por Júnior Camilo
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Fiquei chocado, recentemente, com mais uma notícia acerca do trágico efeito da religião sobre a vida das pessoas. Dessa vez, foi uma missionária cristã, de Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ), que decidiu se impor um jejum rigorosíssimo por cerca de um mês, obrigando sua irmã, sua sogra e suas duas sobrinhas pequenas a segui-la nesse desatino. A cristã fervorosa, que já vinha mantendo todas trancadas dentro de casa fazia algum tempo, obrigou as demais a suportarem a fome junto com ela, logo após a pouca comida que havia no local ter estragado, não dando mais para ser consumida.
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O resultado da loucura: a missionária morreu de inanição, as duas meninas foram internadas apresentando um quadro alarmante de desnutrição e confusão mental, e em situação não muito diferente se encontram as outras duas mulheres. O motivo de tamanho ato de insanidade: essa crente inflexivelmente determinada resolveu que todos deveriam jejuar até que Deus enviasse alguém que os tirasse daquela vida miserável na periferia, transferindo-os para uma casa na Zona Sul — área nobre do Rio de Janeiro. (Eis o que eu chamo de um verdadeiro “pedido de milagre”!)
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Antes que alguém venha logo dizendo que decerto se trata de alguma dessas pobres criaturas de baixa instrução, que mal sabem ler e que, em função disso, não sabem avaliar direito as conseqüências de seus atos, antecipo-me: a missionária, segundo consta, era formada em Teologia e estava cursando Direito. Tudo bem que, diante do que ela fez, a minha primeira conclusão é a de que a qualidade do ensino no Brasil está, de forma desesperadora, em franca decadência, mas isso é matéria para outra discussão. Aqui, o que me interessa ressaltar é a maneira como uma pessoa detendo inegavelmente algum grau de instrução mais elevado do que o da imensa população de analfabetos e analfabetos funcionais que superlotam igrejas país afora, ainda assim, chega ao ponto de uma atitude tão insana, movida tão-somente pelos elementos místicos e invisíveis de suas crenças pessoais e uma ambição material nada espiritualista, convenhamos. Como a lavagem cerebral perpetrada pela religião consegue ser tão avassaladoramente eficaz quanto malévola?
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Algumas pessoas poderiam querer levantar a voz agora e dizer, indignados, que cometo um equívoco aqui. Afinal, trata-se de um caso isolado (embora casos similares aconteçam mundo afora, com uma freqüência mais do que alarmante), envolvendo uma pessoa perturbada e fanática, sem sombra de dúvida. Os evangélicos e demais cristãos, em geral, não são assim.
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Bem, concordo que há casos mais extremados do que outros. E até aceito que haja mais cristãos “moderados” no mundo do que psicopatas radicais com metralhadoras nas mãos, ameaçando: “Aceite Jesus ou morra!” Mas a diferença reside apenas no âmbito de seu grau de hipocrisia. Os radicais são menos hipócritas do que os moderados.
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Há poucos dias, testemunhei uma conversa entre duas pessoas, gente de bom-caráter, com quem convivo bem na minha pequena cidade (apesar de ser, aos olhos de ambos, um pobre ateu condenado a arder nas chamas do inferno!). O defeito deles é ser cristãos — a moça é católica e o sujeito é protestante. E por que digo isso, de forma tão ácida assim? Simples: porque, apesar de serem pessoas que, para mim, não apresentem nada de mais extraordinário um em comparação ao outro, e apesar da maneira “amistosa” como se tratam, na verdade, ambos escondem dentro de si um sentimento absurdo e ridículo (tanto quanto é infundado) de que são seres escolhidos, superiores um ao outro pelo benefício especial da seleção divina. Para melhor ilustrar o que digo, um exemplo: quando a moça mencionou uma coisa envolvendo sua crença católica na Virgem Maria, o outro simplesmente sorriu, como quem estava apenas brincando, e disse que queria ver só quando ela estivesse queimando no inferno por causa da idolatria de imagens, enquanto ele estaria lá de cima, no céu, simplesmente assistindo a tudo, em paz, ao lado do Senhor.
