sexta-feira, 4 de abril de 2008

"Expelled": O repulsivo circo criacionista

por Júnior Camilo
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Este artigo vai ser longo, mas não posso mais adiá-lo!
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Há alguns meses, escrevi sobre um desses filmes evangélicos que têm a arrogante e ignorante pretensão de desbancar teorias científicas muito bem estabelecidas, quando, na verdade, não passam de propaganda enganosa e formadora de uma visão religiosa tapada e fanática (q.v. “Quando o pastor Mala ‘faia’”, nov./2007). Desta vez, um certo documentário, recém-apresentando em sua pré-estréia nos Estados Unidos — pois a exibição nos cinemas de todo o país será mesmo a partir do dia 18 de abril —, surge com a mesmíssima finalidade: promover idéias criacionistas infundadas e criticar o evolucionismo darwiniano por meio de muita desinformação e distorção de fatos, e sem qualquer fundamentação científica plausível. No entanto, agora, valendo-se de uma campanha promocional com muito oba-oba na mídia, a coisa foi ainda mais salafrária do que de costume! Deixe-me explicar...
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As primeiras críticas do polêmico Expelled: No Intelligence Allowed [Expulsos: Não Se Permite Inteligência Alguma] já dão conta de que, do ponto de vista técnico, é a coisa mais tosca que o cinema documentarista produziu nos últimos tempos: tomadas mal filmadas, baixa qualidade de imagem e edições risíveis e amadoras (com exaustivos cortes indo e vindo entre o narrador e alguma cena ilustrativa de quase que cada palavra que ele diz) foram comentadas na maioria dos textos sobre o filme — e isso dá para ver facilmente nas partes deste já disponíveis no YouTube. O produtor, Mark Mathis, pelo visto não conseguiu achar dentre o imenso rebanho de crentes e criacionistas de qualquer espécie um único sujeito que soubesse fazer um bom trabalho cinematográfico. Mas isso é o de menos!
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A idéia inicial do filme é tentar mostrar que pessoas do meio acadêmico, nos Estados Unidos, que defendem a perspectiva do “intelligent design” [projeto inteligente], em vez da teoria evolucionista, a fim de explicar a origem da vida, estão sendo perseguidos e, até mesmo, demitidos injustamente, numa atitude repressora típica de regimes totalitários — embora o que o filme mostre para corroborar tal acusação seja apenas um astrofísico criacionista, que se inscreveu para obter estabilidade no cargo e não a conseguiu, e uma professora de Biologia, também criacionista, cujo contrato de trabalho venceu e simplesmente não foi renovado, além de algumas entrevistas com pessoas que reclamam de perseguição no trabalho. Duas observações: 1) González, o astrofísico em questão, teve excelentes publicações científicas (citadas no filme), até que conseguiu entrar para o corpo docente da universidade onde trabalha, a partir do que caiu, e muito, de produção — sua efetivação foi negada com base em que seu trabalho já não apresentava a excelência que era de se esperar de um canditado a tal posto; além do mais, 4 dos 12 pedidos de efetivação feitos nos últimos anos foram negados a outros canditados, que não tinham nada a ver com a visão criacionista —; 2) A professora não teve seu contrato renovado porque, segundo testemunhos de colegas e alunos, fornecidos à imprensa, ela aproveitava-se de suas aulas não para ensinar Biologia, mas para pregar o “design inteligente” e afirmar a seus alunos que o anti-semitismo, a eugenia e os campos de concentração nazistas foram todos baseados nas idéias de Darwin. Esqueceram de mencionar estes “pequenos detalhes” no documentário, por isso eu resolvi dar uma forcinha ao roteiro e acrescentar mais estas duas informações aqui, sobre estes “pobres professores perseguidos”.
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Já no primeiro caso exibido no filme, sobre o Dr. Richard von Sternberg, este é apresentado como um tipo de mártir, quando, na verdade, usou de malandragem para publicar numa revista de que era editor, especializada em Sistemática, que nada tem a ver com o embate “evolucionismo versus criacionismo”, sem autorização nem mesmo conhecimento dos demais editores da revista, uma matéria sobre design inteligente escrita por Steven Meyer, conhecido defensor desta hipótese criacionista. E sobre Sternberg, é bom deixar bem claro, a tal “massiva campanha” contra a sua pessoa, de que fala o apresentador do filme, não passou de críticas à sua má conduta profissional, enfiando aquele artigo na revista, tudo na surdina — coisa esta, além de outros fatos negativos, que o narrador do documentário omite de seu público, acerca de seu primeiro entrevistado.
