejam caluniadoras, nem escravas da bebida excessiva; mas sejam capazes de bons conselhos, de sorte que as recém-casadas aprendam com elas a amar os maridos e os filhos, a ser ajuizadas, fiéis e submissas a seus esposos, boas donas-de-casa, amáveis, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada.
Por fim, em 1 Pedro 3:5-7, temos a lição final de que as mulheres devem aprender com Sara, a mulher de Abraão, a ser submissas a seus maridos, inclusive chamando-os de “senhor”, enquanto que os homens devem aprender a tratar as esposas, sempre tendo em mente que elas são seres mais frágeis do que eles. Daí vem aquela velha historinha do “sexo frágil”.
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E assim, podemos facilmente concluir que o que a Bíblia tem a ensinar sobre as mulheres, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, é que são seres inferiores, malditas por natureza, destinadas à eterna submissão aos homens, inclusive servindo-lhes de bonecas-infláveis para que possam fazer sexo quando estes tiverem vontade, mesmo que elas não estejam afim, além de não terem praticamente nenhum direito civil, sendo que os poucos que o “Deus de amor” lhes concede na Bíblia são sempre inferiores aos direitos concedidos aos homens. Diante disso, uma pergunta: o que aconteceria, se alguém hoje fizesse o que o pastor batista Pat Robertson, por exemplo, vive pregando nos Estados Unidos — isto é, levar os crentes conservadores e fundamentalistas aos maiores postos políticos do país, de modo que ninguém possa evitar a implantação de uma sociedade que siga rigorosamente os preceitos bíblicos em lugar dos “absurdos” garantidos pela constituição laica e liberal daquele e de outros países de democracia representativa? Ele defende essa visão e já foi candidato à presidência da república, em 1988 — quando, felizmente, perdeu feio! Porém, a pergunta permanece: você, meu caro cristão, acha que, diante do que temos visto nos preceitos da Bíblia, tal livro serviria de base para a construção de alguma sociedade em que você gostaria de viver? Sinto muito, mas, mesmo que me responda que sim, tenho de duvidar que sua resposta seja sincera ou bem refletida quanto à própria maneira como você vive a sua vida.
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Em todo caso, vejamos mais exemplos.
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O deus bíblico é um genocida
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Em inúmeras passagens da Bíblia, o deus de Israel aprova a matança violenta e indiscriminada de vidas, muitas das quais totalmente inocentes quanto aos conflitos em meio dos quais se encontram.
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Bem, ela já começa dizendo que Deus criou o mundo e tudo o que nele há. Porém, segundo o que o próprio Gênesis afirma, em seguida, o “Deus Onisciente”, conhecedor do passado, presente e futuro, andou tendo problemas com seus super-poderes de previsão futurística, pois, não conseguiu antever o grau de perversidade a que os humanos poderiam chegar, um dia. Então, surpreso ao descobrir isso, Deus decidiu simplesmente exterminar todos os humanos do planeta de uma só vez (Gn 6:5-9). E mandou o dilúvio, que é aquela história que nós conhecemos bem, sobre a arca de Noé, e que, para esclarecer aos crentes mal-informados, devo dizer que nem mesmo é um história original na Bíblia. Afinal de contas, toda a narrativa não passa de uma versão ligeiramente adaptada de uma lenda muito mais antiga do que os primeiros livros bíblicos escritos e que nada tem a ver com o deus de Israel: refiro-me ao Épico de Gilgamesh. Se você o ler, descobrirá que essa história bíblica foi claramente inspirada num mito pagão, bem anterior ao Gênesis.
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A seu tempo, quando os “homens de Deus” invadiram a terra de Canaã, foram ali levados por inspiração divina, com o objetivo de tomar aquelas terras de seus habitantes na marra. Em outras palavras: fizeram como os colonizadores portugueses que tomaram estas terras dos índios que já habitavam esse imenso território, não raro, às custas do massacre de incontáveis tribos.
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Bem, é importante deixar claro que estudos arqueológicos indicam que nada daquelas histórias narradas na Bíblia são verdadeiras. Que quando os hebreus chegaram ao território de Canaã, ali praticamente não havia mais muitas tribos povoando aquela terra já arruinada, e que, portanto, a ocupação do local foi bem tranqüila e sem nada daquelas batalhas grandiosas de que fala a Bíblia. Porém, estas descobertas não interessam à maioria dos cristãos. Eles crêem na versão da Bíblia: os israelitas conquistaram Canaã, sob as instruções de Deus, vencendo, uma a uma, a impressionante seqüência de guerras travadas contra as tribos que deveriam exterminar, tal como impunha a determinação divina, sem dó nem piedade. E se você acredita que os relatos da Bíblia são mesmo factuais, então crê em atos que foram sem dó nem piedade mesmo! As narrativas falam de massacres e mais massacres de inocentes, sem o menor remorso.