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Pela expressão no seu rosto, parecia apenas um cruzeirense zombando de um atleticano (ou vice-versa), por causa da vitória de seu time sobre o outro na rodada anterior do campeonato. Uma provocaçãozinha de nada. Mas, não! A coisa é bem mais séria aqui. Isso porque qualquer um sabe que, para a mentalidade religiosa, a sua fé — e isso quer dizer, muitas vezes, a sua denominação — é a única verdadeira, a única que salva. (Aliás, um pensamento de uma excentricidade apavorante, já que sua fé em Deus é aquilo que lhe pode salvar dele mesmo, uma vez que é Deus, segundo o mesmo conjunto de crenças, quem julga todos e executa suas próprias sentenças condenatórias.)
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A mentalidade religiosa é capaz de um comportamento tal, que eu poderia chamar, de forma metafórica, de uma hipocrisia tão “diabólica”, que me enoja ver membros de diversas facções religiosas fingindo que se aceitam reciprocamente em sua diversidade e antagonismo doutrinário, quando sabemos que a questão aqui é bem mais profunda, indo além de tudo o que poderia significar a secular divergência política pluripartidarista, por exemplo. As implicações aqui são da ordem do reconhecimento (ou falta dele) da identidade comum entre os seres humanos. Para quem é católico, o protestante ou evangélico vai arder nas chamas do inferno por estar afastado dos sagrados sacramentos bem como por rejeitar a crença na Virgem e nos santos; para os outros, são os católicos que vão para o inferno, exatamente por acreditarem em tais coisas; para os judeus, todos os cristãos (católicos, protestantes ou evangélicos) vão enfrentar a ira do único Deus por terem feito de Jesus, um homem comum na visão judaica, um ser da mesmíssima essência divina; para os muçulmanos, por sua vez, cristãos, judeus, hinduístas, budistas, e o que mais houver, vão todos sofrer a danação eterna por não seguirem os preceitos sagrados do Corão, que Maomé lhes legou, a fim de que bem soubessem louvar Alá.
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No fim, não interessa qual a sua religião, ela é sempre a detentora da verdade absoluta. Seu deus ou seus deuses são os únicos dignos de adoração e, via de regra, são entidades que não aceitam a concorrência alienígena. O deus de fora, o deus do outro, bem como sua doutrina e os “pecados” cometidos perante essa mesma doutrina, são sempre condenáveis e motivo de sua sempre futura desgraça, quer na vida eterna após a morte, quer na próxima vida terrena, de acordo com as religiões reencarnacionistas. E é triste pensar que muita gente boa, devido à lavagem cerebral a que foi submetido no processo de sua educação religiosa, muitas vezes se pega olhando para outro, do lado de fora de sua denominação, enquanto lamenta: “Que pena! Fulano é uma pessoa tão boa! É triste que sua alma esteja condenada!” Resumindo: a religião, a sua religião em particular, faz com que você não reconheça a identidade que tem com todos os outros humanos do planeta, pois apenas os seus irmãos de fé são como você — salvos, escolhidos!
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Tudo isso só me faz sentir melhor comigo mesmo pela chance que tive na vida de me libertar desse mal hediondo que é a religião. Sinto-me em paz com a minha sanidade, aquela que recuperei depois de anos e anos me oferecendo, voluntariamente (se é que se pode mesmo dizer que alguém que sofreu lavagem cerebral tenha vontade própria), para ser bode sacrificial nos planos da igreja (cheguei mesmo a ser um “vocacionado” em seminários católicos, visando a tornar-me padre). Hoje, olho para todas essas pessoas nessa tácita e hipócrita “guerra santa”, essa jihad das convicções interiores de que o outro está condenado enquanto você está salvo, e penso que a minha grande tristeza é vê-las perder tanto tempo com seus dogmatismos sectaristas, chauvinistas e preconceituosos, quando poderiam estar se deleitando com o estudo das ciências e da História, buscando entender melhor o que a vida é, em seu sentido mais elementar, e como nossa civilização chegou até aqui, bem como o que podemos aprender com todo o caminho percorrido. Não olho para nenhum crente, qualquer que seja a sua fé, imaginando que vou ter um fim diferente do dele. E, de modo algum, acho que vou ter um destino melhor do que o de qualquer outra pessoa, depois de minha morte.
