terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Eis o mistério da fé!

por Júnior Camilo
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No livro VII da obra
A República, de Platão, encontramos a famosa e intrigante parábola que é mais comumente conhecida pelo título de “O mito da caverna”, a qual é ali apresentada pela voz de Sócrates, num diálogo seu com dois irmãos de Platão. Este mito, como sabem os que o conhecem por leitura direta da obra ou pelas incontáveis referências a ele encontradas nos mais diversos textos de outros autores, propõe-nos um interessantíssimo exercício mental.
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Num mundo imaginário, uma caverna encontra-se isolada de todo o ambiente externo por um elevado muro. Nessa caverna escura, a luz exterior penetra apenas por uma abertura, projetando-se numa parede ao fundo, em direção da qual um grupo de humanos encontra-se voltado, todos mantidos acorrentados, impedidos até mesmo de se virarem para a entrada da caverna, às suas costas. Esses prisioneiros, em tais condições, ali dentro viveram toda a sua vida, desde a infância. E tudo o que fazem (tudo o que podem fazer) é ficar contemplando, na parede de rocha à sua frente, vultos diversos que nela se formam. Tais vultos são sombras de outros homens que se movem por uma estrada, do outro lado do muro, transportando os mais diversos objetos, exatamente a meio caminho entre os prisioneiros e uma fogueira que é mantida acesa, sobre uma colina ali perto.
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A parábola na obra de Platão nos mostra como pessoas privadas de uma perspectiva que lhes possibilite ver as coisas de forma mais clara podem acabar interpretando como “realidade” aquilo que não passa de equívocos de suas mentes em face de fragmentos distorcidos da realidade mesma, frutos de sua perspectiva limitada e limitante. Nela, esses humanos acorrentados, passam a acreditar que tais sombras representam de fato a realidade. Assim, passam a viver aceitando tal ilusão de suas mentes enganadas por sua condição de óbvia ignorância de como são realmente as coisas no mundo em que vivem.
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A parábola foi concebida para introduzir idéias da filosofia socrático-platônica, é claro. Porém, ela também muito nos serve hoje para reintroduzir o tema da ciência e de sua perspectiva da religião, ponto tão recorrente neste blog, visto que a mensagem do mito é uma metáfora patente do comportamento humano em face do mundo ao seu redor, ao passo que a libertação de tais grilhões, como deixa claro o texto, representa a libertação das correntes da ignorância, que leva nossa compreensão da realidade a restringir-se ao mundo fantasioso e improcedente de nossas crenças e superstições.
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E, bem… se há um fenômeno que com certeza precisa ser considerado, é o das crenças religiosas a que os humanos parecem tão naturalmente predispostos. Afinal, ainda que possa haver grupos humanos, como os índios Pirahã, do Amazonas, em meio a quem não se vê traços patentes de religiosidade — apenas algumas poucas crenças supersticiosas e animistas em coisas como “espíritos da natureza”, algo a meio caminho entre o materialismo secular e a crença em entidades espirituais fora da natureza —, o fato é que não se pode negar que a religião é um fenômeno praticamente universal em nossa espécie. Em geral, as mais variadas culturas humanas trazem crenças em almas que sobrevivem à morte corporal, em rituais que podem interferir no mundo físico, e em coisas como doenças e outras desgraças — inclusive perdas materiais ou insucesso pessoal — podendo ser causadas ou sanadas por uma gama um tanto quanto heterogênea e numerosa de espíritos, demônios, santos, anjos, forças malignas, deuses e semi-deuses, respectivamente. Além disso, é um traço marcante que normalmente cada cultura veja sua visão religiosa como sendo a interpretação legítima desse mundo do espiritual, do sobrenatural, do divino.
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Em meu artigo “A grande jornada e a hipótese desnecessária” (26/07/2008), numa de suas partes, discuti um pouco sobre essa questão do por que os humanos crêem em coisas irracionais como deuses e espíritos. Aqui, revisitarei a questão e buscarei focar-me mais detidamente nela. Por que acreditamos em coisas que qualificamos com o vácuo adjetivo “sobrenaturais”? Numa indagação mais específica, por que acreditamos em Deus?
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Durante um discurso que fez no encontro anual da Freedom from Religion Foundation, em outubro de 2004, o renomado cientista cognitivo de Havard, Steven Pinker, disse:
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Para responder à pergunta “Por que o Homo sapiens é tão propenso à crença religiosa?”, primeiramente, você precisa distinguir entre traços que são adaptações, ou seja, produtos da seleção natural darwinista e traços que são subprodutos de adaptações (...). Um exemplo: por que nosso sangue é vermelho? Há alguma vantagem adaptativa em ter sangue vermelho, talvez como camuflagem contra as folhas de outono? Bem, isso é um tanto improvável, e tampouco precisamos de qualquer outra explicação adaptativa. A explicação do porquê de nosso sangue ser vermelho é que é adaptativo ter uma molécula que consiga transportar oxigênio, a saber, a hemoglobina. E acontece que a hemoglobina fica vermelha quando é oxigenada; portanto, a vermelhidão de nosso sangue é um subproduto da química do transporte de oxigênio. A cor em si não foi selecionada positivamente. (PINKER, Steven. “The Evolutionary Psychology of Religion”, apresentado no encontro anual da Freedom from Religion Foundation, em Madison, no estado de Wisconsin, EUA, em 29 de outubro de 2004. Disponível na internet em: http://pinker.wjh.harvard.edu/articles/media/2004_10_29_religion.htm .)
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Em sua fala, Pinker procurou refutar o que, segundo ele, constituem “três espúrias explicações adaptacionistas da religião”, que são:
1) a sugestão de que as pessoas abraçam a religião em virtude do conforto que esta lhes oferece, 2) a hipótese de que a religião torna a comunidade mais unida, mais coesa, e 3) a idéia de que a religião é a fonte de nossos valores éticos mais excelsos. Embora o cientista reconheça que essas três hipóteses possam bem estar corretas até certo ponto, o que ele questiona é seu mérito real em explicar a popularidade universalmente disseminada da religião. Durante todo o discurso, ele procurou demonstrar que a religião é um subproduto de uma adaptação, um subproduto de certas características de nossa psicologia que podem ter evoluído de forma adaptativa — perspectiva também defendida pelo biólogo de Oxford, Richard Dawkins.
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Numa frase crucial, Pinker afirmou que, “assim como a vermelhidão de nosso sangue é um subproduto de outras adaptações, também pode sê-lo a nossa predisposição à crença religiosa”. É esse o ponto que buscarei discutir aqui, novamente trazendo à tona pontos que já foram abordados em outros textos, ao que somarei ainda novos dados, de modo a discutir o tema proposto de forma mais focada do que em artigos anteriores. Dito isso, passemos à avaliação da questão.
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A primeira semente da credulidade: "E no início, era o verbo..."
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Em termos evolutivos, muito dessa receptiva credulidade da mente humana tem suas raízes no desenvolvimento de nossos ancestrais no ambiente primitivo onde foi geneticamente desenhado o cérebro da linhagem hominídea de que evoluiu o Homo sapiens. E mais: seguramente, em momento posterior à separação do galho de nossa evolução daquele que levou aos modernos chimpanzés, na mesma árvore.
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Com o desenvolvimento de nossa faculdade lingüística (que hoje sabemos é mesmo unicamente humana e muito provavelmente uma adaptação evolutiva) pudemos garantir um maior sucesso de sobrevivência e reprodução — de um certo ponto de vista, considerando os benefícios patentes e malefícios conseqüentes de cada adaptação, a evolução da linguagem humana veio como mais um contrapeso específico de nossa espécie para o fato de que o reposicionamento (agora ereto) de nossas colunas teve por efeito colateral forçar nossos bebês para fora do útero materno mais precocemente, pois estreitou os ossos da bacia da mãe, tornando os recém-nascidos humanos, de forma bem visível, numa das mais frágeis criaturas do reino animal.
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Justamente por isso, importa muito aqui observar a relevância de nossa faculdade da linguagem. Afinal, nossa capacidade de emitir sons vocalizados e complexamente estruturados que, por sua vez, são decodificados por um mecanismo receptor no cérebro de nosso interlocutor e positivamente traduzidos, promovendo o intercâmbio de idéias entre os de nossa espécie, como jamais visto em outra espécie animal, é sem dúvida alguma a característica mais admirável que evoluímos. Ao mesmo tempo, a razão de nossos mais perturbadores pesadelos religiosos. Mas deixem-me explicar direito o que quero dizer com isso.
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Sabe-se hoje que há nos humanos uma estrutura conceptual que, em parte, sobrepõe-se à que existe em outros primatas, além de incorporar capacidades recentemente evoluídas. De fato, fazendo-se mapeamentos por ressonância magnética, verificou-se que conjuntos parcialmente distintos de áreas cerebrais respondem por sons referentes à fala e sons que não o são. Em outras palavras: quando os sons que ouvimos são os de alguém falando, as áreas do cérebro que se ativam não são exatamente as mesmas de quando ouvimos qualquer outro tipo de som. Um claro exemplo disso encontramos quando em face de algum paciente de
surdez pura para palavras ou surdez verbal pura, um distúrbio neurológico em que a pessoa simplesmente perde a capacidade de analisar (e conseqüentemente reconhecer) aquilo que as outras pessoas estão dizendo, porém analisam perfeitamente quaisquer outros tipos de sons. Da mesma forma, vemos a situação inversa em casos como os de amusia (incapacidade de reconhecer sons musicais devido a lesão no hemisfério direito) ou agnosia auditiva (a incapacidade de interpretar o significado dos sons ambientais).
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Somam-se a isso dados provenientes de algumas pesquisas recentes, que demonstraram que bebês, incluindo recém-nascidos, preferem sons produzidos por alguém falando a sons não relacionados com a fala, mesmo que estes sejam artificialmente configurados para apresentar as mesmas propriedades de espectro e tempo apresentadas por aquelas. E isso diz respeito mesmo a sons que seguramente eram indistinguíveis para o bebê quando estava no ventre materno, o que deixa claro que tal preferência não pode ser explicada em termos de condicionamento in utero. Isso, para não falar do fato de que a sensibilidade dos recém-nascidos à fala das pessoas parece contar com partes do cérebro que servem à linguagem no cérebro de adultos: um estudo recente, que usou tomografia óptica, demonstrou que as regiões temporais do hemisfério esquerdo em recém-nascidos respondiam mais à fala normal do que à fala mecanicamente invertida, ainda que, nos procedimentos de inversão, fosse mantida a mesma similaridade espectral (vide: PENA, M. et al. “Sounds and silence: an optical tomography study of language recognition at birth”. In: Proceedings of the National Academy of Science — PNAS, USA, 2003. 100 [20], págs. 11702–11705).
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Ademais, cumpre citar ainda dois artigos de autoria de Steven Pinker e do lingüista Ray Jackendoff, que destacam os seguintes fatos a apontar para uma seleção favorável à produção da fala na linhagem humana (vide: PINKER, S. e JACKENDOFF, R. “The faculty of language: what’s special about it?”. In: Cognition nº 95, 2005, págs. 201-236, e JACKENDOFF, R. e PINKER, S. “The nature of the language faculty and its implications for evolution of language”. In: Cognition nº 97, 2005, págs. 211-225
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a) O controle do trato vocal supralaríngeo é incomparavelmente mais complexo na linguagem humana do que nas vocalizações de outros primatas — embora algumas aves e primatas consigam produzir formantes (i.e. cada um dos harmônicos nas freqüências ou “picos” de energia acústica que passam pela passagem de ar supralaríngea), as manipulações que fazem não são mais que uma pequenina fração dos gestos intrincados dos lábios, do véu palatino, da laringe, bem como da ponta, do corpo e da base da língua que os falantes de todas as línguas do planeta executam.
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b) Primatas outros que não os humanos são notórios por sua resistência natural ao treinamento condicionador de suas vocalizações, e os especialistas reconhecem que eles não demonstram nenhuma habilidade de aprender vocalizações através da imitação.
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c) Murmúrios silábicos emergem espontaneamente em bebês humanos.
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d) As palavras, como acoplamentos organizados e compartilhados de estruturas fonológicas, conceituais e gramaticais, são uma parte distintiva, do conhecimento humano, e mais: uma parte específica da linguagem. A criança parece entrar em contato com situações sociais, ou seja, na interação com outras pessoas, já demonstrando uma reação distinta, de quem antecipa que os ruídos produzidos por outros humanos são palavras. Isso faz com que a aprendizagem de palavras seja diferente da aprendizagem de quaisquer outros fatos em vários aspectos.
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e) E, embora a maior parte dos traços de inteligência e cognição de uma criança (sua capacidade de reconhecer apropriadamente as formas geométricas e as mais distintas cores, por exemplo) só venham a se demonstrar notáveis mesmo por volta da idade escolar, chama a atenção a extrema precocidade com que as crianças começam a entender os comandos vocais dos adultos e, em seguida, a produzir elas próprias suas falas, quase que ao mesmo tempo em que começam a caminhar sozinhas. Algo que pesa muito em favor de uma adaptação evolutiva que teria auxiliado na manutenção da segurança e conseguinte sobrevivência de bebês humanos no hostil ambiente ancestral em que evoluímos.
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Por fim, vale a pena destacar também a descoberta recente de que uma rara deficiência da linguagem e da fala é causada por um alelo dominante num único gene, o FOXP2. Esse gene foi seqüenciado e submetido a análises comparativas, que mostraram que sua versão normal é universal na população humana, que ele divergiu a partir do homólogo primata em fase posterior à divisão evolutiva entre humanos e chimpanzés na árvore genealógica, e que foi alvo da seleção natural em vez de ser produto de deriva genética ou outros processos evolutivos estocásticos. O fenótipo é complexo e não totalmente caracterizado, mas os especialistas estão de acordo em que as pessoas que têm alguma versão anormal desse gene apresentam notáveis déficits de articulação, produção, compreensão e julgamentos em vários domínios da gramática, combinados com dificuldades na produção de movimentos orofaciais.
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Este novo achado corrobora ainda mais a noção de que a língua evoluiu gradativamente na linhagem humana, sob a influência da seleção natural, com os genes selecionados tendo efeitos pleiotrópicos que aprimoraram múltiplos componentes por meio de novos incrementos. Além disso, dentre um grande número de loci genéticos que causam deficiências lingüísticas ou problemas relacionados, como gagueira ou dislexia, o FOXP2 é simplesmente o locus que foi identificado com a maior precisão até hoje.
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Mesmo no campo da percepção da fala, as evidências genéticas apontam para adaptação evolutiva no que tange à linguagem. Uma comparação recente dos genomas de camundongos, chimpanzés e humanos revelou um grande número de genes que são expressos no desenvolvimento do sistema auditivo e que passaram por positiva seleção na linhagem humana. Uma vez que a fala é a principal característica que diferencia os ambientes auditivos naturais de humanos e de chimpanzés, a hipótese dos pesquisadores é a de que estas mudanças evolutivas estavam, com efeito, favorecendo uma percepção acentuada da fala (vide: CLARK, A. G. et al. “Inferring non-neutral evolution from human-chimp-mouse orthologous gene trios”. In: Science, 2003, 302 [5652], págs. 1960–1963).
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Com a evolução da faculdade da linguagem, nossa espécie, agora capaz de transmitir mutuamente seus pensamentos, traduzindo-os numa língua (um código vocalizado compreendido pelo grupo), pôde trocar informações, incluindo a transmissão de quaisquer tecnologias desenvolvidas, úteis à agricultura, à pecuária, enfim, à sobrevivência em primeiro plano. Porém, apenas para lembrar os inadvertidos que já possam estar contemplando um “mistério divino” no fato de que, desde então até hoje, apenas o animal humano desenvolveu essa capacidade única, tal capacidade é tão única e útil para nós como a tromba de um elefante o é para a sua própria espécie (digo, para as duas espécies que sobrevivem até hoje: o africano e o asiático), embora seja ausente em seus parentes vivos mais próximos, como o hírax (um animalzinho parecido com um porquinho-da-índia, encontrado ao norte da África e no sudoeste da Ásia), com o qual os elefantes compartilham cerca de 90% de seu DNA.
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Além disso, se alguma outra espécie do gênero Homo tivesse sobrevivido até nossos dias em algum canto da Terra, é bem possível que testemunharíamos a linguagem desenvolvida a seu modo também nessa espécie, visto que o Homo habilis, por exemplo, que viveu há cerca de 2,5 a 2 milhões de anos, deixou esconderijos de ferramentas de pedra que podem ter sido bases de moradia ou estações locais para o corte de animais, algo que permite supor algum grau de cooperação e de tecnologia transmitida e adquirida. Ao mesmo tempo, soma-se a isso o fato de que o H. habilis foi bem generoso para conosco e nos deixou alguns de seus crânios, que conservam até hoje leves marcas do padrão de dobras de seus cérebros, onde podemos perceber, bem visíveis, grandes marcas das áreas associadas com a produção da linguagem em nós, como a área de Broca e os giros supramarginal e angular, demonstrando também que, assim como em nós, essas áreas são bem maiores no hemisfério esquerdo.
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Além disso, já citei o gene FOXP2, mas deixei de comentar alguns fatores importantes sobre ele. A principal proteína codificada por esse gene tem 715 aminoácidos, todos idênticos entre macacos rhesus, chimpanzés e gorilas, porém apresentando 1 aminoácido diferente em relação a camundongos, e 2 aminoácidos diferentes em humanos (sendo que o FOXP2 humano difere daquele dos camundongos, portanto, em 3 animoácidos dos 715 totais).
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Pois bem! Nos camundongos, sabemos que o homólogo do FOXP2 é fortemente expressado no desenvolvimento cerebral. Perturbação em duas cópias do gene causa nesses animais deficiência motora grave e até morte prematura, bem como ausência de vocalizações ultrasônicas que são naturalmente emitidas quando filhotes são afastados da mãe. Por sua vez, a perturbação de uma única cópia do gene leva a um modesto retardo no desenvolvimento mas uma significante alteração na vocalização ultrasônica em resposta a tal separação entre mãe e filhote.
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As pesquisas com o homólogo do FOXP2 em camundongos e em primatas revelaram um papel ativo do gene no desenvolvimento do cerebelo e num processo de desenvolvimento que inclui as funções de comunicação social em diversos organismos.
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Curiosamente, os 2 aminoácidos em que nosso gene difere dos primatas ocorrem no mesmo exon, e pelo menos uma dessas mutações que ocorreram no gene em nossa linhagem teve uma extrema importância funcional (uma alteração de aspergina para serina que fornece um ponto alvo para a fosforilação, que é um processo que se demonstrou mediar a transcrição nos fatores de transcrição Forkhead), além de ter sido crítica na evolução da linguagem humana, até mesmo possibilitando movimentos orofaciais mais laboriosos que são essenciais à fala porém não se desenvolvem em pessoas afetadas de anomalia nesse gene, como já dito antes.
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Há pouco tempo, um estudo sobre o Homo neanderthalensis trouxe mais algumas novidades sobre o assunto. Bem, sabemos que os neandertais, além de desenvolver ainda mais as conquistas das espécies hominídeas que os antecederam, conseguiram se adaptar a climas o mais adversos e inovaram também num outro detalhe: embora haja muita discussão entre os antropólogos sobre as interpretações quanto a se os neandertais tinham rituais religiosos variados ou apenas alguns hábitos ritualísticos, como enterrar seus mortos seguindo certos padrões habituais não necessariamente religiosos, o fato é que o comportamento ritualístico parece evidente nessa espécie.
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De qualquer forma, ainda que tais rituais tenham sido realmente expressivos de mentalidade religiosa, isso já não surpreende aos que defendem que as crenças religiosas dependem da existência de circuitos cerebrais que façam emergir uma faculdade de comunicação interpessoal, permitindo a troca de idéias entre mentes distintas, sendo, portanto, um subproduto da forma como tais circuitos funcionam e das idéias elaboradas a partir dessa capacidade de comunicação. Em outras palavras, os neandertais, para que demonstrassem tal comportamento ritualístico, quase seguramente precisariam ser dotados de linguagem, tal como nossa espécie.
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Pois bem! Essa hipótese foi corroborada pouco mais de um ano atrás pelo primeiro levantamento do genoma de neandertais fossilizados. Os pesquisadores que assinaram o estudo, publicado no periódico Current Biology (KRAUSE, J. et al. “The Derived FOXP2 Variant of Modern Humans Was Shared with Neandertals”. Vol. 17, 21, 6/11/2007, pp. 1908-1912), descobriram que o Homo neanderthalensis tinha o gene FOXP2 idêntico ao do Homo sapiens, com as mesmas duas mutações nas posições 911 e 977 do exon 7 do gene, ou seja, nas duas substituições de aminoácidos ocorridas nesse gene, desde que nossa linhagem evolutiva divergiu da dos modernos chimpanzés, que não por acaso não têm nenhum comportamento religioso — afinal, eles estão geneticamente incapacitados de desenvolverem a faculdade lingüística tal como a evoluímos nós e, pelo visto, ao menos também os neandertais.
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Feitas essas observações, permitam-me destacar o fato de que, sim, o homem é o primeiro (e, até o momento, o único) mamífero a desenvolver a linguagem. E, dando uma boa olhada nos cérebros dos macacos, esses nossos parentes próximos na árvore evolutiva, de fato algumas coisas chamam logo a atenção, no que diz respeito a este ponto diferencial. Vejamos agora que coisas são essas e por que são tão interessantes assim.
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Nos cérebros dos macacos, curiosamente algumas áreas cerebrais correspondem de forma visível a certas áreas humanas, no que diz respeito à localização, ao cabeamento de entrada e saída, e à composição celular. Para citar um exemplo, de forma muito semelhante ao que existe nos humanos, há nos cérebros dos macacos homólogos das áreas de Wernicke e de Broca, bem como um feixe de fibras conectando ambas. Nos macacos, como destaca Steven Pinker sua obra
O Instinto da Linguagem, as regiões que correspondem à área de Wernicke e suas vizinhanças ativam-se no reconhecimento de seqüências de som e na discriminação entre seus próprios chamados e os de outros macacos. Por sua vez, os homólogos de área de Broca tomam parte no controle dos músculos da face, da boca, da língua e da laringe, enquanto várias sub-regiões desses homólogos recebem estímulos de partes do cérebro que são reservadas para a audição, o sentido do tato na boca, na língua e na laringe, bem como de áreas para as quais convergem correntes de informações oriundas de todos os sentidos.
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Isso nos diz algo um tanto intrigante sobre nosso ancestral comum com os macacos. Ao que parece, esse arranjo encontrado nos cérebros de nossos primos (e, como é bem possível, também em seu ancestral comum com os humanos) parece representar a base sobre a qual a evolução pôde atuar. Como apontam os fortes indícios de várias pesquisas na área, explorando provavelmente a confluência que ali ocorre de sinais vocais, auditivos e outros, ela pôde fazer com que se produzissem em nós os circuitos da linguagem, que hoje em dia estão associados em sua maior parte a essas áreas do cérebro humano, onde são bem mais desenvolvidas do que nos macacos. Daí a relevância de tais achados, principalmente tendo-se em vista que, como já destaquei aqui, vejo na evolução da linguagem humana nosso maior bem e nossa mais triste desdita. Neste segundo caso, conclusão sobre a qual ainda discorrerei com detalhes em seguida.
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O cérebro e a linguagem
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Uma primeira observação a ser feita sobre o cérebro e a linguagem é que não há associação entre competência lingüística — a capacidade de interpretar e produzir um número infinito de expressões com uma complexa organização sintática, semântica, morfológica e fonológica, desenvolvida em humanos normais por simples exposição a
input lingüístico — e variação em outros domínios como habilidade lógico-matemática ou capacidade de raciocínio abstrato, visto que a “linguagem” dos pensamentos não é a linguagem proprimamente dita. Ambos dependem de módulos distintos. Não é à toa que Pinker usa o termo “mentalês” para se referir à linguagem da mente que as línguas humanas tentam traduzir em palavras. Todos os humanos neurologicamente normais desenvolvem competência lingüística, no grau de análise relevante. É uma propriedade uniforme na espécie. Por outro lado, o mesmo não se dá no tocante a outros domínios como a habilidade lógico-matemática, por exemplo.
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Outra observação válida é que precisamos esclarecer um recorrente equívoco entre vários acadêmicos de áreas distintas no que tange à linguagem: comunicação animal não é linguagem!
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Desde a “revolução” chomskiana, em meados do século passado, a Lingüística usa o termo gramática universal para se referir à configuração básica das gramáticas de todas as línguas humanas, que, dando-se desataque a estudos como os de Pinker e Jackendoff, descobriu-se estar associada a determinado circuito que, presente no cérebro infantil, possibilita que a criança aprenda espontaneamente a gramática da língua falada ao redor. E uma primeira coisa a se compreender sobre esta gramática (que não deve ser confundida com a “gramática normativa” que aprendemos na escola, nem tampouco sintaxe aqui refere-se àquelas regras sintáticas que nossos professores nos cobravam) é que aquilo que é gramatical, chomskianamente falando, não se fundamenta na semântica. Por exemplo, considere as duas frases:
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a) Pedro dirigiu o papagaio do controle remoto aromaticamente.
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b) *Papagaio o Pedro do controle aromaticamente dirigiu remoto.
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Apesar do exemplo a) ser um nonsense, um enunciado semanticamente absurdo, qualquer falante do português aceitaria a primeira frase como sendo “gramatical”, mas o mesmo não aconteceria com a frase do exemplo b).
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Portanto, a teoria de Chomsky pode ser superficialmente resumida assim: a faculdade da linguagem, pelo que apontam as evidências, é uma propriedade real da espécie, variando pouco entre os humanos e sem análogos significativos. Ele considera a linguagem como um órgão humano, um subsistema de um sistema complexo, e postula que esse dispositivo é comum a todos os seres humanos, sendo o estágio inicial do sistema lingüístico. Esse estágio inicial recebe input (a “entrada de dados”, ou seja, a língua à qual seu aprendiz é exposto) da experiência e produz linguagem como output (a “saída de dados produzidos”).
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O estágio inicial seria uma rede fixa conectada a um painel de distribuição, onde as chaves são as opções a serem determinadas pela experiência. Se o input inicial ajusta as chaves de uma forma, temos uma língua. Se ajusta de outra forma, temos outra língua.
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Como Chomsky demonstrou, há nos cérebros humanos um conjunto de super-regras inatas que permitem que qualquer língua assimilada do ambiente seja desenvolvida sintaticamente pelo falante, não fazendo exatamente distinções entre substantivos, verbos, preposições e adjetivos, mas sim especificando as quatro categorias com uma variável, como X, por exemplo. Para título de ilustração, essas super-regras poderiam se escrever resumidamente da seguinte maneira:
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XP → (SPEC) X' YP*
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X' → X ZP*
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Que quer dizer: um sintagma é formado por um sujeito opcional (especificador), seguido de um X-barra, seguido por qualquer número de modificares; sendo que um X-barra, que é o menor tipo de sintagma, é formado por uma palavra núcleo, seguida de qualquer número de protagonistas (seus argumentos não-sujeitos).
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Trocando X, Y e Z por substantivo, verbo, adjetivo ou preposição, tem-se as regras da estrutura sintagmática que formam os sintagmas. Essa é a versão compacta do que se chama em Lingüística de “teoria X-barra”, sendo que o esquema geral dos sintagmas é ainda mais abrangente e aplica-se aos mais diversos idiomas. Para citar um exemplo que já mencionei em outro artigo, em português, o núcleo do sintagma vem antes de seus protagonistas; já em japonês, por exemplo, o verbo vem depois de seu objeto e não antes, de modo que eles dizem 水を飲む — isto é, “mizu o nomu” (água beber), em vez de “beber água”.
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Mas a regra sintática continua válida porque, numa língua em que o núcleo for final, for invertido em relação ao português, por exemplo, a mesma inversão vai ser verificada em todos os outros sintagmas do idioma. Portanto, se eles falam “água beber”, em vez de “beber água”, também dizem 学校に行く“gakkō ni iku” (a escola para ir) —, 空の色“sora no iro” (céu do a cor) etc., em vez de “ir para a escola” e “a cor do céu”.
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Assim, essas super-regras inatas dão conta de criar árvores infinitas de possibilidades de composição em cada idioma, bastando apenas uma modificação que vai se dar ao contato da criança com a língua falada por perto, o que disparará as conexões sinápticas a serem fixadas para a produção desse ou daquele tipo de língua. A ordem pode ser da esquerda para a direita em cada super-regra, segundo o algoritmo:
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X' → {ZP*, X}
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Ou seja: um X-barra é formado de um núcleo X e qualquer número de protagonistas, em qualquer ordem.
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Hoje, sabe-se que o gene FOXP2 está fortemente associado à produção desses fenômenos inatos em nós. As duas mutações ocorridas no exon 7 do gene parecem ter possibilitado um novo arranjo nos circuitos neuronais que processam a linguagem em que se produzem todos esses padrões de outputs em função dos inputs recebidos.
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Uma das constatações mais interessantes disso se dá no estudo de afasias, como a de Broca ou a de Wernicke. Uma pessoa cuja área de Broca seja lesionada por traumatismo ou derrame passa a apresentar sérios déficits de linguagem. Nos raros casos em que há uma recuperação “considerável” do paciente, nota-se um curioso quadro, como no caso do Sr. Ford, um paciente entrevistado pelo neuropsicólogo Howard Gardner, citado por Steven Pinker em O Instinto da Linguagem:
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a) Ele tem perfeito controle dos músculos vocais, mas apresenta um esforço e hesitações desesperadores para falar (e não só para falar, mas também para escrever).
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b) A maior parte das dificuldades está relacionada a omissões de terminações dos tempos verbais e termos functivos gramaticais como or [ou], be [ser], e the [o(s), a(s)], apesar de sua alta freqüência na língua.
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c) Lendo em voz alta, o paciente pulava os functivos, embora lesse bem termos de conteúdo como bee [abelha] ou oar [remo], que têm praticamente a mesma pronúncia de or [ou] e be [ser].
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d) Nomeava objetos e reconhecia seus nomes perfeitamente (ou seja, o problema parece mesmo concentrado na gramática em especial).
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e) Entendia perguntas quando seu assunto principal podia ser deduzido dos termos de conteúdo, como “Uma pedra flutua na água?” ou “Você usa um martelo para cortar as coisas?” — em que podia inferir o significado a partir das representações mentais de “pedra” e “água”, bem como de “martelo” e “cortar”. Mas era incapaz de entender perguntas que exijam análise gramatical (como de sujeito ou objeto) em frases como “O leão foi morto pelo tigre; qual deles morreu?” O Sr. Ford não conseguia destacar o matador e a vítima.
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f) Suas funções intelectuais sem vínculo estreito com a linguagem, como percepção espacial, capacidade de desenhar (até mesmo com a mão esquerda, não treinada), fazer cálculos, leitura de mapas, acertar horários de relógios, fazer construções ou cumprir ordens, estavam todas preservadas. De fato, seu QI não-verbal era acima da média.
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Enfim, é desse tipo de módulo mental, instalado muito provavelmente como resultado das duas mutações no gene FOXP2 que o difere da versão encontrada nos chimpanzés, que os animais carecem em seus sistemas de comunicação, que está muito aquém das proezas permitidas pela faculdade humana da linguagem.
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Acho relevante destacar ainda que a faculdade de linguagem é um módulo cognitivo autônomo. E não custa nada eu repetir aqui alguns simples exemplos ilustrativos disso:
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a) Conseguimos falar, sem problemas, frases do tipo: Estou vendo uma laranja ao lado de uma maçã, porém nenhuma delas está à direita da outra. Podemos falar isso, mas ninguém consegue visualizar em sua mente uma maçã ao lado de uma laranja, sem que uma esteja à direita da outra.
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b) Conseguimos falar, sem problemas: O gnomo fugiu para uma décima-quinta dimensão, onde ele se esconde, ali permanecendo, sem estar em lugar nenhum. Agora, embora possamos construir frases assim sem nenhuma dificuldade, é-nos impossível visualizar mentalmente o tal gnomo numa outra dimensão onde permaneça escondido, sem estar em lugar nenhum. Em nossa visão mental, ele sempre estará em algum lugar. Sempre haverá um fundo por trás de seus contornos, seja ele claro, escuro, colorido, como for. Sempre haverá um espaço onde o gnomo estará contido, mesmo que seja um espaço vazio, como que flutuando no vácuo. E, se tentarmos ampliar sua imagem, no intento de driblarmos essa limitação de nossa visualização mental, fazendo-o se estender por todo o campo visual mental, o fato é que estaremos apenas transformando o gnomo no próprio pano de fundo que não conseguimos tirar dali.
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Por outro lado, a situação contrária também acontece. Quantas vezes não vivenciamos a situação de estar com algo em mente que, quando tentamos explicar a alguém, não encontramos a forma de traduzi-lo em palavras de forma que nosso interlocutor construa a mesma visualização mental que temos? Isso é tão corriqueiro que chega a ser curioso que tão poucas pessoas atentem para essa clara evidência de que o módulo lingüístico é distinto do módulo de representações mentais.
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No que concerne às características ímpares da linguagem, há que se destacar ainda um outro ponto: a reanálise. A reanálise é um produto da criatividade combinatória discreta da faculdade da linguagem que, em termos de analogia, tem mais a ver com lendas ou piadas, que são enriquecidas de detalhes ou mesmo reelaboradas a cada novo relato, do que com alguma analogia que pudéssemos tentar fazer com a evolução biológica ou cultural, já que muitas inovações lingüísticas não se parecem com mutações, evoluções ou empréstimos aleatórios. É por isso que, embora as regras gramaticais das línguas faladas mudem rapidamente ao longo da história, elas não degeneram, pois a reanálise é uma fonte inesgotável de novas complexidades. Assim como elas tampouco precisam se diferenciar progressivamente, visto que as gramáticas podem pular entre os encaixes que a gramática universal chomskiana torna disponíveis na mente de cada humano normal.
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Muitas regras fonológicas surgiram quando ouvintes de alguma comunidade reanalisaram uma fala rápida e coarticulada. Num dialeto imaginário do português, em que os falantes não tenham ativação de nenhuma regra fonética que produzisse vozeamento distintivo em fricativa labiodental (bem como sua inibição) resultando em fomenas distintivos (v de “vaca” e f de “faca”), seus falantes geralmente pronunciariam apenas “faca”. Mas alguma circunstância poderia levar um falante a pronunciar a consoante de forma vozeada (eu já ouvi um amigo bêbado reclamar que estava com muita “vome”). Algum ouvinte poderia atribuir uma regra de vozeamento de fricativas labiodentais, talvez na hora de fazer uma distinção de acepção da palavra ou no ato de cunhar um novo termo.
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Isso não apenas pode ocorrer, como já ocorreu diversas vezes na história das línguas. No inglês, por exemplo, foi exatamente o que fez com que o v fosse assimilado à língua — pois, no inglês antigo, não havia v; o verbo starve (sentir fome extrema) era originalmente steorfan. Naquela época, uma regra de pronúncia havia se fixado, levando ao vozeamento automático do f toda vez que ele aparecesse entre duas vogais. E uma palavra que era, então, escrita como “ofer” era pronunciada como “ôuver”. Com o tempo, os ouvintes acabaram reanalisando o v como um fonema separado, e não uma forma de pronunciação de f, o que resultou em que a atual grafia da palavra em questão, por exemplo, é over no inglês moderno, ao passo que v e f coexistem como fonemas separados. Hoje, os falantes de inglês conseguem diferenciar palavras como waver (oscilação) e wafer (tipo de bolinho folhado e fino); porém, o rei Etelvoldo de Wessex (um dos sete reinos em que estava dividida a Inglaterra no século 9) não teria conseguido ver qualquer distinção entre uma e outra.
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De qualquer forma, regras fonológicas, tal como as regras morfosintáticas determinadas pela gramática universal, uma vez ativadas durante o processo de aquisição lingüística, passam a ser produzidas pelos falantes do dialeto ou língua de forma espontânea, sem qualquer necessidade de decoreba.
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Para demonstrar como a coisa funciona em nossa própria língua materna (o português), darei um exemplo de como essas regras, após ativadas em nossos cérebros à recepção do input, levam-nos a seguir suas normas espontaneamente, sem que jamais tivéssemos de aprendê-las na escola.
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Tomemos os seguintes pares de palavras:
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Arroz branco.
Arroz pronto.
Arroz velho.
Arroz frio.
Arroz grego.
Arroz caro.
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Se começarmos a recitar essa seqüência de pares de palavras num ritmo normal, poderemos notar um fenômeno fonológico muito interessante acontecendo em nossa pronúncia. O “z” final de arroz será sempre pronunciado com o som vozeado do “z” de zebra em todos os pares em itálico, porém, nos pares em negrito, o mesmo “z” final será pronunciado com o som sibilante do “s” de sapo. A regrinha elementar que todos sabemos, mas ninguém estudou na escola (e, portanto, até mesmo os analfabetos a obedecem em seus enunciados) é a que nos obriga a vozear essa consoante final sempre que seguida de palavra começada em consoante vozeada (o que alguns chamam de “sonora”), e desvozeá-la quando a palavra seguinte começar com uma consoante desvozeada (o que alguns chamam de “surda”).
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Estrangeiros aprendendo o português como língua estrangeira e falantes de uma língua destituída de tal regra, como já inibiram a emergência dessa regra durante a aquisição de sua própria língua, ou terão de memorizá-la e treiná-la, ou produzirão esses sons de maneira equivocada, carregando seu sotaque estrangeiro.
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Um parêntese sobre a comunicação animal versus a faculdade humana da linguagem
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Outro dia, perguntaram-me se eu conhecia algum trabalho que tivesse demonstrado que a comunicação animal, em termos técnicos, não poderia ser classificiada como “linguagem animal”. Nem tive de ir longe atrás de um exemplo. Na obra que já citei aqui, O Instinto da Linguagem: como a mente cria a linguagem (São Paulo: Martins Fontes, 2002), o lingüista e cientista cognitivo de Harvard, Steven Pinker, após salientar com detalhes as características distintivas entre a comunicação animal e a linguagem humana, faz o seguinte resumo dessa distinção:
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Obviamente, a linguagem é tão diferente dos sistemas de comunicação de outros animais quanto a tromba do elefante é diferente das narinas de outros animais. Os sistemas de comunicação não-humanos baseiam-se em uma dentre três organizações: um repertório finito de chamados (um para avisar da presença de predadores, um para reivindicar território etc.), um sinal analógico contínuo que registra a magnitude de algum estado (quanto mais vivaz a dança da abelha, mais ela expressa a riqueza da fonte de alimento para as colegas da colméia), ou uma série de variações aleatórias sobre um tema (o canto de um pássaro repetido a cada vez com um novo tratamento: um Charlie Parker com penas). (...) a linguagem humana organiza-se de forma bem diferente. O sistema combinatório discreto denominado "gramática" torna a linguagem humana infinita (não há limite para o número de palavras ou frases complexas numa língua), digital (obtém-se esta infinidade pelo rearranjo de elementos discretos em determinadas ordens e combinações, e não pela variação de algum sinal ao longo de um continuum como o mercúrio num termômetro) e composicional (cada uma das combinações infinitas tem um significado diferente previsível a partir do significado de suas partes e das regras e princípios que as ordenam).
