por Júnior Camilo
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No livro VII da obra A República, de Platão, encontramos a famosa e intrigante parábola que é mais comumente conhecida pelo título de “O mito da caverna”, a qual é ali apresentada pela voz de Sócrates, num diálogo seu com dois irmãos de Platão. Este mito, como sabem os que o conhecem por leitura direta da obra ou pelas incontáveis referências a ele encontradas nos mais diversos textos de outros autores, propõe-nos um interessantíssimo exercício mental.
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Num mundo imaginário, uma caverna encontra-se isolada de todo o ambiente externo por um elevado muro. Nessa caverna escura, a luz exterior penetra apenas por uma abertura, projetando-se numa parede ao fundo, em direção da qual um grupo de humanos encontra-se voltado, todos mantidos acorrentados, impedidos até mesmo de se virarem para a entrada da caverna, às suas costas. Esses prisioneiros, em tais condições, ali dentro viveram toda a sua vida, desde a infância. E tudo o que fazem (tudo o que podem fazer) é ficar contemplando, na parede de rocha à sua frente, vultos diversos que nela se formam. Tais vultos são sombras de outros homens que se movem por uma estrada, do outro lado do muro, transportando os mais diversos objetos, exatamente a meio caminho entre os prisioneiros e uma fogueira que é mantida acesa, sobre uma colina ali perto.
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A parábola na obra de Platão nos mostra como pessoas privadas de uma perspectiva que lhes possibilite ver as coisas de forma mais clara podem acabar interpretando como “realidade” aquilo que não passa de equívocos de suas mentes em face de fragmentos distorcidos da realidade mesma, frutos de sua perspectiva limitada e limitante. Nela, esses humanos acorrentados, passam a acreditar que tais sombras representam de fato a realidade. Assim, passam a viver aceitando tal ilusão de suas mentes enganadas por sua condição de óbvia ignorância de como são realmente as coisas no mundo em que vivem.
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A parábola foi concebida para introduzir idéias da filosofia socrático-platônica, é claro. Porém, ela também muito nos serve hoje para reintroduzir o tema da ciência e de sua perspectiva da religião, ponto tão recorrente neste blog, visto que a mensagem do mito é uma metáfora patente do comportamento humano em face do mundo ao seu redor, ao passo que a libertação de tais grilhões, como deixa claro o texto, representa a libertação das correntes da ignorância, que leva nossa compreensão da realidade a restringir-se ao mundo fantasioso e improcedente de nossas crenças e superstições.
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No livro VII da obra A República, de Platão, encontramos a famosa e intrigante parábola que é mais comumente conhecida pelo título de “O mito da caverna”, a qual é ali apresentada pela voz de Sócrates, num diálogo seu com dois irmãos de Platão. Este mito, como sabem os que o conhecem por leitura direta da obra ou pelas incontáveis referências a ele encontradas nos mais diversos textos de outros autores, propõe-nos um interessantíssimo exercício mental.
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Num mundo imaginário, uma caverna encontra-se isolada de todo o ambiente externo por um elevado muro. Nessa caverna escura, a luz exterior penetra apenas por uma abertura, projetando-se numa parede ao fundo, em direção da qual um grupo de humanos encontra-se voltado, todos mantidos acorrentados, impedidos até mesmo de se virarem para a entrada da caverna, às suas costas. Esses prisioneiros, em tais condições, ali dentro viveram toda a sua vida, desde a infância. E tudo o que fazem (tudo o que podem fazer) é ficar contemplando, na parede de rocha à sua frente, vultos diversos que nela se formam. Tais vultos são sombras de outros homens que se movem por uma estrada, do outro lado do muro, transportando os mais diversos objetos, exatamente a meio caminho entre os prisioneiros e uma fogueira que é mantida acesa, sobre uma colina ali perto.
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A parábola na obra de Platão nos mostra como pessoas privadas de uma perspectiva que lhes possibilite ver as coisas de forma mais clara podem acabar interpretando como “realidade” aquilo que não passa de equívocos de suas mentes em face de fragmentos distorcidos da realidade mesma, frutos de sua perspectiva limitada e limitante. Nela, esses humanos acorrentados, passam a acreditar que tais sombras representam de fato a realidade. Assim, passam a viver aceitando tal ilusão de suas mentes enganadas por sua condição de óbvia ignorância de como são realmente as coisas no mundo em que vivem.
