sábado, 19 de abril de 2008

Está escrito: "Deus odeia bichas"

por Júnior Camilo
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Nos principais noticiários do Brasil e do mundo, lá estão eles. Sorridentes, lado a lado, acenando para a multidão que os vem venerar. Homens um tanto diferentes — isso, qualquer um pode notar —, mas tendo em comum justamente o que há de pior na mentalidade de muitas pessoas, hoje em dia: ambos se julgam instrumentos de Deus na Terra e condenam, com veemência, o aborto, as pesquisas com células tronco e a união entre homossexuais. Olhando bem para as caras de Bento 16 e George Bush, na visita do papa à terra da besta (quadrada) do Apocalipse, e estando eu ciente do poder que os dois têm no mundo, não saberia dizer qual me enoja mais.
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Tudo acontece na mesma semana em que fui questionado acerca de um tema que tem representado um problema de longa data, na vida de um amigo de uma amiga — como, na verdade, tem sido um problema no cotidiano de incontáveis outras pessoas no Brasil e em qualquer outro lugar. “A Bíblia condena mesmo o homossexualismo?”, perguntou-me ela, desconsolada pela angústia pessoal enfrentada pelo amigo: gay e cristão. “Infelizmente, sim”, tive de responder-lhe com sinceridade, mesmo sabendo que aquela pergunta encerrava em si uma tácita esperança de que houvesse uma outra resposta. Todavia, está lá, escrito com todas as letras, em passagens do Velho e do Novo Testamento.
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Ainda que existam, em nossos tempos, algumas denominações cristãs que tentam fazer uma espécie de revisionismo bíblico, interpretando de um modo bem liberal várias passagens dessas escrituras, que são notavelmente repressivas e condenatórias, o fato é que, para qualquer um que entenda os livros da Bíblia como sendo a palavra de Deus, tal como este a inspirou na mente de seus autores sagrados — o que é a visão da imensa maioria das igrejas —, não há como discutir: o Deus bíblico abomina o homossexualismo. A posição não poderia ser mais clara e manifesta: “Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação” (Lev. 18:20), ou “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão a sua culpa” (Lev. 20:13). Ao mesmo tempo, do ponto de vista do lesbianismo, mesmo não havendo nenhuma passagem bíblica que fale especificamente do relacionamento sexual entre mulheres, é bom se ter em mente que isso se deve, sobretudo, a uma postura machista da antiga sociedade tribal hebraica — que direcionava as leis religiosas (e sociais) aos homens, porque às mulheres cabia apenas ser subservientes a eles. Então, se algo era proibido aos filhos varões de Israel, que dirá às suas filhas. Mesmo assim, por via das dúvidas, na Epístola de Paulo aos Romanos, há uma passagem que parece repreender precisamente esse tipo de relacionamento entre mulheres:
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... Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. (Rom. 1:24ss)