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Até mesmo o sítio da linguagem humana no cérebro é especial. Os chamados vocais dos primatas são controlados não por seu córtex cerebral mas por estruturas nervosas filogeneticamente mais antigas do tronco cerebral e do sistema límbico, estruturas profundamente relacionadas com a emoção. Vocalizações humanas distintas da linguagem, como soluços, risos, gemidos e gritos de dor, também são controlados subcorticalmente. As estruturas subcorticais controlam até mesmo as imprecações que se seguem à chegada de um martelo num dedo, que emergem como tique involuntário na síndrome de Tourette, e que podem ser a única coisa que resta da fala em afásicos de Broca. (...) a verdadeira linguagem tem por localização o córtex cerebral, em particular a região à esquerda do sulco lateral. (PINKER, op. cit., págs. 427-428)
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No livro, há descrições detalhadas dessas diferenças.
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Quando citei a passagem, a pessoa que me havia feito a pergunta comentou: “Pelo visto, ele não chegou a analisar a capacidade dos cachorros de entender mais de 800 palavras e a dos chimpanzés de conseguir falar por linguagem de sinal com um vocabulário de mais de mil símbolos, inclusive aprendendo a formar frases simples a até cunhando novos termos e composições”.
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Ao que tive de treplicar. Afinal, se há uma coisa de que estão cientes todos os que conhecem os trabalhos de Chomsky, Pinker, Jackendoff, Hauser e outros que estudam linguagem e cognição humana, bem como comunicação e cognição animal no MIT, em Harvard e outras instituições, é que esses estudos com animais citados pelo rapaz com quem eu dialogava partiram de notórios equívocos behavioristas do século passado, levando a interpretações exageradas e leituras extremamente distorcidas dos dados dos experimentos realizados. No livro mencionado, bem como em vários artigos científicos publicados por Pinker, Hauser, Chomsky, Jackendoff e Fitch, faz-se uma séria reavaliação da suposta “linguagem animal”, levando-se em conta as novas descobertas nos campos da Lingüística, da Neurolingüística e da cognição animal. Achados importantíssimos que os adestradores ignoravam.
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Após a descoberta do papel do gene FOXP2 no desenvolvimento dos circuitos neurais da linguagem, bem como das evidências do próprio módulo mental que lida com as estruturas algorítmicas chomskianas, que tudo indica funcionar independentemente de outros módulos cognitivos, como já destacado, tornou-se imprescindível uma revisão desses alegados experimentos com “linguagem animal”, em especial as alegações de que primatas haviam aprendido a Língua Americana de Sinais (ASL, na sigla inglesa).
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O que essa revisão trouxe à tona foi:
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1) Animais como cães e gatos que, supostamente, reconheciam palavras humanas na verdade apresentavam nada distinto de comportamentos reforçados por condicionamento reflexo. Eles não “reconheciam” as palavras (como quem as entende). Eles simplesmente reagiam ao padrão de seqüências vocálicas a que eram repetidamente expostos e repetiam comportamentos que eram condicionados a fazer em seu adestramento.
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2) Em geral, quanto mais contundentes eram as afirmações sobre as habilidades do animal, mais escassos eram os dados disponíveis para a avaliação da comunidade científica. (Além do que, a maioria dos adestradores se recusou a fornecer seus dados primários, e Beatrice e Alan Gardner, os treinadores da famosa chimpanzé Washoe, até ameaçaram processar outro pesquisador porque ele usou imagens de um de seus filmes com a chimpanzé — os ÚNICOS dados disponíveis sobre as supostas habilidades de Washoe — num artigo crítico do estudo.)
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3) Este pesquisador (Herbert Terrace), junto com Laura Ann Petitto, Richard Sanders e Tom Bever, tentaram repetir os procedimentos adotados no treinamento de Washoe com um parente da chimpanzé, chamado Nim Chimpsky. Porém, dessa vez, os pesquisadores tabularam e analisaram cuidadosamente os sinais de sua aparente aquisição da ASL, ao passo que outros pesquisadores analisaram cada pormenor de TODOS os videoteipes e dados publicados sobre outros primatas que alegadamente se expressavam por sinais.
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Qual foi a conclusão unânime de todos esses estudos de revisão feitos independentemente? Não acredite em tudo o que você vê no Fantástico!
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Só para citar o comentário de Pinker sobre todas as pesquisas com os primatas que “aprenderam a linguagem de sinais”:
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Para começo de conversa, os macacos não “aprenderam a Língua Americana de Sinais”. Essa afirmação absurda baseia-se no mito de que a ASL é um sistema rudimentar de pantomimas e gestos e não uma língua plena com fonologia, morfologia e sintaxe completas (características que Pinker demonstra existir de forma patente na língua de sinais falada por americanos que nasceram surdos e, conseqüentemente, ficaram mudos). Na verdade, os macacos não tinham aprendido nenhum sinal da ASL.
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As suspeitas disso haviam começado tempos antes, quando a famosa primatologista Jane Goodall, visitando o projeto de adestramento de símios que supostamente aprendiam a ASL, observou que os supostos “sinais da língua” eram muito semelhantes aos vários gestos que ela própria já observara nos chimpanzés em estado selvagem. Não havia visto nada de mais, a cientista.
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As pesquisas revisando os estudos confirmaram isso. Os alegados “sinais” não eram nada parecidos com os sinais da ASL. E o golpe final veio de um grupo de surdos que falavam pela Língua Americana de Sinais. Eles, vendo os supostos “sinais” dos macacos, deram o veredicto: nada daquilo era sinal da ASL! Os chimpanzés estavam se amparando muito mais nos gestos de seu repertório natural do que aprendendo os sinais arbitrários da ASL, que possui, o que muitos não-lingüistas ignoram, estrutura fonológica combinatória de formas de mãos, movimentos, localizações e orientações.
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Mas os psicólogos, discípulos do behaviorismo de Skinner, numa atitude bem pouco cético-científica, iam lendo frases inteiras em tudo quanto fosse gesto dos animais. O que, não por acaso, um dos pesquisadores que acompanhou o experimento original, que era também deficiente auditivo que usava a ASL, foi obrigado a reconhecer: seus companheiros ingenuamente viam sinais em tudo o que os chimpanzés faziam, mas nada daquilo eram sinais da ASL. (As observações dele foram anotadas num registro que Pinker reproduz na página 433 de O Instinto da Linguagem.)
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Por outro lado, num período assaz recente da história, a Nicarágua deu ao mundo um exemplo fabuloso de como a coisa é bem diferente com relação aos humanos.
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Em 1979, o governos sandinista chegou ao poder naquele país e, dentre suas medidas, reformou o sistema educacional. Foram criadas as primeiras escolas para deficientes auditivos. O enfoque dessas escolas, no entanto, era o natimorto método da leitura labial e da concentração na fala, técnica que fracassou em todo lugar que foi experimentada. Porém, nos parques e ônibus escolares, as crianças, agrupadas, interagindo (lembram da teoria da zona proximal de desenvolvimento de Vygostiky?, pois então...), começaram a inventar, sozinhas, seu próprio sistema de sinais. Esse sistema foi o que mais tarde se consolidou como a Língua Nicaragüense de Sinais (LNS), com diferentes graus de fluência e muito rústica, praticamente um pidgin (isto é, uma cadeia precária de palavras — neste caso, de sinais — que varia muito em ordem e muito pobres em termos gramaticais). Mas foi apenas o pontapé inicial!
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As crianças que nasceram pouco depois, que passaram a ir a escola quando as LNS já era utilizada pelos deficientes auditivos a torto e a direito, desenvolveram uma língua de sinais incrivelmente mais complexa e rica. As crianças, espontaneamente, introduziram várias estratégias gramaticais ausentes na LSN e, portanto, passaram a depender menos de circunlóquios sugestivos.
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Por exemplo, um usuário de LSN pode ter um sinal para falar come depois tem de fazer um gesto que vá da posição do enunciador para a posição do receptor da mensagem. Mas um usuário do Idioma de Signais Nicaragüense (ISN), como passou a ser chamada a nova variedade de língua de sinais criada pelas crianças, modifica o próprio sinal, arrastando-o num mesmo movimento de um ponto que representa o falante para um outro ponto que representa o ouvinte, numa estratégia que, em termos formais, é idêntica à flexão verbal em função da concordância, nas línguas faladas. E isso é apenas um exemplo trivial das distinções notáveis.
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Em suma, tudo isso deixa bem cala a mensagem: a comunicação animal não é o mesmo que a faculdade humana da linguagem — isso é fato! As mutações genéticas que instalaram em nossa espécie esses circuitos específicos para sua produção (desde a divergência de nossa linhagem com o galho evolutivo dos modernos chimpanzés) simplesmente não ocorreram nas versões do gene em outros animais.
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Nenhum lingüista, principalmente um que esteja familiarizado com as descobertas mais recentes na Genética e na Neurolingüística, confunde comunicação animal com linguagem. Isso é análogo à confusão dos leigos sobre o sentido de evolução na Biologia e no senso comum, onde os significados são bem diferentes.
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A linguagem e os pensamentos: ingredientes para o bolo da fé
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Então, temos uma faculdade mental especial: a linguagem. E ela tem módulo autônomo, que funciona independentemente de outros módulos cognitivos em nossas mentes. A primeira coisa que podemos concluir disso é que, toda vez que alguém nos diz algo como “Meu inglês é tão avançado que eu já até penso em inglês”, tal pessoa está assinando um risível atestado de ignorância em Lingüística. E por quê? Simples: porque ninguém pensa em inglês! Aliás, ninguém pensa em idioma nenhum. A “linguagem” do pensamento — o “mentalês”, como Pinker a chama — não é a língua que falamos.
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O fato de que discursamos internamente em nosso idioma, com uma voz que narra em off as imagens mentais que construímos, sobrepondo essa voz interior por sobre a visualização, é que nos faz cometer esse corriqueiro equívoco. No entanto, como já demonstrado aqui, pensamos coisas que não conseguimos traduzir para a linguagem e, por outro lado, falamos coisas que não conseguimos traduzir em imagens mentais.
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Ao mesmo tempo, é óbvio que o funcionamento conjunto dos circuitos da linguagem e dos demais módulos cognitivos acabam interagindo. Por exemplo: quando um produto intermediário é armazenado na mente humana, em vez de num CD ou num papel, isso é normalmente chamado pelos psicólogos de memória de trabalho. (Basta pensar em quando, num papel, fazemos uma soma e rabiscamos um dígito em cima de uma coluna para não perdermos o número que precisa ser adicionado à coluna — somando 1.453 + 3.564 + 14.289 → “3 + 4 = 7, + 9 = 16, sobe 1...” Pois bem, a memória de trabalho é fazer justamente isso, porém na mente, em vez de na folha de papel.)
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Acontece que as duas formas mais vívidas de memória de trabalho são as imagens mentais, também chamadas de esboço visuoespacial, e pedaços desse discurso interior a que me referi acima, também chamado de circuito fonológico. As pessoas costumam usar seu circuito fonológico para guardar um número de telefone na cabeça, para fazer aritmética mental e para acompanhar os sentidos de direita e esquerda quando seguem instruções de caminho que alguém lhes deu ou se lembram de lugares. O fato de que a língua possui um lado físico — som e pronúncia — acaba tornando-a útil como meio para a memória de trabalho, pois permite que a informação seja temporariamente transferida para as partes auditivas e motoras do cérebro (o que de fato acontece), liberando capacidade nos sistemas centrais onde trafega a informação mais abstrata.
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Dado curioso, nesse sentido, é que muitos cientistas da cognição sustentam que a mente humana herdou de nossos ancestrais mamíferos dois sistemas para rastrear quantidades. Um deles é um sistema de estimativa por analogia, em que as quantidades são avaliadas de modo aproximado, relacionando-as a alguma magnitude contínua na cabeça, como a vaga idéia de “quantidade de coisas”, ou a extensão de uma linha imaginária. O segundo sistema rastreia quantidades exatas, mas só até um limite muito curto, por volta de 3 ou 4. Nenhum dos dois é adequado para pensar em quantidades que sejam ao mesmo tempo grandes e exatas, como 9, ou 37, ou 187.148. Para essas, é preciso aprender, na infância, um sistema numérico e operações aritméticas.
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Não é difícil concluir que as crianças da savana africana ou os índios de várias tribos amazônicas não têm contato com um sistema educacional que promova o ensino desse tipo de sistema e operações na infância, bem como tampouco têm real necessidade de aprender a desenvolver o raciocínio matemático complexo, já que isso não é útil para a sobrevivência no ambiente em que se encontram — por isso mesmo, algumas tribos podem até possuir um sistema de contagem ligeiramente mais extenso, embora longe de ser algo complexo, enquanto outras ficam só na limitação que os próprios macacos também têm: a de rastrear números exatos apenas em pequenas quantidades, como 1, 2, 3 ou 4. Não houve nem há necessidade para desenvolvimentos como os citados aqui.
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De fato, sabemos que macacos conseguem rastrear pequenas quantidades exatas, como 1, 2, 3 ou 4. Mas também sabemos que macacos não têm linguagem. Logo, é presumível que eles realizem tal operação de contagem valendo-se de imagens mentais, mas com certeza não do circuito fonológico (que eles não têm). Já os caçadores-coletores africanos ou os índios brasileiros, por sua vez, embora no meio em que vivem prescindam de matemática complexa, fazem o rastreamento de pequenas quantidades tal como nós das sociedades letradas: usando o esboço visuoespacial e o circuito fonológico. Um pirahã pode não contar até mais de 3, mas conta 1, 2 e muitos, valendo-se dessas mesmas duas ferramentas úteis à memória de trabalho. Além disso, um bebê pirahã pode aprender toda a matemática complexa que utilizamos, desde que lhe seja ensinado dentro da fase crítica de desenvolvimento cortical (tal como aliás ocorre com a gente). Aprendizado tardio, como a educação de adultos demonstra, é geralmente limitado — nenhum analfabeto de uma vida inteira torna-se um gênio da Literatura, da Filosofia ou da Física Quântica, depois de passarem pela educação em fase tão tardia do desenvolvimento cerebral.
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Mas, enfim, essa complexa interação dos circuitos da linguagem e demais circuitos cognitivos, à medida que vem sendo desvendada, vai nos ajudando a entender como o cérebro trabalha a assimilação de conceitos, por exemplo, algo que interfere enormemente naquilo em que as pessoas acreditam, no que depositam sua fé.
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Acerca de um desses processos, no início de 2008, passamos a entender um pouco do que ocorre no cérebro humano quando assimilamos uma proposição qualquer (seja ela factual ou não) como dado verdadeiro. Por meio de mapeamento por ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla inglesa), pôde-se verificar que, na avaliação e assimilação de alguma proposição, determinadas regiões do córtex pré-frontal medial, da ínsula anterior, do lobo parietal superior e do núcleo caudado agem como mediadores, nos processos de aceitação ou rejeição de alguma proposição como verdadeira ou falsa.
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O que torna tal constatação interessante aqui é o fato de que, com o desenvolvimento da linguagem no Homo sapiens, a assimilação de um dado transmitido a alguém (por meio da língua falada) e a aceitação do novo dado como sendo verdade pelo receptor da mensagem, acaba sendo um processo curiosamente governado, em parte, pelas mesmas áreas do cérebro que estão sabidamente relacionadas com nossa memória e aprendizado, e que são as mesmas que utilizamos para julgar, por exemplo, se um determinado sabor ou aroma nos é agradável ou não. Áreas que usamos para avaliar itens concretos, coisas palpáveis no mundo ao nosso redor, são ativadas para processo de armazenamento de dados (e, curiosamente, mesmo de conceitos que são muitas vezes abstratos ou mesmo fantasiosos), desde que aceitemos tal coisa como sendo verdade.
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O estudo em questão foi realizado por Sam Harris em seu programa de doutorado em Neurociências pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e publicado na revista Annals of Neurology, sério periódico da Associação Neurológica Americana (vide: HARRIS, S., SHETH, S. A. & COHEN, M. S. “Functional neuroimaging of belief, disbelief and uncertainty”. Annals of Neurology, Vol. 63, nº 2, 2008, págs. 141-147)
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Como nos mostram os dados, podemos compreender melhor por que aquilo em que acreditamos nos parece tão sólido, tão concreto, tão “real” (mesmo que
não seja algo legitimamente factual): tal sensação de solidez, de concretude, de “verdade verdadeira e quase palpável” é produzida como resultado pelas áreas cerebrais que participam do processo de armazenagem de tal proposição aceita individualmente bem como de outros processos os mais distintos (memória, aprendizado, avaliação de aspectos de objetos concretos...). E sim: isso quer dizer que o cérebro apresenta as mesmas ativações quando uma pessoa aceita como verdade um dado óbvio como “O fogo queima a pele se em contato com ela”, ou quando um cientista aceita a validade de uma teoria pela análise de suas evidências corroborantes, pelo teste de suas hipóteses e pela confirmação prática de suas leis, mas também quando um supersticioso aceita como verdade que deixar os chinelos virados para baixo traz má sorte ou que demônios aparecem para as pessoas que xingam na quaresma.
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Assim, para resumir, podemos perceber agora que acreditar em algo (seja algo
factual ou não) faz daquilo em que se acredita algo concreto, algo tão verdadeiro quanto as teclas do computador com que agora digito este texto. Acreditar é tornar real para si o objeto da crença!
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Somando-se a esses dados, em agosto último, o periódico científico Nature Reviews Neuroscience (Vol. 9, págs. 646 – 564, agosto/2008) publicou um artigo de autoria do Dr. Prof. Shihui Han, da Universidade de Pequim (China), e do Dr. Prof. Georg Northoff, da Universidade de Magdeburg (Alemanha), que parece demonstrar que tanto o ambiente cultural ao nosso redor pode deixar algumas marcas em nossas mentes quanto o fato de acreditar ou não em Deus pode alterar conexões cerebrais. Ou seja, para deixar bem claro o que se quer dizer aqui, descobriu-se que o cérebro de um ateu e de um crente (no sentido de alguém que creia num Deus não importa a religião) costumam tomar caminhos neuronais diferentes na hora de executar uma mesma tarefa.
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Os pesquisadores selecionaram pessoas declaradamente não-religiosas e outras de religião cristã, e fizeram a elas as mesmas perguntas. Essas perguntas consistiam em julgar a si mesmas e a pessoas famosas. Eles deveriam classificar as pessoas citadas pelo pesquisador como: corajosas, desleais, infantis e outros adjetivos. Ou seja, algo aparentemente simples, do que se esperaria uma resposta cerebral semelhante. Ao mesmo tempo, enquanto essas pessoas respondiam as perguntas, eram submetidas a uma Ressonância Magnética Funcional, onde é possível ver que áreas do cérebro estão sendo ativadas a cada momento.
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Para uma rápida exposição: o córtex frontal é a região do cérebro envolvida no raciocínio, na tomada de decisões, em julgamentos do que é certo e errado, bom e ruim. Sua região
dorsomedial (que fica na parte de cima, bem no meio do córtex frontal) é ativada quando tentamos nos colocar no lugar de outra pessoa, num exercício de buscar interpretar o que ela estaria pensando ou quais seriam suas emoções em dado momento. Nós sempre usamos essa parte do córtex para imaginar, por exemplo, se o outro está bem ou mal, baseando-se na leitura de sua expressão facial ou de seu comportamento. Essa função cognitiva é hoje muito conhecida como “teoria da mente”. A região ventromedial (que fica na parte debaixo do córtex frontal, bem no meio), por sua vez, é responsável pela nossa auto-percepção, como nós nos julgamos. Ela é ativada quando pensamos em nós próprios: se somos fortes ou fracos, atraentes ou feios, se estamos felizes ou deprimidos, se nosso comportamento ontem na casa dos pais da namorada foi certo ou errado. Em outras palavras, é nessa área do cérebro que se estabelece a autoconsciência de cada indivíduo.
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No experimento, quando pediram para ateus e cristãos julgarem a si mesmos bem como o comportamento de outras pessoas (pessoas famosas), foi uma curiosa revelação perceber que eles ativaram áreas diferentes do cérebro exatamente conforme a classificação da pessoa testada quanto a suas crenças. Na hora de fazerem seus julgamentos, principalmente na hora de qualificar a si próprios ou seu próprio comportamento, os cristãos ativavam o córtex pré-frontal dorsomedial e os indivíduos não-religiosos ativavam a região ventromedial, de modo que, considerando-se a respectiva função dessas duas regiões, concluiu-se que os cristãos apresentavam a resposta de se julgar “pondo-se no lugar de Deus”, já que sua religião lhes ensina que a moral se estrutura a partir da “perspectiva de Deus”. Uma operação psicológica típica da atribuição mental ou “teoria da mente”: na hora de julgarmo-nos, colocamo-nos no lugar de Deus e imaginamos como ele nos julgaria. Por sua vez, os não-religiosos, ao que tudo indica, julgam-se a partir do referencial de sua própria história de vida e suas características próprias, sem se colocarem na posição de um observador externo. Ao assim procederem, ativam o córtex pré-frontal ventromedial, responsável por executar esse tipo de tarefa.
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A esta altura, um cínico poderia perguntar: “Mas dá mesmo para saber se os crentes estão avaliando os outros e a si mesmos colocando-se de fato na perspectiva moral de Deus ou Jesus?” De forma precisa assim, não! Eles podem também estar fazendo seus julgamentos morais a partir do ponto de vista do Diabo, quem sabe? Ou do espírito desencarnado de Chico Xavier. Podem até estar adotando a perspectiva moral do deus Unkulunkulu dos zulus africanos.
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Agora, o que se sabe, com certeza, é que eles fazem julgamentos morais colocando-se na perspectiva de outra pessoa que não eles próprios: pois desativam a área ventromedial do córtex pré-frontal, responsável por nossa auto-percepção, e ativam a dorsomedial, que usamos apenas para nos colocarmos no lugar de alguém, quando, por exemplo, tentamos imaginar o que Fulano poderia estar pensando de nós, ou o que Sicrano estaria tramando contra nós, ou ainda quando pedem a você para tentar se colocar no lugar da Marisa, que tentou suicídio outro dia, e você se imagina sendo a mulher e vivenciando a experiência de ver o marido e o filho decapitados entre as ferragens de seu carro batido na traseira de um caminhão, procurando compreender melhor quais poderiam ter sido suas emoções. Enfim...
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A verdade é que, como o código moral cristão está diretamente associado com a figura de seu deus, os pesquisadores concluíram, muito coerentemente, que essa outra pessoa em cuja perspectiva os cristãos invariavelmente se colocam na hora de emitirem juízos morais deve ser seu próprio deus. E condiz com o fato de que os ateus não manifestam o mesmo padrão de ativação.
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De qualquer forma, o que esses dois estudos nos revelam é muito intrigante e, ao mesmo tempo, perturbador. Primeiramente, vimos que o que torna o objeto de nossas crenças real para nós são as vias neuronais pelas quais dados lingüísticos são assimilados — como nossos cérebros não são perfeitos, frutos de algum projeto inteligente, acabam cometendo, digamos, o “pecado” de processar dados factuais, concretos, pelos mesmos canais que dados abstratos, fantasiosos ou irracionais, desde que acreditemos no dado como nos foi transmitido. Além disso, vimos que, dentre as mais distintas crenças humanas, embora seja bem possível que nossas crenças ideológicas também apresentem seus efeitos ainda não-estudados sobre o mecanismo computacional de nossos cérebros, já sabemos que ao menos as crenças religiosas resultam em outputs diferenciados, quando comparados àqueles de cérebros de pessoas sem religião, em especial no que diz respeito à forma como julgamos os outros e a nós mesmos.
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Agora, já entendemos por que aquilo em que acreditamos nos
parece tão real (mesmo que não seja, na realidade), bem como sabemos que nossas crenças, em especial as religiosas, afetam nossa maneira de pensar, fazendo com que mesmo nosso julgamento das pessoas e de nós mesmos seja regido por áreas distintas do córtex frontal. Fica apenas uma pergunta: como foi que a seleção natural acabou levando à evolução em nós de cérebros tão propensos a acreditar acriticamente em coisas que podem afetar consideravelmente nossa maneira de viver e de encarar o mundo?
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Um último aspecto dessa interação entre os circuitos da linguagem e os demais circuitos cognitivos que gostaria de destacar aqui é algo que Pinker discute em seu mais recente livro Do Que É Feito o Pensamento: A língua como janela para a natureza humana (São Paulo: Cia. das Letras, 2008).
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É muito interessante notar que, enquanto lesões no córtex e na matéria branca subjacente ao longo da fenda horizontal (a fissura silviana) no hemisfério esquerdo costumam causar afasia, ou seja, a perda da linguagem articulada, os neurologistas desde o início dos estudos de afasias perceberam que os pacientes podem manter a habilidade de falar palavrões. Segundo o que hoje se sabe, falar palavrões em voz alta ou ouvir palavrões ditos por outras pessoas ativam áreas mais profundas e antigas do cérebro, sugerindo que epítetos tabus fiquem armazenados na forma de fórmulas pré-fabricadas no hemisfério direito (o hemisfério oposto ao que abriga a maior parte dos circuitos da linguagem). Essas fórmulas estão no extremo oposto de um contínuo que tem na outra extremidade o discurso calculado, em que combinações de palavras expressam combinações de idéias, seguindo regras gramaticais.
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Como Pinker destaca, isso não quer dizer que o hemisfério direito possua algo como um módulo profano, mas que seus recursos lingüísticos estão confinados a fórmulas decoradas, em vez de a combinações governadas por regras. Como alguns estudos demonstraram, o hemisfério direito guarda um vocabulário respeitável de palavras, pelo menos no que diz respeito à compreensão. Nele também podem ficar armazenados equivalentes idiossincráticos a formas governadas por regras, como os verbos irregulares (Dronkers, N., Pinker, S. & Damasio, A. R. “A linguagem e as afasias”. Em Kandel, E. R. et al. Princípios da Neurociência. São Paulo: Ed. Manole, 2002). Sua ativação freqüentemente acompanha a utilização de fórmulas decoradas mais longas, como letras de música, orações, pontuadores de conversa como “hãã”, “nóóó”, “é mesmo!”, e iniciadores de frases como “eu acho” e “não é possível”.
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Além disso, é interessante que o hemisfério direito esteja associado às emissões de palavrões, quando sabemos que este hemisfério está mais envolvido com as emoções, em especial as de carga negativa. Agora, é importante salientar que a incompreensão dos cientistas ainda é grande quanto a todos os detalhes desse complexo funcionamento da circuitaria nesse tipo de processamento. Por exemplo, é possível que não seja exatamente o córtex cerebral do hemisfério esquerdo que deflagre os epítetos, mas uma estrutura cerebral mais antiga em termos evolutivos, os gânglios basais. Estes já foram implicados no ato de xingar por duas linhas de evidencias.
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Uma delas é um estudo sobre um homem que havia sofrido um derrame nos gânglios basais do lado direito. Se nos casos de afasia, pacientes perdem a linguagem articulada, mas xingam que é uma beleza, neste caso, o homem era capaz de conversar fluentemente, em frases perfeitamente gramaticais, mas não conseguia cantar músicas que antes conhecia, nem recitar orações que sabia desde criança e, voilà, não conseguia falar nenhum palavrão, nem mesmo quando se lhe davam o começo da palavra para que ele apenas a completasse. Ele não sabia.
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Além disso, os gânglios basais têm um papel bem mais conhecido nas emissões de palavrões. Como se sabe, em pacientes com síndrome de Tourette, os gânglios de base apresentam anormalidades, em parte hereditárias. O resultado é que os ditos sistemas executores do cérebro, que monitoram o comportamento originário do resto do cérebro e interferem nele, passam a não apresentar sua funcionalidade censora de costume, e o sintoma mais alardeadamente divulgado da síndrome é um tique vocal que consiste em gritar obscenidades, tabuísmos étnicos e outros tipos de agressão verbal, o que não ocorre com todos os pacientes de Tourette, mas dependentemente da extensão das lesões causadas pelo dano nos gânglios basais.
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Bem... Em todo caso, de fato não se pode negar que as pesquisas sobre os circuitos neuronais que subjazem aos mais variados aspectos da linguagem humana ainda têm muito a desvendar. Estamos ainda num estágio muito precoce das pesquisas. Mas penso ser interessante apontarmos alguns achados já feitos, visto que eles já nos dão um bom suporte evidencial da singularidade da faculdade da linguagem em nossa espécie, tão distinta da comunicação animal.
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Por fim, os pontos destacados sobre a singularidade da linguagem em nossa espécie (embora haja indícios já apresentados de que o homem de Neanderthal tenha desenvolvido circuitos lingüísticos bem similares aos nossos), bem como de sua relação interativa com os demais circuitos cognitivos, não permitem que entendamos o fato de que apenas a espécie humana tenha crenças religiosas nem virtude de mero acaso nem em função de algum módulo da religião geneticamente instalado em nós. A linguagem é fundamental para o câmbio interpessoal de idéias, sem o que nenhum conjunto de crenças religiosas poderia ser passado adiante e reelaborado um sem número de vezes, ao longo de nossa história. A linguagem é instrumento essencial para a disseminação de “idéias infecciosas”, tal como as chama o filósofo Daniel Dennett, dentre as quais aquelas que associamos às crenças e práticas religiosas.
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Da gênese da religiosidade humana
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Como já destacado aqui, nos primórdios da humanidade houve o nascimento da linguagem humana, após mutações genéticas aleatórias terem eventualmente produzido alguns de nossos ancestrais capazes de compreender enunciados vocalizados e assimilar seu significado. A criança capaz de compreender os alertas dos adultos não se arriscava, como as outras que não tinham tal capacidade. No inóspito ambiente ancestral onde nossos cérebros se desenvolveram, crianças sem linguagem afastavam-se dos adultos de sua tribo e caíam em precipícios, eram atacadas por algum animal, comiam alguma planta venenosa, em suma, colocavam a vida em risco em virtude da simples carência de linguagem.
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De fato, isso parece convergir com outros dados provenientes de outros estudos. A esta altura, por exemplo, já não surpreende tanto percebermos que, enquanto muitas das capacidades de inteligência de uma criança só se desenvolverão por volta da idade escolar, a linguagem, por outro lado, manifesta-se muito cedo, curiosamente quase na mesma época em que a criança começa a andar.
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Mas é claro que isso por si só não significaria muita coisa, afinal, os macacos também não têm linguagem e estão aí até hoje. Mas a palavra-chave aqui é seleção natural. Os macacos ainda estão aí, como os demais animais, todos sem linguagem, porque não houve nessas espécies os múltiplos passos da seleção natural atuando sobre a variabilidade genética, que conduziu ao desenvolvimento do instinto da linguagem, como aconteceu na linhagem que levou ao Homo sapiens.
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Todos os benefícios proporcionados pela linguagem no ambiente ancestral (segurança ao saber obedecer alertas, capacidade de troca de experiências e informações, ensino e aprendizagem de técnicas recém-desenvolvidas, etc.) fizeram a lâmina ser implacável com os sem-linguagem, inviabilizando seu sucesso reprodutivo, levando-os à extinção. A propósito, por mais irônico que pareça, até mesmo a
fofoca não é um universal que ultrapassa barreiras culturais por questão de mera coincidência. No ambiente ancestral, os mexericos tinham algumas consideráveis utilidades. Para citar um único exemplo, serviam para alertar um macho sobre uma fêmea não-confiável que poderia estar fazendo-o criar filhos de outro macho — lembrem-se de que, na pré-história humana, se uma mulher sempre podia ter certeza de que um filho era dela, a coisa não era assim tão óbvia para o homem. Nesse cenário, a fofoca poderia beneficiar o “corno” alertado, impedindo-lhe de gastar tempo criando filhos de outro homem e de fracassar na propagação de seus próprios genes, bem como traria benefícios ao fofoqueiro, a quem o avisado ficaria devendo uma. Ou seja, outra utilidade da fofoca era a de servir de instrumento para forjar alianças.
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E isso é apenas um exemplo trivial do quanto o desenvolvimento da linguagem foi vital para a evolução humana. Toda a cultura e tecnologia que produzimos ao longo dos milênios tiveram início com a evolução dessa faculdade, sem a qual nada disso seria possível. Todavia, essa faculdade tão preciosa aos humanos trouxe consigo um subproduto, um efeito colateral da adaptação evolutiva de que resultou, que acarretou mais prejuízos do que vantagens, embora ainda se possa ver alguns benefícios de uma certa perspectiva que vou abordar mais adiante. Em todo caso, o que importa destacar aqui é que, uma vez que o subproduto negativo está diretamente associado ao produto positivo da evolução, somos obrigados a conviver com ele. E do que estou falando, afinal de contas?
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Bem, o fato é que todos os dados que citei até aqui indicam que, no ambiente ancestral, a linguagem não apenas emergiu como um ajuste adaptativo evolutivo que beneficiou a espécie humana, mas passou a desenvolver-se num estágio notavelmente precoce, acompanhando os passos da criança, o que corrobora a idéia de que a linguagem servia para salvaguardar as crianças aventureiras, impedindo-as de se arriscar. O mecanismo de aceitação acrítica das palavras dos adultos como valor de verdade, fazendo com que aquilo que diziam e que a criança assimilava como factual, adquirisse contornos bem mais sólidos na percepção infantil, trouxe o benefício direto mais óbvio: num exemplo meramente ilustrativo, impediu que muitos moleques travessos se metessem em cavernas escuras, onde poderia haver animais nocivos ou outros perigos, por medo do monstro de fogo ou do demônio das sombras que os adultos diziam que vivia lá dentro. É uma tática que muitos pais utilizam ainda hoje com os filhos, até mesmo em situações que nem envolvem algum risco — como quando dizem para a criança tratar de dormir logo, antes que o Bicho-Papão a encontre acordada tarde da noite.
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Porém, o subproduto negativo desse mecanismo, que envolve linguagem e cognição, é que as mentes infantis são ingenuamente predispostas à credulidade. As crianças acreditam facilmente em Papai Noel, Coelho da Páscoa, super-heróis com poderes extraordinários, etc., e, ainda que a mente vá se tornando mais crítica e avaliativa à medida que crescem, muitas de suas crenças podem ficar profundamente enraizadas, principalmente se houver pressão externa (cultural) contra sua supressão — o que não ocorre com o Coelhinho da Páscoa, mas é muito freqüente no que diz respeito às crenças religiosas.
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E eis o que muito provavelmente ocorreu na aurora da humanidade: com o desenvolvimento da linguagem, os pensamentos de um puderam ser transmitidos a outros, quaisquer pensamentos, bons ou ruins. O deslumbre humano, em face do mundo natural ainda tão incompreensível, sua condição semelhante à dos prisioneiros no “mito da caverna” de Platão, levou o homem primitivo a fazer uma leitura animista da natureza: sua intuição levou-o a atribuir aos elementos celestes avistáveis (o Sol, a Lua, as estrelas), aos elementos da natureza (como os rios, o mar, as montanhas, as florestas, e as rochas), aos seres vivos (animais e vegetais) e aos fenômenos naturais (a chuva, o vento, o dia e a noite) um conceito abstrato, um tipo de princípio vital e pessoal, uma invisível ânima. Com a ingênua credulidade infantil, os seres humanos se viram presas fáceis dessas informações, e as crenças animistas propagaram-se como um vírus em meio aos humanos primitivos.
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Com o avanço das técnicas de agricultura e pecuária, dentre outras, as sociedades foram surgindo e desenvolvendo-se. Os chefes tribais viraram reis. E, tal como as crianças aceitavam passivamente a autoridade dos adultos, o povo aceitava a autoridade de seu líder — e suas crenças pessoais, que passavam a ser impostas a todos. (Outra vez, não é surpresa que os antropólogos não conheçam
nenhum povo antigo que não professasse a mesma fé de seus reis ou líderes.) As crenças animistas tomariam em breve o caminho do politeísmo, criando deuses cujo simbolismo representava as mais diversas manifestações da natureza e da vida. E assim surgiram deuses da chuva, do sol, da noite, da agricultura, do amor, da guerra, etc. Até que, por fim, a variação nas crenças pessoais, subseqüentemente transmitidas e facilmente tornadas epidêmicas, fariam com que, há 3750 anos, durante a Idade do Bronze, surgisse na Ásia Central, a primeira visão religiosa de culto prestado a um único deus supremo e criador de tudo (Ahura Mazda), embora ainda houvesse a crença em outras criaturas espirituais menores, todavia não dignas de adoração.
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Entre os dogmas dessa religião fundada por Zaratustra, estão alguns que se espalhariam e infectariam as crenças de outros povos, em especial das religiões monoteístas que mais tarde se desenvolveram no Oriente Médio: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Dentre os princípios zoroastristas que alcançaram essas outras religiões estão:
1) a imortalidade da alma; 2) a vinda de um messias; 3) a futura ressurreição dos mortos, e 4) um juízo final para a humanidade.
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Daí em diante, como bem se sabe, do monoteísmo judaico emergiu o cristianismo, nos primeiros séculos de nossa era, seguido do islamismo maometano, no século VII, três religiões que marcaram profundamente a história humana, influenciando nossa cultura — no caso do Ocidente, marcada sobretudo pela visão judaico-cristã do mundo e da vida, de modo tão acentuado que, sob sua sombra, o substantivo comum
deus acabou adquirindo, ao longo da história recente, os traços da divindade bíblica ao ponto extremo de tornar-se substantivo próprio: pois já não é mais o severo Yahweh dos desertos; hoje ele é simplesmente Deus.
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Enfim, se não há dúvidas quanto à importância da evolução da linguagem em nossa espécie, de como ela favoreceu nossa sobrevivência e desenvolvimento cognitivo e intelectual de forma inquestionável, por outro lado, a arquitetura neural de nossos cérebros, a forma como estão predispostos a assimilar proposições aceitas como verdadeiras (mesmo que não o sejam, de fato) de forma a dar-lhes contornos de concretude, bem como a forma como os processos de aceitação das proposições de adultos como geralmente verdadeiras são mais passivos e acríticos na infância, acabou tudo por fazer de nós seres ingenuamente vulneráveis principalmente às crenças que nos são transmitidas em nossos primeiros anos de vida. Se tais crenças continuarem sendo alimentadas enquanto crescemos, teremos um adulto crendo piamente no que quer que lhe tenham ensinado, sentindo uma sensação de verdade concreta e inquestionável naquilo em que acredita.
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Conclusão
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Bem, neste texto repeti muitas coisas que já havia dito em artigos anteriores. Porém, procurei desta vez me focar exclusivamente no tema das raízes de nossa predisposição à credulidade, em especial às crenças religiosas, acrescentando aos velhos dados e argumentos novas informações.
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Para concluir, gostaria de abordar um último ponto a que Pinker fez alusão em seu discurso na Freedom from Religion Foundation. A certa altura, ele disse:
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Uma maneira de se reformular a questão “Por que a crença religiosa é tão universalmente difundida?” é se perguntar: quem se beneficia? Uma outra maneira de se colocar a questão é que se deve distinguir os possíveis benefícios da religião para os que produzem a crença religiosa — a autoridade estabelecida dos xamãs e sacerdotes etc. — dos benefícios para os que consomem a religião — os paroquianos, a congregação, os fiéis. A resposta pode ser bem diferente para um caso e outro. Deve-se distinguir a questão “Que bem haverá em sacerdotes, xamãs etc. inculcando crenças religiosas nas pessoas?” da questão “Que bem haverá na aceitação da crença religiosa por parte dos crentes?”