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A parábola foi concebida para introduzir idéias da filosofia socrático-platônica, é claro. Porém, ela também muito nos serve hoje para reintroduzir o tema da ciência e de sua perspectiva da religião, ponto tão recorrente neste blog, visto que a mensagem do mito é uma metáfora patente do comportamento humano em face do mundo ao seu redor, ao passo que a libertação de tais grilhões, como deixa claro o texto, representa a libertação das correntes da ignorância, que leva nossa compreensão da realidade a restringir-se ao mundo fantasioso e improcedente de nossas crenças e superstições.
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E, bem… se há um fenômeno que com certeza precisa ser considerado, é o das crenças religiosas a que os humanos parecem tão naturalmente predispostos. Afinal, ainda que possa haver grupos humanos, como os índios Pirahã, do Amazonas, em meio a quem não se vê traços patentes de religiosidade — apenas algumas poucas crenças supersticiosas e animistas em coisas como “espíritos da natureza”, algo a meio caminho entre o materialismo secular e a crença em entidades espirituais fora da natureza —, o fato é que não se pode negar que a religião é um fenômeno praticamente universal em nossa espécie. Em geral, as mais variadas culturas humanas trazem crenças em almas que sobrevivem à morte corporal, em rituais que podem interferir no mundo físico, e em coisas como doenças e outras desgraças — inclusive perdas materiais ou insucesso pessoal — podendo ser causadas ou sanadas por uma gama um tanto quanto heterogênea e numerosa de espíritos, demônios, santos, anjos, forças malignas, deuses e semi-deuses, respectivamente. Além disso, é um traço marcante que normalmente cada cultura veja sua visão religiosa como sendo a interpretação legítima desse mundo do espiritual, do sobrenatural, do divino.
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Em meu artigo “A grande jornada e a hipótese desnecessária” (26/07/2008), numa de suas partes, discuti um pouco sobre essa questão do por que os humanos crêem em coisas irracionais como deuses e espíritos. Aqui, revisitarei a questão e buscarei focar-me mais detidamente nela. Por que acreditamos em coisas que qualificamos com o vácuo adjetivo “sobrenaturais”? Numa indagação mais específica, por que acreditamos em Deus?
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Durante um discurso que fez no encontro anual da Freedom from Religion Foundation, em outubro de 2004, o renomado cientista cognitivo de Havard, Steven Pinker, disse:
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Em meu artigo “A grande jornada e a hipótese desnecessária” (26/07/2008), numa de suas partes, discuti um pouco sobre essa questão do por que os humanos crêem em coisas irracionais como deuses e espíritos. Aqui, revisitarei a questão e buscarei focar-me mais detidamente nela. Por que acreditamos em coisas que qualificamos com o vácuo adjetivo “sobrenaturais”? Numa indagação mais específica, por que acreditamos em Deus?
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Durante um discurso que fez no encontro anual da Freedom from Religion Foundation, em outubro de 2004, o renomado cientista cognitivo de Havard, Steven Pinker, disse:
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Para responder à pergunta “Por que o Homo sapiens é tão propenso à crença religiosa?”, primeiramente, você precisa distinguir entre traços que são adaptações, ou seja, produtos da seleção natural darwinista e traços que são subprodutos de adaptações (...). Um exemplo: por que nosso sangue é vermelho? Há alguma vantagem adaptativa em ter sangue vermelho, talvez como camuflagem contra as folhas de outono? Bem, isso é um tanto improvável, e tampouco precisamos de qualquer outra explicação adaptativa. A explicação do porquê de nosso sangue ser vermelho é que é adaptativo ter uma molécula que consiga transportar oxigênio, a saber, a hemoglobina. E acontece que a hemoglobina fica vermelha quando é oxigenada; portanto, a vermelhidão de nosso sangue é um subproduto da química do transporte de oxigênio. A cor em si não foi selecionada positivamente. (PINKER, Steven. “The Evolutionary Psychology of Religion”, apresentado no encontro anual da Freedom from Religion Foundation, em Madison, no estado de Wisconsin, EUA, em 29 de outubro de 2004. Disponível na internet em: http://pinker.wjh.harvard.edu/articles/media/2004_10_29_religion.htm .)