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Alguns estudiosos bíblicos têm interpretado todas essas passagens como se referindo à “prostituição cultual”, o ato de “vender-se a outros deuses”, em vez de ser uma condenação denotativa do homossexualismo. Diante de tal interpretação, que exige um grande esforço de imaginação, diga-se de passagem, já existem não só algumas igrejas mais liberais que aceitam gays e lésbicas como membros, como também aquelas, raríssimas e polêmicas, que os recebem em funções ministeriais. Além do que, alguns setores progressistas (e minoritários) dentro de igrejas mais conservadoras, incluindo-se aí a Igreja Católica Romana, também têm adotado essa interpretação da Bíblia como usando uma linguagem conotativa, isto é, de sentido figurativo, quando parece — eles enfatizam — estar condenando a homossexualidade.
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Como alguém que estudou Literatura, dentre as disciplinas de meu curso universitário, sei muito bem que um texto pode e deve ser interpretado além de sua dimensão superficial e explícita. Contudo, a Bíblia não é vista como uma obra de ficção literária. E mais: ela é, como se o crê, um código moral de um deus para seus fiéis, que, justamente por isso, não deve jamais ser retirado de seu contexto cultural original por seus estudiosos, para fins de análise e interpretações individuais. A cultura machista e homofóbica dos antigos hebreus, desde os tempos da lei mosaica, passando pelos cristãos, ao longo da história, até os dias de hoje, não deixa dúvidas de que tais interpretações literárias dessas escrituras são ingênuas e enganosas — elas tentam, na verdade, tornar o deus bíblico menos intolerante do que ele é. Crentes normalmente não interpretam as palavras como linguagem figurada (a não ser quando lhes convém, como veremos ao fim deste longo artigo). De modo que, interpretá-las assim cria um jogo fantasioso, um faz-de-conta de que Deus aceita todos, em sua diversidade, inclusive do ponto de vista de sua sexualidade. Um jogo perigosamente enganador, de fato, que afasta da consciência a observação e reflexão críticas, que poderiam levar à invalidação da autoridade do texto bíblico nessas questões (tal como deveria ser), e traz uma falsa paz de espírito para aquele que se deixa convencer de que não há conflito entre sua homossexualidade irreprimível e a “apenas aparente” condenação que lhe faz a “palavra de Deus”.
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Assim, vemos gays, lésbicas e bissexuais de religiosidade judaico-cristã, que vão se enganando e tentando conciliar sua natural orientação sexual com a necessidade cultural que sentem de que seu deus a aprove, apoiando-se, para isso, nessas tantas interpretações liberais e distorcidas da gritante tirania homofóbica que há na Bíblia. Mas eis o papa e o presidente Bush nos dizendo, com todas as letras, a forma como eles — e a imensa maioria dos fiéis — interpretam o que as escrituras dizem: os não-heterossexuais são pervertidos agindo contra a natureza, tal como Deus a criou, e, portanto, condenados ao tormento sem fim nas chamas do inferno.
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E é quando se fala em natureza sexual, que outras duas perguntas surgem, na aparente pretensão de importunar: 1) A homo ou bissexualidade é algo natural? 2) Se for, isso não seria um paradoxo perante a teoria da evolução darwiniana, uma vez que, pelo menos no caso da homossexualidade, estamos falando de relações não-reprodutivas, que não garantem, portanto, a transmissão genética de geração para geração?
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Bem, vamos tentar nos concentrar em cada uma dessas perguntas por sua vez.
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Homossexualidade/Bissexualidade: natural ou anti-natural?
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Fato um tanto curioso, dentre as criaturas mais sexualmente eficientes do planeta, destacam-se notavelmente as moscas-das-frutas, sobretudo por sua capacidade de gerar uma nova prole a cada duas semanas. Pois foi justamente num grupo de moscas desse tipo que alguns cientistas, durante um experimento laboratorial, realizaram o transplante de um gene que causa, dentre seus efeitos em larga escala, a mutação da cor de seus olhos — em vez dos olhos vermelhos, normais nesse tipo de inseto, as moscas geneticamente modificadas apresentam olhos brancos. Porém, foi com surpresa que esses cientistas descobriram que as moscas machos do grupo mutante eram diferentes das outras não apenas na cor de seus olhos: elas também revelaram-se, todas, homossexuais. Ou, para ser mais preciso, tornaram-se bissexuais com predominância da orientação homossexual, isto é, na presença de machos e fêmeas, as moscas machos de olhos brancos preferem sempre copular com outros machos; porém, se uma dessas mesmas moscas é mantida cercada apenas por fêmeas, ela copula com estas e as fertiliza, sem problemas.
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O experimento supracitado, ainda que fascinante, não responde às questões referentes à homossexualidade humana, isso é óbvio. E, na verdade, nem mesmo esclarece toda a questão em torno das moscas-das-frutas, já que o transplante genético só surte efeito sobre as moscas machos, visto que nenhuma mosquinha fêmea de gene alterado revelou-se “lésbica”. Entretanto, uma coisa o experimento confirma: há um componente genético na sexualidade dos animais.
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Animais? Sim, animais... em geral!
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É curioso constatar que, desde a Antigüidade, tanto aqueles que condenavam o homossexualismo quanto os que o defendiam e o assumiam publicamente mantinham o senso comum de que os animais só apresentavam comportamento heterossexual. Assim, é comum ver críticas ao comportamento homossexual remeterem, com freqüência, ao exemplo supostamente sempre heterossexual dos animais na natureza — a evidência de que Deus fez machos para copularem com fêmeas e vice-versa. Por outro lado, os antigos gregos, por exemplo, que defendiam o homossexualismo e o valorizavam normalmente em sua sociedade, como a forma ideal de relacionamento sexual, costumavam usar o mesmo argumento da aparente heterossexualidade exclusiva dentre os animais para justificar, orgulhosos, que a atividade homossexual era fruto do desenvolvimento do potencial racional. Os homens, seres superiores aos bichos em sua irracionalidade inerente, teriam nas relações homossexuais uma prática sublime para a obtenção do prazer, descoberta por sua iluminada razão.
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O que nenhum dos lados tinha ainda observado, no entanto, era que estavam muito, muito equivocados em suas opiniões acerca do comportamento sexual dos animais em geral.