(...)


A religião tem efeitos práticos óbvios para aqueles que a produzem. No que diz respeito aos consumidores, há possíveis adaptações emocionais em nosso desejo de saúde, amor e sucesso, possíveis adaptações cognitivas em nossa psicologia intuitiva, e muitos aspectos de nossa experiência que parecem fornecer provas em favor da existência de almas. Junte tudo isso e você desenvolverá uma forte atração para um mundo de almas que realizem nossos mais caros desejos.
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Cumpre esclarecer que o que, quando Pinker fala de experiências em nossas vidas que
parecem fornecer evidências de que almas existam, está remetendo-se a um trecho de seu discurso onde disse:
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Talvez a onipresente crença em espíritos, almas, deuses, anjos etc., consista de nossa psicologia intuitiva em estado de delírio. Se você estiver propenso a atribuir uma entidade invisível chamada “mente” aos corpos de outras pessoas, é um curto passo até começar a imaginar que mentes existam independentemente dos corpos. Afinal de contas, não dá para se erguer a mão e tocar a mente de outra pessoa; você está sempre executando um salto inferencial. É apenas uma questão de dar um passo inferencial a mais dizer que a mente não está invariavelmente abrigada num corpo.

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Pois bem! Tendo deixado claro este ponto, fica a conclusão de mais um longo artigo. Sabemos que evoluiu em nossos cérebros uma arquitetura neuronal tal que nos possibilitou o desenvolvimento da mais surpreendente de nossas faculdades: a linguagem. Sem sombra de dúvidas, uma ferramenta imprescindível para todo o progresso de nossa espécie até nosso estágio presente. Todavia, não tendo sido produto de nenhum design inteligente, mas resultado de evolução cumulativa não inteligentemente dirigida no decorrer de milhares e milhares de anos, esses mesmos arranjos neuronais nos tornaram seres espantosamente propensos à credulidade em conceitos transmitidos a nós, principalmente na infância (quando, não por coincidência, começamos nossa educação religiosa, antes mesmo da educação escolar normal).
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Ao mesmo tempo, esse mesmo cérebro que nossa linhagem evoluiu também traz a propriedade computacional de arquivar indiscriminadamente como dado factual, mesmo aquilo que de fato não o seja — de novo, processo que é ainda mais corriqueiro e eficaz na infância, quando acreditamos em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Bicho-Papão (e quando, não por coincidência, somos ensinados sobre as maravilhas do céu para os menininhos bonzinhos e os horrores e sofrimentos eternos nas chamas do inferno para os que não fazem o que o Papai do Céu quer).
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Portanto, de forma paralela às mudanças causadas pelo desenvolvimento da linguagem em nossa espécie, vemos o surgimento e a manutenção longeva de um subproduto de tal adaptação, alimentado sobretudo por elementos culturais que não por acaso persistem nas mais variadas sociedades. Afinal, ao considerarmos a intrigante pergunta de duas vias de Pinker — o que ganham com a religião os que a produzem, e o que ganham os que a consomem? — as respectivas respostas, mas principalmente a da primeira delas, pode nos revelar um dos motivos mais determinantes da manutenção milenar de práticas e práticas de doutrinação religiosa: os benefícios ganhos pelos que representam a autoridade religiosa.
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É claro que não há vendedores sem consumidores. Mas todos nós sabemos que nem sempre um vendedor de sucesso é o que nos vende o que é melhor para nós. Tal como o sucesso do McDonald’s não se baseia no quão saudável seus produtos são para os consumidores, mas sim nas eficientes campanhas de marketing, podemos dizer que o sucesso da religião não se sustenta tanto em seus benefícios para os consumidores, mas na estratégia utilizada na doutrinação, a fim de garantir, acima de tudo, os interesses dos que doutrinam na fé.
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É óbvio que ao menos dois fatores precisam ser ressaltados:
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1)
Nem todos os líderes religiosos agem com base em interesses deliberados, embora muitos decerto o façam. Com efeito, tal interesse pode subjazer à sua consciência, imperceptivelmente imiscuído nas raízes de sua motivação interior.
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2)
Nem todos os representantes da religião obtêm benefícios materiais ou que favoreçam suas chances reprodutivas, visto que há monges que fazem votos de pobreza e padres com votos de castidade, por exemplo. Porém, tanto num caso como no outro estamos falando de efeitos colaterais da prática religiosa a longo prazo: nenhuma das religiões mais primitivas de nossa história incentivava à castidade e à abdicação de conforto material. O desenvolvimento dessas práticas é muito posterior à experiência humana com a religião e tem muito mais raízes culturais e contextuais, é fruto de melhor elaboração da crença original. Além do mais, os religiosos que perfazem esses grupos ilustrativos, não se o pode discutir, são a minoria dentre os representantes da religião.
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De qualquer forma, a pergunta insiste em ecoar em nossas cabeças: o que os que produzem as crenças religiosas têm a ganhar com a perpetuação da religião? Bem, acho que nenhum de nós, depois de avaliar um pouquinho a questão, terá dificuldades em concluir que o mundo seria bem mais difícil para papas, bispos, pastores, rabinos, califas e aiatolás, caso tivessem que passar a viver de outra coisa, em vez de gozar do conforto material de que carece grande parte dos fiéis que os sustentam, enquanto ganham a vida com essa exploração milenar desse primitivo mecanismo de credulidade que há em nossos cérebros (e de que tratei aqui), que nos faz propensos a aceitar ingenuamente como certezas as “verdadeiras verdades” que nos prega, à sua respectiva maneira, cada uma dessas distintas correntes religiosas de nossos tempos.
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POST SCRIPTUM:
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Recentemente, foi publicado um estudo no periódico Proceedings of the National Academy of Science — PNAS (Kapogiannis, D. et al. “Cognitive and neural foundations of religious belief.” PNAS, 9/Mar./2009) que não faz mais do que corroborar o que afirmei aqui, bem como vem acrescentar a este texto alguns curiosos novos dados. Se a linguagem parece ter sido a ferramenta que possibilitou a troca de idéias entre mentes humanas no ambiente ancestral, a mentalidade e comportamento religiosos desenvolvidos a partir dessa nova capacidade, ao que indica o estudo, passaram a ser processados pela circuitaria básica que subjaz à teoria da mente (capacidade de atribuir estados mentais a outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destas atribuições), o que sustenta ainda mais a hipótese de que a religiosidade ocorreu como um subproduto das adaptações básicas associadas à essa capacidade, notavelmente dependente de nossos módulos lingüístico e de representação mental.
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Além disso, ajuda a entender ainda mais os resultados do experimento dos doutores Han e Northoff, citados neste artigo (HAN, S. & NORTHOFF, G. “Culture-sensitive neural substrates of human cognition: a transcultural neuroimaging approach.” Nature Reviews Neuroscience, vol. 9, pp. 646 – 564, agosto/2008).
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Aliás, que um estudo tenha encontrado uma relação entre os circuitos mentais da ToM (teoria da mente) e a religiosidade chega a ser quase como a descoberta da roda, se paramos para pensar bem a respeito. Afinal, essa já parecia uma inferência bem plausível a partir de alguns dados conhecidos que indicam que há mais manifestações de pensamentos e comportamentos religiosos em esquizofrênicos do que em autistas, bem como de estudos que ajudam a compreender isso, no que demonstram que os circuitos e os processos psicológicos associados à ToM apresentam sérios déficits funcionais em quadros de distúrbios do espectro do autismo, ao passo que distúrbios do espectro da esquizofrenia apresentam um sabido excesso dessas mesmas habilidades mentais — ou seja, uma “overdose” de ToM.
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Como conclui o artigo da PNAS:
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Os achados sustentam a visão de que a religiosidade está incorporada aos processos cognitivos e às redes cerebrais utilizadas na cognição social, em vez de ser algo sui generis. A evolução destas redes foi provavelmente impelida por seus papéis primários na cognição social, na linguagem e no raciocínio lógico. A cognição religiosa, ao que tudo indica, emergiu como uma combinação atípica desses vários processos cognitivos evolutivamente importantes. Diferenças individuais mesuráveis nessas competências essenciais (teoria da mente, imaginação etc.) podem predizer padrões específicos de ativação cerebral em resposta a estímulos religiosos. A estrutura identificada neste estudo reflete a religiosidade (ou falta dela) em membros da moderna sociedade ocidental. Religiões tribais e não-ocidentais podem engajar os processos cognitivos e as redes identificadas aqui ou engajar outras novas redes. (Tradução minha)
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A conclusão dos pesquisadores é de que, independentemente de se poder ou não poder provar que deuses existam, ao menos as crenças religiosas sabemos que existem. E os processos cerebrais que as produzem podem ser experimentalmente estudados, como o estudo demonstra. Bem como vamos, a partir desses novos achados, compreendendo melhor por que algumas pessoas assimilam subjetivamente essas crenças como verdades válidas sobre o mundo, mesmo que nenhuma evidência factual as corrobore. Vamos entendendo cada vez mais os processos que subjazem a assimilação e manutenção dessas crenças.
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sábado, 30 de agosto de 2008

O fim da arte? (O que eles andam cheirando, hein?)

por Júnior Camilo
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Portanto, uma ciência libertária não pode ser completa sem uma profunda revisão do cânone da matemática. Ainda não existe tal ciência emancipatória, e podemos somente especular sobre seu eventual conteúdo. Podemos ver algumas dicas na lógica multidimensional e não-linear da teoria dos sistemas vagos; mas esta abordagem ainda é profundamente marcada por suas origens na crise das relações do capitalismo tardio. A teoria das catástrofes, com sua ênfase dialética na continuidade/descontinuidade e metamorfose/desdobramento, irá indubitavelmente representar um papel importante na matemática futura; mas muito trabalho teórico precisa ainda ser feito antes que esta abordagem possa tornar-se uma ferramenta concreta de utilização política progressista. Finalmente, a teoria do caos — que oferece nosso entendimento mais profundo do onipresente e misterioso fenômeno da não-linearidade — será central para toda a matemática futura. Porém, estas imagens da futura matemática podem ser apenas um traço vago, pois, ao longo destes três novos ramos na árvore da ciência, surgirão novos troncos e ramos — estruturas teóricas inteiramente novas — que nós, com nossos atuais antolhos ideológicos, não podemos nem sequer conceber.

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Foi com estas complexas palavras, cujo sentido pleno parece facilmente nos escapar, que o físico Alan Sokal concluiu um ensaio, publicado em 1996 na renomada revista de estudos pós-modernos, Social Text, cujo título trazia a insondável proposta: “Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica”. O que há de tão importante nesse artigo? Bem, é simples: ele não passava de um trote!
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Sokal escreveu um texto pseudocientífico, cheio de um palavrório rebuscado, mas deliberadamente sem sentido, visando ao seguinte objetivo: saber se um tal periódico publicaria um artigo contendo tanto nonsense desde que 1) o texto soasse bem e com certo tom de autoridade no tema discutido e 2) agradasse aos editores no campo de seus preconceitos ideológicos. E como eu já disse no parágrafo anterior, a verborragia alucinada e disparatada de Sokal foi aprovada pelos editores da publicação pós-modernista, simplesmente porque parecia estar concordando com as idéias defendidas por esses intelectuais.
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O famoso trote de Sokal contra os pós-modernistas, que mostrou o quanto os cultuadores do Modelo Clássico das Ciências Sociais estão fazendo muita coisa, menos o que se poderia chamar de ciência, no rigor da palavra, não serviu apenas para que muitos cientistas sérios, que procuram fazer suas afirmações fundamentando-se sobretudo em evidências, pudessem dar boas risadas da ingenuidade desses crédulos intelectuais pós-modernos. O trote serviu também para abrir nossos olhos para um problema sério, que se estabeleceu ao longo do século passado, e que agora vem sendo devidamente refutado, enquanto enfrenta, mais do que merecidamente, inúmeros motins por parte de leigos e especialistas que, simplesmente, resolveram dar um basta nessa viagem alucinógena.
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A situação me inspira a compartilhar um testemunho pessoal. Numa vívida lembrança, ocorre-me a vez em que fui a uma exposição de artes onde um quadro, de autoria de um artista japonês, apresentava simplesmente um fundo vermelho e a figura de um ratinho cinza minúsculo no centro da imensa tela quase completamente monocolor. E essa era a única obra em que havia algo que a mente de fato pudesse reconhecer em meio à rabisqueira abstrata que os demais quadros exibiam. Lembro-me de ter perguntado: Que porra é essa, afinal? Mas fiz a pergunta apenas a mim mesmo, pois não queria parecer idiota — o ignorante que não entendia o valor da arte desses tempos pós-modernos.
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Enfim, pinturas que mais parecem obras de crianças do maternal, incapazes de segurar direito um pincel; filmes com enredo e imagens impactantes, sem nexo algum, e embebidos em absurdos, em especial na falta de verossimilhança, onde se diz tudo, sem que se trate de nada especificamente; peças em que os atores nada mais fazem do que correr pelados pelo palco, derramando sangue e leite pelo corpo, enquanto repetem alguma frase que lembre um mantra qualquer; romances em que a prosa se converte em fluxos de consciência alucinados estendidos por páginas e páginas, e em que o sentido parece não mais ter qualquer valor literário, recebidos positivamente por obras críticas que se elevam às alturas do Olimpo da logorréia rebuscadamente articulada, numa típica atitude de pura impostura intelectual; músicas com notas ou acordes irritantemente desarmônicos ou dissonantes, em que se viola o compasso, em que a melodia é assassinada deliberadamente. Diante desse disparatado cenário, a pergunta que não quer se calar: o que diabos quer dizer tudo isso?
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A resposta pode se resumir a algumas poucas palavras: equívoco, preconceito, arrogância e, principalmente, ignorância científica quanto à natureza humana.
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Depois de repetidos fracassos de público em exibições, onde, pela enésima vez, algum artista resolve apresentar modelos vivos nus para ilustrar algum conceito parido por sua porra-louquice nonsense, ou outros fiascos do tipo, alguns críticos de arte estão ficando preocupados e já vem escrevendo ensaios e mais ensaios, alertando para o possível iminente problema: a criação artística estaria chegando a seu fim?
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Na verdade, todavia, essa pergunta não faz o menor sentido. E por que não? Simples: porque ela está deixando de lado o verdadeiro problema, e discutindo apenas o seu efeito colateral. A grande questão é: o que afinal nós temos chamado de arte ao longo de quase todo o século 20, até esta primeira década do século 21? E a resposta remete ao movimento artístico que começou nas primeiras décadas do século passado e ficou historicamente conhecido como modernismo — bem como também a seu filhinho mais rebelde ainda: o pós-modernismo. E o que esses movimentos significaram na prática?
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Para responder, passarei a palavra ao renomado cientista cognitivo de Harvard, Steven Pinker, para que ele esclareça melhor o que o modernismo e o pós-modernismo trouxeram como conseqüências para as artes:
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Todos os truques que os artistas haviam usado por milhares de anos para agradar o gosto humano foram postos de lado. Na pintura, a representação realista deu lugar a distorções grotescas de forma e cor, e depois a reticulados, formas, pingos e manchas abstratas — e a uma tela em branco, na pintura de 200 mil dólares mostrada em Art, uma comédia teatral recente. Na literatura, a narração onisciente, as tramas estruturadas, a introdução ordenada de personagens e a compreensão geral da leitura foram substituídas por um fluxo de consciência, eventos apresentados fora da ordem, personagens e seqüências causais desconcertantes, narração subjetiva e desarticulada e prosa difícil. Na poesia, o emprego de rima, métrica, estrutura de versos e clareza freqüentemente foi abandonado. Na música, ritmo e melodia convencionais foram menosprezados em favor de composições atonais, seriais, dissonantes e dodecafônicas. Na arquitetura, a ornamentação, a escala humana, o espaço do jardim e a habilidade artesanal foram jogados pela janela (ou teriam sido, se as janelas pudessem ser abertas), e os prédios tornaram-se “máquinas de viver”, feitas de materiais industriais em forma de caixas. A arquitetura modernista culminou nas torres de aço e vidro das multinacionais e nos áridos projetos habitacionais de arranha-céus americanos, prédios populares na Grã Bretanha do pós-guerra e blocos de apartamentos na União Soviética.
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(...)
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A partir da década de 1970, a missão do modernismo foi ampliada pelo conjunto de estilos e filosofias denominado pós-modernismo. O pós-modernismo foi ainda mais agressivamente relativista, afirmando que existem muitas perspectivas do mundo, nenhuma delas privilegiada. Negou ainda com mais veemência a possibilidade do sentido, do conhecimento, do progresso e dos valores culturais compartilhados. Foi mais marxista e muito mais paranóico, sustentando que as pretensões à verdade e ao progresso eram táticas de dominação política que privilegiavam os interesses de homens brancos heterossexuais. Segundo essa doutrina, mercadorias produzidas em massa e imagens e histórias disseminadas pela mídia destinavam-se a impossibilitar a experiência autêntica. (PINKER, Steven. Tábula Rasa. São Paulo: Companhia das Letras. 2004, pág. 554 – 555.)

