quarta-feira, 9 de abril de 2008

O delírio de Dawkins???

por Júnior Camilo
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Quando decidi criar este blog, tinha em mente um espaço onde escreveria textos o mais variados possível, dissertando sobre cultura, comportamento humano, cinema, educação, ciência, política... e religião. Cheguei mesmo a postar aqui um ou dois textos acerca de cada um desses tópicos. Contudo, ao abordar o último tema citado, descobri que havia cutucado um verdadeiro vespeiro — um tema tão controverso que, devido às minhas manifestações da perspectiva que dele tenho e que torno pública aqui e em outros espaços, recebi em meu e-mail mensagens de apoio e declarado compartilhamento de opiniões, bem como novos adicionamentos como contatos no MSN, da parte de pessoas envolvidas em áreas distintas do conhecimento (dois historiadores, uma pedagoga, um professor de Literatura, um estudante de Lingüística, uma estudante de Filosofia, uma bióloga, uma psicóloga, um físico e um matemático), ao passo que, por outro lado, despertei algumas antipatias manifestas.
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Em mais uma discussão que tive na internet, outro dia, uma garota, assim que mencionei o nome de Richard Dawkins, enquanto lhe chamava a atenção para um comentário que ela havia acabado de fazer em aberto na sala de bate-papo, partiu para cima de mim, com visível sede de briga. “O quê? Dawkins?”, veio logo disparando. “Você está mesmo desatualizado, hein!? Não sabe que Dawkins já caiu em descrédito? Ele já foi totalmente refutado por McGrath, cujo livro, a propósito, foi elogiado por ninguém menos do que Francis Collins. Aliás... Você já leu McGrath, por acaso?”
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Respondi-lhe prontamente que, sim, conhecia os textos de McGrath sobre aquele cientista que se tornou seu alvo de críticas favorito (quase uma obsessão, na verdade), e tentei, por minha vez, apresentar alguns contra-argumentos a essa garota, mostrando que, por um lado, faltava-lhe uma melhor compreensão da tal “refutação de Dawkins” que citava, como quem tem em mãos o veredicto da Suprema Corte da Razão Plena e Inquestionável, e que, por outro lado, estava redondamente enganada em sua absurda afirmação de que não encontravam mais sustentação alguma as teorias defendidas pelo autor de O Gene Egoísta, O Fenótipo Estendido, O Relojoeiro Cego, A Escalada do Monte Improvável e Deus, Um Delírio, entre outras obras. Aliás, a impressão clara que tive foi a de que ela, na verdade, nem mesmo conhecia as obras de Dawkins, somente aquilo que dela falavam os seus críticos cristãos, em seus próprios livros e resenhas publicadas na internet.
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Pode ser que Dawkins, compreensivelmente, não conte com a simpatia de McGrath nem de outros tantos cientistas teístas (bem como outros não crentes “politicamente corretos”, que temem arriscar seu prestígio e, talvez, seu emprego, cutucando o vespeiro fanático da religião que, trazendo em si o ranço de seu poder de influência de séculos passados, ainda tem pretensões de se manter eternamente “intocável” pela crítica). Mas isso não significa, de forma alguma, que o trabalho de Dawkins tenha caído em descrédito em meio à comunidade científica — embora, com certeza, aqueles de manifesta credulidade religiosa farão de tudo para defender sua perspectiva, mesmo que não sejam bem-sucedidos em oferecer uma alternativa plausível para a crítica que o biólogo britânico faz às religiões, que dirá uma alternativa (baseada em evidências e sólida teoria) para sua abordagem dos mecanismos biológicos da evolução. A esse respeito, a propósito, a prestigiada revista britânica Prospect (em parceria com a revista estadunidense Foreign Policy) publicou, há dois anos, o resultado de uma pesquisa de opinião sobre quem eram os 100 maiores intelectuais do mundo atual: o nome de Richard Dawkins aparece em 3º lugar, atrás apenas de Umberto Eco (2º) e Noam Chomsky (1º). Se McGrath, tal como afirmam seus admiradores, desbancou mesmo Dawkins, tornando-o lixo descartável, por que então seu nome aparece em posição de destaque nessa lista recente, enquanto os nomes de McGrath ou de Francis Collins, seu simpatizante revisor, não surgem nem sequer na 100ª posição, como intelectuais de peso e influência? Afinal, até aquele ano em que a consulta foi feita, McGrath já havia publicado dois livros atacando o ateísmo e Dawkins: The Twilight of Atheism [O Crepúsculo do Ateísmo] e Dawkins God [O Deus de Dawkins], respectivamente.

