segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Do poder das palavras e do mito democrático

por Júnior Camilo
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Em sua clássica obra Curso de Lingüística Geral, Ferdinand de Saussure definiu o signo lingüístico como “uma entidade psíquica de duas faces”, composto pela união de significante e significado. O significante seria a “imagem acústica” da palavra, a parte desta que se manifesta aos nossos sentidos, no plano da expressão. Já o significado encontrar-se-ia no plano das idéias, como a representação mental daquilo que o significante evoca; representação essa, condicionada pelo nosso contato direto e sensível com a realidade que nos circunda, bem como pela influência sociocultural constante, sob a qual nos encontramos, desde que nascemos.
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Em outras palavras, um falante de português, a quem se transmitisse o significante carro, por exemplo, quer por meio de sua representação escrita, quer por meio da pronúncia de seus sons, veria manifestar-se em sua mente a idéia comum de um veículo automotor, mesmo que os atributos de design a este conferidos, de modo particular, por esse indivíduo receptor não sejam exatamente os mesmos do veículo na mente de outrem, já que o carro que surge em minha cabeça não é necessariamente idêntico ao que o leitor deste texto evocou, assim que leu a palavra carro logo acima. De qualquer forma, o exemplo basta para ilustrar a definição de que a idéia que se produz a partir da recepção do significante é o que reconhecemos como sendo seu significado.
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Considerando esse aspecto das palavras em especial, um fato curioso é que a situação é tão comum, tão corriqueira, tão familiar a qualquer um de nós, dentro do nosso próprio ambiente lingüístico, que raramente paramos para pensar no detalhe de que carro não evoca nenhum significado, por exemplo, para falantes de alemão, francês ou norueguês, para quem o mesmo sentido só seria trazido à mente, caso se vissem diante das palavras Auto, voiture e bil, respectivamente.
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Assim, o que quero dizer é que a palavra carro, digo, essa seqüência de letras ou de sons, não é, de forma nenhuma, algo de valor universal, capaz de transmitir o mesmo sentido a todas as pessoas da Terra. E isso vale para toda e qualquer outra palavra de nossa língua ou de outra qualquer. Nossa familiaridade lingüística particular com algum determinando significante, que nos faça projetar uma imagem mental da coisa que este evoca, não torna essa imagem acústica, por sua vez, em algo capaz de expressar um mesmo e único sentido, inequívoco, a todas as demais pessoas do planeta.
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Mas, apesar disso, as palavras dão-nos a impressão de que têm um poder inerente, uma força quase sobrenatural — é como se a mera emissão vocálica de uma seqüência reconhecível de sons pudesse conceber realidades no mundo exterior àquele que os emite. “Faça-se a luz” — e a luz se faz! E não dá para não pensar no fato de que, sempre que espirramos, alguém ao nosso redor provavelmente vá dizer “Saúde!”, como se aquele mero signo, em virtude de seu sentido, pudesse nos sarar verdadeiramente do resfriado que pegamos. Isso, para não se mencionar a curiosa válvula de escape para nossa irritação que encontramos num palavrão que soltamos ao chutar o meio-fio de uma calçada, por exemplo — olhamos para a calçada, furiosos, e dirigimos a ela o mais cabeludo dos xingamentos, como se fosse um ser consciente do fato de que quase nos derrubou, e, por isso, reagimos com ofensa e agressividade verbal contra ela. Ao mesmo tempo, aquele “ô capeta!”, gritado na rua, provoca o espanto e a indignação dos que passam por ali, que não querem nem saber se quase caímos de boca no cimento áspero e duro, só não conseguem aceitar a palavra proferida em nosso momento de raiva. Pois, para estes, por sua vez, é como se a palavra desse vida real ao ser que nomeia.
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Sim! A crença no poder das palavras sempre será, ao mesmo tempo, um objeto de pesquisa interessantíssimo e um dado para reflexão um tanto importuno, inquietante.