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Bem, em todo caso, a acusação de perseguição contra acadêmicos criacionistas é a idéia inicial... Mas o tema central do documentário é apresentar a hipótese estapafúrdia do tal design inteligente e atacar o evolucionismo e os nomes mais renomados dentre os cientistas que o representam. (Já no início do filme, percebe-se o circo se armando — o narrador começa falando de sua perspectiva religiosa do mundo, num tom emotivo, buscando sensibilizar a seus espectadores, e, logo em seguida, contrapõe à sua bela visão da origem da vida pelas mãos de um “Deus amoroso” a visão descabida dos cientistas ateus: nota-se, sem dificuldade, como o tom de voz fica irônico, ao que as palavras adquirem contornos satíricos, enquanto a narrativa mistura, de uma só tacada, o ateísmo, a abiogênese e a evolução, mencionados de forma superficial e caricatural, de um jeito que faz tudo parecer mesmo ridículo.)
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A propósito, é importante esclarecer que, embora o tal do design inteligente venha sendo proposto como sendo uma teoria que nada tem a ver com religião, ela tem tudo a ver, na verdade, já que sua afirmação é de que a vida foi projetada por um designer consciente, sobrenatural, que, óbvio está, na maioria dos casos, não é ninguém menos do que esse ser imaginário que fomos ensinados, quando criança, a chamar de “Deus” (aliás, sobre isso, leia o artigo anterior neste blog: “Credo quia absurdum: Uma análise da credulidade humana”). É verdade que alguns poucos defendem que o tal designer poderia ser um alienígena, mas, mesmo aqui, o retrocesso em busca da origem desse suposto E.T. que teria semeado a vida na Terra, partindo-se sempre do princípio da complexidade projetada mas nunca evoluída, acabaria levando, em algum momento, a um projetista original, sobrenatural, existente num plano exterior ao das dimensões físicas conhecidas, já que dispomos de apenas 13 a 15 bilhões de anos de idade do universo para ficarmos brincando de imaginárias inseminações alienígenas em sucessivos planetas. Portanto, que fique bem claro: é exatamente essa a “Inteligência” a que se refere o título do longa-metragem, isto é, ao suposto projetista invisível, sobrenatural. E nisso o filme nem mesmo tenta fazer como muitos criacionistas, que falam em design inteligente enquanto evitam usar a palavra Deus, para não parecer menos científica a “teoria alternativa” que defendem. Aqui se fala em designer, “Deus” e “criador”, de forma bem explícita e intercambiável.
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Uma coisa curiosa por si só: falando do sujeito encarregado de nos apresentar esse disparate, o filme, que visa a criticar uma sólida e comprovada teoria científica, traz diante das câmeras ninguém menos do que Ben Stein, um conhecido advogado, ator, escritor, apresentador de programa televisivo e criacionista declarado... mas que não é nem nunca foi cientista! Por outro lado, Stein é famoso por ser um defensor ferrenho de duas coisas para as quais ninguém tem algum argumento de defesa sensato: o criacionismo e o notório presidente Richard Nixon — aquele que teve de renunciar, na década de 1970, para não sofrer impeachment, após a descoberta de que estava metido até o pescoço em atividades ilegais de espionagem e roubo de documentos. Aliás, a defesa que Stein faz de seu admirado presidente, para quem trabalhou como advogado e redator de discursos na Casa Branca, é a de que Nixon foi “mentiroso”, “conspirador”, “encobridor dos fatos”, mas também foi “um promotor da paz” — que comovente isso! É para rir ou para chorar?