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Para início de conversa, dentre os primatas, dos gorilas e chimpanzés aos macaquinhos mais distintos dos humanos, registros de relacionamentos homossexuais macho-com-macho e fêmea-com-fêmea têm sido feitos aos montes, por cientistas que os estudam em seu hábitat ou mesmo em cativeiro. Num estudo com macacos carecas (Macaca arctoides) mantidos em cativeiro, por exemplo, foram observados 143 relações de caráter sexual. Destas, 23 foram relação entre fêmeas, geralmente resultando em orgasmo. Em diversos outros experimentos observacionais do comportamento sexual de primatas, já se constataram comportamentos homossexuais o mais diversos possível. Um desses estudos fez registros de macho sendo montado por outro (em macacos da espécie Macaca nemestrina, babuínos, orangotangos, chimpanzés e bonobos), monta com penetração anal (em macacos das espécies Macaca arctoides e Saimiri sciureus) e monta com penetração anal levando à ejaculação (macacos japoneses, macacos rhesus e gorilas), masturbação mútua (na espécie Macaca arctoides), podendo chegar à ejaculação (em gibões), contatos genital-com-genital (entre bonobos) e felação (na espécie Macaca arctoides), cheirar ou inspecionar as regiões anal ou genital de outros machos (Macaca arctoides), exibir o pênis ereto para outros machos (Cercopithecus aethiops) e preferência de machos por copular com parceiros do mesmo sexo, em vez de com fêmeas (em macacos rhesus). (q.v. WERNER, D. “Sobre a evolução e variação cultural na homossexualidade masculina”. In: PEDRO, Joana Maria; GROSSI, Miriam Pillar [org.], Masculino, feminino, plural: Gênero na Interdisciplinaridade. Florianópolis: Mulheres, 1998.)
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E não pensem que observações de atos sexuais semelhantes só se verificaram entre primatas. Na verdade, já foram observados nos mais variados mamíferos, pássaros, répteis, peixes e insetos. Um caso curioso, aliás, ainda que seja apenas um análogo de ato homossexual, envolve vermes marinhos da espécie Moniliformis dubius. Estes costumam usar o coito homossexual como uma “arma” na briga pela fecundação de fêmeas. Como? Bem, o fato é que se observa entre essas pequenas criaturas algo como um “estupro” homossexual, em que um macho copula à força com outro, fertilizando a abertura do aparelho genital deste. Desse modo, o esperma do macho “estuprador” acaba bloqueando a abertura genital do macho forçado ao coito, o que o torna incapaz de fertilizar qualquer fêmea. É claro que, neste caso, como já alertado, não temos senão um comportamento pseudo-homossexual, uma vez que a cópula não resultou de mútua atração entre os machos. E, visto que esta intrigante estratégia de eliminação de concorrentes repete-se em várias espécies, o dado chama a atenção, ao menos, para avaliações acrescentáveis às perspectivas evolutivas.
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Tais exemplos, dentre muitos outros, apontam, de forma gritante, para um componente natural, presente no nível dos genes, que atua sobre a orientação sexual dos animais, incluindo os humanos dentre estes. Neste sentido, pesquisas que se focaram no DNA do cromossomo X de 40 pares de irmãos gays descobriram algo um tanto interessante. 37 destes pares de irmãos tinham co-herdado marcadores genéticos na mesmíssima região cromossômica, identificada como Xq28, o que sugere que 65% das famílias estudadas estavam transmitindo um gene ou genes dessa área do cromossomo, que influenciam, em parte, a orientação sexual. Estudos feitos com famílias de lésbicas obtiveram indícios de algo semelhante. Todavia, até o momento, não foi possível identificar exatamente o gene (ou genes) a que se deve a homossexualidade masculina ou feminina nas pessoas — afinal, ainda estamos engatinhando no conhecimento de todos os segredos do genoma humano. Além do que, o fato de 7 dos 40 pares de irmãos gays estudados não terem apresentado aqueles marcadores genéticos na referida área do cromossomo X indica que ainda há mais fatores a serem considerados nessa história.
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Duas coisas que parecem bem claras, no entanto, são: 1) há algum fator no cromossomo X de homens gays (cromossomos que o homem herda da mãe e não transmite a seus filhos varões) que atua, em algum grau, na definição da orientação homossexual em homens; 2) outros fatores não relacionados a cromossomos sexuais exercem, com certeza, algum papel, tal como o exercem, a propósito, mesmo sobre a própria heterossexualidade.
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Em suma: ainda que não se saiba com detalhes, ao menos por enquanto, os fatores envolvidos no desenvolvimento da homossexualidade ou bissexualidade, não há discussão quanto à primeira questão apresentada. A abundância de exemplos de relações homossexuais e bissexuais observadas dentre as mais diversas espécies da fauna terrestre, somada aos indícios já encontrados de que há algum componente genético na definição da orientação homossexual ou bissexual, provavelmente ligado à árvore genealógica materna, não deixa espaço para dúvida: a homo ou bissexualidade humana é natural. Porém, tal constatação, sobretudo no que tange à homossexualidade exclusiva (preferência que resulta em atividade sexual não-geradora de descendentes), parece apresentar-se como um importuno paradoxo para a teoria darwiniana da evolução, que enfoca o desenvolvimento de habilidades e comportamentos utilitários no sentido de garantir a sobrevivência e o sucesso reprodutivo dos animais, incluindo os humanos.
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A homossexualidade na natureza humana: um paradoxo para a teoria da evolução?
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Bem, como pudemos ver, há mais do que evidências o bastante para que se conclua que a homossexualidade ou a bissexualidade sejam comportamentos sexuais tão naturais quanto os de caráter heterossexual. Alguns diriam apenas que estes últimos são predominantes — embora mesmo essa sustentação seja debatida, visto que, desde que Alfred Kinsey publicou seus polêmicos (e, em certos aspectos, refutados) estudos sobre a atividade sexual de homens e mulheres nos EUA, entre o final da década de 1940 e o início da seguinte, muito se tem descoberto sobre o complexo mosaico de variados atos e interesses sexuais entre diferentes pessoas. Tem-se debatido, sobretudo, acerca da orientação 100% heterossexual, que, ao que parece, deve ter ocorrência consideravelmente menos freqüente do que se supõe. E, nesse sentido, bem em nossos dias, a internet, por exemplo, reforça a argumentação, no que se mostra repleta de homens e mulheres casados, que usam o ciberespaço para dar vazão a fantasias sexuais com pessoas do mesmo sexo, mesmo que tenham uma vida heterossexual ativa. Não é necessário mais do que uma reles visita a alguma sala de bate-papo, que nem mesmo precisa ter alguma relação com o tema “sexo”, para que, muito provavelmente, você (homem ou mulher, mas homem, em especial) seja “cantado”, em mensagem privativa, por alguém do mesmo sexo — muitas vezes, afirmando ser casado, à procura de “um pouco de excitação”.