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Finalmente, posso dizer, com o coração leve, que tampouco olho para qualquer crente iludido deste mundo, com aquela cara sádica, satisfeita, de quem acredita que vai ficar o resto da eternidade assistindo de camarote, ao lado do seu “bondoso” Deus, à tortura e à danação infinita de outros com quem conviveu, com quem trabalhou, outros em cuja casa já até mesmo almoçou, mas que essa pessoa acredita estarem destinados a padecer os terrores do inferno, apenas porque crêem em outra coisa que a sua fé, aquilo em que acredita a sua seita dos “verdadeiros escolhidos”, afirma ser um erro.
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Não dá para não pensar nas palavras do comediante e autor estadunidense, George Carlin, numa de suas notórias críticas à religião, citada num recente livro de Dawkins sobre o mesmo tema:
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Fiquei chocado, recentemente, com mais uma notícia acerca do trágico efeito da religião sobre a vida das pessoas. Dessa vez, foi uma missionária cristã, de Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ), que decidiu se impor um jejum rigorosíssimo por cerca de um mês, obrigando sua irmã, sua sogra e suas duas sobrinhas pequenas a segui-la nesse desatino. A cristã fervorosa, que já vinha mantendo todas trancadas dentro de casa fazia algum tempo, obrigou as demais a suportarem a fome junto com ela, logo após a pouca comida que havia no local ter estragado, não dando mais para ser consumida.
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O resultado da loucura: a missionária morreu de inanição, as duas meninas foram internadas apresentando um quadro alarmante de desnutrição e confusão mental, e em situação não muito diferente se encontram as outras duas mulheres. O motivo de tamanho ato de insanidade: essa crente inflexivelmente determinada resolveu que todos deveriam jejuar até que Deus enviasse alguém que os tirasse daquela vida miserável na periferia, transferindo-os para uma casa na Zona Sul — área nobre do Rio de Janeiro. (Eis o que eu chamo de um verdadeiro “pedido de milagre”!)
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Antes que alguém venha logo dizendo que decerto se trata de alguma dessas pobres criaturas de baixa instrução, que mal sabem ler e que, em função disso, não sabem avaliar direito as conseqüências de seus atos, antecipo-me: a missionária, segundo consta, era formada em Teologia e estava cursando Direito. Tudo bem que, diante do que ela fez, a minha primeira conclusão é a de que a qualidade do ensino no Brasil está, de forma desesperadora, em franca decadência, mas isso é matéria para outra discussão. Aqui, o que me interessa ressaltar é a maneira como uma pessoa detendo inegavelmente algum grau de instrução mais elevado do que o da imensa população de analfabetos e analfabetos funcionais que superlotam igrejas país afora, ainda assim, chega ao ponto de uma atitude tão insana, movida tão-somente pelos elementos místicos e invisíveis de suas crenças pessoais e uma ambição material nada espiritualista, convenhamos. Como a lavagem cerebral perpetrada pela religião consegue ser tão avassaladoramente eficaz quanto malévola?
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Algumas pessoas poderiam querer levantar a voz agora e dizer, indignados, que cometo um equívoco aqui. Afinal, trata-se de um caso isolado (embora casos similares aconteçam mundo afora, com uma freqüência mais do que alarmante), envolvendo uma pessoa perturbada e fanática, sem sombra de dúvida. Os evangélicos e demais cristãos, em geral, não são assim.
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Bem, concordo que há casos mais extremados do que outros. E até aceito que haja mais cristãos “moderados” no mundo do que psicopatas radicais com metralhadoras nas mãos, ameaçando: “Aceite Jesus ou morra!” Mas a diferença reside apenas no âmbito de seu grau de hipocrisia. Os radicais são menos hipócritas do que os moderados.
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Há poucos dias, testemunhei uma conversa entre duas pessoas, gente de bom-caráter, com quem convivo bem na minha pequena cidade (apesar de ser, aos olhos de ambos, um pobre ateu condenado a arder nas chamas do inferno!). O defeito deles é ser cristãos — a moça é católica e o sujeito é protestante. E por que digo isso, de forma tão ácida assim? Simples: porque, apesar de serem pessoas que, para mim, não apresentem nada de mais extraordinário um em comparação ao outro, e apesar da maneira “amistosa” como se tratam, na verdade, ambos escondem dentro de si um sentimento absurdo e ridículo (tanto quanto é infundado) de que são seres escolhidos, superiores um ao outro pelo benefício especial da seleção divina. Para melhor ilustrar o que digo, um exemplo: quando a moça mencionou uma coisa envolvendo sua crença católica na Virgem Maria, o outro simplesmente sorriu, como quem estava apenas brincando, e disse que queria ver só quando ela estivesse queimando no inferno por causa da idolatria de imagens, enquanto ele estaria lá de cima, no céu, simplesmente assistindo a tudo, em paz, ao lado do Senhor.