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Assim, para aqueles que adoram se deliciar com histórias de assassinatos em massa, perpetrados com violência descabida, e tudo feito sob a inspiração divina, eis a lista dos horrores relativos ou não à conquista de Canaã, mas sempre perpetrados por “homens de Deus”: Num. 21:34-35; Deut. 2:21-23.33-35; Deut. 7:1-2; Jos. 8:24; Jos. 10:26-42; Jos. 21:43-45; Juízes 4:15-16, e 1 Sam. 27:8-9.
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Além disso, chamo a atenção para o episódio ridículo e absurdo, em que o profeta Eliseu caminhava para Betel, quando apareceram uns moleques caçoando dele, chamando-o de “careca”. Eliseu rogou-lhes uma praga em nome de Deus, e, ao que nos diz a Bíblia, o Senhor atendeu à maldição de Eliseu contra os meninos na mesma hora: duas ursas surgiram do bosque e despedaçaram com fúria 42 moleques de uma só vez (2 Reis 2:23-25). E isso sendo Eliseu realmente careca — imaginem se o chamassem de uma coisa que ele não fosse!?
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E, em Jos. 7:19-26, conta-se que Acã havia cometido um pecado que deixou Deus muito irado — ele havia pegado para si uns siclos de prata e uma cunha de ouro, que estavam entre os despojos da cidade de Jericó, e escondido tudo. Por causa desse pecado “abominável”, Deus exigiu a morte dele e de toda a sua família, bem como dos animais que lhes pertenciam. E essas pessoas foram de fato apedrejadas até a morte, tendo, em seguida, seus corpos queimados numa fogueira. A Bíblia conclui a história dizendo que, só depois disso, Deus se acalmou de novo. Lição aprendida: se entrar numa cidade destruída pela guerra e achar algo de valor no chão, que os que estão com você resolveram que deve ficar ali onde está, não ouse pegar o que quer que seja para si em segredo, pois pode ser que Deus acabe se irritando e aí... nem queira saber o que acontecerá a você e toda a sua família, além do periquito, o gato e o cachorro de estimação que você tem.
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Finalmente, para quem ainda não se deu por convencido de que o deus bíblico é um assassino sádico dos mais cruéis de que já se ouviu falar na história dos personagens divinos adorados pelos povos, há uma última passagem que tenho que citar aqui. A questão é a seguinte: alguns israelitas haviam tido relações sexuais com mulheres madianitas (ou midianitas, segundo algumas traduções). Este é o pecado abominável, que Deus não aceitava porque não aceitava, e ponto final! Então, em resposta a esse crime hediondo de um homem transar com uma mulher de outra raça e credo religioso, o “Deus de amor” exigiu o massacre que a Bíblia narra nas seguintes palavras:
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E assim, podemos facilmente concluir que o que a Bíblia tem a ensinar sobre as mulheres, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, é que são seres inferiores, malditas por natureza, destinadas à eterna submissão aos homens, inclusive servindo-lhes de bonecas-infláveis para que possam fazer sexo quando estes tiverem vontade, mesmo que elas não estejam afim, além de não terem praticamente nenhum direito civil, sendo que os poucos que o “Deus de amor” lhes concede na Bíblia são sempre inferiores aos direitos concedidos aos homens. Diante disso, uma pergunta: o que aconteceria, se alguém hoje fizesse o que o pastor batista Pat Robertson, por exemplo, vive pregando nos Estados Unidos — isto é, levar os crentes conservadores e fundamentalistas aos maiores postos políticos do país, de modo que ninguém possa evitar a implantação de uma sociedade que siga rigorosamente os preceitos bíblicos em lugar dos “absurdos” garantidos pela constituição laica e liberal daquele e de outros países de democracia representativa? Ele defende essa visão e já foi candidato à presidência da república, em 1988 — quando, felizmente, perdeu feio! Porém, a pergunta permanece: você, meu caro cristão, acha que, diante do que temos visto nos preceitos da Bíblia, tal livro serviria de base para a construção de alguma sociedade em que você gostaria de viver? Sinto muito, mas, mesmo que me responda que sim, tenho de duvidar que sua resposta seja sincera ou bem refletida quanto à própria maneira como você vive a sua vida.
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Em todo caso, vejamos mais exemplos.
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O deus bíblico é um genocida
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Em inúmeras passagens da Bíblia, o deus de Israel aprova a matança violenta e indiscriminada de vidas, muitas das quais totalmente inocentes quanto aos conflitos em meio dos quais se encontram.
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Bem, ela já começa dizendo que Deus criou o mundo e tudo o que nele há. Porém, segundo o que o próprio Gênesis afirma, em seguida, o “Deus Onisciente”, conhecedor do passado, presente e futuro, andou tendo problemas com seus super-poderes de previsão futurística, pois, não conseguiu antever o grau de perversidade a que os humanos poderiam chegar, um dia. Então, surpreso ao descobrir isso, Deus decidiu simplesmente exterminar todos os humanos do planeta de uma só vez (Gn 6:5-9). E mandou o dilúvio, que é aquela história que nós conhecemos bem, sobre a arca de Noé, e que, para esclarecer aos crentes mal-informados, devo dizer que nem mesmo é um história original na Bíblia. Afinal de contas, toda a narrativa não passa de uma versão ligeiramente adaptada de uma lenda muito mais antiga do que os primeiros livros bíblicos escritos e que nada tem a ver com o deus de Israel: refiro-me ao Épico de Gilgamesh. Se você o ler, descobrirá que essa história bíblica foi claramente inspirada num mito pagão, bem anterior ao Gênesis.