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O quadro acima leva a algumas reflexões e faz pensar nas (provavelmente inúmeras) relações anônimas que fluem, de forma voyeurística, pela rede mundial, ao passo que a internet permite que homens e mulheres sabidamente heterossexuais extravasem, em sigilo, fantasias e desejos de caráter homossexual, que, de outra maneira, permaneceriam reprimidos por questões sociais, culturais ou religiosas. (Há não muito tempo, li num jornal uma entrevista com uma psicanalista que afirmava que, se não houvesse o peso negativo do preconceito quanto à manifestação de interesses e comportamentos não-heterossexuais de forma aberta na sociedade, seria possível notar que a sexualidade da grande maioria dos homens e mulheres flutua, mais comumente, ao longo de uma escala bissexual, com valores maiores num ou noutro sentido de suas regiões homo ou heterossexual. Ela talvez tenha especulado de forma um tanto sensacionalista, mas isso não quer dizer que esteja totalmente equivocada. Uma vez que muita gente conhece alguém casado, pai ou mãe de família, que sabidamente tem ou teve um envolvimento homossexual, não é difícil imaginar que haja muitos homens e mulheres que devam estar se mantendo trancados dentro do armário, tão-só para não terem de enfrentar a pressão negativa do julgamento alheio.)
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Admitamos, portanto, que, se há indiscutivelmente bem mais homens e mulheres héteros do que gays e lésbicas assumidos, também é bem possível que muitos desses declarados héteros tenham, ao menos no campo fantasioso, interesses não externados (ou externados apenas por via sigilosa, como o sexo virtual, por exemplo) pelo sexo oposto — o que quer dizer que seriam melhor classificados como bissexuais, do ponto de vista da manifestação de seus interesses nesse campo. Além do que, há que se levar em conta ainda que os grupos hétero, bi ou homossexuais são apenas classificações mais generalizadas, dentro das quais variados subgrupos podem se verificar: heterossexuais convencionais, casais heterossexuais que fazem inversão (quando a mulher assume a função ativa no ato sexual), gays ou lésbicas exclusivamente ativos, gays ou lésbicas ativos e passivos, gays ou lésbicas exclusivamente passivos, cross-dressers (pessoas que se excitam vestindo roupas próprias do sexo oposto), travestis, etc.
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Em face de tanta variedade, é fácil chegar à conclusão de que entender a sexualidade humana é algo muito complexo. Mas a ciência continua avançando no sentido de compreender cada um desses comportamentos e explicá-los, mesmo que a tarefa seja árdua e demorada.
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Do ponto de vista da evolução, à primeira vista, a simples existência da homossexualidade parece apresentar um problema sério para o pilar central da teoria: a perpetuação das espécies pela via única da transmissão genética pela reprodução. Como poderia a seleção natural ter permitido o desenvolvimento de uma predisposição genética para um tipo de relação sexual que não é procriadora?
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A bem da verdade, é importante enfatizar que o fato de alguém ser homossexual não significa que seja incapaz de ter filhos — não é! De fato, muitos de nós conhecemos gays ou lésbicas que têm filhos biológicos. E, justamente por causa de tanto preconceito social e religioso contra os não-heterossexuais, muitos destes acabam se casando e tendo filhos em típicos relacionamentos homem-mulher. Isso, para não mencionar alguns casais de lésbicas em que, de comum acordo, uma das mulheres se predispõe a engravidar de um homem, só para que as duas companheiras possam ter um filho biológico (ainda que da parte de uma apenas).
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Além disso, o fato de um traço genético promover uma adaptação inadequada em benefício da reprodução ou não-condutiva a ela não garante que tal traço desaparecerá por meio da seleção natural. Na verdade, em alguns casos, apesar da forte e negativa pressão seletiva, mesmo certas doenças fatais causadas por alelos recessivos e que só se expressam em organismos homozigóticos recessivos, tais como a anemia falciforme, por exemplo, não foram eliminadas de nosso genoma, apesar das inúmeras gerações humanas, ao curso da evolução até aqui. E não preciso nem lembrar que, no caso dos componentes genéticos que resultam na orientação homossexual, não se trata de nenhuma doença fatal (embora alguns cristãos, tão ignorantes quanto preconceituosos, julgariam que sim) nem tampouco significa esterilidade e conseguinte incapacidade biológica para a procriação — as relações não são procriadoras em si, mas nenhum dos parceiros está biologicamente impossibilitado de ter filhos.
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No mais, já faz alguns anos que um intrigante estudo realizado por uma equipe de cientistas da Universidade de Pádua, Itália, constatou algo que vem para somar-se à análise da evolução genética da homossexualidade. Colhendo dados sobre 98 homens gays e 100 homens heterossexuais, que se voluntariaram para o estudo, bem como acerca dos parentes próximos de cada um deles, abrangendo mais de 4600 pessoas no total, descobriu-se o seguinte: reforçando a hipótese de que o componente genético da homossexualidade é transmitido pelo cromossomo X da mãe, as mulheres do lado materno da família de homens gays geravam normalmente mais filhos do que suas parentas do lado paterno. Isso sugere que mulheres que passam genes homossexuais para seus descendentes masculinos apresentam, por sua vez, uma taxa de fertilidade mais elevada do que a de outras mulheres. Confirmando ainda mais a hipótese, nas famílias de homens heterossexuais, as mulheres do lado paterno e materno apresentavam taxas de fertilidade similares, significativamente abaixo daquela de mulheres do tronco materno de homens gays.
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Na verdade, para enfatizar mais uma vez, as pesquisas ainda estão apenas no começo, no que se refere a entender e explicar a homossexualidade. Além disso, há os componentes culturais e psicológicos que, decerto, devem ser levados em conta, ao passo que hipóteses outras, buscando descrever os processos que levaram a homossexualidade a passar pelo crivo da seleção natural, vão sendo propostas aqui e ali. Por isso, Richard Dawkins, quando questionado sobre o tópico, fez uma observação comparativa e enfatizou os limites admitidos do atual conhecimento dos processos genéticos:
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Os casos de morte precoce poderiam ter sido totalmente extintos nos dias de hoje; porém, genes ainda diversificam-se em sua habilidade de se fazerem reproduzir. Se os genes da homossexualidade diminuem sua própria probabilidade de ser reproduzidos hoje, e, ainda assim, são abundantes na população, essa é uma questão com que tanto o bom senso quanto a teoria de Darwin têm de lidar. E, por mais intrigantes que todas essas teorias possam ser, tenho de concluir que a questão permanece.

