sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Entre a Finlândia e o Big Brother: mais um retrado do inferno

por Júnior Camilo
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2008 já começou com siglas me perturbando. A primeira delas, o último ENEM — Exame Nacional do Ensino Médio —, que comprovou o que todos nós já sabíamos: nossos alunos de escolas particulares continuam tendo um desempenho melhor em avaliações de conhecimento do que aqueles que estudam em escolas públicas. E a situação é muito preocupante! Porém, mais preocupante ainda é o resultado relacionado a uma segunda sigla: o PISA — Programme for International Student Assessment [Programa para a Avaliação Internacional de Estudantes]. Este exame avalia adolescentes por volta dos 15 anos de idade, em diferentes países do mundo, verificando seu desempenho em provas de leitura, ciências, matemática e, na última versão aplicada, tiveram ainda de encarar uma matéria interdisciplinar chamada “solução de problemas”.
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O Brasil foi um dos seis países da América Latina que fizeram o último exame do PISA — os outros foram Argentina, Chile, Colômbia, México e Uruguai. E, no ranking geral, após a avaliação do desempenho de estudantes em 57 países no total, o nosso ficou na amarga 54ª posição — atrás de todos os nossos hermanitos latino-americanos! Em comparação com os resultados de 2003, melhoramos um pouco em matemática, mas estamos a anos-luz de distância da realidade educacional do país que, todos os anos, vem liderando esse mesmo ranking, ou seja, a Finlândia.
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Bem, para quem não sabe, a Finlândia é um pequeno e rico país da Península Escandinava, na Europa, com uma população 35 vezes menor do que a do Brasil. Lá, a educação é compreendida em 9 anos de peruskoulu (“escola básica”), que é concluída entre os 15 e 16 anos, mais 3 anos de lukio (“escola secundária geral”) ou de ammatillinen oppilaitos (“instituição vocacional”). As escolas primárias e secundárias na Finlândia são, em sua maior parte, públicas e gratuitas — e mesmo as raríssimas escolas particulares que há naquele país recebem suporte financeiro do governo e, assim, não cobram mensalidades. Livros, transporte escolar e as refeições são também oferecidos de graça. A “escola básica” é obrigatória, e os outros níveis, mesmo não o sendo, têm uma freqüência espantosa. Da mesma forma, as universidades são todas públicas, e 95% dos estudantes que concluem o ensino secundário vão para o ensino superior — no Brasil, só 10% dos alunos fazem universidade e nem 40% chega a concluir o ensino médio. Apesar de ser um país muito pequeno, a Finlândia investe 6,1% do seu PIB em educação, enquanto o Brasil investe 3,9% — um dos índices de investimento na área mais ridículos do mundo.
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Enquanto as avaliações mostram que, em nosso país, a assombrosa maioria das crianças não dá conta de fazer nem ao menos uma operação matemática simples — como, por exemplo, interpretar uma tabela ou somar colunas —, na Finlândia, mais de 80% dos estudantes estão nos níveis mais elevados de aprendizagem, segundo padrões avaliativos internacionais. No que diz respeito à leitura, quase todos os finlandeses são capazes de entender ambigüidades, formular hipóteses e bem avaliar criticamente textos elaborados. No Brasil — ó sina maldita! —, apenas 25% têm as mesmas habilidades.
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Isso, para não falar que o professor é um profissional respeitadíssimo na sociedade finlandesa. Com uma autonomia impressionante dada aos municípios e às escolas pelo Ministério da Educação de lá, o professor tem a autoridade de decidir até mesmo quantas horas cada criança deverá ficar na escola — uma autonomia que eles exercem com responsabilidade, é bom deixar bem claro! E, no quesito salário, embora alguns ainda se mostrem um tanto insatisfeitos, nunca houve greves ou coisa do tipo; afinal de contas, um salário de R$ 6.300,00 para um professor em início de carreira não é nada tão ruim assim, mesmo perante o custo de vida deles, mais elevado do que aqui. (E as remunerações mais altas para a classe perfazem quase 3 vezes esse valor inicial.)
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Finalmente, um finlandês compra, em média, 18 livros por ano. Essa estatística, no tocante ao Brasil, eu prefiro nem mencionar!
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A esta altura, quero deixar claro uma coisa: não estou querendo comparar o Brasil e a Finlândia, como se nós pudéssemos ser o que eles são e faltásse-nos para isso apenas boa vontade de nossos políticos, mais empenho de nossos professores ou algo mais do tipo. A coisa não é simples assim — se é que se pode chamar a solução da má vontade política imperante neste país de algo “simples”! Verdade é que, como bem disse o educador Fernando Almeida, da PUC-SP: “É até covardia comparar os dois países.” E justifica sua afirmação: “A educação lá é fruto de um conjunto de qualidades culturais, econômicas e políticas da sociedade.” Concordo plenamente!