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Ah, sim! McGrath cita essa pesquisa já na introdução de seu livro. Comenta a opinião do revisor de Deus, Um Delírio num artigo posterior escrito na mesma Prospect. Sugerindo que a pesquisa ocorreu antes do lançamento da primeira edição do livro de Dawkins, à página XI da introdução, McGrath diz:
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“I am not alone in feeling disappointed here. The God Delusion trumpets the fact that its author was recently voted one of the world’s three leading intellectuals. This survey took place among the readers of Prospect magazine in November 2005. So what did this same Prospect magazine make of the book? Its reviewer was shocked at this ‘incurious, dogmatic, rambling, and self-contradictory’ book.”
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[Não estou sozinho em meu desapontamento aqui. Deus, Um Delírio alardeia o fato de que seu autor foi recentemente eleito um dos três principais intelectuais do mundo. Essa pesquisa ocorreu entre os leitores da revista Prospect em novembro de 2005. E o que foi que a mesma revista Prospect fez do livro? Seu resenhista ficou chocado com este livro ‘indolente, dogmático, vago e autocontraditório’.]
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Todavia, é preciso atentar para alguns fatos:
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1) Como sabemos pelo jornal The Guardian, na edição de 18 de outubro de 2005, o resultado da pesquisa já havia saído no início daquele mês — McGrath parece ter problemas em checar seus dados, o que não vai acontecer apenas desta vez.
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2) A pesquisa foi feita por duas revistas em parceria; não apenas a Prospect, mas também a Foreign Policy, onde não houve essa mesma opinião crítica.
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3) A opinião de um crítico não reflete a opinião dos editores da revista.
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4) A opinião de um crítico não reflete a opinião dos inúmeros leitores das duas revistas que responderam à pesquisa.
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5) Fato mais relevante: o autor da crítica em questão é Andrew Brown, colunista sobre “assuntos religiosos”, e que simplesmente parece ter birra do Dawkins, com certeza por conta da visão crítica do biólogo acerca da religião, já que sabemos que, na mesma revista Prospect, na edição de junho de 1996, Brown escreveu uma resenha negativa a outro livro de Dawkins, Escalando o Monte Improvável, em que falou tudo o que bem quis sobre o livro, e ninguém deu muita bola para a sua opinião, pois o livro foi e continua sendo um sucesso de vendas. Brown parece ter apenas ficado bem irritado com o fato de, apesar de suas críticas a Dawkins, este ter sido eleito um dos três maiores intelectuais do século 20, principalmente entre leitores da própria revista para a qual trabalha e onde fez suas críticas ridículas à obra do outro.
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Além do mais, voltando à questão do livro de McGrath ter desbancado as obras de Dawkins, se isso é mesmo procedente, então por que é que o documentário criacionista Expelled, que terá exibição oficial a partir do próximo dia 18, e que discuti no texto anterior a este, emprega tanto esforço desesperado para atacar principalmente esse cientista. Outra coisa: por que é que o documentário em questão não economiza um pouco de munição, citando esse fato, de extrema relevância para os argumentos do filme, de que Dawkins já é uma mosca inofensiva, pois foi desbancado por McGrath, de forma implacável? Ben Stein, o apresentador do documentário, poderia simplesmente dizer, ao entrevistar McGrath: “Este homem aqui escreveu um livro que acaba com Dawkins. Leia-o! Dawkins já era! Depois que McGrath o detonou, em seus extraordinários livros, ninguém mais fala nesse sujeito nem lhe dá ouvidos no mundo científico!” E fim de papo. Aliás, o filme de Mark Mathis poderia resumir simplesmente a isso o que tinha a dizer sobre Dawkins, poupando a todos dos recorrentes e estúpidos ataques diretos a ele, até mesmo por meio de desenhos animados representando-o em situações ridículas. Com a vantagem adicional de que o filme teria, pelo menos, uma piada engraçada, já que as tentativas de Stein de fazer rir, durante o longa, só funcionam com retardados. “Dawkins já era!” — isso me faria rir, com certeza!
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Bem, em todo caso, já que a garota com quem tentei debater pareceu-me mesmo convencida (ou melhor seria dizer convertida?) pela obra de McGrath, talvez seja hora de vermos que livro tão fantástico é esse, que supostamente botou por terra o trabalho de Dawkins em defesa do neodarwinismo, como teoria científica, e do ateísmo, como posição filosófica perante a vida.
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Para começar, gostaria de salientar que, até mesmo para evitar algum sempre possível problema de tradução, é um alívio para mim ter em mãos as versões originais tanto do livro de Dawkins quanto do de McGrath, a saber: The God Delusion, Bantam Press, 2006, edição em capa dura, e The Dawkins Delusion?, SPCK, 2007, formato brochura. Eu só tinha o primeiro em português, mas consegui agora o original. Toda alusão que fizer aqui será referente a estas edições.
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A esta altura, reconheço minha falha de não ter ainda apresentado os protagonistas desse embate àqueles que não os conhecem. De um lado, Richard Dawkins, zoólogo, etólogo, evolucionista e renomado escritor de divulgação científica, professor na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde ocupa a cátedra de Compreensão Pública da Ciência. Do outro, Alister McGrath, teólogo, com formação em Biofísica Molecular e promotor do que chama de “Teologia Científica”, também professor na mesma universidade de Dawkins, onde leciona Teologia Histórica — e como co-autora de seu livro, destaquemos também a esposa de McGrath, Joanna Collicutt McGrath, que é diácona da diocese de Oxford, com formação em Psicologia Experimental e Teologia Cristã, especializada em estudos bíblicos, além de ministrar palestras sobre Psicologia da Religião na Universidade de Londres.
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Quanto aos livros, uma primeira coisa a chamar a atenção é o fato de que, a fim de responder às 416 páginas em que Dawkins procura expor sua visão crítica da religião com paciência e didática (na edição brasileira, são mais de 500 páginas!), o casal McGrath vale-se de apenas 96 páginas, num dos livros mais finos que já li na minha vida. Alister McGrath procura fugir à questão de que lhe parece ter faltado fôlego para prolongar a discussão, tentando usar o espesso volume do livro de Dawkins como algum tipo de prova de suas más intenções. Na página 7 de The Dawkins Delusion?, ele escreve:
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“... the fact that Dawkins has penned a 400-page book declaring that God is a delusion is itself highly significant. Why is such a book still necessary?