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Em outras palavras, a ciência ainda precisa avançar nas pesquisas, para que tenhamos um entendimento preciso de como a homossexualidade se processa em níveis genéticos. Enquanto isso, é bom ter bom senso, em vez de julgamentos preconceituosos e não-comprovados. Afinal, até há bem pouco tempo, por exemplo, uma das críticas que mais pesavam contra a existência de um gene ou genes que determinassem a sexualidade apoiava-se num curioso dado estatístico, não plenamente compreendido: embora a maioria dos gêmeos idênticos tenham em comum sua orientação sexual (ambos são homossexuais ou ambos são heterossexuais), verdade é que há alguns casos em que acontece exatamente o contrário — um gêmeo é gay/lésbica o outro hétero. Parecia confuso, uma peça de quebra-cabeça que não se encaixava em lugar nenhum. Até que geneticistas na Universidade do Alabama, numa pesquisa super-recente, estudando os genes de vários pares de gêmeos idênticos, descobriram que, ao contrário do que se acreditava, o DNA de um gêmeo é diferente do de seu irmão em vários pontos do genoma — nesses pontos, um apresenta um número diferente de cópias do mesmo gene.
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Logo, é preciso dar tempo para as pesquisas progredirem. Ao mesmo tempo, o fato de que a homossexualidade está presente ao longo de toda a história humana, nas mais diversas civilizações, bem como é observada no reino animal em geral, e somando-se a isso os dados colhidos até o momento, que apontam para indícios genéticos intrigantes acerca de sua natureza, não representa nenhum paradoxo refutante para a teoria darwiniana, nem sequer há comprovação de que tal orientação sexual não promova alguma vantagem evolutiva colateral, como já citamos alguns indícios neste sentido aqui. Se ela é um traço que sobreviveu e sobrevive entre nós, verdade é que há uma resposta. Uma resposta que a pesquisa genética — muito em breve, quem sabe? — poderá fornecer a todos.
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Enquanto isso, “Deus é amor”: imagine se não fosse!
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Voltamos a olhar para a televisão, e insistem em citar a mensagem de Bento 16 aos estadunidenses: “Deus é amor”, ele diz. E Bush repete o mesmo — o que já era esperado, aliás, de um débil mental que só tem dois neurônios na cabeça! Verdade, no entanto, é que, toda vez que escuto essa balela toda sobre o amor de Deus, essa lavagem cerebral que fazem nos crentes, de modo que acreditam em todas essas besteiras ditas, sem encontrar apoio para isso nem mesmo na Bíblia que carregam por debaixo do braço, fico indignado e desiludido quanto ao futuro da humanidade. Como podem, afinal, ser tão ignorantes que nem mesmo percebem que não há nada de amoroso no deus descrito nas escrituras que têm em mãos? Por acaso não se dão nem sequer ao trabalho de ler com atenção sua Bíblia? (Bem, eu sei, eu sei: é só o mecanismo cerebral de credulidade sem resistência, que já discuti em outro texto, mantendo-se em atividade. Mas isso tudo me deprime mesmo assim!)
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Eu sei que o texto já está enorme, mas permitam-me mais uma digressão, para que possa discutir um tema que, por fim, terá muito a ver com o encerramento deste longo artigo sobre as relações não-heterossexuais na natureza do seres. Pois, antes de chegar à conclusão, sinto a necessidade de fazer uma inevitável comparação do tópico central aqui com outro assunto incômodo: a escravidão. Mas deixe-me explicar por que.
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O fato é que, durante séculos e séculos, os homens escravizaram outros homens. Algo tão vergonhoso, hoje em dia, que nos indignamos só de reler, nos livros de História, sobre esse ato covarde, cruel e desumano. No entanto, a prática da escravidão só se manteve, sem questionamento, durante as idades Média e Moderna, mesmo sob o imenso poder político da religião nos estados nacionais de então, estados estes todos oficialmente cristãos, simplesmente porque a Bíblia não é apenas indiferente à escravidão, ela a defende como prática social aceitável! A palavra do Deus de amor, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, comenta a prática de um ser humano comprar outro ser humano para lhe servir, como se fosse a coisa mais natural e aceitável do mundo (q.v. Gên. 17:12; Êx. 12:43ss; Êx. 21:1-6; Êx. 21:32; Lev. 22:10s; Lev. 25:44ss; Luc. 7:2-10; Col. 3:22s; Tit. 2:9s).
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Numa destas passagens do livro de Êxodo, Deus determina quanto tempo dura a servidão de um escravo após ser comprado, estabelece que, se o seu dono tiver comprado uma escrava e o escravo a tomar por mulher, este deverá ir embora, após o fim do período de servidão, sem levar consigo a mulher nem os filhos que com ela tiver, pois são todos propriedades do dono, e, enfim, acrescenta a palavra do Deus de amor que, caso o escravo em questão resolva ficar com seu dono (para poder permanecer com sua mulher e filhos, é óbvio!), deverá ser marcado (que nem um fazendeiro marca seu gado) com a mutilação de sua orelha, tornando-se, assim, um escravo para a vida toda (Êx. 21:1-6). E esse comportamento repugnante e covarde se encontra presente na Bíblia, sem nunca ser questionado. Nem mesmo Jesus, com sua interpretação, às vezes, menos radical das palavras da lei de Moisés, criticava a escravidão — ele convivia com a instituição numa boa, sem jamais condená-la, como vemos na passagem do capítulo 7 do Evangelho de Lucas, inclusa nas citações acima.
