por Júnior Camilo
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Há duas semanas, escrevi sobre o avanço do antiintelectualismo no sistema educacional dos EUA e comentei como a educação no Brasil tem caminhado na mesma direção, com os alunos se tornando cada vez mais fúteis, superficiais, ineficientes em seu processo de aprendizagem, e, sobretudo, manifestamente adversos aos estudos, em especial ao estudo das ciências teóricas e das artes liberais (q.v. “Placar final: Ignorância 10 x 0 Conhecimento”, 24/09/2007).
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No texto, com a frase final, procurei demonstrar minha frustração, ou antes, meu desespero, em face da queda vertiginosa da qualidade do ensino, de modo concomitante ao desinteresse gradual dos alunos por aprender. Isso, não importando o quanto os professores se esforcem por atrair sua atenção. Ao passo que estes, por sua vez, sentem-se cada vez menos estimulados a se devotar, enquanto vêem seu trabalho ser desvalorizado, de uma maneira revoltante e ridícula, pelos governos das três instâncias, que pagam pouco e não oferecem condições viáveis de aperfeiçoamento a esses profissionais. Para não mencionar o fato de que, mal remunerados, os bons professores têm ou se acomodado em meio ao caos que se estabeleceu nas escolas públicas ou ido em busca de melhores oportunidades financeiras e de trabalho, em escolas particulares. Algo que gera um problema a mais: ficam as escolas públicas entregues a péssimos profissionais, não raro, com pouca ou mesmo nenhuma experiência de ensino das disciplinas para as quais acabam pegando aulas.
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A situação é dramática e, confesso-o, tem me deixado muito preocupado com o que vai ser desses garotos de hoje, quando não for mais “hoje”. Digo, não consigo parar de pensar em que destino vão ter na vida, quando o futuro se apresentar, cobrando o amadurecimento que, pelo menos no que se refere à luta pelo ganha-pão, não dá para ficar adiando por muito tempo — diferente do que acontece com os relacionamentos amorosos, por exemplo, em que as pessoas têm feito de tudo para amadurecer, deixar de ser crianções mimados e egoístas, o mais tarde possível.
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Nessas horas, a inquietação aumenta, sobretudo, quando me vejo em face da contramão de tudo o que expus naquele texto de 24 de novembro. A outra face da moeda. Uma situação em que o que deveria ser uma boa notícia acaba me deixando ainda mais triste por esses garotos que vejo ao meu redor, todos os dias. Mas, para tornar as coisas mais claras, deixem-me explicar melhor.
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Há duas semanas, escrevi sobre o avanço do antiintelectualismo no sistema educacional dos EUA e comentei como a educação no Brasil tem caminhado na mesma direção, com os alunos se tornando cada vez mais fúteis, superficiais, ineficientes em seu processo de aprendizagem, e, sobretudo, manifestamente adversos aos estudos, em especial ao estudo das ciências teóricas e das artes liberais (q.v. “Placar final: Ignorância 10 x 0 Conhecimento”, 24/09/2007).
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No texto, com a frase final, procurei demonstrar minha frustração, ou antes, meu desespero, em face da queda vertiginosa da qualidade do ensino, de modo concomitante ao desinteresse gradual dos alunos por aprender. Isso, não importando o quanto os professores se esforcem por atrair sua atenção. Ao passo que estes, por sua vez, sentem-se cada vez menos estimulados a se devotar, enquanto vêem seu trabalho ser desvalorizado, de uma maneira revoltante e ridícula, pelos governos das três instâncias, que pagam pouco e não oferecem condições viáveis de aperfeiçoamento a esses profissionais. Para não mencionar o fato de que, mal remunerados, os bons professores têm ou se acomodado em meio ao caos que se estabeleceu nas escolas públicas ou ido em busca de melhores oportunidades financeiras e de trabalho, em escolas particulares. Algo que gera um problema a mais: ficam as escolas públicas entregues a péssimos profissionais, não raro, com pouca ou mesmo nenhuma experiência de ensino das disciplinas para as quais acabam pegando aulas.