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Em sua fala, Pinker procurou refutar o que, segundo ele, constituem “três espúrias explicações adaptacionistas da religião”, que são: 1) a sugestão de que as pessoas abraçam a religião em virtude do conforto que esta lhes oferece, 2) a hipótese de que a religião torna a comunidade mais unida, mais coesa, e 3) a idéia de que a religião é a fonte de nossos valores éticos mais excelsos. Embora o cientista reconheça que essas três hipóteses possam bem estar corretas até certo ponto, o que ele questiona é seu mérito real em explicar a popularidade universalmente disseminada da religião. Durante todo o discurso, ele procurou demonstrar que a religião é um subproduto de uma adaptação, um subproduto de certas características de nossa psicologia que podem ter evoluído de forma adaptativa — perspectiva também defendida pelo biólogo de Oxford, Richard Dawkins.
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Numa frase crucial, Pinker afirmou que, “assim como a vermelhidão de nosso sangue é um subproduto de outras adaptações, também pode sê-lo a nossa predisposição à crença religiosa”. É esse o ponto que buscarei discutir aqui, novamente trazendo à tona pontos que já foram abordados em outros textos, ao que somarei ainda novos dados, de modo a discutir o tema proposto de forma mais focada do que em artigos anteriores. Dito isso, passemos à avaliação da questão.
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A primeira semente da credulidade: "E no início, era o verbo..."
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Em termos evolutivos, muito dessa receptiva credulidade da mente humana tem suas raízes no desenvolvimento de nossos ancestrais no ambiente primitivo onde foi geneticamente desenhado o cérebro da linhagem hominídea de que evoluiu o Homo sapiens. E mais: seguramente, em momento posterior à separação do galho de nossa evolução daquele que levou aos modernos chimpanzés, na mesma árvore.
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Com o desenvolvimento de nossa faculdade lingüística (que hoje sabemos é mesmo unicamente humana e muito provavelmente uma adaptação evolutiva) pudemos garantir um maior sucesso de sobrevivência e reprodução — de um certo ponto de vista, considerando os benefícios patentes e malefícios conseqüentes de cada adaptação, a evolução da linguagem humana veio como mais um contrapeso específico de nossa espécie para o fato de que o reposicionamento (agora ereto) de nossas colunas teve por efeito colateral forçar nossos bebês para fora do útero materno mais precocemente, pois estreitou os ossos da bacia da mãe, tornando os recém-nascidos humanos, de forma bem visível, numa das mais frágeis criaturas do reino animal.
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Justamente por isso, importa muito aqui observar a relevância de nossa faculdade da linguagem. Afinal, nossa capacidade de emitir sons vocalizados e complexamente estruturados que, por sua vez, são decodificados por um mecanismo receptor no cérebro de nosso interlocutor e positivamente traduzidos, promovendo o intercâmbio de idéias entre os de nossa espécie, como jamais visto em outra espécie animal, é sem dúvida alguma a característica mais admirável que evoluímos. Ao mesmo tempo, a razão de nossos mais perturbadores pesadelos religiosos. Mas deixem-me explicar direito o que quero dizer com isso.
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Sabe-se hoje que há nos humanos uma estrutura conceptual que, em parte, sobrepõe-se à que existe em outros primatas, além de incorporar capacidades recentemente evoluídas. De fato, fazendo-se mapeamentos por ressonância magnética, verificou-se que conjuntos parcialmente distintos de áreas cerebrais respondem por sons referentes à fala e sons que não o são. Em outras palavras: quando os sons que ouvimos são os de alguém falando, as áreas do cérebro que se ativam não são exatamente as mesmas de quando ouvimos qualquer outro tipo de som. Um claro exemplo disso encontramos quando em face de algum paciente de surdez pura para palavras ou surdez verbal pura, um distúrbio neurológico em que a pessoa simplesmente perde a capacidade de analisar (e conseqüentemente reconhecer) aquilo que as outras pessoas estão dizendo, porém analisam perfeitamente quaisquer outros tipos de sons. Da mesma forma, vemos a situação inversa em casos como os de amusia (incapacidade de reconhecer sons musicais devido a lesão no hemisfério direito) ou agnosia auditiva (a incapacidade de interpretar o significado dos sons ambientais).