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E, durante séculos e séculos, os cristãos donos de escravos, até antes da Abolição, confortavam sua consciência criminosa lendo passagens bíblicas como esta, da Epístola de Paulo a Tito:
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Exorta os servos a que sejam submissos a seus senhores e atentos em agradar-lhes. Em lugar de reclamar deles e defraudá-los, procurem em tudo testemunhar-lhes incondicional fidelidade, para que por todos seja respeitada a doutrina de Deus, nosso Salvador. (Tit. 2:9s)
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Isso! É na escravidão obediente e sem reclamação que se encontra o cumprimento da palavra do Deus de amor. Sofra caladinho a tortura e a injustiça da servidão, sem direito a achar sua situação ruim, porque é isso que deixa Deus satisfeito. Porque Deus ama você, escravo! Leio isso e me dá um nojo, que prefiro nem comentar mais a respeito de passagens assim.
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O fato é que, ao serem confrontados com a verdade escancarada de que a Bíblia é um conjunto de livros apoiando as atitudes mais asquerosas que o ser humano já praticou, ao longo da história, vemos muitos padres e pastores darem a seguinte desculpa: essa não era a visão de Deus, na verdade; os autores inspirados estavam apenas adaptando o texto à cultura de seu tempo. Hoje, como a cultura é outra, pode-se ignorar essas partes e aceitar a verdadeira mensagem de Deus, que não podia ficar tão explícita naqueles tempos: Deus é amor e ama todos, incluindo os escravos. Escravidão é coisa errada e inaceitável: todos os cristãos dizem, agora, felizes da vida, conformados com a súbita compreensão de que Deus hoje pode desdizer o que antes disse sem ter vontade de dizê-lo. Bacana!
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Pergunto-me, então, por que também não poderíamos entender de outra maneira as passagens bíblicas que condenam a homossexualidade. Afinal, como já demonstrado neste texto, ela é algo da natureza sexual de homens e animais. Nada de mais, portanto! Já a escravidão, por outro lado, é um ato repulsivo, desumano, imoral e absurdo. Para não mencionar que, até onde tenho conhecimento do assunto, não há animais que pratiquem a compra de outros semelhantes (ou mesmo dessemelhantes) para que os sirvam, contra a sua vontade. Somente homens já escravizaram outros homens!
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Essas questões me vêem à tona porque vejo o papa dizendo que Deus é amor, o Bush concordando, o pastor Silas Malafaia berrando a mesma coisa na televisão, e, ao mesmo tempo, todos eles, como um coral ensaiado, condenando a homossexulidade como a maior desgraça que já assolou a Terra. Não são fatos isolados; acontece a toda hora: o padre Marcelo Rossi (a “Xuxa da Igreja Carismática”, como o chamou Leonardo Boff) me aparece dizendo que homossexualismo é doença, um grupo de batistas, nos EUA, liderados pelo pastor Fred Phelps, invade o enterro de um fuzileiro estadunidense morto no Iraque, gritando merdas, de que os soldados estão morrendo lá como vingança de Deus, por causa da tolerância a gays e lésbicas na América do Norte, enquanto levantam cartazes dizendo: “Você está indo para o inferno!” e “Deus odeia bichas!”
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Nessa onda de cretinice homofóbica, há menos de um ano, na televisão, Malafaia (aquele mesmo, cuja ignorância científica eu demonstrei num outro texto: “Quando o pastor Mala ‘faia’”, 15/11/2007) veio nos dar outra aula de ciência da inscícia religiosa. Dentre as idiotices de costume, com que esse sujeito (arrepio-me só de pensar como) consegue fazer uma verdadeira lavagem cerebral em sua platéia, de efeitos imbecilizantes avassaladores, destaco algumas pérolas, que matariam de rir, se não fosse o fato de sabermos o quão terríveis são os resultados de tanta ignorância pregada a ouvidos crédulos:
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A ciência e a teologia concordam que Deus fez macho e fêmea e não uma sociedade de andróginos e bissexuais. Não existem cromossomas homossexuais; portanto, essa tese é furada! (...) Qualquer pessoa que se oponha a prática da homossexualidade é rotulada de ignorante. As centrais de jornalismo e as novelas estão empestadas de homossexuais. Eles são bem organizados, e qualquer um que levante interesses contrários da comunidade homossexual é bombardeado. (...) A homossexualidade é uma rebelião consciente contra a criação, uma distorção da imagem de Deus. (...) Se um cheirador de cocaína pode deixar as drogas, um homossexual pode deixar a homossexualidade. (Programa do dia 04/08/2007, transmitido pela Band.)