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A situação é dramática e, confesso-o, tem me deixado muito preocupado com o que vai ser desses garotos de hoje, quando não for mais “hoje”. Digo, não consigo parar de pensar em que destino vão ter na vida, quando o futuro se apresentar, cobrando o amadurecimento que, pelo menos no que se refere à luta pelo ganha-pão, não dá para ficar adiando por muito tempo — diferente do que acontece com os relacionamentos amorosos, por exemplo, em que as pessoas têm feito de tudo para amadurecer, deixar de ser crianções mimados e egoístas, o mais tarde possível.
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Nessas horas, a inquietação aumenta, sobretudo, quando me vejo em face da contramão de tudo o que expus naquele texto de 24 de novembro. A outra face da moeda. Uma situação em que o que deveria ser uma boa notícia acaba me deixando ainda mais triste por esses garotos que vejo ao meu redor, todos os dias. Mas, para tornar as coisas mais claras, deixem-me explicar melhor.
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Estava eu vasculhando alguns sites na internet, em busca de alguns textos literários, quando me deparei com um sobrenome muito familiar. Na verdade, o próprio nome era-me bem conhecido, pois se tratava de ninguém menos do que a irmã caçula de uma ex-namorada minha — esta, uma pessoa maravilhosa, que saiu de uma faculdade lá do Meio-Oeste dos EUA, para vir parar na mesma universidade em que eu estudava, graças a um programa de intercâmbio mantido entre as duas instituições. Bem, o fato é que essa minha “quase-cunhada”, como o site informava, havia ganhado uma medalha de ouro na edição de 2004 do Art & Writing Awards [Prêmio de Artes & Redação], da Alliance for Young Artists & Writers [Aliança em pró de Jovens Artistas & Escritores], em reconhecimento por um conjunto de poemas de sua autoria. Fiquei curioso com a nota sobre a premiação e resolvi ler os poemas disponibilizados on-line, dos quais transcrevo um abaixo, seguido de uma tradução que fiz para o português:
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Safe (Delia Springstubb).The steam from the mug on the dashboardclouds glass like the breath of a boy on a winter window.The rhythm of rain upon windshieldurges sleepand the low pulse of the voice from 5 o'clock radiois present in half-dreams of open-road.Hair earlier lifted and brought to life by wind,presses against glass.Car lights blink on lazily,an evening afterthought.The sideways slant of streaming rainis yellow in the haze of headlightsinching uphill..TRADUÇÃO:.Segura.A fumaça saindo da caneca por sobre o painelfaz o vidro nublar como o hálito de um garoto em uma janela no inverno.O ritmo da chuva sobre o pára-brisaincita ao sonoe o pulso fraco da voz que vem do rádio às 5 horasfaz-se presente em semi-sonhos com uma estrada desimpedida.Cabelos mais cedo eriçados e trazidos à vida pelo vento,
comprimem-se contra o vidro.Luzes de carros vão piscando de forma ociosa,uma reflexão tardia ao anoitecer.O declive lateral de chuva correntefica amarelo em meio à neblina de faróisque avançam lentamente morro acima.
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O que me chamou a atenção nesses versos premiados — os quais adorei, tenho prazer em reconhecê-lo — foi o fato de saber que haviam sido escritos por uma garota de 17 anos, que ainda estava no colégio. Aliás, ela concorreu ao prêmio como representante de sua escola. E, no jornal que esta mantinha, Delia chegou a escrever artigos, dentre os quais uma perspicaz crítica ao filme Matrix Revolutions, que pude também encontrar disponível para leitura, nesse mundo apavorantemente informativo (quer para o bem quer para o mal), que é a rede mundial de computadores.