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Pela expressão no seu rosto, parecia apenas um cruzeirense zombando de um atleticano (ou vice-versa), por causa da vitória de seu time sobre o outro na rodada anterior do campeonato. Uma provocaçãozinha de nada. Mas, não! A coisa é bem mais séria aqui. Isso porque qualquer um sabe que, para a mentalidade religiosa, a sua fé — e isso quer dizer, muitas vezes, a sua denominação — é a única verdadeira, a única que salva. (Aliás, um pensamento de uma excentricidade apavorante, já que sua fé em Deus é aquilo que lhe pode salvar dele mesmo, uma vez que é Deus, segundo o mesmo conjunto de crenças, quem julga todos e executa suas próprias sentenças condenatórias.)
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A mentalidade religiosa é capaz de um comportamento tal, que eu poderia chamar, de forma metafórica, de uma hipocrisia tão “diabólica”, que me enoja ver membros de diversas facções religiosas fingindo que se aceitam reciprocamente em sua diversidade e antagonismo doutrinário, quando sabemos que a questão aqui é bem mais profunda, indo além de tudo o que poderia significar a secular divergência política pluripartidarista, por exemplo. As implicações aqui são da ordem do reconhecimento (ou falta dele) da identidade comum entre os seres humanos. Para quem é católico, o protestante ou evangélico vai arder nas chamas do inferno por estar afastado dos sagrados sacramentos bem como por rejeitar a crença na Virgem e nos santos; para os outros, são os católicos que vão para o inferno, exatamente por acreditarem em tais coisas; para os judeus, todos os cristãos (católicos, protestantes ou evangélicos) vão enfrentar a ira do único Deus por terem feito de Jesus, um homem comum na visão judaica, um ser da mesmíssima essência divina; para os muçulmanos, por sua vez, cristãos, judeus, hinduístas, budistas, e o que mais houver, vão todos sofrer a danação eterna por não seguirem os preceitos sagrados do Corão, que Maomé lhes legou, a fim de que bem soubessem louvar Alá.
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No fim, não interessa qual a sua religião, ela é sempre a detentora da verdade absoluta. Seu deus ou seus deuses são os únicos dignos de adoração e, via de regra, são entidades que não aceitam a concorrência alienígena. O deus de fora, o deus do outro, bem como sua doutrina e os “pecados” cometidos perante essa mesma doutrina, são sempre condenáveis e motivo de sua sempre futura desgraça, quer na vida eterna após a morte, quer na próxima vida terrena, de acordo com as religiões reencarnacionistas. E é triste pensar que muita gente boa, devido à lavagem cerebral a que foi submetido no processo de sua educação religiosa, muitas vezes se pega olhando para outro, do lado de fora de sua denominação, enquanto lamenta: “Que pena! Fulano é uma pessoa tão boa! É triste que sua alma esteja condenada!” Resumindo: a religião, a sua religião em particular, faz com que você não reconheça a identidade que tem com todos os outros humanos do planeta, pois apenas os seus irmãos de fé são como você — salvos, escolhidos!
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Tudo isso só me faz sentir melhor comigo mesmo pela chance que tive na vida de me libertar desse mal hediondo que é a religião. Sinto-me em paz com a minha sanidade, aquela que recuperei depois de anos e anos me oferecendo, voluntariamente (se é que se pode mesmo dizer que alguém que sofreu lavagem cerebral tenha vontade própria), para ser bode sacrificial nos planos da igreja (cheguei mesmo a ser um “vocacionado” em seminários católicos, visando a tornar-me padre). Hoje, olho para todas essas pessoas nessa tácita e hipócrita “guerra santa”, essa jihad das convicções interiores de que o outro está condenado enquanto você está salvo, e penso que a minha grande tristeza é vê-las perder tanto tempo com seus dogmatismos sectaristas, chauvinistas e preconceituosos, quando poderiam estar se deleitando com o estudo das ciências e da História, buscando entender melhor o que a vida é, em seu sentido mais elementar, e como nossa civilização chegou até aqui, bem como o que podemos aprender com todo o caminho percorrido. Não olho para nenhum crente, qualquer que seja a sua fé, imaginando que vou ter um fim diferente do dele. E, de modo algum, acho que vou ter um destino melhor do que o de qualquer outra pessoa, depois de minha morte.