[... o fato de Dawkins ter escrito um livro de 400 páginas declarando que Deus é um delírio é, em si mesmo, muito significante. Por que um livro desse tipo ainda é necessário?] (grifo do autor)

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Eu continuo querendo saber por que é tão conciso um livro que tem a ambiciosa pretensão de analisar minuciosamente e refutar por completo uma obra bem mais volumosa e explicativa, sobretudo por ter sido o livro de McGrath encarado como capaz de responder a todas as dúvidas dos crentes que se sentiram incomodados com as proposições de The God Delusion [“Deus, Um Delírio”, na versão brasileira].
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Mas passemos à análise do que o livrinho do casal McGrath tem a dizer-nos sobre a obra “blasfema” de Dawkins.
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Já no primeiro capítulo, Alister McGrath tenta desbancar a hipótese de Dawkins de que a fé em Deus está relacionada a uma atitude de credulidade infantil, não muito diferente da crença em Papai Noel ou na Fada dos Dentes. Em The God Delusion, Dawkins chama a atenção para o fato de que, à medida que vão crescendo e tornando-se capazes de refletir com base nas evidências disponíveis, é comum que as pessoas, no entanto, abandonem suas crenças infantis em fadas e sei-lá-o-que-mais. McGrath concentra-se nesse ponto da analogia de Dawkins para contra-atacar, buscando diferenciar entre os dois tipos de crenças:
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“How many people do you know who began to believe in Santa Claus in adulthood? Or who found belief in the Tooth Fairy consoling in old age?”

[Quantas pessoas você conhece que começaram a acreditar em Papai Noel quando adultas? Ou que acharam a crença na Fada dos Dentes algo consolador na velhice?] (pág. 03)

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Em sua argumentação, concluirá que, se Dawkins estivesse certo em sua analogia, como explicaria o fato de que muitas pessoas se convertem quando já são adultas, inclusive alguns ateus, como o próprio McGrath alega ter sido um dia. Agora, antes de respondermos a essa pergunta, vejamos o que mais ele diz neste exato momento de sua argumentação anti-dawkiniana:
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“A good recent example is provided by Anthony Flew (born 1923), the noted atheist philosopher who started to believe in God in his eighties.”

[Tem-se um bom exemplo recente em Anthony Flew (nascido em 1923), o célebre filósofo ateu que começou a acreditar em Deus quando já estava na casa dos oitenta anos de idade.] (pág. 03)

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Quis citar mais este trecho porque é exatamente nesta parte que muitos crentes batem palmas e dizem: “Aleluia!” Mas, para a tristeza deles, terei de jogar um pouco de água fria em seu fervor religioso, já que o nosso teólogo aqui está dando uma de espertinho para cima de seus leitores pouco informados. Para início de conversa, Flew — cujo primeiro nome se escreve sem “h” (Antony), a propósito — não começou a acreditar em Deus, tal como McGrath tenta ludibriar seus leitores, fazendo-os enxergar, em suas mentes, uma linda cena de aceitação de Jesus como seu senhor e salvador. O que aconteceu com Flew é que ele, a partir de suas reflexões filosóficas acerca do atual conhecimento do mundo, tornou-se um deísta aristotélico: ele crê numa “Causa Primeira”, segundo a visão de Aristóteles. Em outras palavras: um deus, sim; agora, nada a ver com o Deus dos cristãos. Ou seja, algo bem diferente do que McGrath, espertamente, dava a entender a seus leitores, em seu livro. E, para quem ainda tem alguma dúvida quanto à visão religiosa de Flew, eis o que ele disse numa entrevista que deu, no final de 2004, depois de abandonar sua antiga visão ateísta:
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“I'm thinking of a God very different from the God of the Christian and far and away from the God of Islam, because both are depicted as omnipotent Oriental despots, cosmic Saddam Husseins.”

[Penso num Deus muito diferente do Deus dos cristãos e muito mais longe ainda do Deus do islã, pois ambos são retratados como déspotas onipotentes do Oriente, cósmicos Saddans Husseins.] (In: “Atheist Philosopher, 81, Now Believes in God”, matéria de Richard N. Ostling, Associated Press, 10/12/2004.)

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Obs.: Notem que a imprensa, tal como adora fazer nessas situações por motivo de puro sensacionalismo barato, apesar do conteúdo da entrevista, coloca na manchete: “Filósofo ateu, de 81 anos, agora acredita em Deus”.