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Antes de eu prosseguir, gostaria de compartilhar com vocês um outro poema de Delia:
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Not A Love Poem (Delia Springstubb).It's summer, and I am perched on a washing machine in a basement laundry room, bathed in yellow light, hot air, and clean smell. It's after eleven now, and the smashed heels of my pebble-worn, red-canvas shoes drum the sides of the jostling machine. A sloshing sound as my clothes are cooked and shaken, spun and cycled, soaked in three stages. I'm waiting alone.The door slams, a short, metallic clang above me. Someone's legs take the stairs by storm and my feet stop swinging as he steps in. He slow-smiles, brown eyes rimmed in what might be silver, and turns to his clothes, lying still in the dryer. I catch sight of a red shirt asleep under striped shorts, which he shovels into a bag before slipping away.Seven stairs and a minute later he's back and I feel like asking him to stay. Wait a while, it's lonely here, just me and the whir of wash. I forgot detergent. Is this even doing any good? My dollar twenty-five swallowed by the machine that shudders, threatens liftoff. But he's already slipping paper into a bag, lines jagged on clean pages, poetry he forgot on the counter. I count to ten six times: A minute, maybe. Wait for the machine to sputter, to stop..TRADUÇÃO:.Não um Poema de Amor
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É verão, e estou empoleirada por sobre uma máquina de lavar na lavanderia de um porão, envolta em luz amarela, ar quente, e cheiro de limpeza. Já passam das onze agora, e os saltos arruinados de meus sapatos de lona vermelha, gastos pelas pedras, tamborilam as laterais da máquina aos solavancos. Um som de algo a espirrar enquanto minhas roupas são cozidas e sacudidas, torcidas e rodadas, e deixadas de molho em três estágios. Estou esperando sozinha.
A porta bate, um tinido breve e metálico acima de mim. As pernas de alguém tomam de assalto os degraus e meus pés param de balançar quando ele entra. Ele dá um vagaroso sorriso, olhos castanhos rodeados de algo talvez prateado, e volta-se para suas roupas, que estavam paradas dentro da secadora. Avisto uma camisa vermelha inerte por baixo de um short listrado, que ele joga para dentro da bolsa antes de sair sem chamar a atenção.
Sete degraus e um minuto depois ele volta e tenho vontade de pedi-lo para ficar. Espero um pouco, está solitário aqui, só eu e o chiado da lavação. Esqueci o detergente. Isto está ao menos servindo para alguma coisa? Meu um dólar e vinte e cinco centavos engolidos pela máquina que treme e ameaça decolar. Mas ele já está quietamente enfiando papel em uma bolsa, versos entalhados em páginas limpas, poesia que esqueceu em cima do balcão. Eu conto até dez seis vezes: Um minuto, talvez. Espero pela máquina estalar, e parar.
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No fim, os versos dessa estudante, como eu já disse, com apenas 17 anos na época, expressam uma criatividade, um talento apurado na escolha de verbos intensos, marcantes, uma capacidade de observação do mundo a seu redor e de seu cosmo interior, bem como de refletir sobre suas impressões, e fazem com que eu pense nos efeitos saudáveis e remediadores de uma criação que propicie um contato com as artes e com o saber, desde tenra idade, num ambiente familiar em que se os cultive, como forma de se contrabalancear os efeitos nocivos da campanha antiintelectualista que discuti naquele meu já mencionado texto.
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Essa garota é filha de um homem de admirável cultura, professor de Inglês em sua cidade há mais de duas décadas, cuja esposa é escritora de livros infantis, com mais de vinte livros publicados, e autora de diversos artigos de crítica literária. As três filhas que tiveram (Zoë, Phoebe e a nossa já citada poetisa) foram todas educadas com uma base sólida de cultura artística e literária — todas apreciam música clássica (sendo que duas tocam violoncelo enquanto a outra toca violino), tiveram uma eficiente educação artística (e Phoebe aprendeu a pintar divinamente), tiveram um contato profundo com a literatura, e todas escrevem muito, muito bem, ao passo que uma delas (a minha ex-namorada, Zoë) desenvolveu uma paixão louvável pelo estudo de diversas línguas: espanhol, português, turco, árabe, que ela domina, além de tantas outras que sempre se viu curiosa por aprender.
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Quanto aos esportes? Ah, sim! Essas irmãs não são do tipo intelectuais que odeiam atividades físicas. Pelo contrário! Praticam vários esportes, ainda que não sejam exatamente um fenômeno em nenhum deles. Se bem que Delia, a garota dos poemas, tem tido notáveis resultados em suas participações em cross-countries — uma modalidade de corrida bem popular nos EUA. Corridas de que as outras duas também participam, entre outras atividades do gênero.