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Bem, no que se refere ao documentário Expelled, a vontade é de rir de tanta ignorância, se não fosse pelo fato de sabermos que esse tipo de filme influencia muita gente crédula, doida para conseguir argumentos para defender sua “verdadeira verdade”, que não tem o menor fundamento científico, nenhuma base concreta de sustentação. O pior é que os realizadores do longa também sabem dessa ânsia desesperada dos crentes; afinal, eles mesmos a sentem! E, no propósito de conseguirem montar um circo que alimente a ilusão de todos, inclusive a sua própria, mostram que são mesmos fiéis à inspiração bíblica, no final das contas. Tal como Abraão usou de pilantragem duas vezes, a fim de conseguir tirar vantagens materiais do Faraó do Egito (Gên. 12:11-20) e de Abimelec, rei de Gerara (Gên. 20:1-16), e, seguindo seu mal exemplo de vigarice, também passou a perna no mesmo Abimelec o seu filho Isaac (Gên. 26:6-15), enquanto que o filho deste, Jacó, por sua vez, usou da velhacagem aparentemente hereditária para roubar a benção de seu pai moribundo, que se destinava a seu irmão, Esaú, por direito (Gên. 27), cada um desses atos de safadeza tendo tido a aprovação do deus bíblico, não é de se estranhar que os criacionistas realizadores do filme Expelled não se importem nem um pouco em usar do mesmo tipo de malandragem, no intento de realizar o seu documentário.
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Verdade é que, meses atrás, o renomado biólogo da Universidade de Oxford, Richard Dawkins, bem como outros eminentes cientistas foram convidados a dar entrevistas que seriam usadas num documentário produzido pela Rampant Films, tendo Ben Stein como apresentador. O título do filme seria Crossroads [Encruzilhada] e deveria ser um exame acerca dos pontos de interseção em que se esbarram ciência e religião. Dawkins, a antropóloga Eugenie C. Scott, o escritor e historiador da ciência, Michael Shermer, dentre outros, concordaram em ceder entrevistas para o tal filme. Porém, para a surpresa de todos, eis que suas entrevistas aparecem agora editadas, metidas num filme de outra produtora, a Premise Media, com outro título, e que é totalmente realizado no claro intuito de denegrir a imagem desses cientistas, bem como do evolucionismo neodarwiniano, de que são respeitados expoentes. Se o nome disso não for safadeza, não sei mais do que chamar!
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Terem sido enganados a fim de participar de um documentário criacionista, de roteiro claramente unilateral, não irritou esses cientistas tanto quanto as imagens que eles viram sendo exibidas, enquanto Ben Stein ia fazendo de tudo para ridicularizar o trabalho deles, bem como sua visão científica da origem da vida. Pois, na verdade, numa atitude de cretinice sem cabimento, que revela apenas o quanto uma pessoa pode jogar sujo a fim de defender seu ponto de vista fanático-religioso, o filme, então, faz vir à tona sua principal acusação: aceitar o evolucionismo pode levar a um novo Holocausto (pretensamente, com ateus evolucionistas prendendo crentes e enviando para o extermínio em campos como os de Auschwitz e Dachau).
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Ora, isso não é apenas ridículo, é asqueroso! É o golpe de publicidade religiosa mais nojento de que se tem notícia em nossos tempos. A idéia patente do filme é que, sem o darwianismo, Hitler jamais teria promovido a perseguição e o massacre de judeus, que mancharam as páginas da história de forma tão horrenda. Como se vê, Stein chega a dizer no filme que a teoria darwinista não é apenas algo que pode estar errado, ela também pode ser extremamente perigosa. A acusação não é apenas absurda, ela é uma distorção aberrante dos fatos.
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Antes de mais nada, é importante que se entenda uma coisa: a teoria biológica da evolução darwiniana nada tem a ver com o repulsivo conjunto de idéias racistas que, desde a década de 1930, passou a ser chamado de “darwinismo social”. Essas idéias infundadas que sustentam a superioridade de uma determinada raça dentre os povos e a primazia desta sobre as demais não vêm de Darwin, mas, sim, de Herbert Spencer, que, aliás, foi o infeliz que primeiro falou em “sobrevivência dos mais aptos”, em meados do século 19. E não preciso nem dizer que Spencer estava, na verdade, distorcendo a teoria biológica de Darwin, transpondo-a para um outro campo menos empírico e mais subjetivo, o da ética. Praticamente todos os cientistas evolucionistas de nossos tempos simplesmente abominam o que sustenta o chamado “darwinismo social”. Dawkins, em particular, já afirmou, mais de uma vez, o quanto ele não é nem um pouco “darwinista”, nesse sentido, nas questões políticas e sociais. Num recente artigo, ele escreveu:
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I want to construct a society which is about as un-Darwinian as we can make it


