por Júnior Camilo
.
.
Depois de assistir ao recém-lançado filme do diretor José Padilha, Tropa de Elite, fiquei pasmo diante de toda a polêmica que se tem criado em torno de seu enredo. De todas as críticas imbecis voltadas contra o filme, talvez a mais ignorante seja justamente a que mais tem sido repetida nos diversos veículos de comunicação, ou seja, que o filme promove uma descarada apologia da truculência policial e da tortura como instrumento válido no combate à violência insuportável à nossa volta.
.
Ao deparar-me com esse tipo de crítica, meu primeiro pensamento foi: É nisso que dá um país que lê tão pouco! Afinal, quem escreveria tamanha babaquice, se tivesse tido um contato atencioso com a obra romanesca de Machado de Assis? Ninguém, creio eu. Pois, os julgamentos equivocados do filme de Padilha evocaram na hora, em minha mente, como que num estalo, a lembrança de Dom Casmurro, obra-prima de Machado, escrita há mais de um século — em 1899, para ser exato. E por quê? Bem...
.
Por décadas e décadas após sua publicação, Dom Casmurro foi interpretado de várias maneiras — o que era de se esperar, aliás, haja vista as diversas nuanças perceptíveis no texto machadiano e a elaborada complexidade de seus personagens —, mas, via de regra, as interpretações levavam em conta a história tal como Bentinho a narrava. As análises da obra geralmente abordavam a questão do por que Capitu havia traído Bentinho com Escobar, o velho amigo daquele. Todos queriam uma explicação definitiva para o “pecado”, mas ninguém questionava a fundamentação da acusação de “pecado” em si mesma.
.
Isso, até que, em 1960, uma professora e crítica literária estadunidense, de nome Helen Caldwell, escreveu um livro em que chamou a atenção do mundo, pela primeira vez, para um dado importantíssimo, mas a que poucos haviam prestado a atenção devida: Caldwell destacou o fato de que não se pode confiar cegamente num narrador-personagem que não é imparcial no relato dos fatos, mesmo porque este está metido até o pescoço em tudo aquilo que nos conta.
.
Feminista que era, a professora fez uma análise radical da obra, invertendo a imputação da culpa: Bentinho era um dissimulado machista e possessivo, cujo objetivo era nos persuadir a culpar Capitu. Em outras palavras, o narrador estava forçando a barra, a fim de que nos solidarizássemos com ele e nos indignássemos com a traição de que acusava a esposa. Comparando Bentinho ao famoso personagem insanamente ciumento de Shakespeare — aliás, o livro de Caldwell se intitulava The Brazilian Othelo of Machado de Assis [“O Otelo Brasileiro de Machado de Assis”] —, a autora inocentou Capitu e condenou seu marido.
.
Ao deparar-me com esse tipo de crítica, meu primeiro pensamento foi: É nisso que dá um país que lê tão pouco! Afinal, quem escreveria tamanha babaquice, se tivesse tido um contato atencioso com a obra romanesca de Machado de Assis? Ninguém, creio eu. Pois, os julgamentos equivocados do filme de Padilha evocaram na hora, em minha mente, como que num estalo, a lembrança de Dom Casmurro, obra-prima de Machado, escrita há mais de um século — em 1899, para ser exato. E por quê? Bem...
.
Por décadas e décadas após sua publicação, Dom Casmurro foi interpretado de várias maneiras — o que era de se esperar, aliás, haja vista as diversas nuanças perceptíveis no texto machadiano e a elaborada complexidade de seus personagens —, mas, via de regra, as interpretações levavam em conta a história tal como Bentinho a narrava. As análises da obra geralmente abordavam a questão do por que Capitu havia traído Bentinho com Escobar, o velho amigo daquele. Todos queriam uma explicação definitiva para o “pecado”, mas ninguém questionava a fundamentação da acusação de “pecado” em si mesma.
.
Isso, até que, em 1960, uma professora e crítica literária estadunidense, de nome Helen Caldwell, escreveu um livro em que chamou a atenção do mundo, pela primeira vez, para um dado importantíssimo, mas a que poucos haviam prestado a atenção devida: Caldwell destacou o fato de que não se pode confiar cegamente num narrador-personagem que não é imparcial no relato dos fatos, mesmo porque este está metido até o pescoço em tudo aquilo que nos conta.
.