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E, nesse sentido, é um elemento curioso, para dizer o mínimo, a recente constatação, que vem se somar a esta análise, referente a um estudo do cérebro humano, acerca da mediação de regiões do córtex pré-frontal medial, da ínsula anterior, do lobo parietal superior e do núcleo caudado, nos processos humanos de aceitação ou rejeição de algo como sendo verdade ou inverdade, uma vez que isso sugere que tais aceitações individuais são governadas, em parte, por aquelas mesmíssimas regiões que se relacionam com a nossa memória e aprendizado, e permitem-nos, por exemplo, julgar a aprazibilidade de sabores e aromas. Isso é intrigante porque a análise de dados obtidos nesses estudos revela que a atividade cerebral se dá praticamente da mesma forma, com o envolvimento das mesmas regiões, quer estejamos percebendo um objeto concreto no espaço físico à nossa volta, quer estejamos apenas compreendendo e aceitando uma proposição que alguém nos esteja fazendo. Ou seja, é como se os nossos cérebros, de forma natural, assimilassem algo que se nos fosse proposto e parecesse-nos verossímil como sendo mesmo realidade, existente no mundo físico em que vivemos. Se uma idéia nos parece real, acreditamos: a coisa é real!
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A partir desta longa (e, para muitos, exaustiva) introdução, eu poderia discutir vários temas que me parecem igualmente interessantes — inclusive aquele que me é o mais interessante de todos para um debate crítico, isto é, a religião. Porém, pretendo falar de um outro assunto neste texto. Quero discutir o valor de verdade de uma palavrinha em particular: democracia.
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Incomoda-me ouvir pessoas, políticos em especial, usando essa palavra, como se significasse de fato, em seus modelos verificáveis no mundo real, ao longo de toda a história das civilizações até aqui, aquilo que se traduz literalmente da palavra grega de que se origina, isto é, δημοκρατία (formada a partir de δήμος [“povo”] + κράτος [“poder”]). Digo, eles falam de democracia, pregam a palavra aos ouvidos crédulos de todos, como se ela se referisse mesmo a um regime em que o poder está verdadeiramente nas mãos do povo (ou para citar as palavras decoradas, que um colega de trabalho adora repetir: “democracia é todo o poder emanando do povo!”). E nós sorrimos, aplaudimos e acreditamos — eis nosso cérebro ingenuamente crédulo em ação!
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Bem, para início de conversa, o que nossa cega aceitação de tal palavra faz, no que a assimilamos como uma realidade existente ou mesmo viável, é com que ignoremos o fato de que um regime de governo que coloque o poder efetivamente nas mãos do povo não existe, em lugar nenhum deste planeta. Nem nos EUA, mesmo que eles adorem dizer que são o país mais democrático do mundo, embora o próprio sistema eleitoral deles, para citar um exemplo, seja capaz de produzir até mesmo resultados paradoxais, como aconteceu há alguns anos, quando o candidato à presidência que obtivera o menor número de votos foi, no fim, o vencedor.
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Na verdade, tudo vai depender de como se entenda esse significante: democracia. Se o entendermos, via de regra, como aquela imagem mental que fazemos ao dizer “poder do povo”, estaremos sempre nos enganando e alimentando falsas e não concretizáveis esperanças.
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Vivemos, em termos mais precisos, sob um modelo de regime denominado “democracia representativa” ou indireta, uma vez que temos de eleger supostos representantes de nossos interesses, que, por sua vez, serão aqueles que de fato tomarão as decisões, elaborarão as leis e traçarão os rumos que a sociedade tomará. Isso não é exatamente o que poderíamos chamar de “poder nas mãos do povo”, não é mesmo? No máximo, poder-se-ia dizer que o poder está nas mãos de “representantes” do povo — embora esses tenham o lamentável vício de representarem muito mais os próprios interesses! (Como disse Menotti del Picchia, num aforismo que citei num conto que escrevi: “Política é a arte de conciliar os interesses próprios, fingindo conciliar os dos outros”.)
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Além do que, no caso do Brasil, por exemplo, chega a ser embaraçoso o agravante de que, aqui, o voto nesses nossos “representantes” seja obrigatório para cidadãos entre 18 e 70 anos de idade. Em outras palavras, em nossa sociedade “democrática”, o voto é um direito que sou obrigado por lei a exercer — e, assim, chegamos ao fundo do poço da cretinice nada-a-ver! Porém, os nossos pensadores, sociólogos, cientistas políticos e, é claro, os nossos políticos continuam a falar em democracia. Ah, como falam! Vendem essa falácia como um pastor na esquina vende, ao berros, seu deus implacável, tirando seu sustento da espantosa aptidão humana para a credulidade ingênua.