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A seu tempo, quando os “homens de Deus” invadiram a terra de Canaã, foram ali levados por inspiração divina, com o objetivo de tomar aquelas terras de seus habitantes na marra. Em outras palavras: fizeram como os colonizadores portugueses que tomaram estas terras dos índios que já habitavam esse imenso território, não raro, às custas do massacre de incontáveis tribos.
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Bem, é importante deixar claro que estudos arqueológicos indicam que nada daquelas histórias narradas na Bíblia são verdadeiras. Que quando os hebreus chegaram ao território de Canaã, ali praticamente não havia mais muitas tribos povoando aquela terra já arruinada, e que, portanto, a ocupação do local foi bem tranqüila e sem nada daquelas batalhas grandiosas de que fala a Bíblia. Porém, estas descobertas não interessam à maioria dos cristãos. Eles crêem na versão da Bíblia: os israelitas conquistaram Canaã, sob as instruções de Deus, vencendo, uma a uma, a impressionante seqüência de guerras travadas contra as tribos que deveriam exterminar, tal como impunha a determinação divina, sem dó nem piedade. E se você acredita que os relatos da Bíblia são mesmo factuais, então crê em atos que foram sem dó nem piedade mesmo! As narrativas falam de massacres e mais massacres de inocentes, sem o menor remorso.
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Assim, para aqueles que adoram se deliciar com histórias de assassinatos em massa, perpetrados com violência descabida, e tudo feito sob a inspiração divina, eis a lista dos horrores relativos ou não à conquista de Canaã, mas sempre perpetrados por “homens de Deus”: Num. 21:34-35; Deut. 2:21-23.33-35; Deut. 7:1-2; Jos. 8:24; Jos. 10:26-42; Jos. 21:43-45; Juízes 4:15-16, e 1 Sam. 27:8-9.
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Além disso, chamo a atenção para o episódio ridículo e absurdo, em que o profeta Eliseu caminhava para Betel, quando apareceram uns moleques caçoando dele, chamando-o de “careca”. Eliseu rogou-lhes uma praga em nome de Deus, e, ao que nos diz a Bíblia, o Senhor atendeu à maldição de Eliseu contra os meninos na mesma hora: duas ursas surgiram do bosque e despedaçaram com fúria 42 moleques de uma só vez (2 Reis 2:23-25). E isso sendo Eliseu realmente careca — imaginem se o chamassem de uma coisa que ele não fosse!?
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E, em Jos. 7:19-26, conta-se que Acã havia cometido um pecado que deixou Deus muito irado — ele havia pegado para si uns siclos de prata e uma cunha de ouro, que estavam entre os despojos da cidade de Jericó, e escondido tudo. Por causa desse pecado “abominável”, Deus exigiu a morte dele e de toda a sua família, bem como dos animais que lhes pertenciam. E essas pessoas foram de fato apedrejadas até a morte, tendo, em seguida, seus corpos queimados numa fogueira. A Bíblia conclui a história dizendo que, só depois disso, Deus se acalmou de novo. Lição aprendida: se entrar numa cidade destruída pela guerra e achar algo de valor no chão, que os que estão com você resolveram que deve ficar ali onde está, não ouse pegar o que quer que seja para si em segredo, pois pode ser que Deus acabe se irritando e aí... nem queira saber o que acontecerá a você e toda a sua família, além do periquito, o gato e o cachorro de estimação que você tem.
