sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Perturbadora assimetria

por Júnior Camilo
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Outro dia, um programa jornalístico na televisão exibiu uma matéria sobre quatro brasileiros que, emigrando para os EUA e, lá, naturalizando-se, alistaram-se no corpo de fuzileiros navais daquele país e foram enviados ao Iraque. De volta ao seu lar na América do Norte, para um breve período de descanso, antes de retornarem aos seus respectivos postos no processo de ocupação militar do Iraque, três deles foram entrevistados, e, de comum acordo, disseram se sentir orgulhosos de poder defender sua nova pátria na luta pela libertação de um povo antes oprimido por uma ditadura brutal.
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Curiosamente, o que eles chamam de “defender sua nova pátria” é algo, no mínimo, equivocado, já que quem se defende é aquele que é atacado, e, até onde se sabe, não foi o Iraque que invadiu os Estados Unidos e, sim, o contrário. Além disso, o uso da palavra “libertação” não é apenas inapropriado: é ridículo e obsceno! Afinal de contas, somente alienados, manipulados por uma imprensa tendenciosa e alguns filmes cretinos de Hollywood, acreditam que George W. Bush resolveu torrar bilhões de dólares e as vidas de 3.500 soldados estadunidenses numa guerra dessa proporção apenas porque sentiu pena dos pobres cidadãos iraquianos, vítimas de um regime tirânico, lá do outro lado do planeta, que, ademais, seria possuidor de armas de destruição em massa; armas essas que, diga-se de passagem, jamais foram encontradas desde que as tropas anglo-estadunidenses invadiram aquele país e depuseram Saddam.
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Apenas fantoches sem opinião própria fecham os olhos para o fato de que os soldados de Bush só estão no Iraque por se tratar de um país riquíssimo em petróleo, o que, não por acaso, é algo de que os Estados Unidos muito carecem — isso para não mencionar o fato de que uma auditoria apurou que a empresa petrolífera Halliburton Co., principal financiadora da campanha presidencial de Bush e que já teve como diretor-executivo ninguém menos que o vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, já superfaturou, nesse meio-tempo, pelo menos 61 milhões de dólares num contrato de compra de gasolina do Kuwait para o Iraque, ao passo que uma subsidiária dessa companhia, a KBR, foi contratada sem licitação para reconstruir a indústria de petróleo iraquiana, destruída durante o processo de invasão daquele país.
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Toda essa situação, além da repulsa que provoca em quem tenha um mínimo de bom senso, traz à mente duas palavras. Uma, como não poderia ser diferente, é alienação, de que muitos já ouviram falar, mesmo os alienados; a outra é assimetria.
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Como nos informa o dicionário, assimetria quer dizer “disparidade”, “desproporção”, “grande diferença”. E quando se pensa numa grande assimetria de efeitos — para tomar emprestado um conceito do paleontólogo Stephen Jay Gould, com o qual, no contexto em que ele o utiliza, concordo apenas em parte, é bom deixar claro —, tem-se em mente a desproporção, a grande diferença entre o efeito de um evento e outro de mesma natureza, quando esses incidem sobre nós.
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Neste sentido com que concordo do termo gouldiano, uma grande assimetria de efeitos seria o que acontece, por exemplo, quando cerca de 3 mil pessoas morrem, vítimas dos ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, e todo o mundo ocidental se choca e se escandaliza com tamanha atrocidade — o que não é para menos! — ao passo que, no entanto, poucos demonstram o mesmo horror, diante dessa dita “Guerra ao Terrorismo”, que os EUA vêm liderando, desde então, em resposta àqueles mesmos ataques, resultando na morte de mais de 5 mil civis no Afeganistão e mais de 50 mil no Iraque. Afinal de contas, por que o assassinato brutal de 3 mil estadunidenses choca mais do que o de 5 mil afegãos ou o de 50 mil iraquianos?
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Da mesma forma, por que o atentado japonês contra a base militar de Pearl Harbor, no Havaí, durante a Segunda Guerra Mundial, e que resultou na morte de 2.400 militares estadunidenses, deveria chocar-nos mais do que o extermínio instantâneo de mais de 100 mil civis em Hiroshima ou de 40 mil em Nagasaki, ambas cidades do Japão, sobre as quais os EUA, em retaliação, jogaram duas bombas atômicas, respectivamente, ao término daquela mesma guerra?