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E qual é o problema dessa guinada no fazer artístico, afinal de contas? Bem, como eu já disse, tudo se resume a um simples parzinho de palavras: natureza humana.
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As raízes do prazer nos organismos estão plantadas no ambiente ancestral onde evoluímos. Tudo aquilo que favoreceu a aptidão de nossos ancestrais acabou associado às nossas sensações de prazer, como processadas em nossa circuitaria cerebral. Sensações estas provocadas por mecanismos específicos que se desenvolveram a fim de direcionar nossas preferências. Por isso encontramos prazer em alimentos que comemos, no sexo que fazemos, na presença de nossos filhos ao nosso redor, na excitação diante da possibilidade de aprender a fazer isso ou aquilo. Além disso, no passado, os homens primitivos exploravam o ambiente natural à sua volta e, enquanto o faziam, buscavam em seu campo visual por padrões que auxiliassem no deslocamento através da paisagem avistada, bem como na obtenção de qualquer elemento proveitoso que esta oferecesse. Como Pinker destaca: “Entre esses padrões incluem-se regiões bem delineadas, características improváveis mas informativas como linhas paralelas e perpendiculares e eixos de simetria e alongamento. Todos são usados pelo cérebro para esculpir o campo visual em superfícies, agrupar as superfícies em objetos e organizar os objetos de modo que as pessoas possam reconhecê-los na próxima vez que o virem” (Ibid., pág. 548).
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Agora, eis o barato dos dados científicos recentes sobre toda esta questão: pinturas e decorações de casas que reforçam ou exageram imagens que representam o mundo natural, ativam mecanismos de prazer no cérebro associados ao córtex visual; por uma lógica semelhante, certos padrões de tons e ritmos musicais podem ativar mecanismos auditivos que ajudam essa área do cérebro a organizar o mundo audível. Em outras palavras, não é à toa que quadros com belas paisagens campestres nos trazem uma boa sensação, ou que uma música com uma melodia suave nos deixe sensíveis, enquanto a fúria dos acordes e do ritmo de um punk rock (que nem por isso fogem aos princípios harmônicos da música rumo a construções dissonantes) nos deixe hiperativos, ou ainda que um filme belíssimo e de trama bem estruturada como O Caçador de Pipas (2007) possa nos comover — enquanto um outro de atuações extraordinárias e personagens complexos como Sangue Negro (2007) nos faça olhar criticamente para as pessoas, incrementando nossa teoria da mente —, mesmo em se tratando de filmes de longa duração, ao passo que a maioria das pessoas tem uma reação esquisita, geralmente de recepção negativa, diante dos pouco mais de 30 minutos do curta Imagem (1988), de Chico Botelho, por exemplo, em que um cara chega em casa vindo do trabalho e encontra a família acenando para ele... de dentro do aparelho de tevê (?), ou diante do filme A Ostra e o Vento (1997), de Walter Lima Jr., em que uma menina, que vive sozinha com o pai numa ilha, onde ele cuida do farol local, apaixona-se pelo vento (?) que atinge intermitentemente a ilha e que, mais tarde, vira um dos personagens da história (?). E nem estamos falando aqui de grandes experiências com efeitos especiais. Não é de admirar a recepção em geral negativa que as pessoas têm a filmes como estes dois últimos. Como um atestado de extrema ignorância, eles menosprezam a forma como nossos cérebros funcionam.
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Assim, não é à toa que Pinker, olhando para o início disso tudo precisamente no modernismo das primeiras décadas do século 20, faz uma inevitável pergunta retórica, para a qual ele em seguida oferece a resposta:
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Por que a elite artística encabeçou um movimento que requeria tanto masoquismo? Em parte, ele foi alardeado como reação à presunção e fatuidade da era vitoriana e à ingênua crença burguesa na certeza do conhecimento, da inevitabilidade do progresso e da justiça da ordem social. A arte estranha e perturbadora destinava-se a lembrar às pessoas que o mundo era um lugar estranho e perturbador. E a ciência, supostamente, estava enviando a mesma mensagem. Segundo a versão que vazou para as humanidades, Freud mostrou que o comportamento nasce de impulsos inconscientes e irracionais, Einstein mostrou que tempo e espaço só podem ser definidos em relação a um observador, e Heisenberg mostrou que a posição e o momento de um objeto eram inerentemente incertos porque eram afetados pelo ato da observação. (...)
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Mas o modernismo queria fazer mais do que meramente afligir os acomodados. Sua glorificação da forma pura e seu desdém pela beleza fácil e pelo prazer burguês tinham fundamento lógico explícito em um plano político e espiritual.
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(...)
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[Hoje, por sua vez, os] artistas [pós-modernos] tentam apoderar-se de temas culturais e técnicas de representação usando ícones capitalistas (como anúncios publicitários, desenhos de embalagens e fotos de garotas-propaganda), desfigurando-os, exagerando-os ou apresentando-os em contextos inusitados. (...) Na literatura pós-modernista, os autores comentam o que estão escrevendo enquanto escrevem. Na arquitetura pós-modernista, os materiais e detalhes de diferentes tipos de construções e períodos históricos são misturados de modo incongruente, como um toldo feito de grades de proteção em um shopping center elegante ou colunas coríntias que não sustentam coisa alguma no topo de um cintilante arranha-céu. Os filmes pós-modernistas contêm referências matreiras ao processo de filmagem ou a filmes anteriores. Em todas essas formas, a ironia, as alusões auto-referentes e o fingimento de não levar a obra a sério destinam-se a chamar a atenção para as próprias representações, que (segundo a doutrina) corremos o risco de confundir com a realidade.
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Quando reconhecemos o que o modernismo e o pós-modernismo fizeram com as artes de elite e as humanidades, as razões de seu declínio e queda tornam-se muito óbvias. Esses movimentos baseiam-se em uma falsa teoria da psicologia humana, a tábula rasa. Deixam de aplicar sua mais alardeada habilidade — desnudar o fingimento — a si próprios. E tiram toda a graça da arte! (Ibid., págs. 554 – 556)

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Eis onde reside todo o problema dessas teorias que mais parecem religião nos meios em que se vêem cultuadas: elas pregam uma teoria da percepção que os mais diversos ramos da ciência — Ciência Cognitiva, Neurociência, Psicologia Evolucionista, Neurolingüística, Psicolingüística, etc. — já refutaram há tempos, com pilhas e pilhas de evidências obtidas em suas pesquisas. Eles mantêm-se verdadeiros crentes fundamentalistas em seu dogma de fé, ou seja, a crença de que o quadro de cores e sons brutos que os órgãos dos sentidos apresentam ao cérebro, bem como tudo mais na experiência perceptiva, não passam de construções socioculturais aprendidas.
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Ao me ver diante de posturas assim, não consigo deixar a pergunta irônica: é para rir ou para chorar, hein?
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Para citar um único exemplo, hoje sabemos que só o sistema visual do cérebro abrange cerca de 50 regiões que recebem os pixels brutos (os milhares de menores pontos existentes que formam uma imagem inteira) e, com facilidade, organizam esses micropontos em superfícies, cores, movimentos e em formas tridimensionais de objetos. E acontece que temos tanta capacidade de puxar os plugues deste tipo de sistema e desativá-lo a bel-prazer quanto temos de determinar o quanto de enzimas digestivas nosso estômago deve liberar ou quantos espermatozóides precisamente um homem deve produzir num determinado dia. Ou seja, capacidade nenhuma! “Além disso, o sistema visual não nos droga para termos uma fantasia alucinatória desvinculada do mundo real. Ele evoluiu para nos fornecer informações sobre as coisas conseqüentes que existem fora de nós, como pedras, penhascos, animais e outras pessoas e suas intenções” (Ibid., pág. 556).
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E para quem ainda não entendeu o que está acontecendo no mundo atual: estamos em guerra!
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Sim, há uma guerra nas ciências de hoje, cuja resistência xiita talibânica dos sectários do Modelo Clássico das Ciências Sociais, prontos para explodirem como homens-bomba em nome de sua fé cega e disparatada, acaba alimentando os intelectuais das artes em seus delírios cientificamente ignorantes, em sua risível impostura intelectual, produzindo obras que mais causam desconforto do que qualquer outra reação, livros recheados de palavrório rebuscado e que no fim não diz nada de realmente pertinente, e gente se desvencilhando disso como quem sai da frente de um trem desgovernado, enquanto os intelectuais pós-modernistas têm pitis e chamam a todos de ignorantes, de alienados, de robozinhos programados pela cultura capitalista ocidental, que não entendem a simbologia impressionante de um monólogo recitado de trás para frente em mandarim num teatro brasileiro, enquanto o ator entra e sai de dentro de um barril cheio de vinho e estrume de vaca. Do outro lado da trincheira, os cientistas que estão fazendo ciência de verdade se vêem na desconfortável situação de quem tem de explicar para um adulto sabidamente inteligente que o Bicho-Papão não existe! Que ele não precisa ficar com medo de dormir sozinho em seu quarto, com as luzes apagadas.
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Finalmente, ninguém precisa de me lembrar de que há inúmeros livros, filmes e músicas que seguem padrões convencionais de composição, cujo conteúdo não poderia ser descrito com outra palavra senão fútil. Porém, isso está longe de significar que tudo o que é belo e trata de emoções humanas é sentimentalóide, tudo o que é pop é de qualidade duvidosa, tudo que é estruturado é pouco criativo. Na verdade, um filme de animação hollywoodiano como WALL.E (2008), por exemplo, está entre uma das produções mais encantadoras que vi no cinema recente — e olhe que esta é uma opinião compartilhada por inúmeros críticos de renome, que tiveram de dar o braço a torcer diante da doçura do personagem principal e do enredo tão cativante do início ao fim, ainda que o tema central continue sendo o nosso velho e conhecido amor, bem como a realística problemática do vazio da vida moderna, tão sedentária e de cada vez menor sociabilidade.
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Não admira que os mesmos intelectuais que têm um chilique quando alguém diz que não leu Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, ou não viu o último filme delirante pós-modernista lançado, não se importem que essa mesma pessoa admita ser ignorante em Biologia, Física, Química, etc. É típico do comportamento fundamentalista. A ciência só lhes interessa justamente quando não é ciência, mas sim pseudociência. Só sabem dar valor a coisas ridículas, como as viagens alucinógenas recentes de um bando de autores “científicos” patéticos que têm tentado conciliar a física quântica com idéias espiritualistas, usando até mesmo termos disparatados como “consciência quântica”, algo que só faz os físicos sérios rirem de tanto besteirol infundado.
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Esses culturadores da tábula rasa ignoram uma verdade que os Engenheiros do Hawaii já reconheciam em 1986, em seu primeiro álbum lançado, Longe Demais das Capitais, quando, no refrão da canção “Crônica”, cantavam: “Você, que tem idéias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas”. Pelo visto, seria bom se esse pessoal ouvisse menos músicas pós-modernas e desse um pouquinho de atenção ao rock nacional dos anos 80.
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No fim, o trote pregado por Alan Sokal nesses porras-loucas serviu apenas para mostrar o quão ridículo é toda essa fé cega e fundamentalista, que há muito tempo sacrificou o bom senso no altar de sua credulidade fanática. Um bando de hippies dopados, ignorando a razão e as pesquisas científicas, enquanto buscam “transgredir as fronteiras, rumo a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica”. Ah, faça-me um favor, viu!?
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sábado, 26 de julho de 2008

A grande jornada e a hipótese desnecessária

por Júnior Camilo
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É muito comum, em nossos tempos, ficarmos olhando para a História, analisando as novas descobertas das ciências, e, no caso dos céticos, procurando refutar com elas a existência de qualquer divindade ou inteligência sobrenatural, qualquer causa primeira por trás da origem do universo e da vida, ao passo que os crédulos procuram desesperadamente fazer o contrário, normalmente partindo para a atitude de tentar preencher com esse ente imaginário (Deus, o designer inteligente ou a “causa primeira”) qualquer lacuna que ainda puder ser encontrada nas teorias modernas. Repetindo o que a antropóloga Eugenie Scott disse certa vez, é como se, para estes últimos, as teorias científicas formassem um livro sagrado, semelhante à Bíblia, cuja autoridade se fundamentasse em sua perfeita e infalível inspiração — qualquer probleminha encontrado nessa ou naquela passagem do livro implicaria sua invalidação por completo. Mas as teorias científicas não são escrituras sacras. E uma brecha ou um equívoco em alguma de suas proposições não sacode e põe por terra todo o edifício da ciência que hoje temos.
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Além disso, há um grande problema que vem sendo ignorado, como se não tivesse a menor relevância: em todos esses casos, estamos sempre olhando para trás. E o que quero dizer com isso? Ora, é simples: como numa referência à teoria da relatividade einsteiniana, a situação aqui é que a posição do observador também conta... e muito! E um fato inegável com relação a isso tudo é que, desde que o homem primitivo perambulava por este planeta, os mitos, os rituais místicos e religiosos, o comportamento supersticioso, enfim, toda a miríade de conceitos e atitudes estabelecendo uma relação com o incognoscível, o ininteligível no mundo ao seu redor, acompanhou seu desenvolvimento, penetrou em sua cultura como um vírus infeccioso, propagou-se e sofreu mutações ao longo do tempo.
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Hoje, os deuses egípcios, gregos ou romanos, por exemplo, não são mais cultuados por aqueles que visitam as ruínas de seus templos; porém, compreendemos o que eles significaram em seu tempo. Da mesma forma, se nos deparamos com uma tribo indígena que vive isolada na selva e somos convidados a assistir a seus rituais de adoração à deusa Lua, não acreditamos que tal divindade exista, mas entendemos muito bem o que esses índios estão fazendo. Podemos não acreditar em horóscopos — aliás, juramos pela vida do pastor Malafaia, e que ele caia mortinho se estivermos mentido, que não estamos nem aí para o que diz hoje a sorte para nosso signo —, mas vez e outra estamos dando uma olhadinha na previsão para o dia, como quem não quer nada.
“Eu não acredito nisso, não! Só estou olhando essa besteira porque não tenho nada mais para fazer”, apressamo-nos em explicar à pessoa que acabou de nos flagrar diante do computador, com o site do guia astral escancarado na tela. Podemos afirmar, orgulhosos, que não acreditamos em qualquer coisa sem fundamento, mas ficamos impressionados com filmes e livros estapafúrdios que tentam, ridiculamente, conciliar elementos teóricos da mecânica quântica com filosofias esotéricas risíveis. E também podemos ser céticos e materialistas de carteirinha, e, ainda assim, derramar lágrimas e lágrimas vendo a linda história de amor de uma alma penada em Ghost: Do Outro Lado da Vida — tudo bem, o exemplo foi podre, mas acho que deu para entenderem o que estou querendo dizer, não é mesmo?
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Não dá mais para se fazer uma opção exclusiva pelo conhecimento científico e escolher deletar de nossas mentes as informações relativas a todos os frutos da credulidade no passado, em tempos em que praticamente não se conhecia nada das leis que governam o mundo natural, em que o amanhecer do dia era o nascimento no céu de um deus de luz e calor, ou em que uma tempestade de raios e trovões era uma demonstração de poder sobrenatural e
apavorante. Não dá mais para ver a ciência de nossos dias sem usar as velhas lentes embaçadas por uma cultura que tem traços modernos e milenares, como uma velha que fez uma plástica, e onde os módulos inatos para a aprendizagem em nossos cérebro encontram as mais variadas informações que assimilam e que influenciam no acúmulo de conhecimento de cada indivíduo. Assim, em face disso tudo, podemos compreender Stephen Hawking, que nem religioso é, quando, analisando as leis conhecidas que regem o universo, comenta que a ciência ainda acabaria entendendo “a mente de Deus”, embora eu considere tais palavras um tanto infelizes, devido à apropriação indébita que delas fizeram os crentes em seus sites e livros criacionistas.
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A questão é que, sempre que olhamos para o passado em busca de nossa origem biológica ou física, nossa visão em retrospecto leva consigo tanto o conhecimento científico que hoje temos quanto as influências culturais que povoam nossa mente, mesmo quando já as relegamos ao posto de pura crendice sem fundamento sólido. Os deuses, os espíritos, a consciência transcendente, a alma, a impressão de um oximoro não rejeitado pela razão — uma “realidade imaterial” — existente lá fora, vão todos juntos nessa viagem no tempo. E, algumas vezes, ao se depararem com um entendimento cada vez maior das leis do mundo natural, ao se maravilharem com a incrível precisão com que parecem ajustadas para permitir a vida e a existência de tudo o que há em nosso universo, alguns físicos e biólogos esquecem-se justamente do significado do verbo parecer e concluem, sob a influência das idéias impregnadas em suas cabeças pela cultura circundante: há um designer inteligente por trás disso!
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No entanto, neste texto, gostaria de propor uma viagem diferente. Quero fazer uma jornada hipotética no sentido inverso: quero vir de lá, das origens, para cá. E é óbvio que o que proponho não passa de uma fantasia. Será uma viagem por rotas bem traçadas, tomando o caminho de algumas das hipóteses e teorias científicas mais recentes (algumas das hipóteses já muito sólidas, outras ainda carecendo de muito tempo, estudo e discussão antes que sejam confirmadas ainda mais ou refutadas de vez), seguindo o mapa do mundo conhecido até o momento. É claro que isso quer dizer que muito do trajeto dessa viagem hipotética pode ser definitivamente confirmado amanhã ou refutado para sempre.
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Isso na verdade não importa muito. Pois o objetivo deste experimento imaginário tem mais relação com a Psicologia do que com a Física ou a Biologia: visa a tentar mostrar o quanto o olhar em retrospecto tem o lado muito negativo da posição em que se encontra o observador, e como isso influencia em sua percepção das origens.
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E por falar em origens, como foi que tudo começou?
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A resposta sincera da ciência: não se sabe ao certo. A resposta dos crentes: “Nós sabemos: foi Deus quem criou tudo!” E, de alguma maneira, muita gente acha que a resposta ainda incerta da ciência significa, sem outra alternativa, que a resposta dos crentes está correta. Curiosamente, dos cientistas é sempre exigido o ônus da prova — o que é algo razoável; eles são os primeiros a defender que seja sempre assim —, mas os crentes não são apenas isentos de fazerem vestibular juntos com os outros candidatos num dia em que sua religião não o permita ou de prestarem o serviço militar obrigatório quando seu deus não concorda com a idéia: eles tampouco precisam provar as coisas que afirmam, fundamentando-se apenas naquilo em que crêem.
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É impressionante ver como a idéia do criador, do supremo designer inteligente, parece ser algo como uma verdade evidente
per se, algo tão gritantemente óbvio que sua contestação requer provas indiscutíveis em seus mínimos detalhes. Como se propor que o universo e a vida possam ter uma origem que não dependa de nenhuma inteligência cósmica, que dirá sobrenatural, fosse a coisa mais descabida que a mente humana pudesse conceber. E mais: como se a típica resposta irracional “Foi Deus quem fez isso e ponto!” fosse a maior demonstração de sensatez de uma pessoa.
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Bem... Deixemos de lado esse cenário absurdo e vamos nos teletransportar para nosso ponto de partida nessa hipotética viagem no tempo que proponho aqui. Como falamos em universo, adianto que o Big Bang é parada certa, neste trajeto inicial. Porém, ao contrário do que se poderia pensar, a viagem começará um pouco antes dele. E, para quem já deu um pulo na cadeira, perguntando-se assustado “Como é que é?”, deixe-me explicar bem claramente a questão.
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Nossa viagem não começa num universo qualquer. Ou melhor, ela começa exatamente num universo qualquer. Um universo qualquer da paisagem cósmica de possibilidades da teoria do multiverso, defendida por nomes como Martin Rees, Andrei Linde, o prêmio Nobel de física, Steven Weinberg, e Leonard Susskind. Segundo o modelo proposto por esses cientistas, neste texto focando-nos principalmente na visão de Susskind, haveria um multiverso (ou “megaverso”, como Susskind o chama), formado por inúmeros universos-bolha, como os retalhos numa imensa colcha, cada um criando-se a seu tempo. O multiverso seria o conjunto real de incontáveis universos extraídos da “paisagem” — a praticamente infinita lista de possibilidades de soluções para as equações da teoria-M, defendida por físicos como Susskind, um dos pioneiros da teoria das cordas. E, para entendermos melhor a questão, precisaremos falar um pouco desta complexa teoria da física de nossos dias.
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Podemos vislumbrar à distância a complicada teoria das supercordas graças aos suados esforços de muitos físicos teóricos de buscarem sempre traduzir para o público leigo aqueles verdadeiros quadros abstratos de aparentemente ininteligíveis equações com que se vêem envolvidos diariamente. Essa teoria em particular sustenta que os blocos de construção fundamentais da natureza não são partículas elementares parecidas com pontos, como já se aventou, mas sim minúsculas cordas 1D (ou seja, de uma dimensão) existentes num universo com um tempo e nove dimensões espaciais. Numa analogia com as cordas de um violino, estas cordas unidimensionais relativísticas podem vibrar, e, segundo a teoria, cada modo de vibração delas representa uma partícula elementar diferente. Além disso, um fator de grande relevância aqui é que estas partículas formadas pelas vibrações das supercordas incluem os grávitons, os hipotéticos portadores da força gravitacional.
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Bem, uma das características desta teoria que ninguém nega atualmente é que, sem dúvida, as supercordas resolvem um antigo probleminha da física quântica: tornam possível calcular a probabilidade de transições de um estado quântico para outro que envolva grávitons sem acarretar as inúmeras anomalias das tentativas anteriores, que se baseavam na aplicação da teoria do campo quântico comum à relatividade geral de Einstein.
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E para quem ainda está incomodado com a menção de nove dimensões no universo habitado pelas supercordas, é importante destacar que suas equações permitem soluções para as quais seis dessas nove dimensões são ajuntadas de forma a apresentarem um tamanho tão pequeno que não pode ser observado. Ou seja, a teoria não é incompatível com nossa experiência de um mundo onde só percebemos três dimensões espaciais.
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O grande problema aqui é que, infelizmente, existem cinco teorias das supercordas matematicamente consistentes e competindo entre si. Foi para resolver esse impasse que se criou a teoria-M, uma única teoria que engloba todas as cinco, exigindo, porém, 11 dimensões espaço-temporais, além de incorporar objetos estendidos de dimensões mais altas chamados de branas. Parece uma loucura total para os leigos em Física (como eu), mas o fato é que a teoria tem rendido frutos concretos, dentre os quais está a primeira explicação microscópica para a entropia de um buraco negro, que Stephen Hawking havia previsto na década de 1970, valendo-se, na época, apenas de argumentos macroscópicos. Além disso, as pesquisas atuais na Física só têm feito favorecer essa teoria ainda mais.
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No entanto, os humanos normais, que não conseguem acompanhar facilmente o raciocínio dos físicos, começam a seguir meu exemplo e a arrancar os cabelos da cabeça, quando se vêem diante da descoberta de que as equações da teoria-M podem ser solucionadas de bilhões e bilhões de formas distintas. E é esse espaço praticamente infinito de possibilidades, essa lista imensurável de soluções das equações, que constitui aquilo que Susskind chama de paisagem cósmica, uma representação esquemática de todos os ambientes que a teoria-M permite que se formem.
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Bilhões e bilhões... Uau! É de desanimar. Não é? Curiosamente, não, não é! Na verdade, a coisa começa a ficar interessante quando descobrimos que isso quer dizer que cada ambiente possível tem suas próprias leis físicas, suas próprias partículas elementares e suas próprias constantes da natureza. Até mesmo o número de dimensões espaço-temporais poderia ser diferente. E digo que a coisa começa a ficar interessante porque sabemos que o nosso universo parece ter todas as suas leis ajustadas com precisão para que a vida pudesse se desenvolver nele. Parece até que o universo sabia que estávamos chegando. Essa intrigante constatação dos físicos e cosmólogos leva alguns a suspeitarem de que o universo tenha um design inteligente — o que, mesmo que tacitamente, não deixa de implicar algum tipo de projetista. Mas, como Susskind, Linde, Rees e outros afirmam, esse design inteligente é apenas aparente, ele é uma ilusão. E é aí que entra o multiverso para esclarecer o porquê dessa afirmação.
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Uma versão do modelo de “inflação cósmica”, defendida por Andrei Linde e outros, sustenta que o Big Bang não foi um evento único. Haveria, na verdade, toda uma série de universos-bolhas sendo continuamente criados em big bangs semelhantes. Isso, combinado à teoria-M, resulta em que todo tipo de universo permitido pela paisagem virá a existir em algum momento. E essa hipótese acaba oferecendo interessantes respostas para algumas das grandes questões que nos perseguem: 1) o que criou o Big Bang?; 2) como explicar o fato de que as leis da natureza parecem estar tão precisamente ajustadas para permitir a vida no cosmo?
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O Big Bang passa a ser compreendido como um dentre incontáveis eventos similares que produzem universos distintos dentro do multiverso. E, como cada um desses universos têm suas próprias leis físicas, o nosso parece ajustado para o desenvolvimento da vida justamente porque é aquele cujas leis acabaram sendo as de constantes cujos valores ofereceram as condições essenciais para que tal desenvolvimento acontecesse. Outros universos, representando outras soluções possíveis da teoria-M, pareceriam ajustados para que outros tipos de propriedades se desenvolvessem, talvez até objetos com mais de três dimensões, vá saber! Em outras palavras, o nosso universo, visto como uma fração dos universos formados que integram o multiverso, já não apresenta mais nada de tão extraordinário assim. Ele é um grão de areia no Saara: único em suas características particulares, mas nada destacável em meio a todos os demais grãos de areia da paisagem.
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Eis o nosso universo, de acordo com essa teoria. E tomaremos, em nossa viagem hipotética, precisamente este modelo para fixarmos nosso ponto de partida.
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Assim, na paisagem de todas a possibilidades de soluções para as equações da teoria-M, haverá um momento em que um dos incontáveis
big bangs do multiverso resultará no nosso universo. As leis físicas deste novo universo favorecerão a formação de suas partículas elementares, a formação de hidrogênio, hélio e lítio, das estrelas e galáxias, e dos átomos dos demais elementos conhecidos, formados dentro dessas estrelas. Enfim, a formação dos planetas, dentre os quais, cerca de 9 bilhões de anos depois do Big Bang, surgirá um, na órbita de uma estrela de volume 1 milhão e 400 mil vezes maior do que ele, onde se reunirão condições físicas que tornarão possível um acontecimento inédito em outros pontos da fração do universo que os humanos conhecem até o presente: o surgimento da vida.
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E como a vida surgiu na Terra?