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Falam porque sabem que a tal da democracia, na verdade, soa lindamente, como uma boa nova salvífica, enquanto mascara um regime praticamente plutocrático, em que o poder acaba sempre nas mãos de quem tem dinheiro. E a obrigatoriedade do voto, como acontece no Brasil, contribui ainda mais para a manutenção de tal status quo, uma vez que currais eleitorais tornam-se uma realidade corriqueira, bem como o é a compra de votos de uma família inteira em troca de uma simples cesta básica — algo resultante de uma imensa nação de eleitores que é, ao mesmo tempo, uma imensa nação de analfabetos de fato, analfabetos funcionais e, quase que via de regra, pobres e mal-empregados ou mesmo sem nenhum emprego.
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A democracia como “poder do povo” é um mito! E, aliás, há mesmo que se perguntar se é ao menos desejável, afinal de contas. Digo, será que um regime democrático puramente direto seria mesmo uma vantagem? Para ser sincero, não sei! Mas tendo a duvidar dessa crença tola de que a maioria das pessoas detém a chave do que é certo e melhor.
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Recentemente, houve no Brasil um referendo sobre a questão da liberação ou não do porte de armas para a população civil, e o fato de que a minha opção pacifista tenha sido também a da maioria foi, confesso-o, uma surpresa e um alívio. No entanto, o detalhe de que, na Alemanha, os referendos, em que o povo vai às urnas decidir sobre algum tema relevante, sejam terminantemente proibidos, hoje em dia, deve-se ao fato lamentável de que foi por via desse mesmo instrumento que Adolf Hitler conseguiu manipular a opinião pública e perpetrar sua escalada ao poder, resultando no horror do regime nazista, que manchou as páginas da História do século 20 para sempre.
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Um questionamento: como o voto de uma maioria de pessoas de baixa instrução e renda e acriticamente manipuláveis, que não podem ter dignidade inabalável simplesmente porque a sociedade não os trata com dignidade, pode ser capaz de decidir o que é certo e melhor para todos? Se houvesse um referendo na Irlanda do Norte, consultando a opinião da maioria (protestante) quanto à criação de campos de concentração para a minoria (católica) nos moldes nazistas, não seria nenhuma surpresa se o resultado fosse afirmativo.
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Enfim, precisamos parar de acreditar em contos de fadas. Se a palavra democracia já é um mito per se, algo inviável em seu sentido literal, um modelo, qualquer dia aplicável, de poder diretamente nas mãos do povo seria simplesmente desastroso. O senso-comum não tende a ser razoável — muitas vezes, é exatamente o contrário!
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E qual é o modelo perfeito, então? Bem, quem foi que disse que é necessário um modelo perfeito de regime governamental para que as coisas funcionem bem? Um regime assim não existe e é decerto inconcebível. Mas, apesar disso, o modelo que temos, esse mesmo da chamada “democracia representativa”, poderia funcionar muito bem — ou, pelo menos, melhor do que funciona —, se os eleitores tivessem um senso crítico mais apurado, mais conhecimento de nossa história política, enfim, mais conhecimento em geral. Em outras palavras, se nossa sociedade investisse de forma massiva em educação de qualidade para todos, ao passo que a própria cultura mudasse a ponto de aprendermos a valorizar mais o conhecimento em lugar das tantas futilidades que almejamos, poderíamos aprender a questionar mais o valor de verdade das palavras ditas e jamais concretizadas. Sim, a educação seria uma ótima ferramenta de construção de uma sociedade não perfeita, mas ao menos melhor, menos repleta de disparidades.
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No entanto, vendo a direção em que caminhamos hoje, acho que estou começando a acreditar também, de forma cega e ingênua, no poder de uma certa palavra: utopia.
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domingo, 16 de dezembro de 2007

Revelação

Um conto de Júnior Camilo
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Camisa verde-amarela, bandeirinha de plástico e um apito infernal metido na boca. Cida estava com todo o gás. Era dia de jogo do Brasil na Copa. Na tevê, o narrador esportivo inflava ainda mais o orgulho dela dizendo, com ar de profeta, autoridade de oráculo, a mesma história de sempre: a Seleção Brasileira é favoritíssima, o Brasil é o país do futebol, todo mundo tenta mas só o Brasil é penta!