[Eu quero construir uma sociedade que seja tão não-darwiniana quanto consigamos torná-la].

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Por outro lado, as idéias absurdas defendidas pelo darwinismo social são praticamente ecos de todo o pensamento e políticas de figuras conservadoras, de visão política direitista, admiradas pelo apresentador de Expelled, bem como por muitos cristãos estadunidenses, como, por exemplo, a ex-primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, o animal que impera na Casa Branca, hoje em dia, George W. Bush, e mesmo o já mencionado ídolo de Ben Stein, ou seja, Richard Nixon, o vigarista “promotor da paz”.
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Não bastasse isso, a insistente ligação da teoria evolucionista com os horrores promovidos pelos nazistas contra os judeus, tal como feita no documentário, deixa extremamente indignado qualquer um, com um mínimo de informação histórica, porque, na verdade, basta ler o livro de Hitler, Mein Kampf [Minha Luta], para se ter uma boa idéia daquilo que muito inspirou seu ódio declarado contra os judeus. No capítulo 2, do primeiro volume dessa autobiografia nojenta de uma figura detestável que o mundo infelizmente conheceu, Hitler escreve:
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So glaube ich heute im Sinne des allmächtigen Schöpfers zu handeln: Indem ich mich des Juden erwehre, kämpfe ich für das Werk des Herrn