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Finalmente, posso dizer, com o coração leve, que tampouco olho para qualquer crente iludido deste mundo, com aquela cara sádica, satisfeita, de quem acredita que vai ficar o resto da eternidade assistindo de camarote, ao lado do seu “bondoso” Deus, à tortura e à danação infinita de outros com quem conviveu, com quem trabalhou, outros em cuja casa já até mesmo almoçou, mas que essa pessoa acredita estarem destinados a padecer os terrores do inferno, apenas porque crêem em outra coisa que a sua fé, aquilo em que acredita a sua seita dos “verdadeiros escolhidos”, afirma ser um erro.
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Não dá para não pensar nas palavras do comediante e autor estadunidense, George Carlin, numa de suas notórias críticas à religião, citada num recente livro de Dawkins sobre o mesmo tema:
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“A religião convenceu mesmo as pessoas de que existe um homem invisível — que mora no céu — que observa tudo o que você faz, a cada minuto de cada dia. E o homem invisível tem uma lista especial com dez coisas que ele não quer que você faça. E, se você fizer alguma dessas coisas, ele tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, e de tortura e angústia, para onde vai mandá-lo, para que você sofra e queime e sufoque e grite e chore para todo o sempre, até o fim dos tempos... Mas Ele ama você!”
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É... Preciso de dizer mais alguma coisa quanto a isso?
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Enfim, uma última coisinha que acho importante responder de antemão àqueles que vão me perguntar (eles sempre me perguntam isso) se eu não tenho medo do que vai acontecer quando eu morrer. Minha resposta: Não! Aliás, é surpreendente o fato de que a grande maioria daqueles que mais têm medo de morrer são, ao que parece, as pessoas religiosas. Uai! Não deveria ser o contrário? Afinal, para o crente, que entende a morte como apenas uma passagem para uma nova vida, junto do seu Deus, deveria ser o momento mais feliz de todos a chegada do fim. Deveríamos, inclusive, fazer uma festa e nos rejubilarmos todas as vezes que um crente morresse, porque, afinal de contas, ele foi para a vida eterna, foi para junto de Deus. Não é mesmo? Mas... Espere aí! Não é isso o que a gente vê. Os velórios de crentes costumam ser lúgubres e desconfortantes, todos tentando se convencer de que foi melhor assim, de que foi a “vontade de Deus” e tal, de que ele “escreve certo por linhas tortas”. Tortas?!? Uai, mas não é isso o que todos os crentes passam a vida aguardando? Não é o grande momento de encontrar o seu Deus o prêmio inestimável sonhado por todos os crentes? Então, onde está o problema? Para que tanta dor, tanta tristeza, tanta lamentação?
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Talvez porque, no fundo no fundo, todos sintam que há algo de muito falso em tudo aquilo em que acreditam. Não têm uma explicação alternativa, e nem querem pensar a respeito, mas sentem... E temem porque estão provavelmente apenas antecipando o seu encontro com o mais puro nada, após a morte. Mas, ora, o que é isso? Eu tenho uma boa notícia para todos: ninguém vai saber que não encontrou nada! Depois da sua morte cerebral, você não vai ter a menor consciência de que não vai encontrar nenhum céu à sua espera. Portanto, não se desespere!
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Encare as coisas como Mark Twain, que disse (outra citação do livro de Dawkins sobre Deus):
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Enfim, uma última coisinha que acho importante responder de antemão àqueles que vão me perguntar (eles sempre me perguntam isso) se eu não tenho medo do que vai acontecer quando eu morrer. Minha resposta: Não! Aliás, é surpreendente o fato de que a grande maioria daqueles que mais têm medo de morrer são, ao que parece, as pessoas religiosas. Uai! Não deveria ser o contrário? Afinal, para o crente, que entende a morte como apenas uma passagem para uma nova vida, junto do seu Deus, deveria ser o momento mais feliz de todos a chegada do fim. Deveríamos, inclusive, fazer uma festa e nos rejubilarmos todas as vezes que um crente morresse, porque, afinal de contas, ele foi para a vida eterna, foi para junto de Deus. Não é mesmo? Mas... Espere aí! Não é isso o que a gente vê. Os velórios de crentes costumam ser lúgubres e desconfortantes, todos tentando se convencer de que foi melhor assim, de que foi a “vontade de Deus” e tal, de que ele “escreve certo por linhas tortas”. Tortas?!? Uai, mas não é isso o que todos os crentes passam a vida aguardando? Não é o grande momento de encontrar o seu Deus o prêmio inestimável sonhado por todos os crentes? Então, onde está o problema? Para que tanta dor, tanta tristeza, tanta lamentação?