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Somam-se a isso dados provenientes de algumas pesquisas recentes, que demonstraram que bebês, incluindo recém-nascidos, preferem sons produzidos por alguém falando a sons não relacionados com a fala, mesmo que estes sejam artificialmente configurados para apresentar as mesmas propriedades de espectro e tempo apresentadas por aquelas. E isso diz respeito mesmo a sons que seguramente eram indistinguíveis para o bebê quando estava no ventre materno, o que deixa claro que tal preferência não pode ser explicada em termos de condicionamento in utero. Isso, para não falar do fato de que a sensibilidade dos recém-nascidos à fala das pessoas parece contar com partes do cérebro que servem à linguagem no cérebro de adultos: um estudo recente, que usou tomografia óptica, demonstrou que as regiões temporais do hemisfério esquerdo em recém-nascidos respondiam mais à fala normal do que à fala mecanicamente invertida, ainda que, nos procedimentos de inversão, fosse mantida a mesma similaridade espectral (vide: PENA, M. et al. “Sounds and silence: an optical tomography study of language recognition at birth”. In: Proceedings of the National Academy of Science — PNAS, USA, 2003. 100 [20], págs. 11702–11705).
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Ademais, cumpre citar ainda dois artigos de autoria de Steven Pinker e do lingüista Ray Jackendoff, que destacam os seguintes fatos a apontar para uma seleção favorável à produção da fala na linhagem humana (vide: PINKER, S. e JACKENDOFF, R. “The faculty of language: what’s special about it?”. In: Cognition nº 95, 2005, págs. 201-236, e JACKENDOFF, R. e PINKER, S. “The nature of the language faculty and its implications for evolution of language”. In: Cognition nº 97, 2005, págs. 211-225):
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a) O controle do trato vocal supralaríngeo é incomparavelmente mais complexo na linguagem humana do que nas vocalizações de outros primatas — embora algumas aves e primatas consigam produzir formantes (i.e. cada um dos harmônicos nas freqüências ou “picos” de energia acústica que passam pela passagem de ar supralaríngea), as manipulações que fazem não são mais que uma pequenina fração dos gestos intrincados dos lábios, do véu palatino, da laringe, bem como da ponta, do corpo e da base da língua que os falantes de todas as línguas do planeta executam.
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b) Primatas outros que não os humanos são notórios por sua resistência natural ao treinamento condicionador de suas vocalizações, e os especialistas reconhecem que eles não demonstram nenhuma habilidade de aprender vocalizações através da imitação.
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c) Murmúrios silábicos emergem espontaneamente em bebês humanos.
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d) As palavras, como acoplamentos organizados e compartilhados de estruturas fonológicas, conceituais e gramaticais, são uma parte distintiva, do conhecimento humano, e mais: uma parte específica da linguagem. A criança parece entrar em contato com situações sociais, ou seja, na interação com outras pessoas, já demonstrando uma reação distinta, de quem antecipa que os ruídos produzidos por outros humanos são palavras. Isso faz com que a aprendizagem de palavras seja diferente da aprendizagem de quaisquer outros fatos em vários aspectos.
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e) E, embora a maior parte dos traços de inteligência e cognição de uma criança (sua capacidade de reconhecer apropriadamente as formas geométricas e as mais distintas cores, por exemplo) só venham a se demonstrar notáveis mesmo por volta da idade escolar, chama a atenção a extrema precocidade com que as crianças começam a entender os comandos vocais dos adultos e, em seguida, a produzir elas próprias suas falas, quase que ao mesmo tempo em que começam a caminhar sozinhas. Algo que pesa muito em favor de uma adaptação evolutiva que teria auxiliado na manutenção da segurança e conseguinte sobrevivência de bebês humanos no hostil ambiente ancestral em que evoluímos.