[Assim, acredito estar agindo segundo a vontade do Criador todo-poderoso: Defendendo-me dos judeus, luto pela obra do Senhor].
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E esta é apenas uma das muitas citações parecidas que esse verme espalhou em seu livro, invocando repetidas vezes o nome de “Deus” e destilando seu veneno racista contra aqueles que, mais tarde, estaria enviando ao extermínio, enquanto era publicamente abençoado e cortejado por bispos católicos, tudo em face da inércia criminosa do papa Pio XII.
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Por isso mesmo, diante de tudo o que já expus até aqui, chega a irritar profundamente que Ben Stein seja mostrado numa cena, enquanto visita o antigo campo de concentração de Dachau, na Alemanha, tendo uma reação ridiculamente teatral, que deixou indignado um monte de espectadores não-ignorantes, de levar as mãos ao rosto, como uma criança aterrorizada, quando o guia local lhe informa que inúmeros judeus foram mortos naquele lugar. Stein quer o quê, afinal? Que o público desse filme idiota (que, na maior parte, será um bando de gente de pouca instrução, que levarão a sério todas as besteiras afirmadas ali por pura ignorância científica e histórica) acredite mesmo que ele ficou sabendo daquilo naquele exato instante? Ele esteve em que planeta nos últimos 60 anos? E o que diabos foi fazer em Dachau, então? Deu uma passadinha por lá, por mero acaso? Ora, Stein, dê um tempo! Paciência tem limite!
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Agora, a grande pergunta: qual é mesmo o motivo de tanta pilantragem, de tanta enganação sem-vergonha promovida nesse filme? Ah, sim! Tentar desbancar a mais do que bem fundamentada teoria da evolução darwiniana e apresentar como substituta para ela a espiclondrífica hipótese do design inteligente (D.I.), também conhecida como teoria do foi-Deus-que-fez-isso.
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Design Inteligente?!?
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O que o filme busca mostrar a seu público (seus realizadores estando cientes de que a imensa maioria dos crentes tem um raso ou nulo conhecimento de Biologia) é que a notável complexidade da vida orgânica só pode ter sido projetada por um designer sobrenatural, de inteligência superior. Os seres vivos têm órgãos super-complexos, tudo perfeitamente projetado para exercer sua respectiva função dentro do corpo: eis a mensagem pregada em Expelled. Porém, o que o filme omite a seu público é que, embora a vida seja mesmo altamente complexa, a ponto de maravilhar os cientistas que a estudam, isso não significa que ela seja perfeita. Nenhum biólogo com conhecimento aprofundado dos mecanismos genéticos, moleculares e orgânicos da vida tem essa ilusão ingênua de achar que os seres vivos são de uma perfeita complexidade. Na verdade, todos os seres apresentam tantos problemas, tantos “defeitos de fábrica”, digamos assim, metaforicamente, que só mesmo a teoria da evolução explica o porquê desses traços bizarros.
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Há vários exemplos, dos quais posso citar alguns.
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As baratas, às vezes, desenvolvem um par de asas a mais do que o normal, exatamente como era comum em seus ancestrais de milhões de anos atrás, encontrados fossilizados. Ao contrário das cobras em geral, as jibóias possuem vestígios de patas traseiras atrofiadas. Algumas aves não conseguem voar, porém têm asas que simplesmente lhes são inúteis. Pingüins têm ossos ocos, tal como as aves que voam e que, portanto, precisam ter menos peso, o que não é o caso dessas avezinhas simpáticas das gélidas regiões do hemisfério sul. Animais que vivem o tempo todo na água, como cobras do mar, golfinhos e baleias precisam vir à superfície respirar, caso contrário morrem afogados — uai, se foram mesmo criados como seres aquáticos, por que não foram projetados para respirar dentro d’água, como os peixes em geral? Isso, para não falar nas baleias da sub-ordem Mysticeti, que não têm dentição quando adultas, porém, enquanto ainda são fetos, apresentam dentes que são posteriormente absorvidos — como é que alguém vai querer dizer que esses dentes temporários dos fetos têm alguma utilidade e fazem parte de um projeto impecável realizado por um designer invisível?
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E mais: faz tempo que os registros fósseis levaram os paleontólogos a concluir que as baleias evoluíram de mamíferos terrestres, já que seus ancestrais apresentavam pernas, nos fósseis encontrados, de 50 milhões de anos atrás. Portanto, não surpreende, de forma alguma, encontrar ainda hoje vestígios de membros posteriores visíveis nos fetos de algumas baleias modernas, vestígios estes, que desaparecem com o desenvolvimento do animal. Além disso, as baleias de hoje ainda trazem vestígios, não visíveis exteriormente, de ossos pélvicos reduzidos, demonstrando que esses animais já tiveram quadril um dia. Isso se explica facilmente pela teoria da evolução, mas seria muito difícil alegar que se trata de um projeto inteligente de engenharia biológica.