Feminista que era, a professora fez uma análise radical da obra, invertendo a imputação da culpa: Bentinho era um dissimulado machista e possessivo, cujo objetivo era nos persuadir a culpar Capitu. Em outras palavras, o narrador estava forçando a barra, a fim de que nos solidarizássemos com ele e nos indignássemos com a traição de que acusava a esposa. Comparando Bentinho ao famoso personagem insanamente ciumento de Shakespeare — aliás, o livro de Caldwell se intitulava The Brazilian Othelo of Machado de Assis [“O Otelo Brasileiro de Machado de Assis”] —, a autora inocentou Capitu e condenou seu marido.
.
Ora... Não preciso nem dizer que Caldwell exagerou na dose. Já que, embora estivesse brilhantemente correta quanto ao seu questionamento da confiabilidade do narrador-personagem, equivocou-se ao sustentar a tese de que isso livrava Capitu de qualquer suspeita, que dirá culpa. Na verdade, as várias ambigüidades com que Machado enriquece seu texto faz com que Capitu não seja nem culpada nem inocente: Capitu é um enigma. Um brinde à genialidade de nosso maior escritor!
.
A propósito, comentando a idéia de que Machado adorava ser incompreendido, o professor e crítico literário britânico John Gledson, acrescenta que o verdadeiro motivo disso “Não é simplesmente a superioridade de propor um enigma que o leitor não seja inteligente o bastante para resolver. Outros, ainda, nem sequer verão que há um problema qualquer, e os motivos por detrás dessa falha vão condená-los. Decifrar a verdade, que é um procedimento necessário e agradável, não nos deveria provocar nenhum sentimento de superioridade. Só podemos nos sentir superiores porque a distância que nos separa de Machado permite-nos fazer o que (parece) muito poucos brasileiros foram capazes de realizar em 1900 — ver sua própria sociedade em termos suficientemente críticos para questionar Bentinho enquanto narrador. É uma medida de grandeza de Machado o fato de que ele pôde escrever um romance tão aceitável para seus leitores e, ao mesmo tempo, tão subversivo quanto às perspectivas normais desses mesmos leitores.” (grifo nosso)*
.
Hoje, diante das críticas nada-a-ver cuspidas contra o filme de José Padilha, fico pensando no quanto teria sido bom para esses críticos ter lido Machado antes. Digo, tê-lo lido com atenção!
.
Tropa de Elite é uma obra de ficção, ainda que a verossimilhança seja assustadora e nauseante em certos momentos. E não é à toa que as cenas do filme lembrem tanto o mundo, ou antes, o inferno real que se tornou a vida, não apenas no Rio de Janeiro, mas em tantas outras cidades brasileiras, uma vez que o roteiro é assinado por Padilha (diretor do extraordinário documentário Ônibus 174), Bráulio Mantovani (Cidade de Deus) e ninguém menos do que Rodrigo Pimentel, oficial do BOPE — Batalhão de Operações Policiais Especiais —, que, não por acaso, é o mesmo que aparece no documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, num desabafo de que já estava farto com toda aquela batalha insana em que se via metido todos os dias e que não resolvia nada de forma definitiva, enquanto não via nenhuma autoridade governamental tomar qualquer medida eficaz no sentido de aplacar a sede de sangue da violência urbana. Não se deve duvidar que há muito do Capitão Pimentel no personagem de Wagner Moura.
Ora... Não preciso nem dizer que Caldwell exagerou na dose. Já que, embora estivesse brilhantemente correta quanto ao seu questionamento da confiabilidade do narrador-personagem, equivocou-se ao sustentar a tese de que isso livrava Capitu de qualquer suspeita, que dirá culpa. Na verdade, as várias ambigüidades com que Machado enriquece seu texto faz com que Capitu não seja nem culpada nem inocente: Capitu é um enigma. Um brinde à genialidade de nosso maior escritor!
.
A propósito, comentando a idéia de que Machado adorava ser incompreendido, o professor e crítico literário britânico John Gledson, acrescenta que o verdadeiro motivo disso “Não é simplesmente a superioridade de propor um enigma que o leitor não seja inteligente o bastante para resolver. Outros, ainda, nem sequer verão que há um problema qualquer, e os motivos por detrás dessa falha vão condená-los. Decifrar a verdade, que é um procedimento necessário e agradável, não nos deveria provocar nenhum sentimento de superioridade. Só podemos nos sentir superiores porque a distância que nos separa de Machado permite-nos fazer o que (parece) muito poucos brasileiros foram capazes de realizar em 1900 — ver sua própria sociedade em termos suficientemente críticos para questionar Bentinho enquanto narrador. É uma medida de grandeza de Machado o fato de que ele pôde escrever um romance tão aceitável para seus leitores e, ao mesmo tempo, tão subversivo quanto às perspectivas normais desses mesmos leitores.” (grifo nosso)*
.