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Por fim, vale a pena destacar também a descoberta recente de que uma rara deficiência da linguagem e da fala é causada por um alelo dominante num único gene, o FOXP2. Esse gene foi seqüenciado e submetido a análises comparativas, que mostraram que sua versão normal é universal na população humana, que ele divergiu a partir do homólogo primata em fase posterior à divisão evolutiva entre humanos e chimpanzés na árvore genealógica, e que foi alvo da seleção natural em vez de ser produto de deriva genética ou outros processos evolutivos estocásticos. O fenótipo é complexo e não totalmente caracterizado, mas os especialistas estão de acordo em que as pessoas que têm alguma versão anormal desse gene apresentam notáveis déficits de articulação, produção, compreensão e julgamentos em vários domínios da gramática, combinados com dificuldades na produção de movimentos orofaciais.
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Este novo achado corrobora ainda mais a noção de que a língua evoluiu gradativamente na linhagem humana, sob a influência da seleção natural, com os genes selecionados tendo efeitos pleiotrópicos que aprimoraram múltiplos componentes por meio de novos incrementos. Além disso, dentre um grande número de loci genéticos que causam deficiências lingüísticas ou problemas relacionados, como gagueira ou dislexia, o FOXP2 é simplesmente o locus que foi identificado com a maior precisão até hoje.
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Mesmo no campo da percepção da fala, as evidências genéticas apontam para adaptação evolutiva no que tange à linguagem. Uma comparação recente dos genomas de camundongos, chimpanzés e humanos revelou um grande número de genes que são expressos no desenvolvimento do sistema auditivo e que passaram por positiva seleção na linhagem humana. Uma vez que a fala é a principal característica que diferencia os ambientes auditivos naturais de humanos e de chimpanzés, a hipótese dos pesquisadores é a de que estas mudanças evolutivas estavam, com efeito, favorecendo uma percepção acentuada da fala (vide: CLARK, A. G. et al. “Inferring non-neutral evolution from human-chimp-mouse orthologous gene trios”. In: Science, 2003, 302 [5652], págs. 1960–1963).
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Com a evolução da faculdade da linguagem, nossa espécie, agora capaz de transmitir mutuamente seus pensamentos, traduzindo-os numa língua (um código vocalizado compreendido pelo grupo), pôde trocar informações, incluindo a transmissão de quaisquer tecnologias desenvolvidas, úteis à agricultura, à pecuária, enfim, à sobrevivência em primeiro plano. Porém, apenas para lembrar os inadvertidos que já possam estar contemplando um “mistério divino” no fato de que, desde então até hoje, apenas o animal humano desenvolveu essa capacidade única, tal capacidade é tão única e útil para nós como a tromba de um elefante o é para a sua própria espécie (digo, para as duas espécies que sobrevivem até hoje: o africano e o asiático), embora seja ausente em seus parentes vivos mais próximos, como o hírax (um animalzinho parecido com um porquinho-da-índia, encontrado ao norte da África e no sudoeste da Ásia), com o qual os elefantes compartilham cerca de 90% de seu DNA.
Em sua fala, Pinker procurou refutar o que, segundo ele, constituem “três espúrias explicações adaptacionistas da religião”, que são: 1) a sugestão de que as pessoas abraçam a religião em virtude do conforto que esta lhes oferece, 2) a hipótese de que a religião torna a comunidade mais unida, mais coesa, e 3) a idéia de que a religião é a fonte de nossos valores éticos mais excelsos. Embora o cientista reconheça que essas três hipóteses possam bem estar corretas até certo ponto, o que ele questiona é seu mérito real em explicar a popularidade universalmente disseminada da religião. Durante todo o discurso, ele procurou demonstrar que a religião é um subproduto de uma adaptação, um subproduto de certas características de nossa psicologia que podem ter evoluído de forma adaptativa — perspectiva também defendida pelo biólogo de Oxford, Richard Dawkins.
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Numa frase crucial, Pinker afirmou que, “assim como a vermelhidão de nosso sangue é um subproduto de outras adaptações, também pode sê-lo a nossa predisposição à crença religiosa”. É esse o ponto que buscarei discutir aqui, novamente trazendo à tona pontos que já foram abordados em outros textos, ao que somarei ainda novos dados, de modo a discutir o tema proposto de forma mais focada do que em artigos anteriores. Dito isso, passemos à avaliação da questão.