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Já faz tempo que não é nenhuma novidade o fato de que não existe diferença entre a matéria que constitui os seres vivos e a matéria inanimada da natureza. Em termos fundamentais, não há nada de excepcional, como um princípio vital, um sopro divino ou qualquer coisa transcendente à matéria que dê vida aos organismos terrenos. Tanto nos seres vivos quanto na natureza inanimada podem-se encontrar os elementos químicos predominantes nos primeiros, tais como o carbono, o hidrogênio, o oxigênio e o nitrogênio. Portanto, o que chamamos de vida depende essencialmente da forma como os compostos formados por tais elementos encontram-se organizados.
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Em nossa viagem mental, estamos agora na Terra, em algum ponto entre os éons Hadeano e Arqueano da escala geológica, após a condensação do vapor de água (ainda nas primeiras centenas de milhares de anos do planeta) e antes da origem biogênica de minerais e sedimentos e da existência de fotossíntese (que ocorrerão antes de ele completar dois bilhões de anos). Nesse estágio, na atmosfera tão diferente da Terra primitiva, processos químicos e desenvolvimento em etapas cumulativas começarão a fazer com que a organização elementar dos seres vivos ocorra.
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Primeiramente, os vapores de água, nas camadas mais elevadas da atmosfera, formam nuvens densas que, ao resfriarem-se, condensam-se e precipitam-se como chuva. Com a superfície terrestre intensamente quente, o ciclo da água — evaporação, condensação e chuva — ocorre de forma rápida e contínua, num processo que levará algum tempo para enfim causar acúmulo de água líquida no solo, vindo a formar os lagos, rios e oceanos. E será nos oceanos primitivos que reações naturais isoladas em compostos orgânicos farão a história da vida ir lentamente se escrevendo.
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Em algum momento, esses processos farão com que, bem possivelmente, polímeros possuindo atividade enzimática e capacidade de acúmulo de informação, como o PNA (ácido nucléico peptídico), sirvam de fita-molde para que seja sintetizada a primeira molécula de RNA (ácido ribonucléico), quimicamente bem mais complexa do que o PNA. E esses filamentos únicos de nucleotídeos serão as primeiras formas de vida na Terra primitiva, executando algumas das complicadas funções celulares que hoje são realizadas pelas proteínas. (Isso foi comprovado por pesquisas recentes de uma equipe da Universidade de Yale, liderada pelo professor de Biologia Molecular, Celular e Desenvolvimental, Ronald Breaker. Uma descoberta, aliás, que pôs fim a uma grande dúvida que persistia: se são necessárias proteínas para realizar as funções da vida e precisa-se de DNA para fazer proteínas, como poderia o DNA ter surgido? A descoberta revela que as proteínas nem sempre foram necessárias para estimular várias mudanças celulares fundamentais. O que reforça a hipótese do “mundo de RNA”, de Walter Gilbert, como precursor das primeiras moléculas de DNA.)
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Nesse estágio do desenvolvimento no planeta, a auto-replicação das moléculas não será muito eficiente; muitas cópias apresentarão “erros” e estas mutações produzirão características que poderão se revelar positivas (raramente) e negativas (na maioria dos casos). De forma aleatória e ao mesmo tempo seletiva, as cópias malsucedidas em se propagar pela reprodução entrarão em extinção, o que favorecerá as variedades tornadas mais eficientes por suas características ímpares. Eis o que muito mais tarde Darwin chamará de seleção natural.
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Ao longo de sucessivas gerações, as primeiras moléculas orgânicas adquirirão mais e mais funções especializadas, e começarão a se agrupar gradativamente e de modo casual. Em algum momento, esses auto-replicadores ancestrais darão origem à molécula principal da vida, o DNA (ácido desoxirribonucléico). É no DNA que se encontrará a receita genética que fornecerá as instruções que permitirão o desenvolvimento e funcionamento dos organismos viventes, bem como de alguns vírus. Com a formação do DNA, passará a ser possível a armazenagem de informações necessárias para a produção das proteínas e de RNAs. E, em sua estrutura, os importantes segmentos que carregarão a informação genética serão o que hoje chamamos de genes.
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Será a partir desse ponto que evolução da vida tomará seu curso de forma mais acelerada, passando por vários estágios na evolução dos seres vivos, das primeiras células procariontes ao surgimento das células eucariontes, até o desenvolvimento nos oceanos dos primeiros organismos multicelulares e animais por definição, durante o período Ediacarano, mais de quatro bilhões de anos após o surgimento da Terra, resultando na evolução de esponjas, cianobactérias,
mycetozoa e mixobactérias.
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20 milhões de anos depois, durante o período Cambriano, ocorrerá por um espaço de tempo de 10 milhões de anos o que ficará conhecido por explosão cambriana, um período de incrível diversificação biológica que testemunhará a evolução da vários dos filos de animais modernos, assim como linhagens únicas que acabarão por se extinguir.
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Daí, a partir dos quatro bilhões de anos terrestres, o planeta verá a vida avançar sobre a terra, no que plantas e fungos, e em seguida artrópodes e outros animais alcançarão o solo seco. 200 milhões de anos depois, aparecerão os anfíbios, com os amniotas primitivos seguindo seu rastro na escala cronológica. Mais 100 milhões de anos, e surgirão os mamíferos, seguindo-os, outros 100 milhões de anos depois, as aves, ambos oriundos de linhagens parecidas com répteis.
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Entre 25 e 45 milhões de anos depois do desenvolvimento das aves, surgirão os primeiros primatas. E, enfim, dessa ordem de mamíferos, surgirão um dia os hominídeos, dentre eles os gorilas, os chimpanzés e os humanos. E ao alcançarmos finalmente o Homo sapiens, cerca de 4.499.850.000 anos após a formação da Terra, nessa história iniciada em torno de 14 bilhões de anos antes, com a origem do nosso universo, chegamos a um momento crucial, de óbvia importância para nós, bem como muito relevante para a argumentação deste texto.
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Então surgiu o homem. E...?
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Bem, através do longo percurso da evolução da vida que acompanhamos, pôde-se perceber uma gradativa cadeia de eventos que, desenhando uma complexa árvore genealógica repleta de galhos levando à evolução de diferentes espécies, une cada uma delas em uma ancestralidade comum. Não é menos do que uma clara evidência disso, portanto, o fato de que, mesmo entre um homem e uma ervilha, haja até hoje um gene praticamente idêntico: a histona H4, com 306 caracteres em seu DNA.
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Todavia, o surgimento do homem trará consigo uma novidade que afetará para sempre não apenas as vidas dos próprios humanos, mas também o próprio planeta que tornou possível seu desenvolvimento: estes animais serão capazes de transmitir uns aos outros seus pensamentos, traduzindo-os em um código vocalizado se tornará mutuamente compreendido, o que permitirá a troca de informações, incluindo a transmissão de tecnologias primitivas. Esse animal desenvolverá essa capacidade única, tão única quanto útil para os seus como a tromba de um elefante o é para a sua própria espécie. O homem será o primeiro (e até o momento único) mamífero a desenvolver a linguagem.
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De fato, dando uma boa olhada nos cérebros dos macacos, esses nossos parentes próximos na árvore evolutiva, algumas coisas chamam logo a atenção:
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Algumas áreas cerebrais correspondem visivelmente a certas áreas humanas, no que diz respeito à localização, ao cabeamento de entrada e saída, e à composição celular. Para citar um exemplo, de forma muito semelhante ao que existe nos humanos, há nos cérebros dos macacos homólogos das áreas de Wernicke e de Broca, bem como um feixe de fibras conectando ambas. Nos macacos, como destaca Steven Pinker em O Instinto da Linguagem, as regiões que correspondem à área de Wernicke e suas vizinhanças ativam-se no reconhecimento de seqüências de som e na discriminação entre seus próprios chamados e os de outros macacos. Por sua vez, os homólogos de área de Broca tomam parte no controle dos músculos da face, da boca, da língua e da laringe, enquanto várias sub-regiões desses homólogos recebem estímulos de partes do cérebro que são reservadas para a audição, o sentido do tato na boca, na língua e na laringe, bem como de áreas para as quais convergem correntes de informações oriundas de todos os sentidos.
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Isso nos diz algo um tanto interessante sobre nosso ancestral comum com os macacos. Ao que parece, esse arranjo encontrado nos cérebros de nossos primos (e, como é bem possível, também em seu ancestral comum com os humanos) parece representar a base sobre a qual a evolução pôde atuar. Como apontam os fortes indícios de várias pesquisas na área, explorando provavelmente a confluência que ali ocorre de sinais vocais, auditivos e outros, ela pôde fazer com que se produzissem em nós os circuitos da linguagem humana, que hoje em dia estão associados exatamente a essas áreas do cérebro humano, onde são bem mais desenvolvidas do que nos macacos.
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Nos primórdios da humanidade, podemos testemunhar o nascimento da linguagem humana, após as mutações genéticas aleatórias terem eventualmente produzido alguns de nossos ancestrais capazes de compreender esses enunciados vocalizados, assimilando seu significado. A criança capaz de compreender os alertas dos adultos não se arriscava, como as outras que não tinham tal capacidade. No inóspito ambiente ancestral onde nossos cérebros se desenvolveram, crianças sem linguagem afastavam-se dos adultos de sua tribo e caíam em precipícios, eram atacadas por algum animal, comiam alguma planta venenosa, em suma, punham a vida em risco em virtude da simples carência de linguagem.
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É claro que isso por si só não significaria muita coisa, afinal, os macacos também não têm linguagem e estão aí até hoje. Mas a palavra-chave aqui é seleção natural. Os macacos ainda estão aí, como os demais animais, todos sem linguagem, porque não houve nessas espécies os múltiplos passos da seleção natural atuando sobre a variabilidade genética, que conduziu ao desenvolvimento do instinto da linguagem, como aconteceu na linhagem que levou ao Homo sapiens, após a separação do galho com seu ancestral comum com os chimpanzés modernos.
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Todos os benefícios proporcionados pela linguagem no ambiente ancestral (segurança ao saber obedecer alertas, capacidade de troca de experiências e informações, ensino e aprendizagem de técnicas recém-desenvolvidas, etc.) fizeram a lâmina ser implacável com os sem-linguagem, inviabilizando seu sucesso reprodutivo, levando-os à extinção. A propósito, por mais irônico que pareça, a fofoca não é um universal que ultrapassa barreiras culturais por questão de mera coincidência. No ambiente ancestral, os mexericos tinham algumas consideráveis utilidades, como, por exemplo, serviam para alertar um macho sobre uma fêmea não-confiável que poderia estar fazendo-o criar filhos de outro macho — lembrem-se de que, na pré-história humana, se uma mulher sempre podia ter certeza de que um filho era dela, a coisa já não era tão óbvia assim para o homem. Nesse cenário, a fofoca poderia beneficiar o “corno” alertado, impedindo-lhe de gastar tempo criando filhos de outro homem e de fracassar na propagação de seus próprios genes, bem como traria benefícios ao fofoqueiro, a quem o avisado ficaria devendo uma. Ou seja, a fofoca já serviu de instrumento para forjar alianças.
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E isso é apenas um exemplo trivial do quanto o desenvolvimento da linguagem foi vital para a evolução humana. Toda a cultura e tecnologia que produzimos ao longo dos milênios têm início neste momento da história e, sem linguagem, nada disso seria possível. Todavia, a evolução desse instinto tão precioso aos humanos trouxe consigo um subproduto, um efeito colateral dessa adaptação, que acarretou mais prejuízos do que vantagens. Mas como o subproduto negativo está diretamente associado ao produto positivo da evolução, somos obrigados a conviver com ele. E do que estou falando, afinal de contas?
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Bem, pudemos seguir de perto a evolução da vida desde o início até aqui, no surgimento do Homo sapiens na Terra. Uma coisa que talvez as pessoas devessem se perguntar é: com tantas espécies animais existindo no mundo, incluindo os chimpanzés e gorilas, nossos parentes mais próximos, por que apenas o homem busca relações com o sobrenatural? Por que ninguém jamais viu um chimpanzé adorando uma pedra ou um cacho de bananas sagrado?
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Responderemos essa pergunta de forma direta mais adiante. Por ora, vamos antes avaliar as implicações de alguns dados de uma pesquisa recente.
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Num estudo metódico e intrigante que já citei em artigos anteriores, publicado no Annals of Neurology [Anais de Neurologia], da Associação Neurológica Americana, de dezembro de 2007, em que foram produzidas e analisadas imagens do cérebro humano por meio de Ressonância Magnética funcional (fMRI, na sigla inglesa), constatou-se que, num trabalho associado com o processamento de informações lingüísticas, regiões do córtex pré-frontal medial, da ínsula anterior, do lobo parietal superior e do núcleo caudado agem como mediadores, nos processos de aceitação ou rejeição de alguma proposição como verdadeira ou falsa. O que torna tal constatação interessante aqui é o fato de que, com o desenvolvimento da linguagem, a assimilação de um dado transmitido a alguém (por meio da língua falada) e a aceitação do novo dado como sendo verdade por parte do receptor da mensagem, acaba sendo um processo curiosamente governado, em parte, pelas mesmas áreas do cérebro que estão sabidamente relacionadas com nossa memória e aprendizado, e que são as mesmas que utilizamos para julgar, por exemplo, se um determinado sabor ou aroma nos é agradável ou não. Áreas que usamos para avaliar itens concretos são ativadas para processo de armazenamento de dados (dados muitas vezes abstratos ou mesmo fantasiosos), desde que o aceitemos como verdade.
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Isso parece convergir com outros dados provenientes de outros estudos. A esta altura, por exemplo, já não surpreende tanto percebermos que, enquanto muitas das capacidades de inteligência de uma criança só se desenvolverão por volta da idade escolar, a linguagem, por outro lado, manifesta-se muito cedo, curiosamente quase na mesma época em que a criança começa a andar.
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Juntando os dados: no ambiente ancestral, a linguagem não apenas emergiu como um ajuste adaptativo evolutivo que beneficiou a espécie humana, mas passou a desenvolver-se num estágio notavelmente precoce, acompanhando os passos da criança, o que corrobora a idéia de que a linguagem servia para salvaguardar as crianças aventureiras, impedindo-as de se arriscar. O mecanismo de aceitação acrítica das palavras dos adultos como valor de verdade, fazendo com que aquilo que diziam e que a criança assimilava como factual, adquirisse contornos bem mais sólidos na percepção infantil, trouxe o benefício direto mais óbvio: num exemplo meramente ilustrativo, impediu que muitos moleques travessos se metessem em cavernas escuras, onde poderia haver animais nocivos ou outros perigos, por medo do monstro de fogo ou do demônio das sombras que os adultos diziam que vivia lá dentro. É uma tática que muitos pais utilizam ainda hoje com os filhos.
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Porém, o subproduto negativo desse mecanismo, que envolve linguagem e cognição, é que as mentes infantis são ingenuamente predispostas à credulidade. As crianças acreditam facilmente em Papai Noel, Coelho da Páscoa, super-heróis com poderes extraordinários, etc., e, ainda que a mente vá se tornando mais crítica e avaliativa à medida que crescem, muitas de suas crenças podem ficar profundamente enraizadas, principalmente se houver pressão externa (cultural) contra sua supressão — o que não ocorre com o Coelhinho da Páscoa, mas é muito freqüente no que diz respeito às crenças religiosas.
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E eis o que muito provavelmente ocorreu na aurora da humanidade: com o desenvolvimento da linguagem, os pensamentos de um puderam ser transmitidos a outros, quaisquer pensamentos, bons ou ruins. O deslumbre humano, em face do mundo natural ainda tão incompreensível, levou o homem primitivo a fazer uma leitura animista da natureza: sua intuição levou-o a atribuir aos elementos celestes avistáveis (o Sol, a Lua, as estrelas), aos elementos da natureza (como os rios, o mar, as montanhas, as florestas, e as rochas), aos seres vivos (animais e vegetais) e aos fenômenos naturais (a chuva, o vento, o dia e a noite) um tipo de princípio vital e pessoal, uma invisível ânima. Com a ingênua credulidade infantil, os seres humanos se viram presas fáceis dessas informações, e as crenças animistas propagaram-se como um vírus em meio aos humanos primitivos.
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Com o avanço das técnicas de agricultura e pecuária, dentre outras, as sociedades foram surgindo e desenvolvendo-se. Os chefes tribais viraram reis. E, tal como as crianças aceitavam passivamente a autoridade dos adultos, o povo aceitava a autoridade de seu líder — e suas crenças pessoais, que passavam a ser impostas a todos. (Outra vez, não é surpresa que os antropólogos não conheçam
nenhum povo antigo que não professasse a mesma fé de seus reis ou líderes.) As crenças animistas tomariam em breve o caminho do politeísmo, criando deuses cujo simbolismo representava as mais diversas manifestações da natureza e da vida. E assim surgiram deuses da chuva, do sol, da noite, da agricultura, do amor, da guerra, etc. Até que, por fim, a variação nas crenças pessoais, subseqüentemente transmitidas e facilmente tornadas epidêmicas, fariam com que, no início dos últimos 3750 anos, durante a Idade do Bronze, surgisse na Ásia Central, a primeira visão religiosa de culto prestado a um único deus supremo e criador de tudo (Ahura Mazda), embora ainda houvesse a crença em outras criaturas espirituais menores, todavia não dignas de adoração.
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Entre os dogmas dessa religião fundada por Zaratustra, estão alguns que se espalhariam e infectariam as crenças de outros povos, em especial das vindouras religiões monoteístas que se desenvolveriam no Oriente Médio: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Dentre os princípios zoroastristas que alcançaram essas outras religiões estão:
1) a imortalidade da alma; 2) a vinda de um messias; 3) a futura ressurreição dos mortos, e 4) um juízo final para a humanidade.
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Daí em diante, como bem se sabe, do monoteísmo judaico emergirá o cristianismo, nos primeiros séculos de nossa era, seguido do islamismo maometano, no século 7, três religiões que marcarão profundamente a história humana, influenciando nossa cultura — no caso do Ocidente, marcada sobretudo pela visão judaico-cristã do mundo e da vida, de modo tão acentuado que, sob sua sombra, o substantivo comum
deus acabou adquirindo, ao longo da história recente, os traços da divindade bíblica ao ponto extremo de tornar-se substantivo próprio: pois já não é mais o severo Yahweh dos desertos; hoje ele é simplesmente Deus.
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E aonde nos trouxe esta viagem?
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Ironicamente, o Evangelho de João diz que no início era o Verbo, era a Palavra, e que a Palavra era Deus.
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Nossa viagem no tempo até aqui nos revelou que, de fato, foi mais ou menos assim mesmo: Deus nasceu com as palavras saídas da boca do homem primitivo. E o desenvolvimento da escrita, possibilitando manter registros duráveis das palavras ditas, ajudou ainda mais a fortalecer os frutos de sua interpretação cientificamente ignorante do mundo natural. Aliás, os deuses e espíritos são tão filhos da linguagem humana que a linguagem escrita logo adquiriu uma coloração sagrada exagerada e emocionalmente intensa, ganhou status de procedência divina, tornou-se intocável e venerável: os deuses e espíritos já falaram ou ainda falam por palavras grafadas sob inspiração sobrenatural. Tão grande foi o peso disso sobre nossa formação cultural que, até hoje, há uma certa postura de reverência geral perante os livros sagrados, mesmo numa sociedade pretensamente secular. Além disso, não é raro um ateu deparar-se com crentes que, afim de provar a realidade do deus em que acreditam, mostram-lhe passagens de seu livro santo, onde esse mesmo deus ameaça com castigos terríveis os que nele não acreditarem — é como se não conseguissem perceber que, para alguém que rejeita um personagem fictício, de nada vale como prova de sua existência apontar suas falas no romance em que é figura protagonista.
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Em outras palavras, foi apenas com o desenvolvimento da linguagem que os deuses vieram habitar o mundo físico. E é essa a resposta para aquela pergunta anterior. Por que os macacos não têm deuses? A resposta parece bem simples agora: porque eles não têm linguagem. Possuem um sistema de comunicação animal, com certeza, mas macacos não dispõem de um código oral que lhes permita transmitir mutuamente o que se passa por suas cabeças. Macacos não podem transmitir informações uns aos outros, dizer o que entendem que seja o disco de fogo que brilha no céu durante o dia. Macacos não podem escrever mandamentos divinos e relatos fantasiosos sobre o que entendam ser a mensagem do disco solar ou da banana sagrada para cada um deles. Não podem fazer nada disso porque, na origem de todas as crenças, está manifesta a palavra; tudo foi feito por ela, sem ela nada foi feito. Eis o mistério da fé!
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Quando propus essa viagem no tempo partindo do início para cá, em vez de olharmos daqui para lá, minha intenção, acredito, estava bem clara: eu queria mostrar que, olhando para as origens a partir de um referencial impregnado com a cultura do sobrenatural, mesmo nossa visão materialista poderia se encontrar enturvada, e nossa mente, como a de Einstein ou Hawking, poderia também se perguntar sobre uma inteligência cósmica por trás de leis físicas tão aparentemente precisas. Quando fizemos nossa viagem, ficou claro que Deus é um penetra que chegou tarde na festa.
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Como disse no princípio, algumas das hipóteses que utilizei aqui para narrar o desenvolvimento do universo e da vida podem acabar sendo refutadas amanhã — embora tenha tomado o cuidado de escolher algumas que dados confirmados mais recentemente reforçaram ainda mais, incluindo aí a complexa teoria das cordas. Em todo caso, isso não importa: uma hipótese pode cair, mas será sempre aos pés de outra melhor. E a eventual falência de uma proposição científica não significa a criação de uma lacuna onde se possa enfiar nossas crenças primitivas, paridas na pré-história pela recém-desenvolvida capacidade humana de passar adiante sua então compreensível ignorância científica acerca do mundo natural. Sobretudo, o não-entendimento definitivo de nossas origens não implica de forma alguma a “verdade” da Bíblia, a autenticidade de histórias míticas e mirabolantes de um deus concebido por um povo do deserto, em meados da Idade do Bronze, quando todo o universo já existia havia cerca de 14 bilhões de anos.
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Enfim, quando algumas pessoas dizem hoje “Mas é tão óbvia a existência de Deus, olhe para o mundo, olhe para a perfeição do universo, olhe para a maravilha da vida”, podemos perceber que, na verdade, a coisa não é tão óbvia assim. Lembramos que a viagem foi longa, muito longa, antes que alguém falasse pela primeira vez nessa tal obviedade do divino no mundo natural. Lembramos que Deus esteve ausente, deixando seu assento vazio, nos milhões e milhões e milhões de quilômetros da longa jornada, aparecendo apenas nos míseros centímetros finais do percurso. E, justamente por isso, sabemos que ele não merece os aplausos dos que nos recebem. Ele não merece o respeito dos que o vêem, injustamente, como o autor da grande proeza. Ele não merece os créditos pela autoria da vida. Na verdade, ecoando as palavras de Laplace, ao ser questionado por Napoleão sobre o porquê de sua mecânica celeste não fazer nenhuma menção a um criador, cada um de nós pode seguramente repetir: “Não precisei dessa hipótese, senhor!”
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Pois, afinal de contas, hoje sabemos, Deus foi sempre só palavra.
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AGRADECIMENTO:
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Gostaria de agradecer ao meu amigo Eli Vieira pela revisão do texto e pelas muito importantes contribuições oferecidas.
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domingo, 13 de julho de 2008