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Finalmente, para quem ainda não se deu por convencido de que o deus bíblico é um assassino sádico dos mais cruéis de que já se ouviu falar na história dos personagens divinos adorados pelos povos, há uma última passagem que tenho que citar aqui. A questão é a seguinte: alguns israelitas haviam tido relações sexuais com mulheres madianitas (ou midianitas, segundo algumas traduções). Este é o pecado abominável, que Deus não aceitava porque não aceitava, e ponto final! Então, em resposta a esse crime hediondo de um homem transar com uma mulher de outra raça e credo religioso, o “Deus de amor” exigiu o massacre que a Bíblia narra nas seguintes palavras:
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Fizeram a guerra contra Madiã, conforme o Senhor ordenara a Moisés, e mataram todos os varões. (...) Os israelitas levaram cativas as mulheres dos madianitas com as suas crianças, e tomaram todo o seu gado, todos os seus rebanhos e todos os seus bens. Queimaram as cidades em que habitavam, bem como todos os seus acampamentos. Em seguida, tomaram todos os despojos, tudo que haviam capturado, animais e homens, trouxeram cativos, presa e despojos a Moisés, a Eleazar, o sacerdote, e a toda a comunidade dos israelitas (...). Moisés indignou-se contra os comandantes das forças, chefes de milhares e chefes de centenas, que voltavam desta expedição guerreira. Disse-lhes: “Por que deixastes com vida todas essas mulheres? Foram elas que (...) se tornaram para os israelitas a causa de infidelidade ao Senhor (...). Matai, portanto, todas as crianças do sexo masculino. Matai também todas as mulheres que conheceram varão, coabitando com ele. Não conserveis com vida senão as meninas que ainda não coabitaram com homem e elas serão vossas.” (Num. 31:7:18)
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Okay! Então, nossa lição acerca da moral da Bíblia, a partir dos versículos que lemos ao longo de toda esta seção, é a que segue: a) você pode assassinar brutalmente, com sádica crueldade, aqueles cujas terras resolveu roubar, e que decidiram apenas defendê-la contra sua invasão, mesmo depois que estes já tiverem sido rendidos; b) se seu grupo decidir que alguns objetos de valor devem ser deixados para trás, e você, assim mesmo, resolver pegar algo escondido para si, será morto a pedradas, juntamente com toda sua família, que nada fez; c) se você resolver transar com uma mulher de outra raça e religião, deverão ser mortos vocês dois, bem como todo o povo ao qual ela pertence; d) quando atacar uma cidade, deverá matar as seguintes pessoas: velhos, homens, mulheres que já não sejam virgens e meninos — afinal, esses não lhe servem para nada; e) porém, deverá manter vivas, para servirem como escravas sexuais a você, “homem de Deus”, todas as menininhas e mulheres de hímen ainda intacto — e que, é claro, não continuarão intactos por muito tempo, depois de caírem em suas mãos, não é mesmo, ó estuprador servo do Senhor?
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A posição de Deus, como descrita nos itens c) e e), parece um tanto paradoxal. Mas, ao que tudo indica, resume-se ao seguinte: se você decidir transar com uma mulher de outra raça e religião por vontade própria, talvez porque se apaixonou por ela, então vocês dois devem ser mortos; porém, se estuprar sem piedade centenas dessas mulheres, só para cumprir a vontade do deus bíblico, então, fica tudo lindo e maravilhoso aos olhos dele.
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Outras passagens e mais da moral do “Deus de amor”
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Além de todas as barbaridades que já apontamos até aqui, a Bíblia, em várias passagens do Antigo e do Novo Testamento, ainda fala de diversos temas que qualquer pessoa de bom senso acharia verdadeiros absurdos, hoje em dia, inclusive você.
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Ela fala de Deus punindo inocentes pelos erros de outros: Gên. 3:16-22 (Adão e Eva pecam, e a humanidade paga o pato); Gên. 6:1-13 (Deus criou os homens e eles se revelaram maus — não seria erro dele mesmo, então, para início de conversa? Em todo caso, ela resolve matar todo mundo, culpado ou não culpado, adultos e recém-nascidos, estes incapazes de terem cometido algum erro grave, sem falar dos animais, que também foram exterminados sem ter feito nada de errado); Gên. 9:21-27 (Cam, filho de Noé, viu o pai bêbado, dormindo pelado em sua tenda uma noite, e Noé, ao descobrir isso, amaldiçoou o filho de Cam, Canaã, decretando que este seu neto seria escravo de seus outros dois filhos, Sem e Jafé); Êx. 20:2-5 (os descendentes de um transgressor, até a quarta geração, serão amaldiçoados, mesmo não tendo feito nada de errado); Deut. 23:2 (um filho ilegítimo é proibido de entrar no templo, ele e todos os seus descendentes, até a décima geração — afinal de contas, é claro que deve ter alguma culpa de ser filho bastardo!); Jos. 7:19-26 (o caso da família de Acã, já citado acima); 2 Sam. 11:2-27 (Davi, o rei escolhido de Deus, era um sem-vergonha de marca maior, e, apesar de ter quantas mulheres quisesse, cobiçou também a esposa de um general seu — pelo visto, ele não dava muita idéia para o mandamento “Não cobiçarás a mulher do próximo”; assim, o “escolhido de Deus” armou uma arapuca para que o marido da mulher fosse colocado numa situação fatal, durante uma batalha, e acabasse morrendo, para que ela pudesse ser sua — tudo aconteceu exatamente como o planejado e a mulher ficou grávida de Davi; Deus então resolveu castigar Davi por tudo o que fez, matando o filho recém-nascido que teve com essa mulher — o relato da punição está no capítulo seguinte a este), e, finalmente, uma passagem do Novo Testamento que é responsável pela matança do maior número de inocentes de que já se ouviu falar, ou seja, os versículos em que as palavras do evangelista faz com que os judeus, em vez de os romanos, sejam responsáveis pela execução de Jesus; como resultado, ao longo dos últimos dois mil anos, milhões de judeus foram exterminados por cristãos ensandecidos — incluindo Hitler, que alegava estar agindo em nome do Senhor: Mateus 27:22-25.