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E, bem... foi pensando nas qualidades culturais da nossa sociedade, que uma terceira sigla começou a tirar-me a paz, neste início de 2008. Refiro-me à sigla BBB.
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Confesso que as primeiras edições do Big Brother Brasil me despertaram um manifesto interesse. E o motivo deveu-se, em grande parte, à curiosidade de ver o que poderia resultar do confinamento de um tal grupo de pessoas tão distintas em termos de personalidade e de classe social, todas competindo por um único prêmio — queria ver como se comportariam, mesmo que essa minha curiosidade não tivesse nenhuma base científica, como justificarei mais abaixo. Somava-se a isso, admito-o, a visão de que a considerável soma prometida parecia oferecer uma alternativa mais viável ao desespero irracional que faz alguém apostar na loteria, contra todas as chances estatísticas nada favoráveis ao sorteio de seu bilhete dentre milhões de outros, garantindo-lhe aquele dinheiro considerável que mudaria sua vida. Dito isso, outra confissão: eu torcia sempre para que algum dentre aqueles de origem mais humilde, menos abastada, acabasse levando o dinheiro, no final. Concordo que a idéia é um clichê, para início de conversa, mas eu não me importo nem um pouco com essa coisa de ver a promoção da “justiça social”, mesmo num programa de TV. Sei que existem razões sobretudo de cunho psicológico para explicar essa minha satisfação com a vitória de uma pessoa de origem pobre, mas isso não muda o fato de que aquele dinheiro viria mudar por completo a realidade árdua de alguém que, de outra forma, dificilmente teria algum conforto material na vida, até o dia de sua morte.
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Por outro lado, apesar de tudo o que enumerei no parágrafo acima, nunca me deixei convencer por aqueles argumentos que, defendendo esse tipo de reality show, sustentavam que se tratava de um interessante “experimento psicológico”. Acho que até o poderia ser, se as pessoas ali trancadas não fizessem a menor idéia de que estavam sendo vistas e ouvidas, o tempo todo, por milhares e milhares de telespectadores. Não seria muito ético da parte dos realizadores de tal experimento — isso de manter todos na casa, sem saber que estavam sendo filmados —, mas creio que os resultados seriam um tanto intrigantes, do ponto de vista da pesquisa psicológica. Porém, no formato que esse tipo de programa tem, não vejo como possa apresentar qualquer valor de experimento nessa área, já que todos ali sabem muito bem que estão sendo gravados e, em virtude disso, perdem parte de sua identidade natural, ao mesmo tempo em que compõem para si mesmos algo que não passa de um personagem. Aliás, o nome reality show é impreciso e enganador: não há nada de “realidade” num ambiente artificial, onde as pessoas criam relacionamentos ao menos em parte artificiais (já que têm plena consciência de que são rivais, na prática), e onde todos encenam um caráter artificial, conscientes de que serão julgados pelos telespectadores, e que a opinião destes vai ajudar a determinar o seu sucesso, ou não, no programa. (Obs.: Nesse jogo irritante — consciente ou não — de encenação de papel, fico indignado quando escuto coisas do tipo: “Será que fulano está jogando?” ou “Ainda é cedo para saber quem está jogando”. Como assim? Por acaso, a TV nos imbeciliza ao ponto de acharmos, de forma ingênua, que alguém naquela casa não está ali atrás do prêmio?)
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No mais, sob outros aspectos, o Big Brother sempre foi uma fonte nauseante de futilidade, ignorância e, é claro, erotização — já que sempre houve participantes masculinos e femininos fisicamente atraentes, no objetivo de fazer despertar em nós o voyeurismo de nossa infância, cujos resquícios nos acompanha ao longo da vida, normalmente de um modo ameno e contido, mas, nos casos psicopatológicos, como uma recorrente perversão tarada. Assistimos aos casais bonitões da casa, torcendo para que alguém acabe transando, ou apenas se descuidem trocando de roupa, revelando sua nudez.
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Para piorar, depois de a Globo resolver banir de vez os pobres de participarem das edições recentes do BBB, dizendo que não estavam satisfeitos com o fato de os brasileiros ficarem sempre votando nos mais humildes, pois o programa tinha o objetivo de “apenas de entreter, e, não, de promover justiça social” (palavras de Pedro Bial), digo que o interesse inicial que eu tinha por aquela tosqueira acabou-se de vez. Se eu quiser assistir a alguma coisa por mero entretenimento, alugo um filme na locadora — no que vou ter muito mais chances de tirar algum proveito do que assistindo àquele belo show de idiotia e superficialidade (e só isso!) que virou a cara do programa, nessa nova fase.