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Em todo caso, é curioso que McGrath tenha omitido esse “pequeno detalhe”, acerca de seu belo exemplo de recém-convertido, não é mesmo?
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Mas, voltando ao problema levantado por McGrath, este não oferece mais nada para argumentar contra a analogia proposta por Dawkins, ao passo que esta, por sua vez, ao contrário do que nosso teólogo afirma, pode ser facilmente compreendida. Analisemos os detalhes: 1) o presente deixado misteriosamente sob a cama, somado à confirmação dos pais de que foi mesmo o Papai Noel que o trouxe, fornece evidências para o cérebro da criança, que, então, aceita e assimila a existência do folclórico velhinho; 2) à medida que cresce, toma contato com novas evidências que contradizem a sua crença, com o que, racionalmente, abandona sua antiga visão das coisas — neste sentido, até mesmo a autoridade dos pais costuma assumir novo papel ativo, uma vez que, via de regra, confirmam ao filho, neste estágio, que o velhinho do Pólo Norte, de fato, não existe. Todavia, aqui, vem à tona a questão ímpar da fé: por que ela também não se vai assim, tão facilmente? A verdade é que deixar de acreditar em Papai Noel não é algo que encontre resistência sócio-cultural, como acontece com a questão da fé, numa sociedade de valores moldados, em grande parte, por sobre milenares princípios religiosos, desde tempos remotos, de parcos conhecimentos científicos, onde a visão mística da natureza se impunha, praticamente sem enfrentar oposição racional. (Já discuti esse tema em outro texto neste blog, portanto, não vou mais me estender sobre o assunto aqui. O fato é que, pesquisas outras, que nada tem a ver com o trabalho de Dawkins, constataram recentemente processos cerebrais que corroboram, e muito, a hipótese que ele apresenta em The God Delusion para explicar nossa aparente religiosidade inata. Leiam esse outro artigo, para mais detalhes: “Credo quia absurdum: Uma análise da credulidade humana”, 29/03/2008).
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No mais, essa pressão reacionária, no que diz respeito à negação da fé religiosa, torna a idéia do ente divino mais profundamente enraizada em nossa mente. Daí, não raro, a combinação de fatores “pressão cultural + mecanismo cerebral da credulidade” e a conseguinte manifestação de uma atitude que remete à analogia que Dawkins faz com uma das definições de delírio, que encontra no dicionário do Microsoft Word:
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“‘Persistent false belief held in the face of strong contradictory evidence, especially as a symptom of psychiatric disorder.’ The first part captures religious faith perfectly.”

[“Crença falsa e persistente, mantida em face de fortes evidências em contrário, principalmente como sintoma de transtorno psiquiátrico.” A primeira parte captura a fé religiosa com perfeição.] (The God Delusion, pág. 05)

