domingo, 16 de dezembro de 2007

Revelação

Um conto de Júnior Camilo
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Camisa verde-amarela, bandeirinha de plástico e um apito infernal metido na boca. Cida estava com todo o gás. Era dia de jogo do Brasil na Copa. Na tevê, o narrador esportivo inflava ainda mais o orgulho dela dizendo, com ar de profeta, autoridade de oráculo, a mesma história de sempre: a Seleção Brasileira é favoritíssima, o Brasil é o país do futebol, todo mundo tenta mas só o Brasil é penta!
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A partida era pelas quartas-de-final. Brasil e França, um confronto que não trazia boas lembranças para Cida. Tanto não trazia que ela tentou não pensar mais naquilo, procurou deletar os “Azuis” de 98 da sua memória. Porém, aconteceu outra vez. Placar final: França 1, Brasil tchau! Era como se toda aquela francesada estivesse dizendo em alto e bom som: “A gente quer mais é que o Brasil Zidane! Allez les Bleus!” Trocadilho infeliz aquele que lhe ocorria naquele momento! Cida não conseguia acreditar, não conseguia aceitar. E chorava e se descabelava toda.
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Joana, a prima de Cida, era uma mulata lindíssima, um fenômeno desses de fazer andar o trânsito. Todo mundo sempre encheu a bola dela, sempre disse que era demais! Quando conheceu Jens Gerhardts, um rico empresário alemão que visitava o país e ficou interessado nela, todo mundo em sua família lhe parabenizou antecipadamente. “Esse daí está no papo!”, todos lhe repetiam. “Gringo não resiste a uma mulher brasileira. As brasileiras são as mais lindas mulheres do mundo, sem comparações! Se for mulata então? Ih, os gringos ficam tudo de quatro!”
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Quando o gringo foi embora, acompanhado duma compatrícia sua, tão branquela e tão loira quanto ele, uma turista de Colônia com quem tinha se esbarrado por acaso outra tarde, Joana entrou em depressão. Como uma mulher linda como ela, desejada como ela, gostosa como ela — “Que pena que não como ela!”, exclamavam os homens nas ruas —, enfim, como é que ela podia ser trocada por uma loira branca-azeda, coisa tão comum lá na Alemanha? Como? Como?
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A tevê mostrava o Rio. Lá estava o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, outra vez Copacabana. A cidade era mesmo maravilhosa! O prefeito olhava para as cenas e se gabava: Que beleza!
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Noutro ponto da cidade, Cida assistia às mesmas imagens. Mas elas não espelhavam a visão que tinha da janela do seu quarto. Só via barracos, só via miséria, traficantes, gente morta, degradação. O Rio da janela de Cida era a própria visão do inferno, a contemplação do caos, do Cristo avistado de trás.
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O melhor futebol do mundo, as mulheres mais sensuais, a cidade mais bela de todas: as pessoas viam tudo aquilo e pensavam consigo: “Que bom ser brasileiro!”
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No culto, o pastor pregava sobre a Criação. “Então Deus disse”, ele bradava diante da assembléia, “Que a terra produza todo tipo de animais: domésticos, selvagens e os que se arrastam pelo chão, cada um de acordo com a sua espécie! E assim aconteceu. Deus fez os animais, cada um de acordo com a sua espécie: os animais domésticos, os selvagens e os que se arrastam pelo chão. E Deus viu que o que havia feito era bom. Aí ele disse: Agora vamos fazer os seres humanos, que serão como nós, que se parecerão conosco. Eles terão poder sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais que se arrastam pelo chão. Assim Deus criou os seres humanos; ele os criou parecidos com Deus. Ele os criou homem e mulher e os abençoou, dizendo: Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem...” Cida ouvia tudo aquilo com atenção, meditando sobre cada palavra que o pastor berrava para os surdos fiéis da sua igreja, até concluir afinal: “E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom.”
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No caminho de volta para casa, Cida olhava a cidade pela janela do lotação, pensava e balançava a cabeça. Finalmente tinha tido uma revelação: Deus era mesmo brasileiro.
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