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Para não citar o fato de que há tantas características anatômicas nos seres vivos, que são inquestionavelmente inúteis, as quais, só mesmo com muita ingenuidade e ignorância, alguém poderia dizer ser fruto de algo planejado, intencional. Por exemplo, humanos apresentam vestígios de um rabo no cóccix ao fim da coluna vertebral e, de fato, alguns bebês chegam a nascer com um rabinho residual, que é cortado no parto. Os embriões da maioria dos animais vertebrados, incluindo os humanos, apresentam olhos bizarramente localizados nas laterais da cabeça. Para aqueles que, como nós, desenvolvem visão binocular, esses olhos precisam se mover para frente da cabeça, enquanto o feto vai se amadurecendo. Porém, em alguns casos, esse movimento acaba não se completando, e a criança ou animal nasce com olhos muito separados, resultando numa triste deformidade facial — que belo design, hein!? Sem falar que nossas mandíbulas são muito “mal-projetadas” para caberem nossos dentes sisos, o que acarreta, não raro, a necessidade de ir-se ao dentista para que sejam extraídos.
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Mais um exemplo que eu mesmo estudei com calma, ao me aprofundar na anatomia do aparelho fonador, durante meu curso de Lingüística. O nervo laríngeo recorrente nos mamíferos em geral não se estende diretamente do cérebro até a laringe, como se deveria esperar de um projeto com o mínimo de cuidado e competência. Na verdade, ao chegar ao pescoço, o nervo laríngeo recorrente direito emerge do nervo vago, e aí começa um complicado trajeto desordenado. Passando na frente da primeira porção da artéria subclávia direita, a qual ele circunda por baixo, o nervo alcança o espaço entre a traquéia e o esôfago, e inicia seu trajeto cervical numa trajetória de subida oblíqua. Já à esquerda, o nervo vago passa entre as artérias carótida e subclávia para colocar-se, agora à altura do tórax, junto ao contorno lateral do arco aórtico. É aí que ele dá origem ao nervo laríngeo recorrente esquerdo, que circunda o arco aórtico por baixo, em torno do ligamento arterioso e sobe, numa trajetória vertical em direção ao pescoço, para se situar no sulco traqueoesofágico. Para se ter uma idéia do que essa maratona toda significa. Numa girafa, por exemplo, enquanto seriam necessários apenas cerca de 30 centímetros de nervo, em algo verdadeiramente projetado, para se conectar o cérebro à laringe, esse desperdício todo de material que se verifica resulta em que, de fato, esse animal tem um nervo laríngeo recorrente de cerca de 6 metros de extensão, fazendo um monte de voltas assim! Justamente por causa desse exagero inútil de nervo extra, muitas vezes, nós desenvolvemos distúrbios nessas mesmas vias neurais, que nos predispõem a problemas respiratórios e pneumonias, bem como podem causar alterações em nossa voz. Repito: num corpo que tivesse sido mesmo projetado, não encontraríamos essa bagunça de nervo passando por tudo quanto é canto, em vez de ir direto ao ponto a que se destina.
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Ah, sim! Há um órgão que todo criacionista adora mencionar como algo tão perfeito que apenas um criador poderia ter concebido: o olho. Sim, de fato o olho é um órgão de fascinante complexidade. Mas sua estrutura é entendida com facilidade, do ponto de vista da evolução cumulativa, ao passo que, por outro lado, dificilmente se poderia dizer que é um trabalho de design admirável. Digo, uma vez que entendemos que é um órgão que evoluiu ao longo de sucessivas gerações, ficamos mesmo fascinados, enquanto, ao mesmo tempo, compreendemos suas falhas estruturais (pois o olho tem, sim, alguns probleminhas, dos quais já falarei), já que não é fruto de nenhum projeto inteligente. Todavia, querer dizer que o olho foi criado é o mesmo que afirmar que o criador é um verdadeiro retardado.
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Explico-me: nos olhos de todos os vertebrados, os “fios” de cada uma das células fotossensíveis da retina passam bem na frente da própria retina e se reúnem num feixe de ramificações que adentram o nervo óptico, o que acaba resultando num ponto cego em nossos olhos — que apenas não atrapalha por demais nossa visão, porque o cérebro compensa a falha, na hora em que as informações visuais são processadas no lobo occipital. Porém, é importante observar que isso é exatamente o contrário do que deveria ser, caso o olho fosse mesmo projetado. Afinal de contas, que designer inteligente é esse que não fez com que essas inervações se espalhassem por trás da retina, como qualquer imbecil concordaria ser a forma correta, em algo realmente projetado? (Obs.: Nas lulas e polvos, por exemplo, os fios das células receptoras na retina passam exatamente por trás dela, como seria o indicado. Por que será que o criador inteligente teria resolvido caprichar mais nas lulas e polvos do que em nós, humanos?) Outro problema se refere à forma como as células fotossensíveis retinais estão arrumadas, a fim de captar a energia luminosa. A coisa funciona, isto é verdade, mas está longe de ser um serviço bem feito. Pois o fato é que essas células estão atrás da rede de vasos sangüíneos dos olhos, quando o mais lógico seria que estivessem na frente, o que pouparia o considerável trabalho que o cérebro acaba tendo para conseguir “apagar” as sombras criadas pelos vasos.