Hoje, diante das críticas nada-a-ver cuspidas contra o filme de José Padilha, fico pensando no quanto teria sido bom para esses críticos ter lido Machado antes. Digo, tê-lo lido com atenção!
.
Tropa de Elite é uma obra de ficção, ainda que a verossimilhança seja assustadora e nauseante em certos momentos. E não é à toa que as cenas do filme lembrem tanto o mundo, ou antes, o inferno real que se tornou a vida, não apenas no Rio de Janeiro, mas em tantas outras cidades brasileiras, uma vez que o roteiro é assinado por Padilha (diretor do extraordinário documentário Ônibus 174), Bráulio Mantovani (Cidade de Deus) e ninguém menos do que Rodrigo Pimentel, oficial do BOPE — Batalhão de Operações Policiais Especiais —, que, não por acaso, é o mesmo que aparece no documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, num desabafo de que já estava farto com toda aquela batalha insana em que se via metido todos os dias e que não resolvia nada de forma definitiva, enquanto não via nenhuma autoridade governamental tomar qualquer medida eficaz no sentido de aplacar a sede de sangue da violência urbana. Não se deve duvidar que há muito do Capitão Pimentel no personagem de Wagner Moura.
.
As cenas em que vemos o inflexível Capitão Nascimento em sua intimidade, em sua casa, como que transformado num outro ser, tamanha a sua instabilidade, seu descontrole, sua evidente queda perante a Síndrome do Pânico, deixam claro que estamos diante de um personagem não apenas humano — apesar do monstro de frieza e calculismo que tenta interpretar no trabalho —, como também profundamente complexo e ambíguo.
.
É por isso que se, por um lado, quando o capitão, nosso ilustre narrador-personagem, conta-nos uma história em que há fortes elementos de crítica à sociedade, em especial aos membros da classe média-alta, que fazem protestos pela paz ao passo que alimentam o tráfico pelo consumo desenfreado de suas drogas, que se indignam com a ineficiência da polícia em garantir a segurança e, paradoxalmente, acusam a mesma de agir de maneira assaz violenta, extremamente repressora, um relato que critica os membros de ONGs que, a fim de cumprirem seus ideais altruístas, aceitam mancomunar-se com o tráfico organizado nas favelas e ainda tentam vender a falácia do traficante com “consciência social”, uma narrativa que critica inclusive a polícia convencional, explicitando a corrupção nos podres alicerces da sociedade brasileira, enfim, se em face de uma tal descrição da “vida como ela é”, não podemos negar que aceitamos sem muita relutância a veracidade do que se expõe — porque é assim mesmo que acontece, nós sabemos! —, por outro lado, minha familiaridade com o Bentinho de Machado de Assis me faz levantar alguns questionamentos. Podemos aceitar mesmo tudo o que o capitão nos conta? Podemos, por exemplo, balançar nossas cabeças afirmativamente enquanto o filme nos diz que o BOPE é o esquadrão dos incorruptíveis?
.
Meu conhecimento do animal humano, sobretudo no que concerne aos vários níveis de resposta e atendimento ao instinto natural de auto-preservação a qualquer preço, faz-me acreditar que, ainda que possa haver indivíduos incorruptíveis em qualquer escala, estes não são tão abundantes ao ponto de eu poder acreditar que exista alguma instituição neste país — e em qualquer outro — que esteja expurgada de todas as mentes sucumbíveis aos apelos de nossa ancestral vontade de potência, hoje muito facilmente traduzível como “sede de poder”, ou mesmo ao acovardamento de quem não quer atrito com os mais fortes para o bem da simples manutenção de seu status. E a escolha da voz narrativa no filme de Padilha é que nos permite fazer essa e outras perguntas que o filme não fez.
.
No fim, Tropa de Elite é um filme louvável, com uma direção primorosa, ótima edição, atuações de primeira e que, se consegue causar tanta polêmica, é tão-só porque o roteiro e a brilhante atuação de Wagner Moura nos faz aceitar que tudo é tal como a tela nos mostra. A polêmica existe apenas se, sem fazermos a pergunta certa, discutimos novamente o “pecado” de Capitu.
.
Ah, sim! Quanto às acusações de que o filme se parece muito com uma produção de Hollywood, concordo com a excelente resposta do diretor, de que há uma imbecilidade coletiva compartilhada por muitos críticos de que filme bem filmado, produção bem feita, não é cinema de verdade. “Se filmou bem, é hollywoodiano”, disse Padilha à imprensa, com muita razão.
.