A santíssima trindade das ciências sociais

por Júnior Camilo
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Em meu artigo anterior, falei de minha experiência pessoal com a fé. Narrei o longo percurso que me levou de uma credulidade cega na existência de um ser sobrenatural por trás de cada evento percebível no mundo a uma visão declaradamente ateísta da vida, embasada no conhecimento científico, em particular da Biologia e das ciências da cognição. Com efeito, essa experiência me marcou profundamente, sobretudo no sentido de me deixar cismado com os fundamentalismos.
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Creio que não é surpresa para ninguém o reconhecimento (que faço aqui, agora) de que há muitos xiitas intolerantes e gratuitamente agressivos entre aqueles que se declaram ateus. Já testemunhei na
internet inúmeros ataques verborrágicos e ofensivos contra crentes pelo simples fato de serem... crentes! Frases do tipo “Crente é tudo um bando de filhos-da-puta” surgem muitas vezes gratuitamente em algumas comunidades do Orkut, salas de bate-papo, conversas no MSN, e outros lugares relacionados à globalizante rede mundiais de computares. Isso é lamentável, na verdade, pois nos rebaixa ao que de pior há no comportamento fanático de crentes intolerantes que se encontram por toda parte, que nos acusam de ser “filhos do diabo, condenados a agonizar e gritar para sempre nas chamas do inferno, que nunca se apagam”.
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Porém, como se não bastasse, ainda me vi não poucas vezes diante de um terceiro fronte de fanatismo intolerante: as próprias ciências e as filosofias. Para ser mais preciso, já tive o desprazer de defrontar-me com um monte de preconceito, fundamentalismo e intolerância visceral entre vários teóricos, cientistas e professores dos distintos campos das ciências sociais e humanas. Descobri que alguns preceitos por eles pregados, por mais que lhes faltassem evidências corroborantes, eram tratados como intocáveis dogmas de fé. Questioná-los não era outra coisa senão condenável
heresia!
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Cheguei a ter algumas divergências incômodas com uma professora em particular, numa das disciplinas curriculares do meu curso na universidade. A aula, que deveria ser de literatura estrangeira, apresentava-nos quase que invariavelmente peças e contos escolhidos à dedo, cujo tema central parecia ser um só: o feminismo radical. A maioria dos textos trazia personagens masculinos que representavam estereotipicamente o homem machista, egoísta, aproveitador de mulheres, promíscuo (de uma maneira condenável no tom da narrativa, como um macaco no cio), ao passo que as mulheres eram sempre heroínas, batalhadoras, independentes, preparadas para enfrentar o “monstro macho”, promíscuas (sempre de uma maneira positiva, libertária, enobrecedora de sua individualidade feminina). Aquilo incomodava todos os homens da turma, mas ganhava o fã-clube da professora entre maioria das moças (embora não todas).
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Não sou nenhum cretino ao ponto de não o reconhecer: alguns caras ficavam indignados com os textos porque eram mesmo o tipo de homem que eles descreviam. Mas nem todos eram daquele jeito. Aliás, eu mesmo não era daquele jeito! (Tinha um namoro sério e era fiel e feliz em meu relacionamento estável com minha namorada — e ficava simplesmente indignado com a mera sugestão, que vinha à tona vez e outra, de que os sentimentos de amor mútuo entre duas pessoas eram constructos sociais, algo que inventaram para castrar as possibilidades sexuais das mulheres.)
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Na época, eu ainda não havia me dedicado aos estudos sobre este tema específico da natureza humana — nossos instintos sexuais e sentimentos, e a dinâmica destes com a cultura circundante —, mas logo resolvi ler todas as publicações científicas e livros que pudesse encontrar sobre o tema. O resultado dos dados apanhados, eu já dissertei sobre eles num texto anterior neste blog (q.v. “Entre o sexo e o amor: uma perspectiva da natureza humana”, 02/06/2008). Justamente por isso, gostaria agora de tratar de um outro tema. Quero neste artigo discorrer mais especificamente sobre esse fundamentalismo que faz uma ideologia ser adotada e pregada com valor de verdade absoluta, numa atitude tão embaraçosamente similar à do proselitismo religioso mais radical.
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O tema aqui portanto é a filosofia por trás do Modelo Clássico das Ciências Sociais, que ao longo do século 20 foi elevada ao posto de artigo de fé inquestionável em meio a vários intelectuais e cientistas das áreas sociológicas e humanas, tornando a sua crítica até mesmo repelida nos meios acadêmicos, em especial nas universidades federais.
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O dogma da santíssima trindade
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Para argumentar neste texto, vou me apoiar no intrigante e persuasivo livro de Steven Pinker,
Tábula Rasa, onde ele resume diversos estudos recentes nas mais distintas ciências, revelando o que hoje se sabe sobre a natureza humana e o funcionamento do cérebro, ao passo que discute em detalhes esse lastimável problema fundamentalista de nossos dias. Para início de conversa, o fato é que, por trás do comportamento “fanático-religioso” desses intelectuais e cientistas sociais, há uma verdadeira trindade de princípios idolatrados:
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1) A tábula rasa: A partir da doutrina empírica proposta por John Locke, no século 17, passou-se a ver a mente como um “quadro em branco”, uma tábula rasa, onde em princípio nada há, até que se lhe imprima o conhecimento através da experiência, valendo-se de nossos sentidos.
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2) O bom selvagem: Com a filosofia romântica de Jean-Jacques Rousseau, no século 18, veio o princípio de que todo homem nasce bom, sendo sua vida social que o corrompe.
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3) O fantasma na máquina: Da doutrina dualista de René Descartes, no século 17, veio a idéia de que a mente é algo não-material que governa o corpo, a extensão material do ser. É o princípio mais tarde referido como o do “fantasma na máquina”, o de que há um espírito que controla os atos da máquina do corpo humano.
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Juntos, estes três pilares têm sustentado a visão de um número imenso de intelectuais, filósofos e cientistas sociais até os dias de hoje. São cultuados como verdades intocáveis e infalíveis sobre o ser humano, e qualquer questionamento proposto contra sua veracidade é recebido com assombro e indignação fanáticos. E, para entender o problema, é preciso perceber o que estes três dogmas juntos querem dizer: o homem nasce bom, todo homem é naturalmente bom, porém, nasce com uma mente em branco, onde o conhecimento da realidade e os valores morais vão ter de entrar através dos sentidos, imprimindo-se nela, moldando assim a personalidade e o caráter do homem; por fim, há uma instância espiritual — ou simplesmente
não-material (o que quer que isso queira dizer) — da mente de cada indivíduo humano, que lhe dá livre-arbítrio, controlando seu comportamento e atitudes.
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Mas qual o interesse de se manter esses dogmas? Ora, não é difícil responder: se somos produto da sociedade e cultura em que vivemos, se temos o poder de escolher não compactuar com essa imposição sociocultural sobre nosso comportamento e modo de pensar, e se somos bons por natureza, logo, devemos questionar nossos governos, devemos questionar nossos códigos morais, devemos questionar nossa religião, devemos questionar a criação que tivemos de nossos pais, devemos questionar enfim tudo o que nos ensinaram, e não aceitar nada, e enfrentar o que fizeram de nós (como disse Jean-Paul Sartre: não importa o que fizeram de você, mas o que vai fazer com o que fizeram de você), escolher ser o que você quer ser.
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Bem, parece um pensamento legítimo, não é mesmo? Mas acarreta dois problemas, para início de conversa:
1) ignora o que as ciências biológicas, cognitivas e as que estudam o cérebro humano têm a acrescentar nas observações, e 2) justamente por fazê-lo, acabam exagerando seus credos e resultando em teorias totalmente inviáveis e até mesmo danosas sobre o ser humano.
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Vejamos alguns exemplos disso.
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A mente como uma tábula rasa
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A doutrina da mente como um quadro em branco onde o conhecimento e os valores morais podem ser escritos pode parecer, à primeira vista, uma doutrina satisfatória. Mas um primeiro problema que ela enfrenta é que o fato de ser uma doutrina aparentemente atraente, causadora de amor à primeira vista para muita gente, não a exime de precisar de evidências que a comprovem. Dizer que a mente humana não traz nada de inato é algo que, pelo contrário, exige provas muito persuasivas justamente por conta de suas implicações (as quais veremos mais adiante).
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Quando psicólogos ou lingüistas afirmam que a linguagem, por exemplo, é construída pela socialização, pela imitação do que se percebe externamente, chega a ser ridículo que não atentem para o mais óbvio dos argumentos contra o que dizem: se aprendêssemos a linguagem de fora para dentro, por imitação ou assimilação da linguagem alheia, sem qualquer módulo inato presente no cérebro, pré-desenhado pelos genes justamente para lidar com as informações da língua falada ao redor, então jamais seria possível para mim conceber estas mesmas linhas que estou digitando agora. Uma criança nunca poderia dizer “Papai, pegue o ursinho para mim!”, ou qualquer outra das infinitas frases que elas falam prontamente já em seus primeiros anos de vida. E por que não? Ora, porque, se não houvesse um dispositivo inato nos cérebros humanos para lidar com a língua assimilada do ambiente, de modo a tornar possível criar infinitos enunciados novos, seria impossível qualquer nova frase que nunca tivesse sido ouvida antes. Ou seja, o que essa teoria diz em princípio é que eu não posso estar neste momento escrevendo estas linhas, produzindo novas sentenças, simplesmente porque eu não as aprendi de ninguém, não as ouvi no ambiente, de modo que elas pudessem entrar no meu cérebro para ser armazenadas e utilizadas nesta hora exata. Agora eu lhes pergunto: tal teoria faz mesmo tanto sentido assim?
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Como Chomsky demonstrou, há nos cérebros humanos um conjunto de super-regras inatas que permitem que qualquer língua assimilada do ambiente sejam desenvolvidas sintaticamente pelo falante, não fazendo exatamente distinções entre substantivos, verbos, preposições e adjetivos, mas sim especificando as quatro categorias com uma variável, como X, por exemplo. Para título de ilustração, essas super-regras poderiam se escrever da seguinte maneira:
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XP → (SPEC) X' YP*
X
' → X ZP*
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Ou seja: um sintagma é formado por um sujeito opcional (especificador), seguido de um X-barra, seguido por qualquer número de modificares; sendo que um X-barra é formado por uma palavra núcleo, seguida de qualquer número de protagonistas.
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Trocando X, Y e Z por substantivo, verbo, adjetivo ou preposição tem-se as regras da estrutura sintagmática que formam os sintagmas. Essa é a versão compacta do que se chama em Lingüística de “teoria X-barra”, sendo que o esquema geral dos sintagmas é ainda mais abrangente e aplica-se aos mais diversos idiomas. Em português, o núcleo do sintagma vem antes de seus protagonistas. Já em japonês, por exemplo, o verbo vem depois de seu objeto e não antes, de modo que eles dizem 水を飲む — isto é, “mizu o nomu” (água beber).
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Mas a regra sintática continua válida porque, numa língua em que o núcleo for final, for invertido em relação ao português, por exemplo, a mesma inversão vai ser verificada em todos os outros sintagmas do idioma. Portanto, se eles falam “água beber”, em vez de “beber água”, também dizem 学校に行く— “gakkō ni iku” (a escola para ir) —, 空の色 — “sora no iro” (céu do a cor), etc., em vez de “ir para a escola” e “a cor do céu”.
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Assim, as super-regras dão conta de criar árvores infinitas de possibilidades de composição em cada idioma, bastando apenas uma modificação que vai se dar ao contato da criança com a língua falada por perto: a ordem pode ser da esquerda para a direita em cada super-regra, segundo o algoritmo:
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X' → {ZP*, X}
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Ou seja: um X-barra é formado de um núcleo X e qualquer número de protagonistas, em qualquer ordem.
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Isto é só uma amostra das regras sintáticas da gramática universal que Chomsky postulou como existente de forma inata nos cérebros humanos e que permite, na prática, que uma criança construa frases que nunca ouviu na vida.
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Mas se é mesmo assim, se existe mesmo essa tal gramática inata nas mentes humanas, a teoria precisa ser provada, não? Claro que sim! E ela é. Justamente porque os sintagmas se constroem dentro de estruturas sintáticas prontas, produzindo resultados
infinitos por meio de regras finitas num sistema combinatório e recursivo, é que se podem fazer previsões para um experimento e testá-las.
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Os psicolingüistas Stephen Crain e Mineharu Nakayama fizeram um teste assim com crianças de 3, 4 e 5 anos de uma creche, todas falantes de inglês como língua materna. Um dos pesquisadores ficou controlando um boneco do Jabba, aquele monstrengo balofo e sedentário de Guerra nas Estrelas, enquanto o outro apontava para um desenho com personagens da Disney e perguntava a alguma criança coisas como: “Ask Jabba if the boy who is unhappy is watching Mickey Mouse” (Pergunte ao Jabba se o menino que está triste está assistindo ao Mickey Mouse). A criança fazia a pergunta diretamente ao boneco, e este olhava para o desenho e respondia sim ou não.
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Aqui vem o dado importante: sabemos que, em inglês, a estrutura de uma pergunta direta difere de uma indireta pela adição de partículas auxiliares ou inversão de verbos modais. No caso da conversão da pergunta indireta
“Ask Jabba if the boy who is unhappy is watching Mickey Mouse” para uma pergunta direta, ocorre o deslocamento do verbo to be (estar) para o início da frase (nesta caso, uma regra mais específica do inglês, não existindo em português, por exemplo). Mas acontece que há dois verbos “is” na frase. Como a criança pode saber qual deles deve ser deslocado? Se fôssemos pensar em teorias alternativas de construção linear ou qualquer outra coisa, a criança não apenas teria de já ter ouvido essa pergunta antes, como ainda, numa hipótese de composição linear, a criança inverteria o primeiro “is” com que topasse pela frente. Acontece que, se há mesmo uma gramática universal com super-regras implantadas no cérebro, uma das regras que valem não só para o inglês é a que mantém palavras de um sintagma ligadas a ele. O primeiro “is” da frase é constituinte do sintagma nominal “the boy who is unhappy” e, portanto, não pode ser deslocado dele pois assim impõe a super-regra.
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Pois acreditem: as crianças obedecem à regra, sem exceção! Nenhuma criança inverteu o primeiro “is” da frase. Lá estavam elas, como prevê a teoria de Chomsky, perguntando inocentemente: Is the boy who is unhappy watching Mickey Mouse, Jabba?” (O menino que está triste está assistindo ao Mickey Mouse, Jabba?). Da mesma forma, lidavam com pronomes vazios de significado, tratando-os como qualquer outro sujeito numa frase, e perguntavam: Is it raining in this picture, Jabba?” (Está chovendo neste desenho, Jabba?) Lembrando-se que, em inglês, o pronome “it” faz a vez do nosso sujeito inexistente neste tipo de frase.
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Os elementos de uma gramática universal inata vêm sendo encontrados por lingüistas e psicolingüistas no mundo todo. E Steven Pinker, em sua obra O Instinto da Linguagem, apresenta-nos a abordagem neo-darwinista desse mecanismo inato, procurando mostrar como a seleção natural levou ao ajuste adaptativo que fez produzir em nós, humanos, um instinto natural para o desenvolvimento da linguagem. De forma que hoje até mesmo já há indícios de que as áreas de Broca e de Wernicke, mais os giros anterior e supra-marginal, nos cérebros humanos, podem estar associados como um legítimo órgão da linguagem.
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Não é de se surpreender, portanto, que as crianças desenvolvam a linguagem muito antes de outras habilidades intelectuais, curiosamente quase ao mesmo tempo em que começam a caminhar. O fato é que, no sempre perigoso ambiente ancestral de que evoluímos, quando nossos cérebros atuais foram geneticamente desenhados no Homo sapiens, duas crianças hipotéticas, uma capaz de entender e obedecer as ordens dos pais e outra que não fosse capaz de fazê-lo, com certeza teriam chances diferentes de sobrevivência. A criança munida de um aparato mental que a permitisse entender e aceitar as ordens de “Não vá para longe!”, “Não mexa nisso!”, “Não coloque isso na boca!”, “Saia de perto desse buraco!”, “Nunca mexa com aquele bicho!”, teria muito mais probabilidade estatística de sobreviver, chegar a fase fértil, reproduzir-se e garantir sua perpetuação genética, do que a outra, que se exporia bem mais aos riscos daquele ambiente. O desenvolvimento da linguagem como uma adaptação evolutiva parece um tanto lógica, do ponto de vista darwinista.
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Mas o que isso e qualquer outra faculdade inata descoberta no cérebro humano pela Ciência Cognitiva ou as neurociências, por exemplo, querem dizer para a doutrina da tábula rasa? Qualquer descoberta dessas é uma ameaça à cega crença em sua existência. E por isso os fiéis defensores da doutrina surtam e começam a acusar os pesquisadores dessas áreas de promoverem a idéia do “determinismo genético” — tudo se deve aos genes! O que é uma lamentável distorção dos fatos. Afinal, o que se fala aqui é de que há uma interação entre ambiente e inúmeros fatores inatos, algumas vezes pesando mais os genes, outras vezes pesando mais o ambiente.
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A aquisição da língua materna, por exemplo, é óbvio que depende da interação com os falantes ao redor. É do ambiente que se extrai a língua que será falada, porém — e é aqui que se destaca a informação mais importante nesta questão —, ela só será aprendida porque encontrará no cérebro um conjunto de ferramentas gramaticais já instalados, que vão possibilitar compor novas e infinitas frases — e isso vale para qualquer outra situação de aprendizado: ele só é possível porque encontra no cérebro mecanismos inatos específicos para cada aprendizado (só para citar um exemplo ainda ligado à linguagem: uma pessoa que sofre uma lesão na área de Broca apresenta uma síndrome caracterizada por um imenso esforço para falar, sempre produzindo frases agramaticais; um problema não na fala em si mesma, mas na gramática geral, pois a pessoa também os apresenta ao escrever ou ao cantar). Todavia, a distorção dos defensores da fé cega na tábula rasa é tamanha mas feita com tanta esperteza que as pessoas parecem não se dar conta de que os deterministas são eles: os que atribuem tudo à influência sociocultural!
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O mito do bom selvagem
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Segunda pessoa da santíssima trindade, o mito rousseauniano do bom selvagem é outro tópico utópico e problemático. Ele reza que o ser humano, em seu estado natural, é sempre bom. Prega que tudo o que nos faz ruins, vis, egoístas, traiçoeiros, invejosos, ciumentos, etc., é a influência (pelo visto satânica) da sociedade sobre nós. A crença neste dogma levou a uma conclusão moral ainda mais curiosa: tudo o que é natural é bom!
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É claro que não se inclui aqui aquilo que os biólogos, neurocientistas e cientistas cognitivos chamam de natureza humana. Uai, mas por que não? Bem, é simples. Existem um mantra e um silogismo por trás dessa crença. O mantra é exatamente a frase acima — “Tudo o que é natural é bom!” —, que deve ser repetida mentalmente até o entorpecimento da razão. Quando seu bom senso estiver enturvado pela exaustiva repetição do mantra, é a hora de encarar o silogismo:
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Tudo o que é natural é bom
A natureza humana sob a perspectiva da Biologia não é exatamente...
boa
Logo, o que os biólogos chamam de natureza humana
não pode ser natural (tem de ser uma farsa).”
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Para quem tiver a impressão de que isso não é lá muito convincente, não fique embaraçado: tampouco me parece muito lógico. Mas fez e faz o maior sentido para muita gente no meio acadêmico e intelectual. No entanto, eles não medem as conseqüências de sua crença estapafúrdia, não percebem as tolices e até mesmo os prejudiciais equívocos a que ela conduz.
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Para citar um simples exemplo: minha avó, que é semi-analfabeta, compartilha uma mesma opinião com muitos professores universitários com pós-doutorado no currículo: todo alimento natural é bom; tudo o que é produzido pela engenharia de alimentos é ruim, não faz bem à saúde. E essa divinização dos alimentos naturais como sempre
bons (acompanhados pela demonização dos alimentos produzidos por engenharia humana) chega a fazer rir um especialista que trabalha com alimentos artificiais ou geneticamente modificados. Eis os porquês (citados por Pinker em Tábula Rasa):
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a) Conforme um relatório da União Européia, 81 projetos de pesquisa nesta área foram analisados ao longo 15 anos. Resultado: Nenhum risco à saúde humana ou ao meio-ambiente foi encontrado, associável a esses alimentos.
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b) Praticamente todo animal ou vegetal vendido numa loja de produtos naturais na verdade foi geneticamente modificado por milênios e milênios de cruzamentos seletivos e hibridações promovidos pelo homem. A cenoura, por exemplo, que todo mundo aprecia numa dieta saudável, na verdade foi produzida. A sua ancestral encontrada originalmente na natureza era branca, fina e amarga. Não muito diferente do milho, que descende de um sabuguinho de menos de 3 cm de comprimento, que se debulhava à toa, cujos grãos eram pequeninos e duros como pedra. (O que não é de estranhar a nenhum biólogo, na verdade: afinal, as plantas não tomaram a contramão da seleção natural, evoluindo para serem presas fáceis. Elas não proliferaram na natureza fazendo-se saborosas, saudáveis à vida animal e fáceis de serem colhidas. Pelo contrário: as plantas desenvolveram naturalmente muitas defesas contra nosso apetite por elas — substâncias irritantes, toxinas e compostos de gosto amargo.)
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c) A técnica “natural” de reprodução seletiva que visa a tornar a planta resistente à pragas não faz mais do que aumentar o nível de concentração dos venenos que existem na própria planta, o que, de forma alguma, quer dizer que esta planta é um alimento mais seguro de se comer. (Na verdade, um tipo de batata que havia sido submetida a esse método “natural” acabou tendo de ser tirada do mercado porque continha um nível de toxina prejudicial à saúde humana.)
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d) Aromantes naturais, do ponto de vista de sua composição química, não são nada diferentes de seus equivalentes artificiais. E pior: quando acontecem de ser distinguíveis, já houve não poucos casos em que o aromante natural que era o de maior risco à saúde.
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e) O benzaldeído, substância aromatizante “natural” derivada de óleo de amêndoas amargas, quando provém de sementes de pêssego, traz junto na bagagem alguns vestígios de cianureto, um veneno que pode ser letal. Quando esse aromatizante é produzido artificialmente não há tais vestígios.
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Lembro-me de minha avó e minha mãe repetindo tanto: “Está cada vez mais perigoso comer hoje em dia! A gente só encontra esses alimentos cheios de química!” Bem... Elas dizerem isso, eu até posso entender! O que me incomoda mesmo é ouvir tanta gente com alto nível de instrução repetir a mesma bobagem.
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O problema dessa mentalidade da natureza sempre boa, no entanto, é que ela serviu para um dos maiores disparates de que se tem notícia, mas que é cultuado por intelectuais do mundo inteiro: a idéia feminista radical de que o estupro não tem nada a ver com sexo! Isso mesmo!
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A lógica ilógica é de novo o silogismo torto (que aqui vai além das duas premissas clássicas, antes da conclusão) dos cultuadores do bom selvagem e da natureza inerentemente boa:
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“Sexo é bom por natureza
Se o estupro visasse ao sexo deveria ser
bom
O estupro é uma coisa
detestável, traumática para a vítima
Logo, o estupro
não pode ser por causa de sexo.”
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Eu sei, eu sei! Isso parece a idéia mais idiota que você já ouviu? Não está sozinho nessa conclusão, meu amigo! Porém, sinto em informar-lhe que um número assombroso de intelectuais e acadêmicos defensores do feminismo radical acreditam exatamente nessa tosqueira.
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Antes de prosseguir, devo informar que o que estou chamando aqui de feminismo radical é o que se classifica como
feminismo de gênero. Diferente do feminismo de eqüidade (que combate legitimamente a discriminação sexual e outras formas de injustiças promovidas contra as mulheres), as extremistas xiitas do feminismo de gênero pregam coisas que simplesmente não encontram respaldo nas ciências que estudam o ser humano e o cérebro humano. Só para citar alguns exemplos, defendem que somos todos bissexuais quando nascemos, e é a cultura que nos obriga a assumir papéis masculinos e femininos; como salienta a feminista não-radical, Daphne Patai, em seu livro Heterophobia (“Heterofobia”), de 1998, algumas afirmam que todo tipo de relação sexual entre homem e mulher é um estupro, ao passo que outras dizem que deveria haver uma forma de fazer com que somente 10% da população fosse de homens. Isso para não dizer que muitas ainda insistem em negar que homens e mulheres sejam biologicamente diferentes. Todavia, as provas de que homens e mulheres são diferentes em vários aspectos biológicos já são abundantes demais para que não acabe sendo ridículo ver alguém ainda insistir nessa afirmação ignorante.
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Na obra Against Our Will (“Contra Nossa Vontade”), da feminista radical Susan Brownmiller, a autora expõe a idéia absurda de que estupro é um ato masculino não motivado por sexo. Na página 14, encontramos a parte mais estapafúrdia do livro (os grifos são da autora):
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“Man's discovery that his genitalia could serve as a weapon to generate fear must rank as one of the most important discoveries of prehistoric times, along with the use of fire and the first crude stone axe. From prehistoric times to the present, I believe, rape has played a critical function (...) it is nothing more or less than a conscious process of intimidation by which all men keep all women in a state of fear.”
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(A descoberta do homem de que sua genitália poderia servir de arma para gerar medo deve constar como uma das mais importantes descobertas dos tempos pré-históricos, junto com o uso do fogo e o primeiro machado de pedra bruta. Da era pré-histórica até o presente, acredito eu, o estupro tem desempenhado uma função crítica [...] não é nada mais, nada menos do que um processo consciente de intimidação pelo qual todos os homens mantêm todas as mulheres num estado de medo.)
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A idéia do homem descobrindo seu brinquedinho entre as pernas e saindo por aí ameçando todas as mulheres para espalhar o pânico com sua arma sexual seria cômica se não fosse trágica. Mas, em outras palavras, o que a autora está dizendo é que o estupro não tem nada a ver com sexo; na verdade, é a cultura que faz os homens quererem estuprar, pois esta cultura que nos cerca glorifica a violência dos homens contra as mulheres. Como diz Pinker: “Essa análise provém diretamente da teoria da natureza humana das feministas de gênero: as pessoas são tábulas rasas (que têm de ser treinadas ou socializadas para querer as coisas); o único motivo humano significativo é o poder (portanto, o desejo sexual é irrelevante); e todos os motivos e interesses devem ser localizados em grupos (como o sexo masculino e o sexo feminino), e não em pessoas individuais” (Pinker, Tábula Rasa, pág. 489). E essa idéia risível ganhou popularidade porque, desde a revolução de costumes da década de 1960, as pessoas com mais instrução passaram a ver o sexo não mais como a coisa pecaminosa da visão puritana tradicional, mas sim como com algo bom — até aí, tudo bem, se não fosse pelo seguinte: — bom porque era natural. Voilà! Aí de novo a extensão do mito do bom selvagem.
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Agora, deixemos os delírios e besteiras, e concentremo-nos nos fatos:
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a) Não é nenhuma raridade acontecer de homens quererem fazer sexo com mulheres que não estão afim deles — por isso tentam várias táticas, da sedução ao pagamento pela atenção de garotas de programa.
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b) Alguns homens estão prontos a cometer atos violentos para conseguir o que querem — alguns já até arrancaram parte da orelha do irmão do Zezé de Camargo, quando o seqüestraram, apenas para provar à família que não estavam de brincadeira, que era bom que pagassem logo o resgate.
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c) Um estuprador sempre corre riscos — de ser ferido pela vítima num descuido qualquer, de ser apanhado por outros, sendo castrado ou espancado até a morte pelos parentes da mulher, em muitas sociedades mais tradicionais, ou sendo preso pela polícia, em outras sociedades. Será que ele estaria mesmo disposto a se arriscar tanto em nome exclusivamente de manter a conspiração masculina, em nome da promoção dos interesses dominadores dos homens contra as mulheres? Será mesmo que tanto risco não seria motivado por desejo sexual?
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d) E se é mesmo algo motivado pelo desejo de poder e dominação social, por que então a maioria dos estupradores são homens que não se deram muito bem na vida, não fazem muito dinheiro, não gozam de prestígio?
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e) Para piorar, a teoria de que eles fazem isso em benefício de sua classe, a fim de manter o grupo masculino dominando a sociedade, é ainda mais ridícula quando lembramos que os estupradores não saem por aí fazendo anúncio de seu ato, não! Fazem tudo às escondidas e fazem de tudo para manter seu crime em segredo — afinal, ao contrário do que as feministas xiitas estão sugerindo, um estuprador não é exatamente um cidadão admirado pelos homens da sociedade. Será que elas não enxergam isso, não?
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f) No fim, essa idéia estúpida de que os homens estão unidos em guerra contra as mulheres, e fazem isso estuprando-as deixa de considerar um elemento simples mas muito relevante: os homens têm mães, filhas, irmãs e esposas — duvido que seria mais do interesse deles promover o estupro de todas as mulheres em nome de sua classe masculina do que zelar pelo bem-estar das mulheres de sua família, como se fosse de seu interesse que elas também fossem violentadas por outros seus sócios no projeto de dominação social do grupo masculino. Quer saber? Me poupe, hein!
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Essas são apenas algumas das teorias absurdas defendidas pelos cultuadores da tábula rasa e do bom selvagem. Elas negam que haja algo como uma natureza humana, biologicamente determinada — lembrando que a palavra biologicamente aqui quer dizer pela interação genes + fatores externos. Todavia, não a coisa não pára por aí. Ainda falta falar da terceira pessoa da santíssima trindade: o fantasma na máquina.
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A eterna fé no fantasma na máquina
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Embora Thomas Hobbes, no século 17, em seu Leviatã, tenha argumentado que os homens estão longe de ser bons selvagens, e que portanto precisam de um soberano ou de uma assembléia que os governe e controle sua natureza “animalesca” — daí o porque de não haver um só povo sequer no planeta que não apresente algum tipo de hierarquia, onde alguém detenha autoridade sobre os demais —, este não foi o único tiro razoável encontrado na lógica hobbesiana em relação ao que as ciências que estudam o comportamento e o cérebro humanos hoje já sabem. Ainda que não pudesse compreender exatamente o funcionamento das redes neuronais, das conexões e sinapses presentes e em atividade no cérebro humano, o filósofo sugeriu que mente e corpo poderiam ser explicados em termos mecanicistas, “como um relógio” (Leviatã, pág. 09), sendo a razão um processo de cálculo de adição e subtração de nomes gerais, concebidos para classificar e dar significação, bem como representar nossos pensamentos (ibid., V, pág. 31).
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Infelizmente, no entanto, a filosofia dualista de René Descartes, de que há uma mente imaterial distinta do corpo material, é que ganhou popularidade nos séculos seguintes. O “fantasma na máquina” (expressão cunhada pelo filósofo do século 20, Gilbert Ryle) casava-se muito convenientemente com as doutrinas da tábula rasa e do bom selvagem, e, justamente por isso, foi fundida às demais no campo das crendices ingênuas sobre as quais se fundamenta o Modelo Clássico das Ciências Sociais, dando origem assim à santíssima trindade cultuada por tantos cientistas sociais e intelectuais do século 20 e início do 21.
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A doutrina do
fantasma na máquina serviu e serve tanto a fundamentalistas religiosos e conservadores (que vêem aí a função da alma que Deus implantou nos homens) quanto a cientistas materialistas, por mais paradoxal que isso possa parecer, que simplesmente não podem aceitar a alternativa a ela, apresentada pelos cientistas cognitivos e neurocientistas, já que esta põe abaixo o delírio político daqueles cientistas e filósofos que acreditam que seja possível moldar as mentes das pessoas, fazendo-as assimilar coletivamente qualquer comportamento social que escolhermos — tornando viável assim um mundo sem desigualdades sociais e econômicas, sem disparidades entre os sexos, um paraíso em que as raças e os sexos não mais se distinguem e vivem livre e em harmonia. A intenção é comovente, mas como diz o ditado: “De boas intenções...”
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Se a doutrina representa para os religiosos o que eles chamam de
alma, para os cientistas que a defendem, ela é ainda um quê não batizado de forma definitiva. Muitas vezes a chamam de mente (atribuindo a essa mente características visivelmente espirituais). Outras vezes a chamam de outra coisa, mas sempre atribuindo a ela a faculdade humana de livre-arbítrio. De fato, é normal ver os crentes na santíssima trindade do modelo sociológico clássico omitirem a palavra alma, mas curiosamente eles invocam de forma insistente palavras que não querem dizer muita coisa no contexto como eu, nós, você ou uma pessoa, que, em suas afirmações, representam um ente capaz de se dissociar de algum jeito de sua genética, sua neurobiologia e dos efeitos de sua evolução, a fim de agir como bem queira, reprimido apenas por algumas circunstâncias presentes no ambiente ao seu redor.
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Steven Rose, por exemplo, em sua obra Lifelines: Biology Beyond Determinism (“Linhas da Vida: A Biologia Além do Determinismo”), escreve: “We have the ability to construct our own futures, albeit not in circumstances of our own choosing” (Nós temos a capacidade de construir nossos próprios futuros, embora não em circunstâncias de nossa própria escolha.) — pág. 7. O que leva Pinker a comentar a posição de Rose dizendo:
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Rose nunca explica quem é o “nós”, se não são os circuitos neurais altamente estruturados, o qual tem de receber essa estrutura em parte dos genes e da evolução. Poderíamos chamar essa doutrina [de Rose e outros que se alinham na mesma posição] de pronome na máquina (Pinker, op. cit., pág. 181).
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Mais adiante, Pinker fala sobre o porque essa doutrina (uma alternativa ingênua à palavra
alma dos religiosos) é atrativa aos cientistas sociais e intelectuais de visão política esquerdista:
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A doutrina do pronome na máquina não é um descuido casual na visão de mundo dos cientistas radicais. É consistente com seu desejo de mudança política radical e sua hostilidade à democracia “burguesa”. (...) Se o “nós” é realmente desacorrentado da biologia, assim que “nós” virmos a luz poderemos implementar a visão de mudança radical que julgamos correta. Mas se o “nós” for um produto imperfeito da evolução — limitado em conhecimento e sabedoria, tentado por status e poder, cego pelo auto-engano e por ilusões de superioridade moral —, então é melhor que “nós” pensemos duas vezes antes de construir toda essa história (ibid., pág. 182).
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Logo, é a ilusão ideológica da esquerda, de que a mente humana é uma
tábula rasa (e portanto pode ser moldada e condicionada a aceitar a igualdade entre todos) e de que o homem é um bom selvagem (cujos defeitos de caráter e comportamento só podem ser culpa da sociedade, nunca de sua natureza), que os leva a aceitar mais essa visão dualística, de que há um “nós” não-biológico que paira acima do nós biológico, produto da evolução.
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No outro lado da moeda, a crença no fantasma na máquina é um pilar de que os crentes religiosos precisam desesperadamente. Sua visão religiosa depende essencialmente da crença numa alma imaterial que habita o corpo humano. É com a ameaça dos tormentos eternos infligidos à essa alma no inferno, por exemplo, que os cristãos tentam converter e manter no cabresto da credulidade os seus fiéis. E é com base nessa crença que pastores e padres se unem para protestar contra as pesquisas com células-tronco, causando um dano direto ao avanço das ciências médicas, bem como um prejuízo colateral às vítimas de males que poderiam ser sanados por tratamentos desenvolvidos a partir dessas pesquisas.
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Chega a ser curioso ver esquerdistas políticos de filosofia libertária se alinhando com os mais ignorantes, intolerantes e preconceituosos conservadores de direita, em defesa da santíssima trindade que serve tão bem às ideologias de ambos os lados, ao passo que renegam e condenam os dados que as ciências que estudam o cérebro, os genes e o comportamento humanos em função da evolução têm encontrado em pesquisas sérias, sobretudo ao longo das últimas duas décadas.
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Conclusão: aonde vamos parar agora?
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No meio de todo este embate, uma coisa fica bem clara: há muito fervor passional dos dois lados opostos que, de repente, na ironia das ironias, juntaram forças para combater o grande Satã (as ciências que falam em natureza humana). Os psicólogos evolucionistas dizem que já está mais do que comprovado que o gosto das mulheres por fazer sexo (e querer variar nele, ainda que de modo seletivo) está em sua natureza: os conservadores de direita arrancam os cabelos e gritam: “Isso é uma afronta ao criador!”. Os mesmos psicólogos falam que nossos genes deixam claro que os homens também são vorazmente inclinados ao sexo promíscuo, e as feministas radicais têm um piti: “Isso é um absurdo! É um plano de homens mancomunados em defesa do poder do macho na sociedade! Os homens não querem sexo, querem poder! Não estupram buscando fazer sexo, eles estupram para mostrar dominação e causar temor, para impedir a mulher de lutar por seus direitos, livrar-se de sua opressão”.
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Vários cientistam apresentam dados de que a orientação sexual humana, inclusive a homossexualidade, tem um relevante componente genético (q. v. “Está escrito: 'Deus odeia bichas'”, 19/04/2008), e os crentes conservadores fazem protestos, gritam, sentem-se ultrajados nas igrejas, nos programas televangélicos, etc., como já se esperaria aliás, e, mais uma vez, lá vêm os defensores da tábula rasa se juntarem a eles. Afirmam com veemência (ou com demência, ao que me parece) que “não existe sexualidade inata; toda orientação sexual é produzida pela cultura”. Ignoram que o experimento-mor para pôr um fim nessa palhaçada seria pegar um bebê e fazer-lhe uma cirurgia de mudança de sexo, criando-o como se fosse do sexo adotado, sem nunca dizer-lhe a verdade. E então ver o que acontece. Pois bem... O experimento foi feito!
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Não, não! Não foi um bando de cientistas sem noção que resolveu fazer uma coisa assim por curiosidade científica, como alguns podem concluir apressadamente. O fato foi que 25 meninos que haviam nascido sem pênis (em virtude de um defeito congênito), passaram por uma cirurgia assim e seus pais os criaram como meninas, sem nunca lhes contar a verdade. Resultado: todas essas crianças apresentaram padrões masculinos de brincadeiras turbulentas, bem como atitudes e interesses que são típicos de meninos, desde a mais tenra idade, apesar de os pais insistirem em lhes tratar como meninas e lhes dar bonecas e tal. Mais da metade começou a falar que era menino por contra própria, apesar de toda a influência externa em contrário. Um deles declarou que era menino já aos 5 anos de idade.
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Isso, para não mencionar o caso de um menino canadense que, aos 8 meses, por imperícia médica numa circuncisão, teve parte do pênis amputado. Um famoso sexólogo (John William Money) aconselhou a família do menino a deixar que os médicos castrassem o bebê e lhe implantassem uma vagina artificial, e que os pais o criassem então como menina. Nas palavras do sexólogo: “A natureza é uma estratégia política dos que se empenham em manter o status quo das diferenças entre os sexos”. A cirurgia foi feita, e o bebê Bruce agora se chamava Brenda.
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Seus pais, felizes e otimistas, convencidos (ou melhor iludidos) pelo renomado sexólogo da Universidade Johns Hopkins, deram bonecas à criança, vestidos, deixaram seus cabelos crescerem e tudo. Porém, já aos 7 anos, Brenda começou a insistir em que queria ter bigode, queria brincar era com carrinhos, além de demonstrar um grande interesse por armas e querer entrar para os escoteiros (que só aceitavam meninos). Outro fato curioso, Brenda insistia em ficar de pé quando urinava. Os pais fizeram de tudo para convencer Brenda de que homens e mulheres eram fisicamente diferentes, e de que ela era uma mulher. Mas Brenda não aceitava. Forçada a tomar pílulas de estrogênio (hormônio feminino), desenvolveram-se-lhe os seios, na fase da puberdade, ao que Brenda reagiu comendo para engordar e escondê-los em meio à gordura do corpo.
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Esse pesadelo criado pela crença na tábula rasa e pela negação da natureza humana durou até os 14 anos de Brenda, quando ela afirmou que se mataria se não pudesse viver como um homem. Foi só então que lhe contaram a verdade. Depois disso, Brenda fez uma série de cirurgias, recuperou os traços físicos masculinos, conheceu uma mulher, casou-se e hoje Bruce está finalmente feliz em sua vida como o homem que sempre havia sentido ser, apesar de toda influência externa em contrário.
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Uma lição que as ciências que estudam a natureza humana estão nos ensinando, e que histórias assim a confirmam, é que não há motivo, a não ser o preconceito irracional, para que não seja permitido a casais homossexuais adotar filhos. Os conservadores puritanos surgem de todos os lados, berrando que isso é um absurdo, que o comportamento de pais gays ou mães lésbicas influenciará na sexualidade dos filhos que eles criam. As histórias acima deixam bem claro que isso não é verdade! Mas, por puro moralismo religioso, eles insistem em dizer que a sexualidade é construída pelo ambiente. E aí vêm os intelectuais, filósofos e cientistas sociais, que se dizem libertários, e fornecem mais munição (cientificamente infundada) para que esses reacionários impeçam que pessoas de bem, que querem ter filhos e, além do afeto que querem compartilhar com eles, têm condições materiais de lhes dar conforto e uma boa educação, possam adotar crianças tão-somente porque têm uma orientação sexual diferente da que é tida como “moralmente adequada” ou como “a única que Deus determinou para nós”.
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O que tudo isso nos mostra é que, na luta dos defensores da
tábula rasa contra os que demonstram a existência de uma natureza humana biologicamente determinada, há, da parte dos primeiros, muita paixão delirante e pouca fundamentação científica. Negar a natureza humana, negar que temos faculdades inatas geneticamente projetadas, negar que somos produto de uma interação entre nossa constituição genética e fatores ambientais (e não determinados unicamente por fatores externos, moldados pela cultura como se fôssemos massinhas de brincar), não é apenas ridículo e imaturo, é cientificamente equivocado! É como fechar os olhos diante de uma cena forte num filme, para não ver nada, embora a cena vá estar lá, de qualquer jeito. Em outras palavras: é uma atitude muito mais emocional do que racional.
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Pensando no aspecto político, negar a existência da natureza humana não é lá algo muito sábio para os esquerdistas políticos (com os quais tenho uma história pessoal de identificação ideológica) que sonham em criar uma sociedade mais justa. É preciso reconhecer que as tentativas históricas de implantar o socialismo não falharam por acaso. Não foi por mera coincidência que vimos o terror e o abuso de poder em todos os países que tentaram a façanha ao longo do século 20. A teoria de Marx é cativante, mas deixa de fora dos cálculos um elemento crucial: a natureza humana. E apóia-se na crença cega na santíssima trindade do modelo clássico sociológico. Não foi surpresa, portanto, ver Mao Tsé Tung anunciando sua intenção de moldar as mentes em branco de todas as crianças chinesas, escrevendo nelas seus “mais belos poemas”. Não foi surpresa o terror que isso significou na prática.
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Uma observação curiosa que Pinker faz em seu livro é a de que:
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... a democracia constitucional baseia-se numa teoria sem doces ilusões da natureza humana, na qual “nós” somos eternamente vulneráveis à arrogância e à corrupção. As restrições e contrapesos das instituições democráticas foram explicitamente criados para tolher as freqüentemente perigosas ambições dos humanos imperfeitos (op.cit., pág. 182, grifo meu).
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Novamente, não surpreende, portanto, que, ainda que aos trancos e barrancos, com todas as suas deficiências crônicas que precisam ser sanadas, são as democracias que vão sobrevivendo e progredindo mundo afora. E é dentro do modelo democrático representativo que os esquerdistas têm de atuar e lutar para fazer as modificações viáveis de ser fazer, que levem em conta nossa natureza complexa e imperfeita, trazendo benefícios plausíveis para os indivíduos que compartilham de uma mesma sociedade. Eis a lógica que levou os renomados economistas Samuel Bowles e Herbet Gintis, que eram fervorosos marxistas, a se tornarem teóricos darwinistas de esquerda. Procuram hoje conciliar o que as ciências sabem sobre a natureza humana com aquilo que o pensamento político de esquerda tem de propostas de reforma social, o que os põem num caminho mais razoável, mais passível de realização, onde os beneficiados serão as classes sociais menos favorecidas (o sonho de todo esquerdista político).
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A receita para caminharmos rumo a um futuro menos nebuloso é a que estes economistas, bem como outros diversos cientistas mundo afora, têm procurado fazer: a consilência proposta por E. O. Wilson em seu livro de mesmo título — o “saltar junto” das ciências, a conexão de todas as ciências, o intercâmbio de dados entre elas, como a única forma de continuar o progresso científico. O contrário disso é o fundamentalismo crédulo de cientistas que — contra uma montanha de evidências encontradas pelas mais variadas frentes de pesquisa, que corroboram a existência de faculdades inatas no cérebro bem como da própria natureza humana em termos biológicos — insistem em acreditar que somos um quadro em branco em que os outros escrevem o que querem que nós sejamos, que somos bons e imaculados por natureza e que tudo o que é natural é bom, bem como que há uma coisa em nós que está além de nosso ser biológico, e que nos governa, sendo a única entidade responsável por nossas ações.
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É esse o tipo de crença extremista que pode produzir os mais desastrosos resultados sociais, ao passo que renega a natureza humana, renega as próprias ciências que corroboram sua existência, renega aquilo que está em nós de forma universal bem como o que nos faz indivíduos, em nome de filosofias supostamente libertárias que nos tratam como fantoches manipuláveis que podem ser condicionados a agir e pensar segundo os interesses dessas correntes; enfim, esse é o tipo de crença infundada e tirânica, que nos faz desviar da busca legítima pelo entendimento do que somos, em nome de ideologias delirantes que, por mais bem intencionadas que algumas possam ser, esquecem-se de que o objetivo da ciência não é confirmar nossos sonhos mais belos, mas sim nos mostrar como a realidade se apresenta (quer gostemos ou não da cara dela), a fim de que possamos descobrir uma maneira de conciliar nossos interesses (inclusive nosso mais admirável desejo de construir uma sociedade melhor) com as características nem sempre louváveis da vida como ela é.
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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Eu vi a luz! — Ou de como me tornei ateu