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Além disso, nem sequer se poderia dizer que, criadas como foram, as irmãs em questão não tivessem tido tempo para aproveitar a vida. Ora, na verdade, duvido que haja mesmo um pequeno número de garotas num raio de 200Km daqui, de minha pequena cidade, que tenham tido a liberdade que essas três tiveram de ir atrás daquilo que tinham vontade de fazer. A minha ex-namorada, por exemplo, queria viajar para alguns lugares do mundo e estudar a língua e a cultura de cada um. E foi isso o que ela fez. Sempre com o apoio dos pais.
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E, antes que seja mal compreendido, acho bom esclarecer: nenhuma delas é do tipo patricinha, parasita, que vive às custas dos pais. Todas aprenderam cedo a batalhar a própria grana, a correr atrás de seus interesses com as próprias pernas.
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O concurso vencido por Delia, em 2004, premiou vários outros jovens igualmente talentosos. E continua premiando outros. Outros que, como podemos supor, tiveram a sorte de ser criados num ambiente em que a cultura é fomentada, apesar da ideologia dominante de que os jovens estadunidenses devem aprender apenas a ser bons consumistas e eficientes trabalhadores, além de eleitores alienados, sem senso crítico, nada mais — alguma sensação de déjà vu, brasileiros?
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Aqui, em nosso país, a mesma mentalidade vem tomando conta, como já salientei. Mas o pior é que tenho visto poucos pais que, mesmo que queiram dar uma boa educação aos filhos, estejam aptos a complementar, em casa, aquilo que a escola não tem sido eficiente em passar. Além disso, percebo que os jovens não querem saber de aprender justamente porque sua família, via de regra, não dá o devido valor à cultura e ao conhecimento. Os pais que falam em conseguir botar os filhos na faculdade, de modo invariável, têm em mente a formação destes em alguma profissão liberal que lhes garanta um ótimo salário e um respeitado status social.
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A idéia do “meu filho vai ser doutor” contribui para a imbecilização dos jovens. Afinal, uma vez que se enfoca o potencial aquisitivo da profissão, em vez de se valorizar a vocação individual e o potencial de realização pessoal que isso implica, a tendência é a de que o sistema produza profissionais de competência questionável, muito provavelmente estressados e frustrados com a vida — que tentam compensar isso, obtendo no máximo algum nível parcial de sucesso, com o prazer material que o dinheiro que ganham lhes possa proporcionar.
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Na última semana, durante uma aula de Língua Portuguesa que estava repondo para um colega professor, pedi a alguns alunos que fizessem uma redação. Em sua maioria, eram alunos um ou dois anos mais novos do que Delia, quando escreveu seus poemas e os artigos para o jornal da escola, mas alguns tinham bem mais de 17. Os textos que recebi eram, todos eles, desorganizados, sem nexo, com sintaxe caótica, ortografia repleta de discrepâncias com relação à da língua padrão, e não diziam nada além de um agrupamento estapafúrdio de clichês. Um desastre apavorante, no fim! (E nem é culpa do professor de Português, que é bem competente em sua área, que fique bem claro.)
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O desinteresse pelos estudos, sobretudo pelos estudos das artes e das ciências, tem se ploriferado como uma praga virulenta em meio aos jovens. E a maneira como eles reagem, até mesmo de forma agressiva, quando se lhes pede que pensem um pouco no futuro que os aguarda, é alarmantemente sintomática. Estão infectados e nem se dão conta disso. Infectados pela ignorância e a alienação. Incapazes de ver o desastre que pode vir a ser seu futuro. Ou o que, de modo particular, acho ainda pior: são incapazes de ver o valor inestimável do saber, da beleza e da profundidade das artes, do assombro hipnotizante e apaixonante do conhecimento científico.
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Penso no tempo passando para aqueles jovens que têm a sorte de crescer num meio como aquele em que se criaram as três irmãs de que falei aqui, ao mesmo tempo em que passa para esses jovens que não querem saber de nada, quando o assunto é os estudos, e vejo um futuro lamentável. Onde não vai haver “choro” nem “ranger de dentes”, como numa insana ameaça bíblica, mas, com certeza e infelizmente, vai ser bem real o inferno torturante da iluminação e do arrependimento que só vêm quando já é tarde demais.
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