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No entanto, minha recusa em continuar vendo novas edições não afetou muito a audiência do programa, que continua sendo consideravelmente alta — apesar de o BBB 8 ter começado com um Ibope bem mais baixo do que as edições anteriores. E vendo hoje na casa não mais que apenas bonitões, saradões, gente ignorante e superficial, discutindo sobre as coisas mais ridículas e banais do universo, fico pensando em como aquilo pode atrair a atenção de telespectadores dos mais distintos níveis sociais e intelectuais. E a resposta pode estar nos meros resquícios de voyeurismo de nossa tenra idade que o programa tenta excitar, a fim de garantir audiência.
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Afinal, observe bem. Quando algum episódio começa, basta prestar atenção ao que todos fazem. Se estão reunidos na sala, numa transmissão ao vivo, assim que surge a cara do Pedro Bial na TV diante deles, todos (em especial a voz aguda das mulheres) se fazem ouvir: “Uh-Ruuuuuuuuuuuuu!” Então, mostram cenas de todos na festa da noite anterior e, enquanto vamos vendo as imagens, somos obrigados a escutar, um número absurdo de vezes, aquele mesmo discurso altamente filosófico: “Uh-Ruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!” De repente, todos estão bebendo e dançando. Vão rolando mais daqueles gritinhos infernais e imbecis. E a gente vai vendo tudo, curiosíssimos. Pelamordedeus... Curiosos com o quê?
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Bem, eu falava da Finlândia no início deste longo texto. Lá também começaram a exibir o Big Brother mais recentemente. E já começou com polêmica.
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Numa dessas festas em que abundam as bebidas alcoólicas e gente disposta a curtir de forma inconseqüente — e abundam é um verbo um tanto sugestivo aqui —, um casal se embebedou ao extremo e, mais tarde, o jovem foi filmado abusando sexualmente da moça, que estava completamente apagada na cama. A situação criou uma indignação enorme, dentro e fora do país. Mas serviu muito bem para atiçar a curiosidade voyeurística dos telespectadores.
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É! Parece que, diante das perversões adolescentes trazidas de volta à tona, nem mesmo toda a educação e o alto nível cultural dos finlandeses foram capazes opor resistência ao efeito daninho desse tipo de programa cretino sobre as pessoas. A diferença é que, mesmo com um bom índice de audiência, tem havido lá muita crítica ao formato do programa, ao que ele tem a oferecer. Muitos jovens têm reclamado exatamente da cretinice de se transformar em “celebridade” um bando de homens e mulheres sem o menor talento para coisa alguma, sem nenhum peso intelectual, sem nenhuma capacidade destacadamente apreciável, a não ser sua beleza física e imbecilidade congênita e adquirida. E, pensando no fiasco conhecido por Diego “Alemão”, a cria mais abominável do último BBB, fico indignado por não ver tantas críticas assim circulando por aqui — o que torna em celebridade um poço de ignorância e falta de talento como aquele sujeito?
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Na primeira semana do BBB 8, em virtude do Ibope mais baixo do que o normal, uma participante propôs que as mulheres fizessem uma dança erótica para os homens da casa. A coisa consistia em todas dançarem com os seios nus, cobertos apenas por creme de barbear. Enquanto exibiam seus seios fartos às câmeras — ao vivo, para os doentes que assinam aquela idiotice, com acesso às filmagens 24 horas por dia —, a idealizadora da dança deixou bem claro que o objetivo era excitar os caras da casa e tentar aumentar a audiência do programa. Bem, apesar de a idéia de mulheres que se prestam ao papelão de alimentar o machismo e o ego viril dos homens ao seu redor me ser bem repugnante — na verdade, um retrocesso a todas as conquistas da mulher ao longo do século passado —, confesso que a declaração de que tudo constituía uma estratégia para aumentar o Ibope deixou-me ainda mais irritado. Sobretudo porque funcionou! As cenas dos seios da mulherada na casa, cobertos de creme de barbear, têm sido apontados como o destaque do programa, desde o início desta edição.
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No fim, um pensamento me assombra: se o Big Brother consegue fazer mal à cultura da Finlândia, que desgraças não estará fazendo a nós, enquanto influencia nossa persistente falta de cultura?
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1 comentários:

Anônimo disse...

Acabo de ler o seu texto e fiquei realmente feliz por saber que alguém nesse país tem idéias parecidas com as minhas.
Achei bastante interessante sua "comparação" entre Brasil e Finlândia. Seu texto foi bastante claro quando mostrou que o voyeurismo está presente em todas as culturas, mas que as reações são diferentes.
No Brasil vivemos a cultura do escracho e do "quanto menos roupa e mais safadeza, melhor".
De fato, não dá para sonhar muito com a transformação do Brasil em uma grande Finlândia. Somos mesmo tão diferentes deles ou somos feitos diferentes deles? Perguntinha fácil de responder...

Raphael Amaral
raphael.amaral@gmail.com

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