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Há ainda muitos outros achados intrigantes da genética e da biologia molecular hodiernos, que poderiam ser citados aqui, para mostrar que a vida é, sim, complexa e muito interessante. Porém, isso nem de longe significa dizer que seja perfeita, que seja uma coisa, sem dúvida, projetada por uma inteligência superior e sobrenatural. Falar em design, no que se refere aos organismos viventes, só seria aplicável se se tratasse de design nada-inteligente, feito com gritante incompetência.
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Ao mesmo tempo, quanto mais se desenvolvem os variados ramos da ciência, mais vão sendo constatadas evidências que comprovam a evolução pela seleção natural, tal como Darwin a detectou, ainda no século 19, e vão se tornando mais claros os processos nela envolvidos. Para fornecermos uma última ilustração interessante, destacado pela genética molecular, e que confirma de forma evidente nossa evolução, bem como o nosso parentesco genético com outros animais, basta analisarmos, por exemplo, a cadeia beta da proteína respiratória, hemoglobina, presente no interior dos eritrócitos, dando-lhes sua pigmentação vermelha. Num humano adulto normal, o número de aminoácidos presentes na cadeia beta da hemoglobina é 146. Comparada à mesma cadeia protéica no sangue de um gorila, dos 146 aminoácidos existentes em humanos, apenas um é diferente! Em comparação com um chimpanzé, nenhum é diferente! E, se continua-se a comparar, verifica-se que o número de aminoácidos diferentes do de humanos nessa cadeia protéica vai aumentando quanto mais nos afastamos de nossos parentes mais próximos no reino animal, exatamente como prevê a teoria da evolução darwiniana. Um gibão apresenta 2 aminoácidos diferentes, um macaco Rhesus apresenta 8, e assim por diante: cachorro (15), cavalo (25), galinha (45), rã (67), enquanto que uma lampreia, um tipo de peixe com forma de enguia, sem maxilas e de boca em forma de ventosa circular, apresenta uma diferença de 125 aminoácidos na mesma cadeia de sua hemoglobina, em comparação com a hemoglobina humana.
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Enfim, estes exemplos são apenas um brevíssimo resumo de tudo o que os mais variados ramos das ciências biológicas descobriram, ao longo das últimas décadas, e que confirmam, de forma indiscutível, a teoria evolucionista. O darwinismo explica, sem furos, a origem e todo o desenvolvimento dos organismos vivos no mundo, até os estágios atuais. A empreitada descabida e fanática de crentes criacionistas, por outro lado, no que invocam a hipótese de um projeto intencional por trás do surgimento da vida, só podem, no fim, defender que ou o projetista em questão passa longe de ser inteligente ou, talvez, seja tudo obra de um monte de deuses criadores, que vivem em total desacordo, um sabotando o trabalho de engenharia biológica do outro.
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Dito isso, uma conclusão sobre o filme Expelled: o documentário não passa de uma campanha de promoção da ignorância religiosa, realizado por meio de muita pilantragem e má-fé de crentes fanáticos e sem escrúpulos. (Aliás, um incidente muito curioso, que parece até piada, aconteceu quando o Dr. P.Z. Myers, famoso biólogo estadunidense e autor do Pharyngula, um dos blogs científicos mais populares da internet, que é um dos acadêmicos ridicularizados no filme e cujos depoimentos foram obtidos por meio daquela enganação toda acerca do tal bem-intencionado Crossroads, foi assistir à pré-estréia, acompanhado de sua família e um amigo convidado. Myers estava às portas do cinema, quando foi abordado, de repente, por seguranças, que lhe comunicaram que sua entrada tinha sido vetada. Isso mesmo! Os produtores de um filme que alega haver criacionistas sendo injustamente expulsos do meio acadêmico foram que, na prática, expulsaram, por nenhum motivo justificável, uma pessoa que, mesmo sem o saber, era uma das estrelas do documentário. A ironia, no entanto, foi que, enquanto P.Z. Myers era conduzido para fora do prédio, sua família, que estava na fila, entrou, sem problemas, acomapanhada de seu convidado, que era ninguém menos do que... Richard Dawkins! Preocupados em retirar Myers do local — já que este tinha se inscrito formalmente para ver o filme e, portanto, tinha fornecido seu nome na lista de espectadores —, nem notaram a presença do biólogo britânico, que foi a figura mais atacada no filme. Dawkins passou despercebido porque tinha sido levado como convidado anônimo de Myers, algo permitido na inscrição para ver o longa. No fim, numa atitude absurda e hipócrita, ao que os créditos finais aparecem na tela, surgem nomes de pessoas às quais a produção se diz extremamente grata: especiais agradecimentos a Dawkins e P.Z. Myers. É de revirar o estômago ou não é?)
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Já consigo até antever pastores televangelistas, em breve, enchendo os bolsos de dinheiro com a venda desse circo da enganação, em DVD, dublado ou legendado em português, para sua imensa massa de fiéis alienados, aqui no Brasil. No entanto, a grande verdade — que, infelizmente, muitos vão continuar ignorando — é que o D.I., o tal design inteligente, não vem sendo injustamente “expulso” [expelled] do sistema educacional. Ele só foi reprovado no teste de explicar a origem e desenvolvimento da vida com um mínimo de plausibilidade. Algo que, por sua vez, a teoria de Darwin faz com sucesso, sustentada pelos sólidos pilares da moderna Biologia.
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2 comentários:

Alexandre Kühn disse...

Resenha perfeita! Não sei aonde você consegue todas essas informações, mas está de parabéns, você e o seu blog.

aproveito humildemente para divulgar o meu blog:

www.pensamentoateu.blogspot.com

Grande Abraço!

Agnon Fabiano disse...

Fiquei com receio de comentar seu post, pelo fato de talvez não ter tempo de discutir sobre o assunto. Aliás, muito bem escrito, do ponto de vista literário.

Porém, o fato é que o tipo de fervor, ódio e entusiasmo espalhado por todo o texto é o mesmo tipo de sentimento que ateus e agnóstico chamariam de alienação e fundamentalismo, quando inseridos em textos cristãos. A fé dos cristãos, que tanto se condena a favor da ciência, como se ambas fossem mutuamente exclusivas, é vista da mesma forma em toda teoria da evolução. Milhões de anos, meia dúzia de ossadas (quando muito), especulações físico-naturais, sociológicas e psicológicas do passado, etc., isso tudo é uma espécie de crença, de fé, de acreditar no que não se viu. E não há provas para isso, pode acreditar. "Te condenas no que reprovas". Toda e qualquer teoria que se apóie em um passado distante tem que especular sobre as condições naturais e sociais da época.

O que está acontecendo é que com o “estica-e-puxa” do conceito de "evolução", os evolucionistas podem usar qualquer exemplo de mudança como evolução. "Evolução", da maneira em que estão aplicando, pode significar qualquer coisa, desde a declaração não controversa de que uma bactéria “desenvolve” resistência aos antibióticos, à grande afirmação metafísica de que o universo e a humanidade “evoluíram” inteiramente por forças mecânicas sem propósito. Uma palavra elástica assim pode induzir ao erro, entrelaçando o que sabemos da afirmação menos abrangente com o que NÃO sabemos da mais abrangente, dando a entender que o que afirmamos para o conceito mais restrito solidifica a teoria do conceito mais global. Simplismente uma falácia.

A evolução não se sustenta através de provas, mas sim, apesar delas. Fazem isso com muita sutilidade, de maneira que pensamos que está explicado. Como disse Chesterton, a palavra “evolução” parece ter certa tendência a substituir “explicação”... A noção de suavidade, de consolador, de gradativo e lento constitui uma grande parte da enorme ilusão.

Um abraço.

AVISO

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