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A Bíblia aprova o abuso sexual de mulheres por “homens de Deus”: Deut. 21:10-14; Deut. 25:5-10 (aqui se institui a “lei do levirato”, segundo a qual a viúva sem filhos varãos deveria se deitar com um parente próximo do falecido marido, de preferência um irmão dele, e o primeiro filho homem que tivessem seria considerado filho do morto e poderia receber sua parte na herança familiar; a mulher tinha o direito de exigir que o cunhado cumprisse com sua obrigação de ter relações com ela para engravidar, mas, por outro lado, nenhuma viúva tinha o direito de se negar a deitar-se com o cunhado); Num. 31:17-18 (a passagem já citada em que Moisés mandou poupar as menininhas e as jovens virgens para servir de escravas sexuais para os “homens de Deus”).
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A Bíblia aceita que os “homens de Deus” roubem tudo dos povos que derrotarem em combate, bem como também mostra como o deus bíblico recompensa sua atitude, quando usam de malandragem para conseguir obter vantagens materiais, dentre outras: Deut. 2:33-35; Jos. 8:2; 1 Crôn. 5:20-21; Gên. 12:11-20; Gên. 20:1-16; Gên. 26:6-15, e Gên. 27.
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A Bíblia defende explicitamente a intolerância e o ódio inter-religioso: Deut. 7:1-2; Deut. 20:15-18; Lucas 19:26-28; João 12:48; 1 Cor. 10:20-22, e Gál. 1:9.
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E estas são apenas algumas das inúmeras passagens das Escrituras que nos ensinam os piores valores que um ser humano pode cultivar, de modo que acabariam por tornar impossível a boa convivência em sociedade. São pensamentos machistas, chauvinistas, intolerantes, racistas, egoístas, de uma sociopatia assassina, em muitos casos. Portanto, como se esperar que um livro desses seja um guia moral para as pessoas, em pleno século 21? É ridículo e obsceno sugerir que esse livro seja a solução para os problemas morais das 6 bilhões de vidas que povoam este planeta, atualmente.
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Precisamos da Bíblia e do cristianismo para que a moral exista?
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Ora, se você parar para pensar em tudo aquilo que reconhecemos como valores positivos, como bons valores, em nossa sociedade, hoje em dia, é impossível afirmar que tudo o que a Bíblia ensina, nos inúmeros versículos citados aqui, bem como em outros tantos que nem cheguei a mencionar, seja moralmente aceitável. A Bíblia defende a escravidão (e isso é hoje um ato indiscutivelmente imoral); a Bíblia tem um conteúdo de manifesto machismo opressor (outro valor imoral); ela justifica assassinatos brutais de milhares de pessoas (imoral); ela defende práticas enganosas para proveito do crente em detrimento do não-crente (imoral), etc. Como você pode aceitar que um livro desses lhe sirva de fonte de bons valores para sua vida, em nossos tempos e nossa sociedade? Se tiver um pingo de bom senso, não pode.
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Como escrevi, no início deste texto, uma pessoa me disse, outro dia, que, sem a Bíblia e a religião, o mundo acabaria se tornando um caos, um verdadeiro inferno de ladrões, patifes, assassinos, estupradores, tiranos e tudo o mais da pior espécie. Na verdade, se você observar bem o que a Bíblia nos ensina, isso tudo aí é o que todos nos tornaremos, se seguirmos à risca as exigências do deus bíblico (aliás, já que ele deu ordens para cumprir todas as Escrituras, como é que os crentes ficam escolhendo as partes que querem cumprir, e ignorando outras? Não foi tudo, sem exceção, dito e exigido por Deus?). Faça tudo o que a Bíblia manda fazer, e veja o resultado você mesmo. O fazendeiro das terras vizinhas às suas, seguidor do candomblé, tem alqueires que lhe interessam? Então, invada às terras desse infiel, tire-lhe tudo o que tem, degole-o com sua faca, mate também a esposa dele e o filho dele, e, em seguida, estupre a sua filha de 12 anos, ainda virgem e inocente. Segundo a Bíblia, você, se for mesmo um crente fiel, estará justificado perante o Senhor. E mais: ele próprio vai auxiliá-lo nessa empreitada!
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No entanto, apesar de a “palavra de Deus” aprovar cada uma dessas coisas se você as fizesse, eu não aprovo, o nosso código penal também não, e duvido até mesmo que você aprove atos tão horrendos e asquerosos dessa natureza.
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Tentando insistir no absurdo de defender esse livro, um cristão poderia ainda buscar alegar: “Mas a Bíblia também tem várias passagens com ensinamentos valiosos, tais como a mensagem de Jesus de se oferecer a outra face, por exemplo”. Contudo, embora haja mesmo umas poucas partes aproveitáveis aqui e ali, nenhuma delas diz algo original, algo que já não tenha sido dito e ensinado por outras pessoas, outros livros, outras culturas, bem antes de Cristo nascer. Aliás, a filosofia pacifista atribuída a Jesus, de que devemos resistir ao mal e oferecer a outra face sem usar de violência, já se encontrava em preceitos budistas, por exemplo, séculos antes do nazareno nascer. A Regra de Ouro, para citar outro exemplo, que lemos no Sermão da Montanha (Mateus 7:12) — ou seja, o valiosíssimo preceito moral de não fazer a seu próximo aquilo que não gostaria que fizessem a você — já fazia parte dos ensinamentos de vários livros sagrados de outras religiões, muito antes de a Era Cristã ter início. No verso 5 do capítulo 94 do Dadistan-i-Dinik, livro do zoroastrismo, por exemplo, lê-se: “A natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria”. No livro budista, Udana-Varga, por sua vez, diz-se: “Não atormentes o próximo com o que te aflige” (U-V 5:18). E no Mahabharata, obra hinduísta, encontramos o mesmo preceito na forma: “Esta é a suma do dever: não faças aos outros aquilo que se a ti for feito, causar-te-á dor”(Mahabh. 5:15:17).