por Júnior Camilo
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Eu nasci numa família católica e fui criado para ser um cristão praticante. Durante minha adolescência, minha dedicação à igreja era tamanha que tomei uma decisão: resolvi que queria ser padre! Mas, como ainda não havia acabado o ensino médio, tudo o que pude fazer foi tentar ter uma idéia da vida nos seminários (visitei vários, de diferentes ordens religiosas) durante esses períodos de teste normalmente conhecidos como “experiência vocacional”.
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Nessa época, eu era um ativo membro da Renovação Carismática Católica (uma espécie de facção pentecostal que, feito uma cria bizarra, surgiu como uma adolescente hiperativa e dopada com ecstasy, saída do ventre malsão de uma velha decadente: a “Santa Madre Igreja”). Como todas as vítimas que tombam sob o peso da ignorância, contaminadas por esse “vírus da mente”, que é a fé religiosa, numa expressão emprestada de Dawkins, também eu sentia a “presença do Espírito Santo” em tudo ao meu redor. Acreditava no poder das orações e nos milagres de Deus, embora jamais tivesse visto nem mesmo o mais fervoroso cristão, que tivesse perdido a perna depois de um acidente, passar pela experiência de ter um novo membro inferior crescendo no lugar do que foi amputado — algo que, sem dúvida, seria um milagre! Na verdade, erguia minhas mãos por sobre os fiéis, enquanto eu ou outra pessoa pregava, e acreditava que de mim invisíveis raios cósmicos eram disparados sobre eles, como se eu fosse um super-herói de gibi, cujos poderes emanavam diretamente dos céus.
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Mais tarde, ouvíamos aqueles testemunhos delirantes. Gente que afirmava ter se curado de um “caroço”, algum nódulo misterioso, de que nenhum médico tinha conseguido tratar. Gente que contava histórias de algum parente ou conhecido que tinha uma doença fatal e foram curadas pela fé. Normalmente, pessoas (como eu mesmo, na época) com pouco ou nenhum conhecimento do funcionamento de nosso organismo nem de como ele pode ser afetado por nosso estado emocional, de como nossas próprias interpretações dos fatos podem ser influenciadas (não raro infladas) por esse mesmo estado, gente que, portanto, simplesmente ignorava dados, como o fato de que, por exemplo, a amígdala (um órgão em nosso cérebro que não tem nada a ver com o outro de mesmo nome, mais conhecido das pessoas), que ajuda a investir emoção em nossas lembranças, ativa-se — isto é, mostra maior atividade metabólica no cérebro — quando vemos ou ouvimos algo conotativamente assimilado de forma impactante. Não tinha o menor conhecimento de que, nessas situações, como salienta o cientista cognitivo, Steven Pinker, num de seus artigos, apresentamos reações que não são apenas emocionais mas também involuntárias. E podemos nos sentir afetados, por um lado, bem como podemos exagerar as dimensões desse efeito sobre nós. E tudo simplesmente porque, as palavras que ouvimos não são tratadas por nosso cérebro como meros ruídos sem sentido; com efeito, de forma reflexiva, vasculhamos nossa memória e respondemos a seu significado, inclusive seus aspectos conotativos. Em outras palavras: eu não entendia essa intrigante dinâmica entre palavras e emoções, tão explorada no meio religioso, em termos de nossas reações psicobiológicas, não percebia que palavras não eram apenas palavras. (q.v. PINKER, Steven. “Why We Curse” [Por Que Xingamos]. In: The New Republic, 08/10/2007.)
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Em todo caso, naquela época, eu sentia que Deus era algo real, tão real quanto a minha cama ou a roupa que eu vestia. E queria saber tudo sobre ele, de modo que estudar o máximo que pudesse sobre a religião tornou-se minha obsessão. Até mesmo porque, se eu fosse mesmo virar padre, queria ser um expert em tudo relacionado ao tema.
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E foi aí que começou a mudança.
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Ao longo de cerca de dez anos, eu me dediquei a ler tudo o que podia sobre a Bíblia, sobre Teologia, Filosofia, Hermenêutica Bíblica. Comecei a estudar a história dos textos bíblicos, as análises especializadas de suas traduções. E, na ânsia de ser bom naquilo a que me propunha, pus-me também a estudar História Antiga, Arqueologia e outras ciências, a fim de tentar fazer como muitos cristãos delirantes, que se esforçam risivelmente no intento de conciliar o conhecimento científico com a visão teísta do mundo, sempre que possível, e de refutar tudo o que não desse para fazer convergir entre os dois.
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No entanto, os primeiros problemas, as primeiras dúvidas, a primeira centelha da razão iminente em minha vida, surgiram já nessa fase de estudo mais cuidadoso das escrituras. Foi a primeira vez em que me deparei com as discrepâncias, as contradições, os erros de tradução, as interpolações. Foi a primeira vez em que percebi as falhas e os plágios de outras culturas. Foi a primeira vez em que me lembro de ter perguntado a mim mesmo: Será?
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Coisas sem sentido que lemos na Bíblia e que não paramos para pensar a respeito
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Não vou repetir aqui toda a lista de inúmeras passagens bíblicas que fedem a uma imoralidade repulsiva, que discuti num outro artigo meu neste blog — q.v. “Das questões morais — 1ª parte”, 03/05/2008 —, mas vou dizer que foi nesta época que me deparei com cada uma delas. Contudo, não foram apenas as passagens que traziam ensinamentos moralistas mais do que condenáveis que se destacavam como falhas da Bíblia. Havia outras questões, algumas das quais quero comentar aqui.
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Na verdade, como é possível tomar conhecimento da descrição do mito sumério de Zi-ud-sura, o personagem avisado por um deus sobre a destruição do mundo numa gigantesca inundação, a fim de que construísse uma embarcação e se salvasse, ou do mito acádio de Atrahasis, também instruído divinamente a criar um barco que o salvasse da inundação punitiva que destruiria a humanidade, ou do mito babilônico descrito no Épico de Gilgamesh, onde lemos a história de Utnapishtim e sua mulher se salvando da grande inundação enviada pelos deuses para dizimar a humanidade, num barco construído sob instruções de um desses deuses, no qual Utnapishtim pôde salvar sua família, seus amigos, seus bens e seu gado, e estar ciente de que cada um destes mitos são bem mais antigos do que o livro do Gênesis, e, mesmo assim, insistir em não aceitar que a história da arca de Noé (Gên. 6:5 — 8:22) é uma óbvia adaptação dessas narrativas, ou seja, alguém contando as lendas de outros povos, seguidores de outros cultos religiosos, fazendo apenas as mudanças necessárias para encaixá-las na sua versão, onde os personagens são o seu povo e o seu deus? Dito de outra maneira, como tomar conhecimento desses mitos mais antigos e não ver que a história de Noé não teve “inspiração de Deus” coisa nenhuma?
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Como tomar conhecimento da lei de Ur-Nammu (de cerca de 2050 antes da era cristã), ou do Código de Hamurábi (1760 AEC), e não perceber que a lei de Moisés (que tradicionalmente diz-se datar de 1400 AEC) tem clara semelhança com essas leis de reis tidos por pagãos? Aliás, fica mais óbvia ainda a influência (e, portanto, a não-inspiração divina) quando sabemos que, se por um lado a história bíblica diz que a lei de Deus foi inscrita em tabletes de pedra que nunca foram encontrados até hoje, por outro lado, o código do rei da babilônia, que serviu de inspiração para quem quer que tenha escrito as leis que estão na Bíblia, foi mesmo esculpido numa estela de basalto, de quase 3800 anos, encontrada em 1902 por um arqueólogo francês, e que pode ser vista hoje por qualquer turista em visita ao museu do Louvre, em Paris. Além disso, praticamente as mesmíssimas palavras que encontramos no livro do Êxodo (20:23-25), Levítico (24:17-20) e Deuteronômio (19:21) sobre a lei de talião, que ali estão como prescrições de Deus aos homens, aparecem na lei de Hamurábi, deixando clara a sua origem: “Se um homem vaza o olho de outro homem, seu olho deve ser vazado. Se ele quebra os ossos de outro homem, seus ossos devem ser quebrados. (...) Se um homem arranca os dentes de outro seu semelhante, seus dentes devem ser arrancados” (Código de Hamurábi 196-197.200).
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Além desse tipo de conflito evidente — entre o que o estudo histórico das culturas religiosas vizinhas aos primeiros hebreus nos revela de sua influência no que veio a ser o Antigo Testamento, de um lado, e a fé cega na inspiração divina de cada página da Bíblia, de outro —, há ainda tantas questões internas, que a simples leitura mais atenta das escrituras poderia nos mostrar.
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E eu ia enfrentando cada uma dessas questões, à medida que meus estudos avançavam. E, só para citar um primeiro exemplo, algumas importunas indagações emergiram quando confrontei a narrativa da mesma história na Bíblia, conforme dois livros diferentes do Antigo Testamento.
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Em 2 Sam. 24:1, há um versículo curioso — “A ira de Yahweh se acendeu contra Israel e incitou Davi contra eles: ‘Vai’, disse ele, ‘e faze o recenseamento de Israel e de Judá’”. Inúmeras são as vezes em que lemos isso (como eu mesmo fiz por muitos anos) e não enxergamos todos os problemas que esse versículo encerra. E se vocês não entenderam, deixe-me explicar direito!
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Em Êx. 32:32-34, faz-se menção a um livro em que Deus manteria registrado o nome de cada um dentre seu povo e que conteria as ações dos homens bem como descreveria seu destino (tal como mais tarde dirão os Salmos 69:28-29 e 139:16). Um livro através do qual Deus contaria seu povo e controlaria o número dos que nascem e morrem. Em face disso, entendia-se que todo recenseamento era, portanto, uma espécie de momento em que os homens faziam algo que era uma prerrogativa divina apenas. Pois a contagem deveria ser só a que Deus fazia em seu livro, em princípio. Mas, como os homens precisavam saber quantos integravam sua sociedade, o censo acabava sendo uma necessidade de tempos em tempos. Por isso, como lemos em Êx. 30:11-12, Deus resolveu que, sempre que fosse feito um desses censos, cada pessoa contada deveria pagar um tributo a ele, para que nenhuma desgraça recaísse sobre essa pessoa — e uma pergunta que me ocorreu de pronto, mas que logo tratei de espantar da mente foi: por que Deus precisaria de dinheiro e de fazer chantagem para consegui-lo?
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Não obstante isso, os pontos realmente estapafúrdios dessa história começam aqui: 1) aparentemente, Deus considerou que o povo precisava ser punido por seus pecados (mas, se era assim, por que em vez de puni-los por algo já feito, decidiu fazê-los pecar primeiro, para depois poder puni-los?); 2) para isso, Deus usou seu poder para hipnotizar Davi, o rei, e fazê-lo obrigar o povo a passar por um novo e súbito recenseamento (o que acarretaria os problemas perante a intransigência divina citados no parágrafo anterior); 3) quando Davi saiu do transe, viu que tinha cometido “um grande pecado” (v. 10) — apesar de o texto ser claro: a culpa não foi dele, foi de Deus mesmo! —, 4) e foi quando Deus deu a ele três escolhas, para que o rei decidisse qual seria a maneira sádica pela qual o Altíssimo atormentaria o povo, que, como fica claro, era inocente nessa história: entre 7 anos de fome avassaladora, 3 meses de derrota das tropas de Davi perante os exércitos inimigos ou 3 dias de peste assassina no país, o rei foi logo dizendo que podia ser tudo menos a segunda alternativa — embora a antiga tradução grega tenha acrescentado um versículo, que não consta das outras versões, dizendo que Davi escolheu então a peste — (vs. 12-14); 5) assim, Deus mandou a peste, que dizimou 70 mil homens do povo (v. 15).
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A narrativa é tão bizarra que, muito tempo depois de o segundo livro de Samuel ter sido escrito, apareceu o primeiro livro das Crônicas, que voltaria a contar essa mesma estranhíssima história. Todavia, há um dado importante aqui, no sentido de mostrar que a Bíblia é apenas fruto dos delírios religiosos de um povo, em conformidade com a cultura de seu tempo: em algum ponto do tempo entre essa primeira versão da história, no livro de Samuel, e a segunda, nas Crônicas, a visão teológica a respeito de Deus mudou. Antes, imperava uma perspectiva monística da divindade monoteística, segundo a qual haveria apenas um deus e mais nada equiparável a ele, sendo este portanto a causa sobrenatural tanto do bem quanto do mal. Todavia, uma visão dualística foi gradualmente se impondo, resultando bem posteriormente na hoje tão conhecida batalha entre os dois super-arquiinimigos: Deus e o Diabo.
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E foi assim que o autor desse trecho das Crônicas, acabou reformulando a frase do outro livro e recontando a história, porém agora atribuindo a hipnose sobre Davi não mais a Deus, mas sim a seu recém-criado rival: “Satanás levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel” (1 Crôn. 21:1). Curiosamente, se o cronista resolveu mudar o nome do tentador de Davi, por outro lado, manteve o resto da história original, inclusive a parte em que é Deus quem lança a peste assassina sobre o povo, que na verdade não tinha feito nada de errado (v. 14).
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Em todo caso, uma pergunta passou logo pela minha cabeça, quando li as duas versões: como podemos aceitar que ambos os livros tenham sido inspirados por Deus, sendo relatos de indiscutíveis verdades históricas, uma vez que um deles afirma que a ira de Deus foi a força inspirando Davi a recensear o povo, ao passo que o outro diz que foi Satanás? Se admitirmos que um dos livros está certo, é claro que o outro estará errado — logo, por que não arrancá-lo da Bíblia, já que está ali apenas para confundir nossa fé? Por outro lado, se eu admitir que ambos estão certos, será o mesmo que dizer que vejo Deus e Satanás como sendo a mesma pessoa. A questão tornava-se complexa para aqueles que, como eu, afirmavam crer em cada página das escrituras, sem jamais duvidar de nada.
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Um outro caso: quem nunca tomou conhecimento da passagem em Gên. 19:1-11, onde se conta um episódio da vida de Ló, que resultaria na destruição de Sodoma e Gomorra? A causa da destruição também é sabida: foi por conta da tara obsessiva dos homens dali, que cismaram porque cismaram que queriam transar com dois anjos que Ló resolveu convidar a sua casa — há coisas na Bíblia que hoje leio e não sei se é para rir ou para chorar! Mas bem... Essa história, que nossas avós decerto não contariam em detalhes a suas netas, é praticamente a mesma que lemos num livro bem posterior, para ser preciso, em Juízes 19:10; só que, aqui, com personagens diferentes e cidade diferente. Mas o enredo é claramente o mesmo. Uma evidência descarada de uma história recontada, que nunca poderia ser considerada inspirada por um deus onisciente. Afinal, ele deveria saber que a história era uma cópia de outra, não é mesmo? (Lembrei-me de uma frase que li uma vez, enquanto estudava latim, brincando com uma notória frase de crítica aos erros encontrados na obra de Homero —“Quandoque bonus dormitat Homerius” — que alguém reformulou assim: “Quandoque Sanctus dormitat Spiritus”, isto é, “O Espírito Santo às vezes cochila”.)
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Com efeito, às vezes, até mesmo uma passagem aparentemente normal na Bíblia pode trazer informações que não fazem sentido, que não batem de jeito nenhum, quando resolvemos avaliar melhor o que dizem. E eu pude perceber isso várias vezes.
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Por exemplo, em Marcos 5:1-13, Lucas 8:26-33 e Mateus 8:28-32, lemos o relato do exorcismo praticado por Jesus, com que libertou um homem de uma legião de demônios. Conhecemos bem a história: os supostos demônios do homem são transferidos para uma vara de porcos que pastavam por perto do local onde Jesus exorcizava o sujeito, e estes então partem desembestados e se jogam no mar da Galiléia (também chamado de Lago de Tiberíades ou Lago de Genesaré). Os pontos curiosos que chamaram minha atenção e que muitos ignoram começam aqui: enquanto Marcos e Lucas dizem que tais acontecimentos se deram “na região dos gerasenos”, isto é, nos limites da vila de Gerasa, atual Djerash, Mateus situa os fatos no “país dos gadarenos”, ou seja, nos limites de Gadara. Acontece no entanto que a contradição de locais entre os autores não é o mais notável nestes textos, mas sim o fato de que, caso os dois primeiros estejam certos, mais impressionante do que o milagre da expulsão de tantos demônios de uma só vez seria a constatação de que Jesus fez desses porcos os mais obstinados a cometer suicídio de que já se ouviu falar — pois, afinal de contas, eles tiveram de correr nada menos do que 50 Km para poderem enfim se matar no lago, já que esta é a distância que separa Gerasa do mar da Galiléia! Diante disso, talvez a solução seja esquecer o que Marcos e Lucas dizem e ficar com Mateus. Só que tampouco este evangelista se sai bem ao contar essa história.
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Gadara, a cidade onde Mateus diz ter acontecido o exorcismo, encontra-se por sobre uma íngreme colina, a quase 10 Km a sudeste do lago, tendo entre este e a cidade um vale profundo, entrecortado por um rio de águas turbulentas. Logo, se a história deste autor estivesse correta, os porcos seriam também aqui verdadeiros camicases. Afinal, teriam descido a ladeira, atravessado esse rio violento, subido a encosta do vale do outro lado, num percurso total de quase dez mil metros, para finalmente se jogar no mar. Tal versão não faz mais sentido do que a dos outros dois mencionados acima. (Sem falar que, na história de Mateus, ainda há o detalhe de que os demônios em questão estão no corpo de dois homens, não de um só, como nos outros evangelhos.)
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Diante desses dados desconcertantes, eu até tentei me apoiar em alguns defensores da verdade bíblica, que procuram explicar que, na realidade, os fatos narrados aconteceram na vila de Gergesa (ou Ghersa, Kersa, Kursi ou Corsi, dependendo do autor), uma vila bem mais próxima à costa. Mas o certo é que toda a argumentação deles, tão dependente de interpretações de dados que não estão nos textos bíblicos, levava-me era a perguntar mais coisas, como: que coerência há em nosso comportamento se resolvemos nos agarrar a dados externos sempre que ajudarem a defender a suposta historicidade da narrativa bíblica, mas rejeitá-los completamente toda vez em que mostrarem que o que lemos nas escrituras não bate com as evidências históricas e arqueológicas? Perguntas assim me assombravam, naquela época.
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Bem, vejamos mais um caso desse tipo — o último que vou citar aqui, para não me alongar demais neste assunto cujos exemplos não faltam. Diz respeito ao relato mais importante de toda a história do cristianismo, ou seja, a suposta ressurreição de Jesus.
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Durante meus estudos, entendi a importância de se procurar ordenar os livros da Bíblia de forma cronológica, a fim de analisar o avanço gradual das idéias religiosas por trás dos textos. Por isso, uma datação precisa ficar clara aos que pouco conhecem sobre a história da Bíblia. Como vim a tomar conhecimento, ao contrário do que a disposição dos livros ao longo do Novo Testamento sugere, não foi o Evangelho de Mateus o primeiro a ser escrito. A ordem cronológica em que esses textos foram produzidos é a seguinte, conforme aceitam a imensa maioria dos estudiosos: Marcos (por volta do ano 70 da era cristã), Lucas (entre 80 e 90 EC), Mateus (entre 80 e 100 EC) e finalmente João (entre 95 e 100 EC). Além disso, é importante saber que Mateus e Lucas contaram com o evangelho de Marcos, para escreverem suas próprias versões. O de João já não traz essa relação clara, daí o porquê de suas histórias sobre Jesus serem muito freqüentemente distintas das que encontramos nos outros três livros.
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Pois bem! O fato é que, uma coisa que eu nunca havia feito até então, após ordenar devidamente os evangelhos, resolvi ler de forma consecutiva o que os quatro dizem ao narrar os acontecimentos na manhã do domingo da suposta ressurreição. E tive uma grande surpresa! Explico o porquê:
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1) Se lermos a narrativa contida em Marcos 16:1-8, ficamos sabendo que as mulheres chegaram no túmulo de Jesus, onde haviam ido para ungir o cadáver com aromas, e encontraram a pedra que o lacrava removida, nenhum guarda presente, e um jovem vestido com uma túnica branca, que estava lá dentro. Foi ele quem disse a elas que o corpo não estava mais ali, que Jesus havia ressuscitado e ido embora para a Galiléia.
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2) Quando lemos a mesma história em Lucas 24:1-6, as mulheres chegam ao túmulo vazio, sem nenhum guarda presente, e lá encontram dois homens com vestes fulgurantes, que fazem o papel do moço no livro de Marcos.
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3) Na versão encontrada em Mateus 28:1-7, as mulheres chegam ao túmulo ainda lacrado. Então, um anjo descendo do céu em roupas alvas como a neve remove a pedra, diante dos olhos delas. Os guardas ainda estavam ali, de vigia, e ficam apavorados com a aparição. Apesar de o túmulo ter acabado de ser aberto, Jesus já não está lá dentro. O anjo então diz às mulheres que ele ressuscitou e foi-se para a Galiléia.
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4) Finalmente, a versão de João 20:1-18 diz que Madalena (só ela) chega ao túmulo e o encontra aberto e vazio. Procura Pedro e outro discípulo e informa-lhes que roubaram o corpo. Pedro e o outro vão ao túmulo e encontram apenas os panos de linho que cobriam Jesus bem como o sudário que envolvia sua cabeça. Os dois voltam para casa. Madalena continua ali, chorando. Nisso, ela avista dentro do túmulo dois anjos vestidos de branco e fala com eles. Em seguida, conversa com o próprio Jesus ressuscitado, que também aparece por ali, sem que ela o reconheça a princípio. Enfim, ela percebe que é Jesus, e este lhe pede que conte aos outros que estiveram juntos.
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O que se verifica facilmente é que, à partir da história de Marcos, escrita mais de 40 anos depois da data em que Jesus teria morrido, e que nos apresenta um jovem vestindo uma túnica branca, passamos pela versão de Mateus, acrescentando a tradicional imagem dos guardas de vigia, até culminarmos na visão alucinada de João, em que estão ali dois anjos de roupas brancas, além do próprio Jesus em pessoa. A impressão que se tem é que, à medida que passaram os anos e surgiram as novas versões, tudo fez valer o velho ditado popular que diz: “Quem conta um conto, sempre aumenta um ponto”.
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Aliás, há mais um detalhe quanto a isso, no tocante ao texto de Mateus, que fala dos guardas. Este evangelista diz que, assim que foram informadas por um anjo que Jesus havia ressuscitado, as mulheres foram atrás dos apóstolos, porém, no caminho foram interceptadas pelo próprio nazareno ressurreto, a quem todas abraçaram, caindo em seguida de joelhos diante dele. Nesse momento, o autor narra que Jesus lhes diz as seguintes palavras: “Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia; lá me verão” (28:10).
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A este versículo, segue o seguinte trecho:
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Enquanto elas iam, eis que alguns da guarda foram à cidade e anunciaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que acontecera. Estes, depois de se reunirem com os anciãos e deliberarem com eles, deram aos soldados uma vultosa quantia de dinheiro, recomendado: “Dizei que os seus discípulos vieram de noite, enquanto dormíeis, e o roubaram. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e vos deixaremos sem complicação”. Eles pegaram o dinheiro e agiram de acordo com as instruções recebidas. E espalhou-se essa história entre os judeus até o dia de hoje. (28:11-15)
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Bem, qualquer leitor atento poderá perceber, como eu então percebi, o problema que temos aqui: este trecho todinho foi interpolado no Evangelho de Mateus, muito tempo depois de o texto já existir. E como se pode concluir isso? Simples: 1) o versículo 15 deixa claro que a passagem não foi escrita por um judeu (e o evangelista, quem quer que tenha sido, foi um judeu que tentou fazer de tudo para conciliar a narrativa da vida de Jesus com as profecias do Antigo Testamento), além do que, a expressão “até o dia de hoje” deixa claro que quem escreveu essa parte estava fazendo-o muito, muito tempo depois daqueles supostos eventos; 2) nem Marcos nem Lucas nem João falam qualquer coisa sobre esse suposto suborno aos guardas; 3) como o evangelista poderia saber o que foi combinado entre os sacerdotes e os soldados, já que com certeza ele não estava presente nessa suposta reunião?
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Além disso, basta ler o texto, pulando esse trecho inteiro, para ver como a história apresenta clara continuidade, ao passo que o trecho quebra todo o ritmo narrativo. Passado do versículo 10 para o 16, temos:
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Então Jesus disse: “Não temais! Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galiléia; lá me verão” (...) Os onze discípulos caminharam para a Galiléia, à montanha que Jesus lhes determinara. Ao vê-lo, prostraram-se diante dele. (28:10.16-17)
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Como se vê sem muito esforço, algum espertinho achou que a versão original de Mateus não estava boa o bastante — ou, em outras palavras, não contava lorotas o suficiente — e resolveu adicionar ali esse trechinho, que ajudou ainda mais a fomentar nos cristãos seu ódio assassino pelos judeus, que perdurou até bem pouco tempo atrás; sendo que hoje os judeus estão tendo a chance de praticar o mesmo contra os palestinos muçulmanos, que, por sua vez, não deixam barato e devolvem na mesma moeda, resultando tudo neste caos interminável que vemos nos noticiários diariamente.
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No fim, todos os exemplos que citei até agora são apenas algumas das coisas mais óbvias que o estudo mais cuidadoso da Bíblia me possibilitou enxergar. Há muitas outras coisas mais complexas, no âmbito da tradução de originais ou no da interpretação hermenêutica, em que não vou me aprofundar aqui. O que me interessa deixar claro é que, quando comecei a estudar a Bíblia com cuidado e meticulosidade, a fim de me tornar um apto conhecedor de seu conteúdo, deparei-me com um livro forjado, imoral e enganador, que nunca poderia ter sido fruto de uma inspiração divina. Esse foi o primeiro baque que levei em minha fé outrora inabalável.
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O cristão sem Bíblia e sem religião
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Ao deparar-me com inutilidade das escrituras, minha fé ainda persistia. Afinal, ainda havia as grandes questões. Como surgiu o universo? Como explicar a complexidade da vida? Enquanto meus estudos de Física Teórica e Biologia ainda engatinhavam, vivi uma esquisitíssima fase de “cristão moderado” — que é o que vejo hoje como sendo na verdade o estado de inércia de um crente perdido no meio do fogo cruzado em sua mente. O duelo entre a racionalidade imponente e a credulidade enraizada.
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Nessa época, resolvi creditar tudo o que fosse sobrenatural ao campo pseudocientífico do parapsicológico: havia algo em nossas mentes (como se fôssemos algum daqueles X-Men dos gibis) que causava qualquer coisa que alguém aparecesse dizendo ser um milagre divino. Assim, parei de me preocupar com anjos e demônios, e passei a adotar uma visão bem “politicamente correta” — expressão que pode muitas vezes ser traduzida por factualmente incorreta — em que eu estava pronto para respeitar todas as religiões do universo, até a cientologia do Tom Cruise e o culto primitivo à pobreza de espírito do funk carioca. Eu acreditava que havia um Deus por trás do mundo e da vida, e a figura de Jesus me inspirava, particularmente, como um revolucionário político, um Che Guevara galileu — sim, sim... perdido como eu estava, acabei comprando o peixe da Teologia da Libertação! (Creindeuspai!)
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Mas essa fase — para o bem da minha sanidade mental e num prazo assaz curto para que eu tivesse tido tempo de fazer muita coisa de que me envergonharia hoje (já que conciliar marxismo com religião é uma forçação de barra ridícula por demais!) — não sobreviveu à minha paixão pelas ciências naturais, que finalmente aconteceu, na hora em que comecei a entender melhor o que ela tinha a trazer para a minha vida. Se a Arqueologia já havia me ajudado a perceber que muitas coisas na Bíblia não poderiam ser verdades históricas, a compreensão da mecânica clássica de Newton, da teoria da relatividade de Einstein, dos modelos recentes de expansão do Universo, dos princípios da Termodinâmica, os estudos sobre a natureza dos buracos negros, realizados por Hawking, a teoria quântica, tudo isso ajudou-me a entender duas coisas importantes:
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1) A teoria do Big Bang é de fato a que apresenta maior índice de dados corroborantes até o momento, a fim de explicar como o universo pode ter surgido; todavia, não é uma teoria definitiva (o próprio Stephen Hawking, em seu livro Uma Nova História do Tempo, reconhece: “Quando combinamos a mecânica quântica com a relatividade geral, parece existir uma nova possibilidade que não surgiu antes: que, juntos, os espaço e o tempo poderiam formar um espaço quadridimensional sem singularidade nem contornos, como a superfície da Terra, mas com mais dimensões. Parece que esta idéia poderia explicar muitas das características observadas do universo, tais como sua uniformidade em larga escala e explicar também os desvios de homogeneidade em pequena escala, inclusive galáxias, estrelas e até seres humanos” — HAWKING, Stephen & MLODINOW, Leonard. Uma Nova História do Tempo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, pág. 143s).
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2) Em todo caso, quer o Big Bang seja definitivamente confirmado em seus mínimos detalhes, quer um novo modelo de espaço-tempo surja de uma iminente teoria unificada da Física, a partir da fusão da teoria quântica com a relatividade geral, o fato inegável é que a ciência avança cada vez mais em sua compreensão do cosmo, em seu entendimento de como tudo surgiu (ou não surgiu, no caso do universo auto-contido proposto por Hawking, sem começo nem fim), e progride de uma maneira fascinante, séria e bem fundamentada. Logo, já não era mais difícil para mim perceber que é totalmente descabido apelar para a figura de um Deus criador que vá nas lacunas ainda não preenchidas pelo atual estágio do conhecimento físico do universo. Na verdade, quando paramos para refletir bem sobre a questão, a hipótese de um complexo “designer inteligente” original não fornece uma resposta; pelo contrário, ela lança contra nós um problema ainda maior: como explicar a existência de tal ser? Apelar para os clichês do tipo “Isso é um mistério insondável!” é uma atitude inútil e infantil.
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No entanto, foi através de meus estudos de Biologia que minhas últimas respostas foram encontradas. Entender o que realmente queria dizer a teoria de Darwin foi um dos momentos mais marcantes de minha vida. Só de lembrar ainda fico comovido, eu confesso! Aquele foi um momento de libertação em minha jornada pessoal. Foi quando se abriram as portas do calabouço escuro da ignorância para a luz extasiante da razão! Eu entendia finalmente como vim a existir, encontrei enfim o meu lugar no mundo! Pela Biologia, também pude compreender que toda a complexidade dos organismos viventes não significa perfeição: pude tomar conhecimento de todos os nossos “defeitos de fabricação”, nossos vestígios de uma evolução não-racional, de nosso desenvolvimento cumulativo não projetado por nenhuma inteligência superior. Pude entender que, nos organismos, seus traços não deixavam base de sustentação para nenhum “design inteligente”. Compreendi como somente a seleção natural oferecia uma explicação condizente com todos os detalhes observados e observáveis.
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Conclusão: o ateu definitivo
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É... Já faz algum tempo desde então! E o que hoje me é tão claro, tão lógico, tão cristalino, parece simplesmente insondável para aqueles que ainda não atingiram a idade da razão. É como numa cena estapafúrdia que uma vez usei para ilustrar a situação, em que eu aponto alguém na rua e digo à pessoa a meu lado: “Aquele cara ali é primo do meu pai — meu bisavô é avô dele!” E então o outro com quem converso, coça a cabeça e pergunta: “Como assim? Você não se parece com esse cara!”
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Entendem agora? É disso que eu falo: como assim? Eis o quanto a ignorância nos torna míopes. Eis o quanto ela já impediu também a mim de enxergar o óbvio, no passado. Afinal, é claro que não me pareço com meu parente distante. Nem deveria! O fato de termos um ancestral comum não significa que somos idênticos. Mas por um motivo idiota, simplesmente sem pé nem cabeça, toda vez que falamos que não acreditamos num Deus criador, e defendemos o processo evolutivo, alguém (como eu mesmo, em outros tempos) vem logo dizendo a frase batida e reveladora do quanto desconhecemos das coisas: “Então você acredita em quê? Que o homem veio do macaco?”
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De novo, de novo e de novo a mesma pergunta maldita, que expõe nossa imbecilidade crônica, resultante em grande parte da péssima qualidade do ensino que recebemos, combinada à cegueira religiosa quanto ao mundo ao nosso redor. Eis um sintoma patente da infecção por esse vírus da ignorância, que faz com que insistamos em não entender um conceito simples: que dizer que homens e macacos já tiveram um ancestral comum não significa que sejam a mesma coisa. Apenas são parentes distantes. No caso dos símios, sobretudo dos chimpanzés, nem tão distantes assim — quando se sabe que temos em comum com estes nossos “primos”, por exemplo, entre 98% e 99 % de nosso DNA. (Obs.: E já vou logo deixando claro que, do ponto de vista da Genética, dizer que homens e chimpanzés têm apenas uma diferença de 1% no total de seu DNA significa muita coisa; serve para montar uma árvore genealógica baseada em nossa ancestralidade comum, no nosso nível de parentesco, mas não significa dizer que somos semelhantes — na verdade, em teoria, poderíamos até mesmo ter genes 100% diferentes dos de um chimpanzé, com diferença de 1% em cada um deles.)
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O que nos impede de entender isso, o que nos impede de aceitar isso, é tão-somente ela: a Ignorância, deusa da credulidade humana! E, quando estamos metidos nas bitolas alienantes da religião, ela nos faz espantar com dados assim. E é como me deparo com tantos hoje em dia que me perguntam, boquiabertos, se eu acredito mesmo na evolução, ao passo que vão logo dizendo que eles não acreditam. Não vêem a falta de coerência em suas próprias palavras. Não percebem que é mais ou menos como se dissessem que não acreditam em aritmética ou que o Brasil seja um país da América do Sul.
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Não enxergam a grande diferença: que eu posso dizer que não acredito em duendes — afinal não sou a Xuxa! —, mas que não faz sentido algum dizer que não acredito que a madeira de um guarda-roupas um dia já foi parte de uma árvore. Tal como no caso da evolução, essas coisas são fatos! Elas não estão ali, como um santo de barro, esperando você acreditar ou não que ele seja real e tenha poderes milagrosos. Você acreditar ou deixar de acreditar nessas coisas não muda nada, pois elas são reais. Mesmo para você!
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A jornada foi longa e árdua, mas atingi a idade da razão: tornei-me ateu, ciente de meu lugar no mundo. E encontrei serenidade neste estágio definitivo de minha vida. Ao contrário do que muitos crentes julgam, o ateísmo não é uma perspectiva niilista da vida, não é o desgosto diário de uma existência sem razão de ser. Para aqueles que precisam se agarrar à religião, como um aleijado que precisa de muletas para se apoiar, manter-se em pé, talvez um mundo sem Deus possa parecer algo vácuo, triste, sem sentido. Mas não é assim! Não acreditar num ser supremo nem em vida após a morte não faz da minha existência terrena um esgoto fétido, sem beleza alguma. Aliás, a crença numa vida besta de adoração eterna a um Deus tirânico, num “paraíso” espiritual, só é atraente para mentes perturbadas pelo delírio da fé, impedidas de refletir sobre o fato de que já lhes é custoso assistir a duas horas de missa ou de culto dominical, que dirá passar um tempo infinito participando de um rito de adoração infernal, que nunca acaba! Apenas mentes masoquistas encontrariam gozo num tormento assim.
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Por outro lado, ser ateu é dar-se a chance de ver as cores vivas do mundo através das lentes da ciência e entender o quanto isso é simplesmente inspirador! É viver livre da tirania de um Deus ególatra, que exige contínua adoração de todos os que o criaram em suas mentes infantis, enquanto se deixam escravizar por um mito que se perpetua graças ao medo que as pessoas têm de morrer. Ser ateu é entender que não há razão para temer a morte, quando se compreende o que é estar vivo, o que significa estar aqui, a imensa sorte que tivemos. É como as palavras de Dawkins, no primeiro capítulo de seu cativante Desvendando o Arco-Íris:
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Nós vamos morrer, e isso faz de nós afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar aqui em meu lugar, mas que na verdade nunca vão ver a luz do dia, são mais numerosas do que os grãos de areia do Saara. Com certeza, esses fantasmas não-nascidos incluem poetas maiores do que Keats, cientistas maiores do que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas por nosso DNA excede em muito o conjunto das pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos você e eu, com toda nossa banalidade, que estamos aqui (DAWKINS, Richard. Desvendando o Arco-Íris. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 17).