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Talvez porque, no fundo no fundo, todos sintam que há algo de muito falso em tudo aquilo em que acreditam. Não têm uma explicação alternativa, e nem querem pensar a respeito, mas sentem... E temem porque estão provavelmente apenas antecipando o seu encontro com o mais puro nada, após a morte. Mas, ora, o que é isso? Eu tenho uma boa notícia para todos: ninguém vai saber que não encontrou nada! Depois da sua morte cerebral, você não vai ter a menor consciência de que não vai encontrar nenhum céu à sua espera. Portanto, não se desespere!
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Encare as coisas como Mark Twain, que disse (outra citação do livro de Dawkins sobre Deus):
“Não tenho medo da morte. Fiquei morto bilhões e bilhões de anos antes de nascer, e não tive a menor inconveniência por causa disso.”
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No fim, acho que todos deveríamos encarar a vida que temos — encará-la de frente, com admiração e paixão pela sorte maravilhosa de estarmos aqui. Digo isso porque, se você conhecesse, por exemplo, a obra pioneira e admirável de Darwin sobre a seleção natural, ou as obras informativas, intelectualmente enriquecedoras e inspiradoras de Carl Sagan (in memoriam), Richard Dawkins, Eugenie Scott, Sam Harris e outros pensadores científicos de nossos tempos, se você entendesse a extraordinária loteria que ganhamos, sob a ótica do princípio antrópico, para que você pudesse estar agora aqui, vivo neste mundo, lendo este texto e compreendendo a mensagem transmitida (mesmo que alguns ainda insistam em continuar sem concordar com ela) contra todas as inacreditavelmente inúmeras probabilidades negativas de que a vida pudesse surgir em algum planeta do universo, e, principalmente, evoluir tal como se deu na Terra, se você compreendesse melhor a maravilha da vida perante a visão que as ciências, hoje, em especial a Biologia, permitem-nos ter, amaria mais o amanhecer de cada dia. E encararia, com naturalidade e conforto, a hora da morte definitiva (porque, citando Dawkins mais uma vez, em termos biológicos, morremos repetidas vezes ao longo de nosso desenvolvimento: a criança que fui morreu, o adolescente que fui morreu, o adulto que sou vai morrer em breve), pois entenderia que o verdadeiro “milagre” é viver, não importa quanto tempo dure a sua vida.
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A mesma vida que a religião suga de você, enquanto o faz acreditar em chamas eternas que cozinham e torturam, com a maior das crueldades, aqueles seus entes queridos, quer seja a sua mãe ou os seus irmãos, que não acreditaram na “coisa certa da maneira certa”, como você fez. Um imenso crematório de almas que queimam e gritam e se contorcem e queimam mais, porém nunca cessam de sofrer, porque nunca são consumidas totalmente pelo fogo, tudo criado e implantado por um Deus que quer que você assista a cada segundo disso junto com ele, e sinta prazer em todo aquele espetáculo de horrores, no “choro e ranger de dentes” desesperados que os evangelhos dizem que vai haver... no ato de justiça final de um Deus maravilhoso, repleto de puro amor e bondade.
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A mesma vida que a religião suga de você, enquanto o faz acreditar em chamas eternas que cozinham e torturam, com a maior das crueldades, aqueles seus entes queridos, quer seja a sua mãe ou os seus irmãos, que não acreditaram na “coisa certa da maneira certa”, como você fez. Um imenso crematório de almas que queimam e gritam e se contorcem e queimam mais, porém nunca cessam de sofrer, porque nunca são consumidas totalmente pelo fogo, tudo criado e implantado por um Deus que quer que você assista a cada segundo disso junto com ele, e sinta prazer em todo aquele espetáculo de horrores, no “choro e ranger de dentes” desesperados que os evangelhos dizem que vai haver... no ato de justiça final de um Deus maravilhoso, repleto de puro amor e bondade.
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