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Portanto, a resistência externa que há contra o abandono da fé fortalece a impressão desta a tal ponto que, cegamente, as evidências que a contradizem vão sendo, não raro, ignoradas, numa atitude delirante, conforme tal acepção do termo. E, uma vez que tais evidências não são assimiladas, essa crença teísta infantil, em particular, permanece nessas pessoas, mesmo em sua fase adulta.
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Agora, quanto ao ponto destacado por McGrath de que há pessoas que não tinham uma visão religiosa, mas se convertem posteriormente, há que se analisar em que circunstâncias isso ocorre. Afinal, se os processos cerebrais descritos no meu outro artigo dão conta de explicar com clareza as fortes impressões que, de forma individual, temos ao aceitar uma idéia (a existência de um deus, por exemplo) como verdadeira e torná-la, por conseguinte, concreta para nós, há que se levar ainda em conta os aspectos psicológicos participantes do processo, visto de uma perspectiva mais ampla.
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Um exemplo bem conhecido, citado por McGrath, e que também me foi lançado à face pela garota com quem debatia, é Francis Collins. Este é um eminente geneticista, diretor do famoso Projeto Genoma Humano. É um cientista importante, nisso McGrath está coberto de razão, apesar de que sua função no PGH tenha sido mais administrativa, pois o projeto foi um trabalho conjunto de vários geneticistas de diferentes partes do mundo, que foram os que de fato fizeram o trabalho pesado nos laboratórios! Porém, o que tanto McGrath quanto sua leitora bitolada esquecem é que Collins é também um ser humano, sujeito a todas as fraquezas humanas, inclusive aos fortes baques emocionais e as seqüelas que podem deixar.
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O geneticista, que recentemente escreveu um livro em que declara sua conversão a uma visão teísta cristã, revela alguns dados interessantes para o leitor atento, nesse seu relato. O livro em questão se chama A Linguagem de Deus, e qualquer um que o leia vai descobrir uma coisa que McGrath (o grande malandrão) não deixa transparecer em seu livro: Collins faz uma defesa vigorosa da evolução darwiniana nesta obra, ao passo que critica a visão criacionista. Isso mesmo! Nas partes em que usa seu conhecimento científico para avaliar a evolução, ele a corrobora, discorda da posição dos crentes criacionistas, bem como dos defensores do “design inteligente”, e apenas justifica que sua compreensão genética dos mecanismos da evolução lhe levou ao que se pode chamar de evolucionismo teísta, mas que ele prefere chamar de “BioLogos” — que seja! Assim, analisando a evolução, do ponto de vista de seu conhecimento científico, Collins confirma a teoria evolutiva de Darwin e assina em baixo. Menos um ponto para os criacionistas!
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Mas o livro descamba para um discurso absurdo, na hora em que ele deixa a visão científica da evolução e começa a falar em sua conversão adulta ao teísmo cristão. Primeiro, Collins confessa que passou por alguns momentos em sua vida que tiveram forte impacto emocional sobre ele — o estupro de sua filha e o trabalho com pacientes terminais num hospital são bem destacados e dizem-nos muita coisa. É diante disso que ele começa a refletir sobre o sentido de sua vida — outro dado muito significativo. A aceitação da idéia de um deus estereotipicamente filosófico (onisciente, onipotente, onipresente) começa nessa fase. Por fim, esse deus criador, que ele começa a esboçar no cantinho da credulidade em seu cérebro, passa a ganhar os longos cabelos e barbas de Jesus, sem qualquer fundamento racional que leve de uma coisa a outra, quando, depois de ler uma obra de C. S. Lewis — nenhum especialista em filosofia ou teologia cristã, diga-se de passagem —, teve uma revelação: Collins diz que, numa bela manhã, nas montanhas, viu as águas congeladas de uma cachoeira — eram três torrentes congeladas, na verdade. Conclusão: aquilo era um sinal, uma revelação de Deus. Ele acabava de descobrir a verdade da Santíssima Trindade! E, na manhã seguinte, já se entregou a Jesus, reconhecendo o milagre de sua ressurreição. Nesse mesmo momento, as coisas se tornavam, enfim, “claras” em sua mente: a fé no Deus de Abraão, no Espírito Santo e no Jesus ressurreto, unidos em um só ser, era a resposta mais racional aos dados que a Biologia e a Física lhe haviam fornecido, ao longo de sua carreira científica, ao passo que “de todas as perspectivas possíveis, o ateísmo é a menos racional”.
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Lembrei-me de uma música do cantor satírico Falcão, que ouvi outro dia, cujo refrão dizia: “Para mim, uma coisa é um padre, um menino e um jegue, e outra coisa é um pneu de caminhão.” Pelo visto, Collins discordaria — para ele, é tudo a mesma coisa!
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Bem, neste ponto, eu deixo Francis Collins de lado neste artigo. Afinal, qualquer um já deve ter entendido que o homem surtou. A sua conversão, ao contrário do que McGrath tenta fazer parecer, não prejudica em nada a visão darwinista da evolução, já que Collins confirma ainda mais a evolução pela seleção natural e sem design inteligente, e, ao mesmo tempo, ilustra muito bem o quadro da fé tal como sugerido por Dawkins: um tipo de delírio. Alguém duvida que a conversão de Collins, psicologicamente vulnerável, em função das experiências de vida por que tinha passado, tenha sido exatamente isso, um delírio? Procurem o livro dele. Leiam os trechos em que ele descreve sua conversão. As palavras não deixam dúvidas: é uma descrição delirante, do primeiro ao último parágrafo em que ele narra tudo.
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Assim, passemos a outras gracinhas de McGrath, em suas acusações contra Dawkins.
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Tentando fazer diminuir o crédito das pessoas na erudição de seu rival, o autor escreve que Dawkins, em trabalhos anteriores a The God Delusion, costumava citar Tertuliano como tendo dito a notória frase “Credo quia absurdum” [Acredito porque é absurdo], a fim de mostrar que era assim a atitude religiosa, algo totalmente descabido. McGrath, então, escreve o que deve ter feito seus leitores cristãos darem até um risinho de satisfação:
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“He’s stopped quoting this now, I am pleased to say, after I pointed out that Tertulian actually said no such thing. Dawkins had fallen into the trap of not checking his sources, and merely repeating what older atheist writers had said.”

[Ele parou de citar isto agora, tenho o prazer de dizer, depois que eu lhe chamei a atenção para o fato de que Tertuliano, na verdade, não disse nada disso. Dawkins havia caído na armadilha de não checar suas fontes, e simplesmente repetir o que escritores ateus mais antigos haviam dito.] (pág. 5s)

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Dawkins de fato citou equivocadamente Tertuliano como autor da frase acima, num ensaio chamado Viruses of the Mind [Vírus da Mente]. Um erro, de fato, já que o que Tertuliano escreve, em sua obra De Carne Christi [Sobre a Carne de Cristo], é o seguinte:

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“Natus est Dei Filius; non pudet, quia pudendum est. Et mortuus est Dei Filius; prorsus credibile est, quia ineptum est...”
[Nasceu o Filho de Deus; não tenho vergonha, porque é vergonhoso. E morto está o Filho de Deus; é imediatamente acreditável, porque é estúpido...] (cap. 2, verso 4)