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Eis a lista de ignorâncias: 1) Ciência e teologia não concordam em praticamente nada (seus objetos de estudo não são convergentes), e as pesquisas relatadas neste artigo deixam bem claro que a crença na sexualidade inata como sempre geneticamente determinada no sentido macho-para-fêmea já não encontra respaldo nos estudos atuais; 2) não existem “cromossomas” (aliás, que diabo é isso?); portanto, a pregação do Malafaia é furada (ou melhor, usando o mesmo silogismo de uma premissa só, que o pastor inventou, “cromossomas” não existem; portanto, a religião é furada, a igreja do Malafaia é furada, o Malafaia é furada: caramba, o Malafaia não existe!); 3) “Qualquer pessoa que se oponha a prática da homossexualidade é rotulada de ignorante”: tal como seria ignorante e criminoso quem se opusesse à cor da pele negra de outras pessoas ou ao fato de a pessoa ser canhota — quem faz críticas ignorantes é... ignorante, ora!; 4) “Se um cheirador de cocaína pode deixar as drogas, um homossexual pode deixar a homossexualidade” — esta frase é uma inspiração para a minha vida; afinal, usando o mesmo raciocínio: se eu não estiver satisfeito com a minha altura, posso escolher ter 1,90m e um corpo saradão; se eu não estiver satisfeito com minhar cor, posso virar um loiro escandinavo de radiantes olhos azuis; se a minha careca está começando a incomodar, posso fazer crescer cabelo de novo... Maravilha! Eu já estava começando a ficar deprimido com minha calvície avançando. Ora, dê um tempo, viu!? O vício em cocaína ou outra droga é uma doença, caracterizada pela compulsiva dependência química, que é habitualmente desenvolvida e pode, portanto, ser tratada e curada. Homossexualidade, como eu já demonstrei aqui, é uma característica inata de algumas pessoas.
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Na verdade, acho que devo lembrá-lo de que, na história recente, muitos padres e pastores homofóbicos como ele, que viviam berrando em suas igrejas, falando do fogo do inferno para os gays, as lésbicas, os travestis e os bissexuais, acabaram sendo pegos com a mão na... na... “botija” de outro cara, demonstrando uma outra coisa que sempre venho falando: o cristianismo é a religião-mor dos hipócritas! E, como exemplo, vou citar aqui apenas um caso, por ter tido uma divulgação internacional e muita exposição midiática.
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O pastor evangélico estadunidense, Ted Haggard, é uma figura conhecida entre os cristãos de seu país. Fundador de igreja e líder da Associação Nacional de Evangélicos, além de conselheiro particular do presidente Bush sobre questões políticas (creindeuspai!), já apareceu em programas de televisão, sempre passando lição de moral cristã intolerante, bem como em quatro documentários sobre religião (incluindo The Root of All Evil? [A Raiz de Todo o Mal?], documentário crítico apresentado por Richard Dawkins, em que Haggard teve um desentendimento com o biólogo, diante das câmeras, durante sua entrevista). Num outro filme — o apavorante documentário sobre fanatismo cristão, Jesus Camp [Acampamento de Jesus] —, Haggard aparece pregando sobre a homossexualidade. Ele diz: “Não precisamos discutir sobre o que devemos pensar da atividade homossexual. Está tudo escrito na Bíblia!”
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Pois bem! Haggard pregava contra a homossexualidade e falava que tinha planos de trazer para sua igreja gays e lésbicas, para convertê-los e fazê-los aceitar Jesus. Para isso, sua estratégia seria freqüentar bares gays e convidar os homens ali a participarem do culto em sua congregação. Bem, estaria tudo lindo e maravilhoso, se as pregações do pastor Ted, como era chamado, contra o “pecado da homossexualidade” não tivessem irritado ninguém menos do que Mike Jones, um massagista e garoto de programa, a quem Haggard pagava para transar com ele, já fazia três anos. O amante de Haggard veio à imprensa e tornou pública a relação dos dois. O pastor, a princípio, negou tudo, dizendo que era um homem de Deus, fiel à esposa e aos filhos, mas novas evidências o fizeram confessar que tinha mesmo praticado sexo com Jones regularmente, por três anos seguidos. Confessou também ter tido várias fantasias (segundo ele, não concretizadas) em que transava com vários garotões mais jovens de uma só vez. Admitindo uma outra acusassão feita por Jones, o pastor confessou ser também viciado em anfetamina (droga estimulante do sistema nervoso).
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Bem, a conclusão dessa história, para não me esticar ainda mais, é que Haggard foi para um clínica. Lá, ele deve ter tido auxílio do pastor Malafaia, suponho eu, pois, quando saiu, veio dizendo a todos que estava curado tanto do vício em anfetamina quanto da homossexualidade. Jesus o tinha vacinado contra seus pecados de outrora. Em outras palavras: Haggard agora é um “ex-gay”! O problema é que, se o Malafaia acredita em “ex-gays”, os outros pastores da igreja de Haggard não. Eles o expulsaram da congregação. Afinal, pode-se concluir, talvez, ainda que intuitivamente, saibam que a homossexualidade, ao contrário dos hábitos viciosos, é da própria natureza humana. E que um gay ou uma lésbica tentando se convencer de que não são o que são é tão absurdo quanto qualquer um de nós tentando nos convencermos de que nossa própria sexualidade não existe, é anulável. É um resfriado que já passou. “Ó eu aqui, recuperadão!” Acreditem se quiser!
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As insistentes pesquisas científicas, até agora inconclusivas, acerca da complexa sexualidade humana só nos dão uma certeza: a coisa não é nem nunca foi tão simples quanto muitos acreditam. E, por isso mesmo, é preciso mais conhecimento e menos ignorância e intolerância religiosas. Afinal de contas, o papa pode até dizer: “Deus é amor”. E o Bush, o psicopata cristão da Casa Branca, responder, sorridente: “Amém!” Mas os crentes estão aí, com seus cartazes nas mãos e seu fervor religioso, doentio e ignorante, prontos para nos lembrar de que a verdade é bem outra: “Deus odeia bichas!” Está tudo escrito na Bíblia.
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4 comentários:

Designer - Sonhos de um Arquiteto disse...

Oi!Gostei muito do seu blog.Em relação ao post sobre religião x homossexualidade("Está escrito: Deus odeia bicha.."), eu já havia lido anteriormente inúmeros argumentos como os seus.Sabe, cara, já li muita coisa, muita "filosofia",texto de "humanidades"...mas...atualmente, vejo que a chamada "razão" é uma balela...até certo ponto.Tenho idade próxima a sua(sou mais velho) e, minha experiência de vida, mostra-me que a sexualidade nunca é percebida pela razão, mas pelo sentimento. A homofobia existe não porque há ignorância sobre o assunto, mas sim pelo fato de que nos corações de muitos é impossível compreender que outro ser humano é simplesmente.... diferente!Depois continuo....

Matheus disse...

Olá Júnior!! Estou escrevendo aqui só para passar uma informação. Claro que isto nem de longe justifica a escravidão, mas existem sim um grupo de animais que a pratica. São as formigas escravocratas, que capturam ovos e larvas de outras espécies de formigas para que estas trabalhem em suas colônias. Exemplo que o próprio Darwin utilizou no Origem das Espécies.

Abraços,
Matheus!!!

Anônimo disse...

Excelente "Post", Júnior.

É triste ver o quanto as pessoas utilizam a religião como ferramenta de opressão e instrumento que cega alguns daqueles que a seguem.
Não tenho nada contra religiões em si. Sou (semi) católico e acho que existem textos e passagens de grande valor.
Pena que nem todos conseguem sorver somente a beleza contida na bíblia e acabam por se confundirem com as passagens claramente resultantes de um estilo social da época em que foi escrita e do povo que a escreveu.

BRUNA disse...

oi querido.vi em seu blog palavras de uma pessoa muito inteligente.
eu sou uma pessoa muito simples e confesso até que burra.mas sou guiada pelo senhor poderoso que TUDO sabe!se vc tentar lê a bíblia , concerteza não á entenderá.mas se vc pedir de todo o coração para que o Espírito Santo a interprete para ti , ele te ajudará.está escrito na bíblia , que DEUS usa as coisas doidas desse mundo para confundir os que se chamam sábios!todo esse assunto de seu blog não te trará paz e descanso, somente a presença de JESUS em sua vida.ELE é real!a palavra dele é verdade.e DEUS te ama mesmo vc não querendo!porque ele é SANTO PODEROSO E MISERICORDIOSO....todo esse assunto só serve de comédia para o diabo.pq é isso q ele quer, ver DEUS ridicularizado pelos seus filhos que ele ama tanto e deu a sua vida por eles!do fundo do meu coração espero e desejo que vc venha o conhecer um dia.e conhecer a verdadeira felicidade.nada doque vc tentar fazer com suas próprias mãos, te trará a felicidade,ou fará rebeixar o grande nome de DEUS NA TERRA!vc falou no blog coisas que vc sabe e crê.pois eu te digo mesmo sabendo que vc não irá colocar para outras pessoas verem.DEUS TE AMA!!!!!!!DEUS ama o pecador e não os rejeita nunca.mesmo homossexual ou heterossexual, tanto faz...todos erramos e fracassamos.e todos nós alcançamos o perdão dele.se em algum momento da sua vida vc precisar de ajuda ou se sentir amado ele estará de braços abertos para te receber .bem...essas são minhas simples palavras, que de coração digo a ti.JESUS NÃO DERRAMOU SEU SANTO SANGUE POR VC ENVÃO!!!!VC É PRECIOSO PARA ELE.ABRAÇOS BRUNA

AVISO

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