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A partida era pelas quartas-de-final. Brasil e França, um confronto que não trazia boas lembranças para Cida. Tanto não trazia que ela tentou não pensar mais naquilo, procurou deletar os “Azuis” de 98 da sua memória. Porém, aconteceu outra vez. Placar final: França 1, Brasil tchau! Era como se toda aquela francesada estivesse dizendo em alto e bom som: “A gente quer mais é que o Brasil Zidane! Allez les Bleus!” Trocadilho infeliz aquele que lhe ocorria naquele momento! Cida não conseguia acreditar, não conseguia aceitar. E chorava e se descabelava toda.
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Joana, a prima de Cida, era uma mulata lindíssima, um fenômeno desses de fazer andar o trânsito. Todo mundo sempre encheu a bola dela, sempre disse que era demais! Quando conheceu Jens Gerhardts, um rico empresário alemão que visitava o país e ficou interessado nela, todo mundo em sua família lhe parabenizou antecipadamente. “Esse daí está no papo!”, todos lhe repetiam. “Gringo não resiste a uma mulher brasileira. As brasileiras são as mais lindas mulheres do mundo, sem comparações! Se for mulata então? Ih, os gringos ficam tudo de quatro!”
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Quando o gringo foi embora, acompanhado duma compatrícia sua, tão branquela e tão loira quanto ele, uma turista de Colônia com quem tinha se esbarrado por acaso outra tarde, Joana entrou em depressão. Como uma mulher linda como ela, desejada como ela, gostosa como ela — “Que pena que não como ela!”, exclamavam os homens nas ruas —, enfim, como é que ela podia ser trocada por uma loira branca-azeda, coisa tão comum lá na Alemanha? Como? Como?
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A tevê mostrava o Rio. Lá estava o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, outra vez Copacabana. A cidade era mesmo maravilhosa! O prefeito olhava para as cenas e se gabava: Que beleza!
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Noutro ponto da cidade, Cida assistia às mesmas imagens. Mas elas não espelhavam a visão que tinha da janela do seu quarto. Só via barracos, só via miséria, traficantes, gente morta, degradação. O Rio da janela de Cida era a própria visão do inferno, a contemplação do caos, do Cristo avistado de trás.
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O melhor futebol do mundo, as mulheres mais sensuais, a cidade mais bela de todas: as pessoas viam tudo aquilo e pensavam consigo: “Que bom ser brasileiro!”
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No culto, o pastor pregava sobre a Criação. “Então Deus disse”, ele bradava diante da assembléia, “Que a terra produza todo tipo de animais: domésticos, selvagens e os que se arrastam pelo chão, cada um de acordo com a sua espécie! E assim aconteceu. Deus fez os animais, cada um de acordo com a sua espécie: os animais domésticos, os selvagens e os que se arrastam pelo chão. E Deus viu que o que havia feito era bom. Aí ele disse: Agora vamos fazer os seres humanos, que serão como nós, que se parecerão conosco. Eles terão poder sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais que se arrastam pelo chão. Assim Deus criou os seres humanos; ele os criou parecidos com Deus. Ele os criou homem e mulher e os abençoou, dizendo: Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem...” Cida ouvia tudo aquilo com atenção, meditando sobre cada palavra que o pastor berrava para os surdos fiéis da sua igreja, até concluir afinal: “E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom.”
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No caminho de volta para casa, Cida olhava a cidade pela janela do lotação, pensava e balançava a cabeça. Finalmente tinha tido uma revelação: Deus era mesmo brasileiro.
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domingo, 9 de dezembro de 2007

A outra face da moeda

por Júnior Camilo
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Há duas semanas, escrevi sobre o avanço do antiintelectualismo no sistema educacional dos EUA e comentei como a educação no Brasil tem caminhado na mesma direção, com os alunos se tornando cada vez mais fúteis, superficiais, ineficientes em seu processo de aprendizagem, e, sobretudo, manifestamente adversos aos estudos, em especial ao estudo das ciências teóricas e das artes liberais (q.v. “Placar final: Ignorância 10 x 0 Conhecimento”, 24/09/2007).
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No texto, com a frase final, procurei demonstrar minha frustração, ou antes, meu desespero, em face da queda vertiginosa da qualidade do ensino, de modo concomitante ao desinteresse gradual dos alunos por aprender. Isso, não importando o quanto os professores se esforcem por atrair sua atenção. Ao passo que estes, por sua vez, sentem-se cada vez menos estimulados a se devotar, enquanto vêem seu trabalho ser desvalorizado, de uma maneira revoltante e ridícula, pelos governos das três instâncias, que pagam pouco e não oferecem condições viáveis de aperfeiçoamento a esses profissionais. Para não mencionar o fato de que, mal remunerados, os bons professores têm ou se acomodado em meio ao caos que se estabeleceu nas escolas públicas ou ido em busca de melhores oportunidades financeiras e de trabalho, em escolas particulares. Algo que gera um problema a mais: ficam as escolas públicas entregues a péssimos profissionais, não raro, com pouca ou mesmo nenhuma experiência de ensino das disciplinas para as quais acabam pegando aulas.