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Parecido, em princípio, mas não a mesma coisa. E, mesmo assim, os versos de Tertuliano não querem dizer que ele acreditava no cristianismo porque fosse algo absurdo. A idéia, realmente, não tem a ver com o pensamento do autor cristão do século III. Além do que, a frase “Credo quia absurdum” tem origem desconhecida, podendo até mesmo remontar a uma citação errada e descontextualizada do verso de Tertuliano.
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Todavia, o curioso aqui é notar que, ao contrário do que diz McGrath, essa é a única vez em que Dawkins citou Tertuliano em algum de seus escritos. E a mentirinha de McGrath não pára por aí. A primeira vez que ele notou o erro de Dawkins naquele ensaio foi em seu livro Dawkins God, de 2004. Acontece que já fazia 13 anos que Dawkins tinha escrito o tal ensaio, e nunca mais tinha usado o nome de Tertuliano em nada do que escreveu. Portanto, a historinha de nosso teólogo malandrão, de que Dawkins parou de citar Tertuliano depois de ter sido corrigido por McGrath, é mentira das mais deslavadas! Ele está, como de costume, tentando fazer fama em cima do nome de Dawkins.
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Por outro lado, para quem quer se mostrar muito sabido, McGrath comete deslizes que Dawkins, tirando esse deslize com Tertuliano naquele antigo ensaio, não costuma cometer em mais nem uma de sua obras. Vejamos alguns:
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“Lenin regarded the elimination of religion as central to the socialist revolution, and put in place measures designed to eradicate religious beliefs through ‘protracted use of violence’.”

[Lênin considerava a eliminação da religião como ponto central para a revolução socialista, e preparou medidas planejadas para erradicar as crenças religiosas por meio do ‘uso prolongado da violência’.] (pág. 48)

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Em The Dawkins Delusion?, McGrath afirma isso mas não cita de onde tirou essa informação. Porém, num outro livro seu, The Twilight of Atheism, ele já tinha afirmado o mesmo, acrescentando que a informação estava numa carta de Lênin, escrita em março de 1922. Mas, nem ali, ele cita as palavras de Lênin na tal carta.
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Não importa! Uma versão em inglês da tal carta, datada de 19 de março de 1922, consta do livro The Unknown Lenin [O Lênin Desconhecido], de Richard Pipes. Coisa que não é de surpreender, ela não fala nada de erradicar a religião, mas, sim, propõe discutir com os membros do Politburo a necessidade de se tomar alguma providência contra o clero que desafiava o governo ditatorial soviético, ao mesmo tempo chamando a atenção para não se arriscar a perder a simpatia dos camponeses, com a medida que viessem a tomar. O que importa, contudo, é que, sobre a questão da violência, Lênin escreve, fazendo uma menção a Maquiavel:
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“One wise writer on matters of statecraft rightly said that if it is necessary to resort to certain brutalities for the sake of realizing a certain political goal, they must be carried out in the most energetic fashion and in the briefest possible time because the masses will not tolerate prolonged application of brutality.”
[Um sábio escritor que tratou de questões concernentes à arte de governar acertadamente disse que, se for necessário apelar para certas brutalidades em nome da realização de certa meta política, estas devem ser perpetradas da maneira mais energética e no tempo mais breve possível, pois as massas não tolerarão a aplicação prolongada de violência.]

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Portanto, mesmo eu não simpatizando nem um pouco com o antigo regime soviético, tenho que dizer que não havia nada nessa carta sobre o tema específico da eliminação da religião. Além disso, as palavras de Lênin, sobre o uso prolongado de violência contra os que desafiavam o governo socialista, eram exatamente o contrário do que McGrath escreveu. Ele estava advertindo contra o uso prolongado de qualquer medida violenta que eles decidissem tomar contra aqueles clérigos insubordinados.
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Em outra parte do livro, na página 3, para ser exato, McGrath menciona a participação de Dawkins no quadro “Thought for the Day” de um programa de rádio da BBC, em 2003. Dois erros: Dawkins participou do programa, mas não desse quadro — que não aceita a participação de não-religiosos —, e foi em 2002, na verdade.
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Na página 20, ele menciona um estudo acerca da descrença de muitos cientistas em Deus. Começa dizendo que o estudo foi realizado em 1916. Novo erro de data: foi em 1914. O livro em que é mencionanda a pesquisa é que foi publicado dois anos depois dela. Igualmente, na página 51, ele menciona que a notória Madame Rolande, membro do partido girondista, durante a Revolução Francesa, foi guilhotinada em 1792. Ora, McGrath, consulte direito as suas fontes, cara! A execução foi em 8 de novembro de 1793, como informa qualquer enciclópedia.
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Para alguém que quis fazer piadinha de um erro de Dawkins, que nem mesmo está no livro The God Delusion, McGrath acaba dando um tiro no pé, com tantos deslizes no próprio texto em que critica o outro.
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Em outra crítica de McGrath a Dawkins, ele diz outra mentirinha deslavada, que só não enxerga, na mesma hora, quem for uma besta deslumbrada com seu livro idiota, ao ponto de nunca ler a obra que ele está atacando — atitude típica de gente bitolada. Pois, comentando o fato de que Dawkins discute as famosas cinco vias para demonstração da existência de Deus pela razão, postuladas por Tomás de Aquino na Suma Teológica, tenta fazer parecer que Dawkins cometeu mais um erro, afirmando:
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“Dawkins misunderstands an a posteriori demonstration of the coherence of faith and observation to be an a priori proof of faith – an entirely understandable mistake for those new to this field, but a serious error nonetheless.”