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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), numa de suas obras — Humano, Demasiado Humano —, escreveu que conseguimos praticar violência contra outra pessoa, sem que o remorso nos consuma, quando criamos para nós mesmos a idéia de que há uma enorme diferença entre nós e aqueles que violentamos. Apagamos de nossas mentes qualquer impressão de identificação com nossa vítima, criando uma idéia de distanciamento natural entre nós e ela, e assim, tal como diariamente esmagamos uma mosca ou uma formiga sem a menor dor de consciência, também escravizamos os negros no passado, por exemplo, assumindo primeiramente a visão de que eram seres inferiores, menos humanos do que os brancos em geral. Foi dessa maneira que “homens de bem”, inclusive padres e pastores evangélicos, puderam ter seus negros sujeitados a uma vida subumana e, apesar disso, dormirem com a consciência em paz.
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De um modo geral, pode-se dizer que, diante de duas tragédias de mesma natureza, quando uma nos choca mais do que a outra, está havendo, outra vez, essa mesma prática do distanciamento, essa mesma atitude, consciente ou não, de nos sentirmos mais próximos de uma coisa do que de outra que lhe seja, em princípio, idêntica.
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Em nossos tempos, interagindo a partir do ambiente com aquilo que já nos é inato e ancestral, um dos fatores que cria em nós essa assimilação assimétrica dos efeitos produzidos por aquilo de que tomamos conhecimento é a mídia, em especial, a televisão. Ela consegue muitas vezes nos induzir a simpatizar mais com uma coisa do que com outra, mesmo quando não há nada de essencialmente distinto entre ambas. Ademais, os valores culturais judaico-cristãos do Ocidente, por nós compartilhados por meros fatores históricos, políticos e sociológicos, podem agir de forma a criar uma ilusão de identidade entre “nós” em contraposição a “eles”. De modo que vemos na morte de 2.400 militares estadunidenses a morte de milhares de nossos “próximos” — num remetimento óbvio ao moralismo bíblico —, que portanto parece pesar bem menos do que o extermínio de asiáticos que culturalmente não seriam assim tão “próximos”. Aliás, esse tipo de mentalidade de moral, que julga com duas medidas aqueles que são “do grupo” e os que não são, foi bem discutida num interessante ensaio do antropólogo evolucionista, John Hartung, intitulado “Love Thy Neighbor” [Ama Teu Próximo], publicado em 1995 na revista Skeptic.
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No dia dos atentados terroristas ao World Trade Center, lembro-me de um morador de Nova York que, ao ser entrevistado na rua, disse sem hesitar que, fosse ele o presidente de seu país, mandaria as Forças Armadas lançarem bombas imediatamente sobre todo o Oriente Médio, para que os muçulmanos aprendessem de vez que não se podia promover um atentado daqueles em solo estadunidense e continuarem com suas vidas. Na sua ignorância, alimentada pela forma como a mídia veiculava as notícias daquela data trágica, todo cidadão muçulmano do planeta seria cúmplice de Osama bin Laden. Na sua opinião, o massacre de civis muçulmanos inocentes não significava nada diante das vidas que se perderam nas torres derrubadas e nos aviões que contra elas foram lançadas. De que valem 50 mil civis iraquianos, inclusive velhos, mulheres e crianças, mortos por soldados da dupla dinâmica, Bush-Blair, diante da morte de 3.500 cidadãos estadunidenses, não é mesmo? (Dá para se notar de forma patente aquele distanciamento moral de que falava Nietzsche entre o que “nós” somos e o que “eles” são, entre o que “nós” valemos e o que “eles” valem.)
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Esse é o tipo de cinismo com que convivemos, enquanto fazemos perpetuar essa absurda assimetria de efeitos, que faz com que a morte de um cidadão dos EUA nos comova mais do que a morte de milhares e milhares de miseráveis, num país do Oriente.
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Dos quatro brasileiros que foram lutar pelos Estados Unidos no Iraque, a reportagem não pôde entrevistar um. Não o pôde porque ele morreu em combate. Sua mãe, que ainda chora a perda do filho mais velho, agora exibe às câmaras, toda orgulhosa, seu caçula, que tem como ídolo o irmão “herói”. Ele também entrou para a academia militar e já está ansioso para, a exemplo do irmão, defender sua nova pátria. “Este é o nosso país agora”, diz uma das mães de brasileiros que se tornaram soldados dos EUA, “nada mais justo que sermos gratos e lutarmos para defendê-lo!”
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Como já disse, não é uma questão de “gratidão”, muito menos, de “autodefesa”. Os EUA não são vítima nessa guerra. Por mais que ninguém concorde com a tirania de Saddam, o fato é que um crime não justifica outro. E a invasão do Iraque pelos EUA, sem a aprovação da ONU e da maioria dos países do mundo, inclusive do Brasil, foi simplesmente isso: um crime. O Brasil é a minha pátria — não sei se felizmente ou infelizmente —, mas, nem por isso, seria eu voluntário a lutar numa guerra injusta e interesseira em que o meu país viesse a se meter. Muito menos, teria orgulho disso!
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3 comentários:

Anônimo disse...

Nunca ví uma pessoa tão alienável de Deus como vc! Não sabe nada de Deus nem tão pouco do reino espiritual. Se tivesse uma pequenina esperiência com Deus jamais escreveria uma babuzeira como esta! Uma pessoa só pode dizer que se Deus existe ou não e q sua palavra é falsa depois de buscá-lo e ter uma experiência genuina c/Ele. Aí sim a pessoa poderá ter sua opinião à respeito. Como vc pode opinar, refutar ou até debater s/conhecer à Deus, seu reino e s/experimentá-lo? Tenho muita pena e compaixão de vc e de muitas outras pessoas q tem esta mesma cegueira espiritual...pois não sabem o destino q os esperam...
Concluo dizendo q: qdo Jesus vier buscar seus escolhidos, todo joelho se dobrá perante Ele. E todo saberão q só o Senhor é Deus. Inclusive vc um dia dobrá seu joelho perante Deus e c/sua boca confessará que só Ele é o Senhor

Júnior Camilo disse...

Caro leitor anônimo,

Primeiramente, quem não sabe nada de Deus é você! Aliás, você e qualquer outra pessoa no mundo.

1)Afinal, por acaso já viu Deus?

Ah, sim! Vai me dizer que o vê em suas criaturas — resquícios do animismo e do panteísmo primitivos de que a forma de adoração politeísta e, mais tarde, a monoteísta desenvolveram, que ainda se encontram de certa maneira enraizados dentro de nós, tal como tantos outros de nossos instintos e comportamentos primitivos.

2) Por acaso poderia me descrever como é a aparência de Deus, como soa a sua voz (é rouca ou normal, grave ou aguda, tem aqueles ecos tal como nos filmes bíblicos?), como é a consistência de Deus (sólido, esfumaçado, gelatinoso, líqüido)?