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A situação é dramática e, confesso-o, tem me deixado muito preocupado com o que vai ser desses garotos de hoje, quando não for mais “hoje”. Digo, não consigo parar de pensar em que destino vão ter na vida, quando o futuro se apresentar, cobrando o amadurecimento que, pelo menos no que se refere à luta pelo ganha-pão, não dá para ficar adiando por muito tempo — diferente do que acontece com os relacionamentos amorosos, por exemplo, em que as pessoas têm feito de tudo para amadurecer, deixar de ser crianções mimados e egoístas, o mais tarde possível.
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Nessas horas, a inquietação aumenta, sobretudo, quando me vejo em face da contramão de tudo o que expus naquele texto de 24 de novembro. A outra face da moeda. Uma situação em que o que deveria ser uma boa notícia acaba me deixando ainda mais triste por esses garotos que vejo ao meu redor, todos os dias. Mas, para tornar as coisas mais claras, deixem-me explicar melhor.
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Estava eu vasculhando alguns sites na internet, em busca de alguns textos literários, quando me deparei com um sobrenome muito familiar. Na verdade, o próprio nome era-me bem conhecido, pois se tratava de ninguém menos do que a irmã caçula de uma ex-namorada minha — esta, uma pessoa maravilhosa, que saiu de uma faculdade lá do Meio-Oeste dos EUA, para vir parar na mesma universidade em que eu estudava, graças a um programa de intercâmbio mantido entre as duas instituições. Bem, o fato é que essa minha “quase-cunhada”, como o site informava, havia ganhado uma medalha de ouro na edição de 2004 do Art & Writing Awards [Prêmio de Artes & Redação], da Alliance for Young Artists & Writers [Aliança em pró de Jovens Artistas & Escritores], em reconhecimento por um conjunto de poemas de sua autoria. Fiquei curioso com a nota sobre a premiação e resolvi ler os poemas disponibilizados on-line, dos quais transcrevo um abaixo, seguido de uma tradução que fiz para o português:
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Safe (Delia Springstubb)
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The steam from the mug on the dashboard
clouds glass like the breath of a boy on a winter window.
The rhythm of rain upon windshield
urges sleep
and the low pulse of the voice from 5 o'clock radio
is present in half-dreams of open-road.
Hair earlier lifted and brought to life by wind,
presses against glass.
Car lights blink on lazily,
an evening afterthought.
The sideways slant of streaming rain
is yellow in the haze of headlights
inching uphill.
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TRADUÇÃO:
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Segura
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A fumaça saindo da caneca por sobre o painel
faz o vidro nublar como o hálito de um garoto em uma janela no inverno.
O ritmo da chuva sobre o pára-brisa
incita ao sono
e o pulso fraco da voz que vem do rádio às 5 horas
faz-se presente em semi-sonhos com uma estrada desimpedida.
Cabelos mais cedo eriçados e trazidos à vida pelo vento,
comprimem-se contra o vidro.
Luzes de carros vão piscando de forma ociosa,
uma reflexão tardia ao anoitecer.
O declive lateral de chuva corrente
fica amarelo em meio à neblina de faróis
que avançam lentamente morro acima.
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O que me chamou a atenção nesses versos premiados — os quais adorei, tenho prazer em reconhecê-lo — foi o fato de saber que haviam sido escritos por uma garota de 17 anos, que ainda estava no colégio. Aliás, ela concorreu ao prêmio como representante de sua escola. E, no jornal que esta mantinha, Delia chegou a escrever artigos, dentre os quais uma perspicaz crítica ao filme Matrix Revolutions, que pude também encontrar disponível para leitura, nesse mundo apavorantemente informativo (quer para o bem quer para o mal), que é a rede mundial de computadores.