[Dawkins entende equivocadamente demonstração a posteriori da coerência da fé e observação como sendo uma prova a priori da fé — um engano plenamente compreensível para aqueles que são novatos neste campo, mas um erro grave, todavia.] (pág. 7s)

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Lendo isso, fico pensando como pode um sujeito ser tão cara-de-pau. Afinal, basta ler o livro de Dawkins para se ver o quanto esse Alister McGrath é capaz de mentir para levar no papo os mal-informados que lêem apenas a sua obra e declaram ao som de trombetas apocalípticas: “Dawkins foi refutado! Aleluia!” Pois, bem na página 80 de The God Delision, Dawkins diz exatamente o seguinte:
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“Arguments for God’s existence fall into two main categories, the a priori and the a posteriori. Thomas Aquinas’ five are a posteriori arguments…”

[Argumentos em pró da existência de Deus entram em duas categorias principais, os a priori e os a posteriori. As cinco vias de Tomás de Aquino são argumentos a posteriori...]

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Além disso, apesar de McGrath dizer que é um erro discutir as cinco vias tomistas como sendo argumentos para provar a existência de Deus, Dawkins as discute em seu livro justamente porque, ao contrário do que afirma McGrath, a filosofia da religião vem usando as cinco vias como argumentos de demonstração da existência divina, desde a Idade Média até tempos bem recentes.
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Mais adiante, ao comentar a hipótese dawkiniana dos memes — propostos por Dawkins como unidades de informação que se multiplicam de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (tal como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros (q.v. O Gene Egoísta) —, McGrath diz:
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“In The God Delusion, Dawkins sets out the idea of memes as if it were established scientific orthodoxy.”
[Em The God Delusion, Dawkins expõe a idéia dos memes como se fossem ortodoxia científica estabelecida.] (pág. 43)

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Outra acusação falsa de nosso religioso teólogo. Afinal, embora Dawkins tente mesmo defender a idéia dos memes, a qual propôs justamente por achar plausível, ele próprio escreve em The God Delusion — o grifo é meu:
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“(…) the main purpose of meme theory, at this early stage of its development, is not to supply a comprehensive theory of culture, on a par with Watson-Crick genetics.”

[… o propósito principal da teoria dos memes, neste estágio inicial de seu desenvolvimento, não é fornecer uma teoria compreensível da cultura, no mesmo nível da genética de Watson-Crick.] (pág. 196)

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Bem, no mais, eu poderia ficar escrevendo várias outras refutações às inúmeras besteiras que McGrath escreveu em tão poucas páginas, mas isso muitos outros já fizeram, e eu estaria apenas chovendo no molhado. Gostaria, contudo, apenas de mencionar mais uma safadeza desse rapaz arrogante que se apresentou com a proposta de desbancar Dawkins, mesmo não tendo o menor talento intelectual para tal empreitada.
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Em várias partes de seu livreto, McGrath cita a obra The Limits of Science [Os Limites da Ciência], de Peter Medawar. Para qualquer crente que ler apenas o livro de McGrath, ficará parecendo que Medawar e McGrath são seres cujas perspectivas da vida e do mundo estão em perfeita sincronia. Contudo, aconselho a todos a parar de ler apenas uma versão dos fatos e checarem as referências bibliográficas com mais atenção. Como eu já disse, a respeito do filme Expelled, e volto a dizer aqui, sobre esse livrinho do casal McGrath, há muita gente nesse meio disposta a distorcer os fatos de qualquer jeito, a fim de fazer prevalecer sua “verdadeira verdade”.
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Quando McGrath cita passagens do livro de Medawar, omite trechos que lhe parecem, digamos, incômodos. Por exemplo, ao falar das “questões transcendentes”, na página 17 de seu livro, McGrath diz que Medawar relega estas apenas ao campo da religião e da metafísica. Na verdade, ele omite que o autor coloca estas questões como sendo da alçada de uma dentre quatro alternativas: os mitos, a metafísica, a literatura imaginária ou a religião (The Limits of Science, pág. 88). Isso, para não dizer que, em lugar nenhum do livro de Medawar, consegue-se encontrar qualquer passagem que indique que a questão da existência de Deus seja, do ponto de vista do próprio autor, do tipo “transcendente” e, portanto, da alçada de uma das quatro áreas supracitadas.
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E, por fim, Medawar diz algo que McGrath (por que será?) resolveu não compartilhar com seus leitores:
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“To abdicate from the rule of reason and substitute for it an authentication of belief by the intentness and degree of conviction with which we hold it can be perilous and destructive.”
[Abrir mão do governo da razão e substituí-lo pela validação da crença com a rapidez e o grau de convicção com o qual a abraçamos pode ser perigoso e destrutivo.] (Idem, pág. 97)

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Resumindo tudo:

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1) O livro do casal McGrath tenta invalidar a teoria da evolução em face do criacionismo e não chega nem perto de causar qualquer arranhão a essa muito sólida teoria de Darwin — aliás, podemos agradecer a McGrath por nos trazer o exemplo de Collins, que, por um lado, refuta o criacionismo e valida a evolução, enquanto, por outro, nos presenteia com um exemplo perfeito de conversão adulta claramente delirante.