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Ser ateu é, sob a luz da razão, ver a beleza das coisas. As mesmas que a fé nos priva de ver, em sua ignorância obscura.
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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Entre o sexo e o amor: uma perspectiva da natureza humana

por Júnior Camilo
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Bem, estava demorando! Chegou a hora de eu começar a discutir dois temas inegavelmente relacionados (ainda que não necessariamente na medida em que muitos o supõe) e um tanto controversos sobre nossa natureza: o sexo e o amor. Quando digo que vou começar a discutir a questão, isso não quer dizer que o texto abaixo será um artigo conciso. Na verdade, concisão nunca foi muito o meu forte, preciso confessá-lo! E, na hora de falar de sexo e de amor, acho que alguns poucos parágrafos seriam mesmo de uma inutilidade risível, visto que nossa espécie (Homo sapiens sapiens) já habita o planeta há 195 mil anos e até hoje ainda não conseguimos chegar a uma conclusão unânime sobre esses dois tópicos — e olhe que não foi por falta de discussão, hein!
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Assim, aos leitores mais preguiçosos, que nem se deram ainda ao trabalho de mover a barra de rolagem para baixo, um aviso: este é o maior texto que já postei neste blog! E o motivo, como já comecei a justificar, deve-se muito ao fato de que o ser humano não está no mundo desde ontem apenas; portanto, se quisermos entender um pouco o longo percurso que nos trouxe até aqui, não dá para pegar o livro pelo epílogo, como os preguiçosos e ignorantes gostam de fazer. Temos que partir do prólogo, da “aurora do homem”, como a tornaram clássica Arthur C. Clark e Stanley Kubrick (lembram-se do ato inicial de 2001: Uma Odisséia no Espaço?). E o prólogo, sobretudo para aqueles que compreendem o valor dos estudos da Biologia atual, significa retroceder algumas boas centenas de milhares de anos na história natural deste planeta.
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Para introduzir o assunto, é importante ter em conta que um dos pilares teóricos mais do que bem comprovados — e, portanto, solidificados — das ciências neodarwinistas de nossos tempos é o de que a vida gira em torno dos genes, pelo menos no sentido de que ela persiste e evolui à medida que o processo auto-copiador dos genes de um organismo consegue ser bem-sucedido. E é neste sentido que devemos entender o que Richard Dawkins quer dizer, em seu famoso livro de 1976, ao falar em gene egoísta, isto é: uma metáfora inteligente, mas, ainda assim, uma figura de linguagem. (De fato, apesar de ele mesmo ter escrito inúmeros artigos posteriores enfatizando bem esse detalhe — de que o gene não é denotativamente egoísta —, ainda há gente que se finge de desentendida, no intento ridículo de tentar encontrar algum problema na teoria. Um esforço patético e inútil, no entanto, uma vez que a teoria está muito bem amparada em pesquisas posteriores, mais de 30 anos depois do lançamento da obra.)
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E quanto à idéia, não há nada muito complexo, em princípio: os genes de todos os seres viventes apresentam um modus operandi “egoísta” — tal como um programa de computador (um vírus eletrônico, por exemplo), eles executam continuamente a programação escrita dentro deles (no caso, em seu DNA), que simplesmente objetiva levar o gene a fazer infinitas cópias de si mesmo e garantir sua dispersão pelo ambiente natural. Se um gene obtém sucesso reprodutivo, é óbvio que cada efeito ou estrutura orgânica que produziu, bem como toda atividade comportamental que desencadeou, são preservados, visto que garantiram seu sucesso reprodutivo. Por outro lado, qualquer efeito negativo produzido por um dado gene, que comprometa seu sucesso auto-copiador, com certeza leva à extinção do organismo de que faz parte, isto é, do organismo que o gene utiliza como veículo e instrumento para sua reprodução e disseminação. A lâmina afiada regulando o que se preserva e o que se extingue é a nossa velha conhecida seleção natural, descoberta no século 19 pela mente genial de Charles Darwin.
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Bem, então, a partir do surgimento das primeiras estruturas orgânicas auto-copiadoras, há milhões e milhões de anos, eis que adentramos a era dos genes! E, de seu sucesso reprodutivo, chegamos à era dos primeiros primatas, um dos quais tomaria um curso evolutivo que colocaria, no futuro, um seu descendente diante de um computador, digitando estas linhas em que lhe faço uma breve menção. (Afinal, em vez da repulsa com que muita gente ignorante ainda se recusa a admitir a evolução, eu preciso ser grato ao “macaco” que foi meu tataravô — sem ele, eu não estaria aqui!)
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Em todo caso, se é neste ponto, no surgimento ancestral dos primatas, que começa a história humana, é onde devemos abrir o livro e começar nossa leitura atenciosa.
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O ambiente ancestral
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Primeiramente, atentemos para o cenário: um mundo selvagem, desprovido do conforto (tanto quanto do desconforto) da sociedade moderna, onde nossos cérebros em desenvolvimento, numa era muito anterior ao advento das pílulas anticoncepcionais e das camisinhas, obedeciam muito mais passivamente ao impulso instintivo para a procriação que hoje reconhecemos facilmente nos animais, mas temos uma certa tendência a fingir que inexiste em nós. Ou melhor, para nós ele existe sob outra forma: os animais têm cio, têm instinto para a procriação; nós temos desejo, temos libido, temos vontade de sexo! Tudo bem! Em termos relativos, podemos até admitir que isso seja mesmo verdade, mas não necessariamente uma verdade excludente da realidade anterior, que está na base da moderna configuração de nossa psicologia comportamental, segundo uma abordagem darwinista da expressão. O “disco” sobre o qual o novo programa foi inscrito é o mesmo de antes de nossos mais remotos ancestrais hominídeos terem vindo habitar as escuras cavernas do Paleolítico.
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Logo, é hora de pararmos para avaliar o comportamento sexual de nossos parentes de longa data e buscar compreender um pouco como eram nossos antigos “eus-primatas”. Para isso, vamos tomar as três espécies mais aparentadas conosco hoje em dia: os chimpanzés (com os quais, para citar uma evidência de parentesco, compartilhamos todos os 146 animoácidos presentes na cadeia beta da hemoglobina); os gorilas (que diferem de nós em apenas 1 aminoácido nesta mesma cadeia), e os gibões (em cuja hemoglobina a diferença em relação a nós é de apenas 2 aminoácidos na referida cadeia).
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Chimpanzés
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Dentre eles, os machos vivem em combate. Lutam para galgar uma hierarquia masculina que é longa e cujo topo não é muito fácil de alcançar, e aquele que ali consegue chegar torna-se o macho dominante ou alfa, como é mais normalmente conhecido entre os estudiosos. Todavia, se por um lado o macho-alfa goza de prioridade sexual perante as fêmeas, algo de que desfruta com notável vigor quando elas estão ovulando, por outro lado vê-se numa vida sem descanso, em que tem de proteger seu posto o tempo todo, por meio de ataques físicos, de intimidação e de muita astúcia. Detalhe relevante: se o macho-alfa pode possuir qualquer fêmea que queira, isso não quer dizer que ela tenha preferência por ele, mas sim que ele espanta os rivais, mantendo-os à distância. E cito isso porque, embora os machos demonstrem um (biologicamente compreensível) apetite sexual compulsivo, as fêmeas, por sua vez, mesmo não fazendo tanto esforço quanto eles na busca de sexo, não ficam muito atrás. Elas adoram sexo e, em alguns momentos, podem até ser aquelas que tomam a iniciativa para começar o ato. Nesse sentindo, as fêmeas também demonstram ser de uma promiscuidade espantosa, sendo muito facilmente atraídas para uma vida sexual desregrada, com variados parceiros — na verdade, o que acontece é que elas costumam passar a perna no macho-alfa de vez em quando, “traindo-o” com outro chimpanzé que espertamente ficou por ali, ao redor, buscando atraí-la sem que o macho dominante notasse. E esse tipo de escapadinhas das fêmeas acontece com notável freqüência. Dessa maneira, o que temos no fim é, de um lado, machos sexomaníacos, que fazem o diabo a quatro, muitas vezes botando o pescoço em risco (inclusive aqueles que não são alfa e arriscam-se como “sedutores” nos domínios do outro), para conseguirem sexo, e, de outro lado, as fêmeas: em geral sexualmente “comprometidas” com o macho-alfa, apreciadoras de sexo (e dando suas puladinhas de cerca com considerável freqüência), tendo de investir menos na busca deste, uma vez que os machos já fazem o trabalho pesado, vindo até elas.
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Gorilas
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Entre os gorilas, a coisa é um pouco diferente. Via de regra, eles se organizam em bandos que vivem isoladamente. E a estrutura do bando é normalmente a seguinte: um macho dominante rodeado de várias fêmeas adultas, além dos filhos destas e, muitas vezes mas não sempre, uns poucos machos jovens. No entanto, a situação é clara: no reino dos gorilas, apenas o macho dominante tem acesso sexual a todas as fêmeas. O possíveis machos jovens que venham se integrar ao bando sabem se comportar direitinho e obedecem a regra — ainda que, na velhice do gorila dominante, quando seu vigor começa a declinar, este aceite compartilhar algumas fêmeas com os mais jovens, como moeda de troca para garantir apoio contra a invasão de seu bando por gorilas intrusos, que tentam vir roubar suas fêmeas. Quando o líder morre, os mais jovens vão disputar a liderança — e assim que ficar firmado o novo dominante, os demais passam a respeitar sua posição no bando. Logo, um detalhe é importante ressaltar: os gorilas vivem numa espécie de regime polígamo, com várias fêmeas limitando-se a relações sexuais com um único macho dominante. Obs.: Embora tal poligamia, ou mais precisamente poliginia (um macho com várias fêmeas), seja a regra, isso não impede que uma fêmea, no evento de um macho invasor trocar ameaças ou travar uma luta com o líder de seu bando, fique tão impressionada pelo desafiador que acabe decidindo ir embora com ele. Isso acontece, embora não com tanta freqüência. Em todo caso, o nível de promiscuidade feminina é menor entre esses primatas.
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Gibões
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Caso um tanto curioso é o dos gibões, espécie cujos ancestrais separam-se dos nossos na árvore evolutiva há 20 milhões de anos. Em algum estágio de sua evolução a partir desse ponto, as circunstâncias em tornos dos gibões levaram-nos, por meio da seleção natural, a desenvolver um comportamento sexual monógamo, fiel e devotado à prole, de um jeito jamais visto nas demais espécies primatas. O macho normalmente permanece junto da fêmea com que teve filhos e ajuda-lhe a tratar deles e a protegê-los, investindo fortemente nestes. Numa espécie de gibões, os machos chegam a ficar carregando os filhotes nas costas de um lado para o outro, coisa que simplesmente não se verifica entre outros macacos machos. E um fato interessante por si só é que os casais de gibões costumam ficar cantando em voz alta um longo dueto, toda manhã, só para deixar claro aos possíveis “sedutores, destruidores de lares” que estão muito bem em sua harmonia conjugal, mantendo sua estabilidade familiar. Tendo fracassado em meu primeiro casamento, chego a ter inveja desses bichos, sabiam?
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Bem... Uma vez que discutimos por alto o comportamento sexual dessas três espécies tão aparentadas conosco, resta fazer uma observação e uma indagação.
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A observação é que, tanto entre as fêmeas quanto (mais comumente ainda) entre os machos de todas as três espécies acima, não são raros, muito menos inexistentes, os atos homossexuais. Como eu já citei num dos textos do meu blog — q. v. “Está escrito: ‘Deus odeia bichas!’” —, já foram observados os seguintes comportamentos dessa natureza nessas espécies, principalmente entre os machos: macho sendo montado por outro (chimpanzés); monta com penetração anal levando à ejaculação (gorilas); masturbação recíproca podendo levar à ejaculação (gibões). Isso, além de algumas carícias genitais mútuas praticadas por suas fêmeas. No fim, o fato certamente se deve, como eu discuti no mencionado texto, a um provável componente genético na definição da orientação sexual dos seres vivos, em especial na criatura de sexualidade mais complexa de todas: nós, humanos, os únicos que têm um comportamento sexual submetido a um cérebro equipado com um aparato mental de moralidade desenvolvida.
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Em todo caso, a pergunta que devemos fazer agora é: com qual das três supracitadas espécies de primatas aparentados a nós temos maior identificação, em termos de nossa própria natureza comportamental em relação ao sexo? Para pensarmos na resposta, precisamos observar mais detidamente os seres humanos, em termos biológicos.
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Hoje sabemos que todos os organismos, inclusive nós, são simplesmente veículos para a transmissão dos genes que os desenvolveram. Em virtude disso, as características físicas e comportamentais de um organismo apresentam-se atualmente como um conjunto de elementos bem-sucedidos neste propósito, haja vista terem sobrevivido à inexorabilidade da afiada lâmina da seleção natural. Assim, não há dúvida de que favoreceu nossa reprodução genética o sucesso de genes que, por exemplo, resultaram, por meio de gradações lentas ao longo das gerações, no efeito cumulativo que fez evoluir em nós nossos admiravelmente complexos olhos, inegavelmente úteis e vitais. Do mesmo modo, os genes que atuam fazendo desenvolverem-se características no âmbito de nossa sexualidade obviamente obedecem a uma programação básica equivalente: como somos seres de reprodução sexuada, somos programados para gostar de sexo e correr atrás dele. Mas como essa programação se deu de fato no ambiente ancestral?
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A natureza sexual humana
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Bem, pensemos no seguinte: quantas mulheres um único homem poderia engravidar por ano, caso não houvesse nada que o impedisse de transar com qualquer uma que visse à sua frente? Bem, considerando que ele poderia transar com mais de uma por dia (conheço um cara que, em nosso tempo e com todas os empecilhos existentes, transou com quatro mulheres num só dia), além do fato de que o papel do homem na fecundação termina na ejaculação, não seria nenhum exagero apostar num número ainda acima dos 365 dias que constituem um ano. Potencialmente falando, não seria impossível que um homem engravidasse mil mulheres no prazo de um ano. É óbvio que este é um cálculo em termos estritamente potenciais.
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Antes de prosseguir, deixe-me abrir um parêntese para uma nota importante: como já disse, a programação básica de nossos genes visam à reprodução genética. Nossos genes não têm consciência; eles têm, sim, um conjunto de comandos programados para executar, cujo objetivo é promover a auto-replicação do programa original e sua disseminação no meio genético. É claro que a linguagem computacional aqui é metafórica, mas ela serve para nos dar uma idéia de que nossos genes não são bichinhos amiguinhos, felizes e saltitantes dentro de nós. Nossos genes visam executar um programa inscrito em seu DNA de forma eficiente; portanto, isso equivale a dizer que eles não estão nem aí para a felicidade pessoal do organismo que os carrega. Em outras palavras: nossos genes não se importam se estamos sorrindo ou não; sua única meta é nos ver procriando, isto é, passando adiante nossos genes!
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Feita essa observação que julgo ser de extrema relevância aqui, continuemos a pensar na programação básica do homem. Não é difícil concluir que, levando-se em conta o interesse dos genes e a potencialidade do macho para fertilizar inúmeras fêmeas, seria muito condizente com o interesse genético masculino que ele tivesse um comportamento tanto promíscuo quanto pouco seletivo — afinal, quanto mais mulheres um único deles conseguir engravidar, tanto maior será seu legado genético sobre a terra. E podemos de fato constatar ainda hoje os resquícios de tal programação primordial, quando vemos homens não raro bem dispostos a transarem com qualquer mulher (gorda ou magra, feia ou bonita, alta ou baixa, velha ou jovem, etc.), quando ficam excitados. Isso é ocorrência comum principalmente em festas ou boates, quando já está tarde da noite e o sujeito ainda não conseguiu “pegar ninguém”. Um ditado jocoso, naturalmente aceito entre os homens em suas conversas em mesa de bar, pois é descritivo de um comportamento normal entre eles, é: “Depois da meia-noite, meu chapa, a gente chama até urubu de meu louro!” E o pior é que chama mesmo!
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Mas e a mulher? Como são as coisas em relação à ela?
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Ora, é conveniente adotarmos um critério parecido para começar a avaliar o comportamento sexual feminino e sua programação original. Logo, a pergunta se volta agora para ela: quantas vezes uma mulher pode engravidar ao longo de um ano? Resposta indiscutível: uma vez!
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Pesados os fatos, fica óbvio o ônus muito maior que a natureza depositou por sobre os ombros da mulher em seu papel reprodutivo. Enquanto o homem vem, transa, goza e parte para outra, cabe a ela enfrentar nove longos e penosos meses de gestação — para não falar do fato de que dá à luz uma criança que nasce a mais frágil dentre todos os filhos de primatas, em virtude de ser expelida precocemente por força de nosso recém-ajustado posicionamento ereto na natureza, que tornou a anatomia feminina mais complicada para a saída de um bebê com o grande volume craniano que os humanos adquirem já no primeiro ano de vida (aliás, é por isso que nossos nenéns têm uma cabecinha tão frágil quando nascem: ela ainda não estava no ponto ideal para sair de dentro da mãe; mas, por outro lado, mataria esta no parto caso a gestação aguardasse uma melhor formação do filho). Além disso, fica para a mãe a incumbência natural de amamentar o filho recém-nascido e de lhe prover os cuidados necessários para sua sobrevivência, sobretudo nos primeiros anos de vida.
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No passado de nossa espécie, se a mãe fazia tudo isso de forma bem-sucedida, a criança crescia, chegava à fase fértil e reproduzia-se. Sucesso genético garantido: missão cumprida!
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Nesse sentido, os genes, bem como sua dinâmica interativa com o ambiente sociocultural — considerados todos os papéis supracitados, desempenhados pelas mulheres no processo reprodutivo — parece ter feito desenvolver na mulher um comportamento sexual um tanto diferente da atitude do tipo qualquer-buraco-me-serve, que muitas vezes guia o instinto sexual masculino. Aparentemente a mulher desenvolveu uma sensibilidade muito mais seletiva para com seus possíveis parceiros sexuais. E de fato, se por um lado um homem de razoável beleza muito possivelmente transaria sem hesitar com aquela mesma mulher que ele chamou de “baranga” assim que chegou à festa, tão-somente porque mais tarde não lhe restaram alternativas, por outro lado eu, se fosse aquele velho, careca e barrigudo, com cara de pobre, com um copo de cerveja na mão, não me encheria tão facilmente de esperanças de “papar” a loira vistosa, de semblante entediado, que sobrou na festa, e está num canto apenas esperando a amiga com quem veio. Ela pode ter saído de casa com o intento de transar aquela noite, mas acredite, meu chapa: entre “dar” para você e voltar para casa no zero a zero, ela, pelo menos na maioria dos casos, não vacila nem por um segundo em optar pela segunda alternativa.
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Verdade é que, como o investimento que a natureza cobra da mulher na reprodução é muito maior do que aquele que exige do homem, é à ela que é dado um certo poder de seletividade sexual quanto aos parceiros com quem deseja gerar um filho — embora a precisa dimensão desse poder de escolha da mulher seja debatido entre os especialistas. (Em todo caso, creio que seja um tanto oportuno lembrar que, embora eu fique remetendo intermitentemente a exemplos hodiernos de resquício comportamental condicionado por nossa programação genética original, é sempre válido enfatizar: nossos cérebros foram programados para incitarem comportamentos sexuais viáveis e vitais num ambiente natural completamente distinto das sociedades que construímos ao longo dos últimos poucos milhares de anos — ou seja, nosso comportamento sexual original não foi projetado para o mundo civilizado que edificamos e em que vivemos hoje, mas sim para um ambiente muito mais parecido com o de algumas tribos de caçadores-coletores que vivem num mundo quase primitivo, em algumas regiões do planeta, principalmente no continente africano.)
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Em seu comportamento seletivo, a mulher normalmente se pauta por dois critérios, com que avalia, não necessariamente de forma consciente, um possível parceiro: 1) uma carga genética promissora, e 2) seu potencial de investimento em benefício dos filhos gerados. É normalmente assim, mas nem sempre; o que leva mesmo alguns darwinistas a discutirem o quanto é realmente natural esse padrão avaliativo feminino e o quanto ele é moldado pela cultura patriarcal em que nos desenvolvemos, quase que via de regra. Seja como for, numa freqüência notadamente regular, com esses cálculos em mente, que a mulher não precisa fazer, pois a seleção natural já teria feito por ela, e que portanto ela só precisa seguir em sua “intuição” — seu impulso subconsciente para fazer o que seus genes querem — é possível racionalizar a coisa da seguinte maneira: é óbvio que, se meu filho tiver bons genes, suas chances de crescer e reproduzir serão maiores. Logo, um parceiro que me transmita (visualmente) a impressão de ter genes saudáveis e de elevado potencial reprodutivo me interessam mais do que aquele outro que me passe justamente uma impressão oposta. Ao mesmo tempo, uma vez que me cabe o imenso ônus de gerar, parir e criar os filhos, é importante levar em conta um parceiro que me passe segurança no sentido de investir na prole, bem como no de prover uma certa segurança material que favorecerá a sobrevivência dos filhos. Se ele passar segurança, no sentido de fidelidade e devoção aos filhos, tanto melhor ainda. Este marcaria pontos elevadíssimos! Mas, se esperar por isso já for contar com sorte demais, que pelo menos me passe segurança material no sentido de garantir que não me vá faltar o básico, enquanto ele irresponsavelmente me deixa cuidando dos filhos que tivemos e cai na farra. Ou simplesmente cai fora! (Bem, não custa enfatizar novamente que o quanto desse tipo de comportamento é inato e o quanto é influência da cultura patriarcal ainda é debatido.)
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Todos esses cálculos seriam, mais ou menos inconscientemente, levados em conta pelo complexo maquinário instalado no cérebro feminino. Como eu disse, não quero dizer que isso seja a base do comportamento atual, mas sim o que parece ter estado na programação original, quando nossos órgãos mentais foram desenhados, em nossas sociedades primitivas.
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Entretanto, os ecos disso ainda são fortemente audíveis hoje. Afinal, se o galã de novelas, Henri Castelli, declarando publicamente seu amor pela mulher grávida num programa de televisão, com notável emoção estampada na face, faz você suspirar no sofá da sala, enquanto pensa “Esse é o homem que eu queria para mim!”, a verdade reside um pouco abaixo da camada lingüística mentalmente manifesta. E nem é tão difícil traduzi-la: “Esse é o homem” (bonitão e de físico em forma = impressão visível de genes saudáveis que poderiam gerar características que aumentassem o potencial reprodutivo dos filhos que tivéssemos); “o homem que eu queria” (que sabidamente goza de uma excelente situação financeira = podendo garantir meu lado em termos materiais, enquanto eu crio as crianças, mesmo que ele me deixe um dia; afinal, a pensão seria gorda), e “que eu queria para mim” (carinhoso e explicitamente devotado à mulher = ótimo sinal de possível futuro investimento nos filhos e em mim, aliviando meus receios de acabar tendo de criar nossos filhos sozinha). Em outras palavras: sim, o Henri Castelli parece o perfeito exemplo de macho para acasalamento para uma mente feminina que segue os impulsos de seu desenho original! Agora, confessem: e