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Antes de eu prosseguir, gostaria de compartilhar com vocês um outro poema de Delia:
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Not A Love Poem (Delia Springstubb)
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It's summer, and I am perched on a washing machine in a basement laundry room, bathed in yellow light, hot air, and clean smell. It's after eleven now, and the smashed heels of my pebble-worn, red-canvas shoes drum the sides of the jostling machine. A sloshing sound as my clothes are cooked and shaken, spun and cycled, soaked in three stages. I'm waiting alone.
The door slams, a short, metallic clang above me. Someone's legs take the stairs by storm and my feet stop swinging as he steps in. He slow-smiles, brown eyes rimmed in what might be silver, and turns to his clothes, lying still in the dryer. I catch sight of a red shirt asleep under striped shorts, which he shovels into a bag before slipping away.
Seven stairs and a minute later he's back and I feel like asking him to stay. Wait a while, it's lonely here, just me and the whir of wash. I forgot detergent. Is this even doing any good? My dollar twenty-five swallowed by the machine that shudders, threatens liftoff. But he's already slipping paper into a bag, lines jagged on clean pages, poetry he forgot on the counter. I count to ten six times: A minute, maybe. Wait for the machine to sputter, to stop.
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TRADUÇÃO:
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Não um Poema de Amor
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É verão, e estou empoleirada por sobre uma máquina de lavar na lavanderia de um porão, envolta em luz amarela, ar quente, e cheiro de limpeza. Já passam das onze agora, e os saltos arruinados de meus sapatos de lona vermelha, gastos pelas pedras, tamborilam as laterais da máquina aos solavancos. Um som de algo a espirrar enquanto minhas roupas são cozidas e sacudidas, torcidas e rodadas, e deixadas de molho em três estágios. Estou esperando sozinha.
A porta bate, um tinido breve e metálico acima de mim. As pernas de alguém tomam de assalto os degraus e meus pés param de balançar quando ele entra. Ele dá um vagaroso sorriso, olhos castanhos rodeados de algo talvez prateado, e volta-se para suas roupas, que estavam paradas dentro da secadora. Avisto uma camisa vermelha inerte por baixo de um short listrado, que ele joga para dentro da bolsa antes de sair sem chamar a atenção.
Sete degraus e um minuto depois ele volta e tenho vontade de pedi-lo para ficar. Espero um pouco, está solitário aqui, só eu e o chiado da lavação. Esqueci o detergente. Isto está ao menos servindo para alguma coisa? Meu um dólar e vinte e cinco centavos engolidos pela máquina que treme e ameaça decolar. Mas ele já está quietamente enfiando papel em uma bolsa, versos entalhados em páginas limpas, poesia que esqueceu em cima do balcão. Eu conto até dez seis vezes: Um minuto, talvez. Espero pela máquina estalar, e parar.
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No fim, os versos dessa estudante, como eu já disse, com apenas 17 anos na época, expressam uma criatividade, um talento apurado na escolha de verbos intensos, marcantes, uma capacidade de observação do mundo a seu redor e de seu cosmo interior, bem como de refletir sobre suas impressões, e fazem com que eu pense nos efeitos saudáveis e remediadores de uma criação que propicie um contato com as artes e com o saber, desde tenra idade, num ambiente familiar em que se os cultive, como forma de se contrabalancear os efeitos nocivos da campanha antiintelectualista que discuti naquele meu já mencionado texto.
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Essa garota é filha de um homem de admirável cultura, professor de Inglês em sua cidade há mais de duas décadas, cuja esposa é escritora de livros infantis, com mais de vinte livros publicados, e autora de diversos artigos de crítica literária. As três filhas que tiveram (Zoë, Phoebe e a nossa já citada poetisa) foram todas educadas com uma base sólida de cultura artística e literária — todas apreciam música clássica (sendo que duas tocam violoncelo enquanto a outra toca violino), tiveram uma eficiente educação artística (e Phoebe aprendeu a pintar divinamente), tiveram um contato profundo com a literatura, e todas escrevem muito, muito bem, ao passo que uma delas (a minha ex-namorada, Zoë) desenvolveu uma paixão louvável pelo estudo de diversas línguas: espanhol, português, turco, árabe, que ela domina, além de tantas outras que sempre se viu curiosa por aprender.
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Quanto aos esportes? Ah, sim! Essas irmãs não são do tipo intelectuais que odeiam atividades físicas. Pelo contrário! Praticam vários esportes, ainda que não sejam exatamente um fenômeno em nenhum deles. Se bem que Delia, a garota dos poemas, tem tido notáveis resultados em suas participações em cross-countries — uma modalidade de corrida bem popular nos EUA. Corridas de que as outras duas também participam, entre outras atividades do gênero.