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2) As críticas a Dawkins nem de longe tiram-lhe o prestígio que tem no mundo acadêmico e que McGrath está longe de conseguir, por mais que tente fazer carreira às custas de escrever livros e livros sobre Dawkins. Ademais, sua acusação de que o ateísmo militante de Dawkins é um tipo de fundamentalismo religioso não procede e tomba à primeira análise: o ateísmo científico se baseia na falta de evidências experimentáveis que corroborem a existência de um deus, o que equivale a dizer que, houvesse provas materiais verificáveis da existência de tal ser, todos os cientistas ateus decerto se convenceriam sem problemas; por outro lado, o teísmo é a fé cega, sem necessidade de evidências, ou, citando Paulo de Tarso: “A fé é a substância daquilo que se espera, a evidência das coisas que não se vêem” (Epístola aos Hebreus, 11,1). Isso, a fé é ter evidência daquilo que não se vê nem se comprova por nenhum método científico. Logo, Dawkins marca mais um ponto: a fé teísta é um delírio. Isso, para não mencionar que a militância de Dawkins em defesa do ateísmo se fundamenta na proposta de levar o conhecimento científico a todos os que se vêem cegados pela ignorância religiosa. Seria mais plausível comparar a sua atuação nesse campo à militância política de Chomsky ou à campanha persistente de Cristovam Buarque pela revolução através da via principal da Educação.

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3) Ao longo do finíssimo livro do casal McGrath, como muitos críticos não comprometidos com a missão evangélica cristã constataram, há muitas distorções de trechos do livro de Dawkins, frases citadas fora de contexto, omissões de pontos que Dawkins discutiu, mas que McGrath dá a entender que não, além daquela pilantragem de costume de se deturpar o que outras pessoas disseram, a fim de fazer parecer que suportam sua visão criacionista das coisas. Isso, para não mencionar as falhas encontradas ao longo do texto de The Dawkins Delusion?, das quais citei apenas algumas. Muitos leitores acharam outras tantas.
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Eis o livro que veio com a pretensão de ser a obra que desbancaria Dawkins e suas idéias. Na verdade, só muito barulho por nada!

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Uma última curiosidade: o título do livro de McGrath, em português, é uma afirmação: O Delírio de Dawkins. Contudo, no original, o título vem como uma pergunta, uma proposição de análise — The Dawkins Delusion? [O Delírio de Dawkins?] Depois de todo o exposto até aqui, posso responder com convicção: Não, não! Ao que tudo indica, o delírio é mesmo de McGrath. A começar pelo delírio de grandeza!
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7 comentários:

Não Enche disse...

Parabéns pela resenha.

Eu sei que é desesperador ter que ficar eternamente refutando asneiras e canalhices teológicas. É um trabalho ingrato, e obrigado por fazê-lo.

aarbiomusic disse...

Parabéns pelo exaustivo trabalho Junior! Já li o livro de Dawkins Estou lendo o livro dos Mcgrath e realmente é de uma canalhice assustadora. Conheço alguns cristãos que se sentiriam envergonhados por tamanho mau-caratismo.
Abraço, paz e fiquem sem Deus

Lucas disse...

Desconheço tanto McGrath quanto Dawkins. No entanto, cheguei ao seu site buscando sobre a frase "Credo quia absurdum", que particularmente gosto muito. Gosto porque entendo que fala da história de Cristo, para mim um absurdo para a mente humana, impossível de ser inventada por um homem.

Leila disse...

Estava numa livraria e me deparei com o livro de MacGrath. Uma amiga havia me indicado o mesmo alegando que tinha uma missão de me "converter", posto que numa conversa anterior tinha mencionado Dawkins, especialmente o livro "Deus, um delírio", como o divisor de águas entre o meu agnosticismo de tantos anos e o minha atual posição ateísta. Ela não havia lido o livro que indicara, nem mesmo o livro de Dawkins, e tampouco a Bíblia (ela se diz "espírita"), daí, propus o desafio de que a gente só discutiria religião se ela pelo menos lesse esses três textos (o que, pelo que a conheço, jamais vai acontecer!). Voltando à livraria, não aguentei a curiosidade e folhei o livro. O primeiro choque foi com a finura do mesmo, a segunda foi com a contra-capa em que há uma afirmação de que Dawkins é um ateu fundamentalista. Uns 15 minutos depois, tive que parar de lê-lo (após umas vinte páginas), porque minhas tentativas de parar de rir estavam sendo inutéis e o pessoal da livraria já estava olhando feio para mim.
Adorei seus comentários. Serviram como uma luva!

Emiliano disse...

Muito boa resenha!
Não li o insosso livro de MacGrath, mas dos artigos que tive contato, concluo que ele quer apenas ganhar dinheiro, assim como grande parte dos teístas mais espertinhos.

Valério disse...

acabo de inaugurar minha pasta "favoritos" com teu blog! PARABÉNS! Conteúdo...e num volume arrasador!

Valério disse...

PARABÉNS! Inteligência, análise e conteúdo... e num volume ARRASADOR! Já virou meu blog favorito!

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