Ah, sim! Você vai dizer que Deus é um mistério, e que é idiotice querer testar Deus desta maneira: querendo saber do que ele é feito. "Ele é feito de imatéria espiritual, ora bolas!", você decerto exclama! Não percebe que sua resposta é tão vazia quanto eu dizer que há um bicho-papão no meu guarda-roupas. Alguém olha, não vê nada. Tenta escutar os barulhos do bicho, não ouve nada. Tenta esticar as mãos na direção em que digo que o bicho está, e não toca nada. Tenta jogar talco no bicho para ver se ele fica visível, e nada acontece porque digo que o bicho em questão é "espiritual". Qual é a diferença entre esse bicho-papão espiritual, que é invisível, inaudível, atérmico e IMATERIAL e um bicho-papão inexistente? Nenhuma! Só porque você acredita nele, não quer dizer que ele seja real! Qual a diferença entre seu Deus invisível e IMATERIAL, tal qual o bicho acima descrito, e um deus que simplesmente NÃO EXISTE? Nenhuma! O fato de você me apresentar relatos delirantes de que "sente" esse Deus, de que "fala" com esse Deus, de que "ouve" esse Deus lhe responder, de que "vive experiências espirituais" com esse Deus só me faz ver seu comportamento como algo próximo ao quadro esquizofrênico.

3) Você ignora alguns detalhes sobre a minha pessoa:

Ao contrário do que pensa, já vivi também uma vida de delírios "espirituais", adorando cegamente esse seu Deus imaginário. Já vivi essa relação delirante com o "reino espiritual", e ela só estava contribuindo para minha visão fechada acerca da vida e do mundo.

Outra coisa: esse seu estilo de escrever, repleto de erros crassos de português e de contruções nem um pouco originais, apenas revela que, por trás dessas palavras, há uma pessoa com baixo nível de escolaridade ou, pelo menos, de formação um tanto deficitária em termos de qualidade. E ainda vem se apresentar como detentor de mais conhecimento das coisas do que eu, "o ignorante", na sua visão! Pois é... Cada coisa que somos obrigados a ler! Mas faz parte desta opção de ter um blog.

4)Enfim, sobre suas últimas palavras:

São exatamente o que se esperaria de um crente fanático: ameaças! A velha história do "Meu Deus vai pegar você!". Ora, caro anônimo (aliás, esconder a identidade é típico de covardes, sabia?), deveria saber que estou me lixando para seu Deus tirânico, que vocês tentam enfiar goela abaixo nas pessoas através dessa educação pelo terror ("Você vai arder nas chamas do inferno! Deus vai fazer você pagar por seus pecados!"), a mesma que usaram com você, quando lhe fizeram essa lavagem cerebral que fez de você um crente. Essa coisa abominável que os crentes fazem com suas crianças, que, em termos psicológicos, é algo que eu vejo claramente como tão danoso quanto abusar sexualmente de uma criança pequena. A prova disso aí está: você e seu comportamento fanático, ameaçando-me com o Deus de suas fantasias.

Seu Deus imaginário NUNCA poderá me fazer nada simplesmente porque seres imaginários só afetam a vida daqueles que neles acreditam.

Ah, sim... É claro que, de vez em quando, aparecem uns crentes mais fanáticos do que outros, que resolvem jogar aviões contra edifícios, colocar bombas em prédios com pessoas inocentes (como os terroristas católicos e protestantes fazem na Irlanda do Norte), executar com fogueiras, forcas e outros métodos utilizados tanto pela a famosa Inquisição católica quanto pela menos divulgada inquisição protestante, que não foi menos sádica e assassina. Nestes casos, gente como eu, que vive uma vida sem fanatismo religioso, acabam sendo vítimas da loucura alheia. Mas, se isso vier a acontecer comigo, que posso fazer, não é mesmo? É extremamente difícil fazer com que a insanidade religiosa se extinga entre nós, tal como é difícil acabar com os criminosos armados no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras.

Somos obrigados a conviver com o perigo das balas perdidas tanto quanto temos de conviver com crentes alucinados! É a vida em sociedade, o preço que pagamos por ser civilizados num mundo cheio de neandertais com crenças irracionais e um porrete nas mãos. Quem discorda dos violentos e insanos muitas vezes paga com a vida!

É isso!

Alexandre Kühn disse...

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