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Além disso, nem sequer se poderia dizer que, criadas como foram, as irmãs em questão não tivessem tido tempo para aproveitar a vida. Ora, na verdade, duvido que haja mesmo um pequeno número de garotas num raio de 200Km daqui, de minha pequena cidade, que tenham tido a liberdade que essas três tiveram de ir atrás daquilo que tinham vontade de fazer. A minha ex-namorada, por exemplo, queria viajar para alguns lugares do mundo e estudar a língua e a cultura de cada um. E foi isso o que ela fez. Sempre com o apoio dos pais.
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E, antes que seja mal compreendido, acho bom esclarecer: nenhuma delas é do tipo patricinha, parasita, que vive às custas dos pais. Todas aprenderam cedo a batalhar a própria grana, a correr atrás de seus interesses com as próprias pernas.
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O concurso vencido por Delia, em 2004, premiou vários outros jovens igualmente talentosos. E continua premiando outros. Outros que, como podemos supor, tiveram a sorte de ser criados num ambiente em que a cultura é fomentada, apesar da ideologia dominante de que os jovens estadunidenses devem aprender apenas a ser bons consumistas e eficientes trabalhadores, além de eleitores alienados, sem senso crítico, nada mais — alguma sensação de déjà vu, brasileiros?
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Aqui, em nosso país, a mesma mentalidade vem tomando conta, como já salientei. Mas o pior é que tenho visto poucos pais que, mesmo que queiram dar uma boa educação aos filhos, estejam aptos a complementar, em casa, aquilo que a escola não tem sido eficiente em passar. Além disso, percebo que os jovens não querem saber de aprender justamente porque sua família, via de regra, não dá o devido valor à cultura e ao conhecimento. Os pais que falam em conseguir botar os filhos na faculdade, de modo invariável, têm em mente a formação destes em alguma profissão liberal que lhes garanta um ótimo salário e um respeitado status social.
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A idéia do “meu filho vai ser doutor” contribui para a imbecilização dos jovens. Afinal, uma vez que se enfoca o potencial aquisitivo da profissão, em vez de se valorizar a vocação individual e o potencial de realização pessoal que isso implica, a tendência é a de que o sistema produza profissionais de competência questionável, muito provavelmente estressados e frustrados com a vida — que tentam compensar isso, obtendo no máximo algum nível parcial de sucesso, com o prazer material que o dinheiro que ganham lhes possa proporcionar.
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Na última semana, durante uma aula de Língua Portuguesa que estava repondo para um colega professor, pedi a alguns alunos que fizessem uma redação. Em sua maioria, eram alunos um ou dois anos mais novos do que Delia, quando escreveu seus poemas e os artigos para o jornal da escola, mas alguns tinham bem mais de 17. Os textos que recebi eram, todos eles, desorganizados, sem nexo, com sintaxe caótica, ortografia repleta de discrepâncias com relação à da língua padrão, e não diziam nada além de um agrupamento estapafúrdio de clichês. Um desastre apavorante, no fim! (E nem é culpa do professor de Português, que é bem competente em sua área, que fique bem claro.)
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O desinteresse pelos estudos, sobretudo pelos estudos das artes e das ciências, tem se ploriferado como uma praga virulenta em meio aos jovens. E a maneira como eles reagem, até mesmo de forma agressiva, quando se lhes pede que pensem um pouco no futuro que os aguarda, é alarmantemente sintomática. Estão infectados e nem se dão conta disso. Infectados pela ignorância e a alienação. Incapazes de ver o desastre que pode vir a ser seu futuro. Ou o que, de modo particular, acho ainda pior: são incapazes de ver o valor inestimável do saber, da beleza e da profundidade das artes, do assombro hipnotizante e apaixonante do conhecimento científico.
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Penso no tempo passando para aqueles jovens que têm a sorte de crescer num meio como aquele em que se criaram as três irmãs de que falei aqui, ao mesmo tempo em que passa para esses jovens que não querem saber de nada, quando o assunto é os estudos, e vejo um futuro lamentável. Onde não vai haver “choro” nem “ranger de dentes”, como numa insana ameaça bíblica, mas, com certeza e infelizmente, vai ser bem real o inferno torturante da iluminação e do arrependimento que só vêm quando já é tarde demais.
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AVISO

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