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Mesmo que Jesus tenha mesmo ensinado essas duas regras de fato valiosas, a Bíblia apresenta dois problemas na sua descrição dele próprio: 1) nada de bom que ele ensinou era novidade no mundo das idéias filosófico-religiosas de seu tempo, em outras culturas; 2) ele mesmo ensinou e praticou o oposto do que pregou, demonstrando uma personalidade ambígua e vacilante ou simplesmente hipócrita: afinal, para citar um exemplo, ele também disse que tinha vindo trazer “não a paz mas a espada” (Mateus 10:34), e reagiu com uma violência ensandecida contra os vendilhões do templo de Jerusalém (João 2:14-17). (Lembre-se ainda de que Jesus, ao mesmo tempo em que criticava e até mesmo violava a antiga lei, também a exaltava e ameaçava quem quer que a violasse, tal como você pode ler em Mateus 5:18-20.)
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Disto tudo, tiramos duas conclusões: a) se você é um desses crentes que, apesar de tudo o que expus aqui, ainda acreditam piamente que a Bíblia é a palavra de seu deus, perfeita e inquestionável, já vimos que esse livro representa então as palavras inspiradas durante um surto psicótico de um deus monstruoso e implacável em sua tirania — e esta é a divindade adorada por você em sua religião, o que significa que, portanto, seria muita ingenuidade minha esperar uma atitude sensata de sua parte, em face de tudo que expus aqui; b) para os mais moderados, que acreditam que a Bíblia é uma obra de mãos humanas, influenciada pela cultura de seu tempo e lugar de origem, mas que conserva, apesar disso, princípios que emanam do verdadeiro espírito do “Deus de amor”, e que, portanto, ainda servem muito bem para educar as pessoas e embasar nossos valores morais modernos por sobre seus preceitos, chamo a atenção para o fato de que na verdade a sua atitude de “interpretação liberal” da Bíblia conduz à manutenção de uma séria questão de educação moral. Deixe-me explicar.
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O psicólogo israelense George Tamarin fez um interessante experimento com crianças educadas em famílias de formação religiosa inspirada no deus bíblico. Taramin pegou duas turmas e aplicou dois textos a cada grupo. À primeira turma, ele passou o relato da conquista de uma cidade chinesa, há cerca de três mil anos, parecido com o texto abaixo:
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O exército do grande General Lin tomou a cidade e tudo quanto havia nela destruiu totalmente ao fio da espada: homens, mulheres, crianças, velhos, e até mesmo bois, ovelhas e jumentos. O general, porém, disse aos dois homens que tinham espionado aquela terra: “Entrem na casa da prostituta, e tirem-na de lá com tudo o que tiver, assim como vocês lhe prometeram.” Então, os espiões entraram e tiraram a mulher, seu pai, sua mãe e seus irmãos, e tudo o que tinha; tiraram também todos os seus outros parentes e os colocaram num lugar além do acampamento do exército do general. Então, queimaram a fogo a cidade e tudo o que havia nela; apenas a prata e o ouro, e os vasos de metal e de ferro, deram para o tesouro da casa dos antigos deuses chineses. O general poupou a vida da prostituta e de sua família, deixando-os viver em suas terras conquistadas para sempre, porque ela havia escondido os espiões enviados por ele para observar a cidade. Por fim, o general fez a seguinte ameaça: “Maldito seja diante dos deuses aquele que se levantar e reedificar esta cidade; os primeiros fundamentos que lançar já lhe custará a vida de seu primeiro filho, e será à custa do último de seus filhos que erguerá os seus portões!” E dessa maneira ajudavam os deuses ao General Lin, enquanto sua fama corria por toda a antiga China.
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Em seguida, Tamarin propôs aos alunos a seguinte pergunta, para a qual deveriam entregar-lhe uma resposta discursiva, justificando sua posição: “Você aprova ou não os atos do General Lin e seus homens?” Das 168 crianças que leram o texto acima, apenas 7% concordou com o massacre, 18% concordou em parte, e uma maioria esmagadora — 75% — reprovou completamente o genocídio perpetrado pelo Gen. Lin e seus homens. Acho que a maioria de nós também teria esta opinião, não é mesmo?