Tropa de Elite é incômodo porque nos mostra uma realidade com que preferíamos não ter de conviver, ao passo que sua elogiável opção narrativa nos leva (ou pelo menos deveria levar) a fazer uma crítica mais profunda de nossa sociedade pela via mesma da análise do discurso do narrador e da forma como esse incide sobre nós — uma empreitada perturbadora mas necessária! Porém, quando se é hipócrita e alienado, como aqueles filhinhos-de-papai que vemos no filme, é fácil indignar-se com cenas que mostram um Rio de Janeiro bem diferente daquele que vemos nas novelas da Globo.
.
.
***********
.
* GLEDSON, John. Machado de Assis: impostura e realismo: uma reinterpretação de Dom Casmurro. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, pp. 19s.
.
As cenas em que vemos o inflexível Capitão Nascimento em sua intimidade, em sua casa, como que transformado num outro ser, tamanha a sua instabilidade, seu descontrole, sua evidente queda perante a Síndrome do Pânico, deixam claro que estamos diante de um personagem não apenas humano — apesar do monstro de frieza e calculismo que tenta interpretar no trabalho —, como também profundamente complexo e ambíguo.
.
É por isso que se, por um lado, quando o capitão, nosso ilustre narrador-personagem, conta-nos uma história em que há fortes elementos de crítica à sociedade, em especial aos membros da classe média-alta, que fazem protestos pela paz ao passo que alimentam o tráfico pelo consumo desenfreado de suas drogas, que se indignam com a ineficiência da polícia em garantir a segurança e, paradoxalmente, acusam a mesma de agir de maneira assaz violenta, extremamente repressora, um relato que critica os membros de ONGs que, a fim de cumprirem seus ideais altruístas, aceitam mancomunar-se com o tráfico organizado nas favelas e ainda tentam vender a falácia do traficante com “consciência social”, uma narrativa que critica inclusive a polícia convencional, explicitando a corrupção nos podres alicerces da sociedade brasileira, enfim, se em face de uma tal descrição da “vida como ela é”, não podemos negar que aceitamos sem muita relutância a veracidade do que se expõe — porque é assim mesmo que acontece, nós sabemos! —, por outro lado, minha familiaridade com o Bentinho de Machado de Assis me faz levantar alguns questionamentos. Podemos aceitar mesmo tudo o que o capitão nos conta? Podemos, por exemplo, balançar nossas cabeças afirmativamente enquanto o filme nos diz que o BOPE é o esquadrão dos incorruptíveis?
.
Meu conhecimento do animal humano, sobretudo no que concerne aos vários níveis de resposta e atendimento ao instinto natural de auto-preservação a qualquer preço, faz-me acreditar que, ainda que possa haver indivíduos incorruptíveis em qualquer escala, estes não são tão abundantes ao ponto de eu poder acreditar que exista alguma instituição neste país — e em qualquer outro — que esteja expurgada de todas as mentes sucumbíveis aos apelos de nossa ancestral vontade de potência, hoje muito facilmente traduzível como “sede de poder”, ou mesmo ao acovardamento de quem não quer atrito com os mais fortes para o bem da simples manutenção de seu status. E a escolha da voz narrativa no filme de Padilha é que nos permite fazer essa e outras perguntas que o filme não fez.
.
No fim, Tropa de Elite é um filme louvável, com uma direção primorosa, ótima edição, atuações de primeira e que, se consegue causar tanta polêmica, é tão-só porque o roteiro e a brilhante atuação de Wagner Moura nos faz aceitar que tudo é tal como a tela nos mostra. A polêmica existe apenas se, sem fazermos a pergunta certa, discutimos novamente o “pecado” de Capitu.
.
Ah, sim! Quanto às acusações de que o filme se parece muito com uma produção de Hollywood, concordo com a excelente resposta do diretor, de que há uma imbecilidade coletiva compartilhada por muitos críticos de que filme bem filmado, produção bem feita, não é cinema de verdade. “Se filmou bem, é hollywoodiano”, disse Padilha à imprensa, com muita razão.
.
Tropa de Elite é incômodo porque nos mostra uma realidade com que preferíamos não ter de conviver, ao passo que sua elogiável opção narrativa nos leva (ou pelo menos deveria levar) a fazer uma crítica mais profunda de nossa sociedade pela via mesma da análise do discurso do narrador e da forma como esse incide sobre nós — uma empreitada perturbadora mas necessária! Porém, quando se é hipócrita e alienado, como aqueles filhinhos-de-papai que vemos no filme, é fácil indignar-se com cenas que mostram um Rio de Janeiro bem diferente daquele que vemos nas novelas da Globo.
.
.
***********
.
* GLEDSON, John. Machado de Assis: impostura e realismo: uma reinterpretação de Dom Casmurro. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, pp. 19s.
.

0 comentários:
Postar um comentário