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Porém, o dado curioso aqui é que o texto não passou de uma pegadinha. Nunca houve um General Lin. Na verdade, a narrativa acima é exatamente o relato da tomada de Jericó por Josué e seus homens, tal como contada no capítulo 6 do Livro de Josué, apenas trocando-se o nome Josué por Gen. Lin e omitindo-se o nome de Jericó, sugerindo, em substituição, uma antiga cidade chinesa. Ao mesmo tempo, a fim de fazer a devida análise dos dados obtidos, Tamarin passou para o segundo grupo de alunos o texto original, extraído da Bíblia, descrevendo as mesmas barbaridades, porém, agora perpetradas por “homens de Deus”. Para a pergunta de Tamarin, os resultados foram bem diferentes, em face deste outro relato: 68% aprovou completamente o massacre; 8% aprovou em parte, e 26% manifestou total reprovação.
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O mais curioso, contudo, foi que tanto os que aprovaram quanto os que reprovaram o genocídio justificaram suas respostas usando o argumento de que o extermínio condizia ou não condizia com a visão religiosa que cada um tinha da vontade de seu deus, em vez de pautarem-se por suas convicções morais humanas. Além disso, em algumas dessas respostas negativas, essa discordância de visão se devia ao fato de que alunos que reprovaram a ação de Josué acharam que ele errou tão-somente porque destruiu os bens, em vez de tomá-los e distribuí-los entre os israelitas, ao passo que uma aluna defendeu sua reprovação dos atos de Josué, fundamentando-se na afirmação religioso-racista de que, uma vez que árabes são sempre povos impuros e amaldiçoados, ao entrarem na cidade, os israelitas tornaram-se impuros e amaldiçoados também, pelo contato com o ambiente onde aquele povo vivia.
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Esse estudo prova o quanto a educação religiosa embasada na Bíblia interfere de maneira nociva no julgamento moral das pessoas. O que me faz lembrar um trecho de um livro recente de Sam Harris:
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Em seguida, Tamarin propôs aos alunos a seguinte pergunta, para a qual deveriam entregar-lhe uma resposta discursiva, justificando sua posição: “Você aprova ou não os atos do General Lin e seus homens?” Das 168 crianças que leram o texto acima, apenas 7% concordou com o massacre, 18% concordou em parte, e uma maioria esmagadora — 75% — reprovou completamente o genocídio perpetrado pelo Gen. Lin e seus homens. Acho que a maioria de nós também teria esta opinião, não é mesmo?
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Porém, o dado curioso aqui é que o texto não passou de uma pegadinha. Nunca houve um General Lin. Na verdade, a narrativa acima é exatamente o relato da tomada de Jericó por Josué e seus homens, tal como contada no capítulo 6 do Livro de Josué, apenas trocando-se o nome Josué por Gen. Lin e omitindo-se o nome de Jericó, sugerindo, em substituição, uma antiga cidade chinesa. Ao mesmo tempo, a fim de fazer a devida análise dos dados obtidos, Tamarin passou para o segundo grupo de alunos o texto original, extraído da Bíblia, descrevendo as mesmas barbaridades, porém, agora perpetradas por “homens de Deus”. Para a pergunta de Tamarin, os resultados foram bem diferentes, em face deste outro relato: 68% aprovou completamente o massacre; 8% aprovou em parte, e 26% manifestou total reprovação.
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O mais curioso, contudo, foi que tanto os que aprovaram quanto os que reprovaram o genocídio justificaram suas respostas usando o argumento de que o extermínio condizia ou não condizia com a visão religiosa que cada um tinha da vontade de seu deus, em vez de pautarem-se por suas convicções morais humanas. Além disso, em algumas dessas respostas negativas, essa discordância de visão se devia ao fato de que alunos que reprovaram a ação de Josué acharam que ele errou tão-somente porque destruiu os bens, em vez de tomá-los e distribuí-los entre os israelitas, ao passo que uma aluna defendeu sua reprovação dos atos de Josué, fundamentando-se na afirmação religioso-racista de que, uma vez que árabes são sempre povos impuros e amaldiçoados, ao entrarem na cidade, os israelitas tornaram-se impuros e amaldiçoados também, pelo contato com o ambiente onde aquele povo vivia.
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Esse estudo prova o quanto a educação religiosa embasada na Bíblia interfere de maneira nociva no julgamento moral das pessoas. O que me faz lembrar um trecho de um livro recente de Sam Harris:
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Uma das patologias duradouras da cultura humana é a tendência a criar filhos ensinando-os a temer e demonizar outros seres humanos com base na fé religiosa. Em conseqüência, a fé inspira a violência de duas maneiras, pelo menos. Primeiro, as pessoas muitas vezes matam outros seres humanos porque acreditam que o criador do universo deseja que façam isso. O terrorismo islâmico é um exemplo recente desse tipo de comportamento. Segundo, pessoas em número muito maior ainda entram em conflitos umas com as outras porque definem sua comunidade moral com base em sua filiação religiosa: os muçulmanos tomam partido de outros muçulmanos, os protestantes de outros protestantes, os católicos de outros católicos. (...) E, contudo, embora as divisões religiosas do nosso mundo sejam claras e evidentes, muitos continuam imaginando que os conflitos religiosos são sempre causados pela falta de instrução, pela pobreza ou pela política. A maioria dos não-crentes, liberais e moderados parece não acreditar que realmente existem pessoas que sacrificam sua vida, ou a vida dos outros, devido às suas crenças religiosas. Eles não sabem qual é a sensação de ter certeza da existência do Paraíso; assim, não conseguem acreditar que alguém de fato tenha certeza da existência do Paraíso. Vale a pena lembrar que os seqüestradores dos aviões de 11 de setembro de 2001 eram homens de classe média e educação universitária, que não tinham nenhuma experiência de opressão política. Contudo, passavam um tempo enorme em sua mesquita, falando sobre a depravação dos infiéis e sobre os prazeres que aguardam os mártires no Paraíso. Quantos arquitetos e engenheiros ainda precisam se chocar contra edifícios a seiscentos quilômetros por hora até que reconheçamos, para nós mesmos, que a violência da jihad não é apenas questão de educação, pobreza ou política?A verdade, a espantosa verdade, é a seguinte: em pleno ano de 2006, uma pessoa pode ter recursos intelectuais e materiais suficientes para construir uma bomba nuclear, e mesmo assim continuar acreditando que vai ganhar 72 virgens como prêmio no Paraíso. Aqui no Ocidente os secularistas, liberais e moderados estão demorando muito para compreender esse fato. A causa da sua confusão é simples: eles não sabem o que é acreditar, de verdade, em Deus. (HARRIS, Sam. Carta a Uma Nação Cristã. São Paulo: Cia das Letras, 2007, págs. 78-79.)
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Com esta passagem do texto de Harris, vou finalizando mais um longo artigo, que ainda terá uma segunda parte em breve. Afinal, se a Bíblia, tal como pudemos verificar ao longo deste artigo, não nos fornece fonte saudável nenhuma na qual buscar por inspiração moral aplicável a uma sociedade de pessoas menos monstruosas e mais humanitárias, a verdade é que há, sem dúvida alguma, uma outra fonte de onde de fato provêm nossos princípios morais. E sobre ela falaremos em breve.
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Por ora, quero dizer apenas o que penso daquelas duas afirmações que escutei recentemente e que citei no começo deste texto: 1) “Viver sem acreditar em Deus é muito triste; por isso, sinto que você deve ser uma pessoa triste”; 2) “Se o homem deixar de acreditar em Deus e na Bíblia, tudo vai se transformar num caos; todo mundo vai matar, roubar, estuprar, fazer as piores coisas que alguém possa imaginar”.
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Em primeiro lugar, eu não sou um homem triste (ainda que muitas vezes fique indignado ao ver tantas atitudes covardes e traiçoeiras de que as pessoas são capazes, a maioria das quais reconhecidamente cristã) e, por outro lado, tenho certeza de que seria triste, angustiado e psicologicamente torturado, caso tivesse de acreditar num deus como esse que os crentes afirmam ter inspirado a Bíblia — e falo por experiência própria, porque eu já fui um cristão fervoroso nos primeiros 20 anos da minha vida. Em segundo, sei que cabe a cada um se convencer do absurdo da religião a seu próprio tempo e de seu modo individual — como aconteceu comigo —, mas se a humanidade deixasse de acreditar no deus bíblico, o mundo poderia se tornar qualquer coisa a partir daí, menos o caos pintado acima, já que isso é exatamente o que ele se tornaria, caso seguíssemos à risca tudo o que a “palavra de Deus” nos manda fazer.
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E estas escrituras podem ser para muitos moderados e liberais apenas um livro sagrado inofensivo. Mas, como também disse Epiteto, o filósofo frígio que foi um dos que pregaram antes de Jesus o princípio da Regra de Ouro, já comentada acima: “Os homens são movidos e perturbados não pelas coisas, mas pelas opiniões que eles têm sobre elas”.
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6 comentários:
Excelente, meu caro amigo, excelente.
Frank
Brother, existem os valores temporais e atemporais... praticamente tudo que voce critica na biblia se refere a sua parte 'temporal', que se esvai com o tempo e perde significado.
Por que não lembrar das partes atemporais? Da parte que fala sobre amor ao próximo? A biblia como livro sagrado tem de ser usada da maneira correta. As verdades que ela contem são de difícil interpretação e não são alcançadas na superficialidade que comumente se ve em quaisquer tipos de discussão sobre ela. O grande problema é que a revelação feita pelo avatar ícone da religião Cristã se perdeu nas areias do tempo... e aí sim, voce esta certo em criticar esses pontos. Eles não fazem mais tanto sentido no contexto atual. O que não significa que a biblia não tenha propósitos ou verdades. Pense nisso!
Indepedente de ter coisas na biblia que perdem o significado com o tempo, o da direito como no caso de escravisar, fazer alguém escravo seja lá em que época for?!
E em pensar que existem pessoas que põem a biblia sobre a própria vida.
Uma pena que em un blog aberto a opiniões, meu comentario anterior não foi postado.
Ace,
Desculpe-me, cara! Mas é que, como o blog está inativo há muito tempo (pois venho me dedicando a dois outros: "A voz da espécie" e o "Bule voador"), não havia entrado na página de moderação até hoje.
Um abraço.
Pow CAmilo, você deveria mandar esse texto para o Ceticismo.net
ele tem de ser lido pela maior quantidade de pessoas possível.
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