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A primeira semente da credulidade: "E no início, era o verbo..."
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Em termos evolutivos, muito dessa receptiva credulidade da mente humana tem suas raízes no desenvolvimento de nossos ancestrais no ambiente primitivo onde foi geneticamente desenhado o cérebro da linhagem hominídea de que evoluiu o Homo sapiens. E mais: seguramente, em momento posterior à separação do galho de nossa evolução daquele que levou aos modernos chimpanzés, na mesma árvore.
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Com o desenvolvimento de nossa faculdade lingüística (que hoje sabemos é mesmo unicamente humana e muito provavelmente uma adaptação evolutiva) pudemos garantir um maior sucesso de sobrevivência e reprodução — de um certo ponto de vista, considerando os benefícios patentes e malefícios conseqüentes de cada adaptação, a evolução da linguagem humana veio como mais um contrapeso específico de nossa espécie para o fato de que o reposicionamento (agora ereto) de nossas colunas teve por efeito colateral forçar nossos bebês para fora do útero materno mais precocemente, pois estreitou os ossos da bacia da mãe, tornando os recém-nascidos humanos, de forma bem visível, numa das mais frágeis criaturas do reino animal.
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Justamente por isso, importa muito aqui observar a relevância de nossa faculdade da linguagem. Afinal, nossa capacidade de emitir sons vocalizados e complexamente estruturados que, por sua vez, são decodificados por um mecanismo receptor no cérebro de nosso interlocutor e positivamente traduzidos, promovendo o intercâmbio de idéias entre os de nossa espécie, como jamais visto em outra espécie animal, é sem dúvida alguma a característica mais admirável que evoluímos. Ao mesmo tempo, a razão de nossos mais perturbadores pesadelos religiosos. Mas deixem-me explicar direito o que quero dizer com isso.
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Sabe-se hoje que há nos humanos uma estrutura conceptual que, em parte, sobrepõe-se à que existe em outros primatas, além de incorporar capacidades recentemente evoluídas. De fato, fazendo-se mapeamentos por ressonância magnética, verificou-se que conjuntos parcialmente distintos de áreas cerebrais respondem por sons referentes à fala e sons que não o são. Em outras palavras: quando os sons que ouvimos são os de alguém falando, as áreas do cérebro que se ativam não são exatamente as mesmas de quando ouvimos qualquer outro tipo de som. Um claro exemplo disso encontramos quando em face de algum paciente de surdez pura para palavras ou surdez verbal pura, um distúrbio neurológico em que a pessoa simplesmente perde a capacidade de analisar (e conseqüentemente reconhecer) aquilo que as outras pessoas estão dizendo, porém analisam perfeitamente quaisquer outros tipos de sons. Da mesma forma, vemos a situação inversa em casos como os de amusia (incapacidade de reconhecer sons musicais devido a lesão no hemisfério direito) ou agnosia auditiva (a incapacidade de interpretar o significado dos sons ambientais).
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Somam-se a isso dados provenientes de algumas pesquisas recentes, que demonstraram que bebês, incluindo recém-nascidos, preferem sons produzidos por alguém falando a sons não relacionados com a fala, mesmo que estes sejam artificialmente configurados para apresentar as mesmas propriedades de espectro e tempo apresentadas por aquelas. E isso diz respeito mesmo a sons que seguramente eram indistinguíveis para o bebê quando estava no ventre materno, o que deixa claro que tal preferência não pode ser explicada em termos de condicionamento in utero. Isso, para não falar do fato de que a sensibilidade dos recém-nascidos à fala das pessoas parece contar com partes do cérebro que servem à linguagem no cérebro de adultos: um estudo recente, que usou tomografia óptica, demonstrou que as regiões temporais do hemisfério esquerdo em recém-nascidos respondiam mais à fala normal do que à fala mecanicamente invertida, ainda que, nos procedimentos de inversão, fosse mantida a mesma similaridade espectral (vide: PENA, M. et al. “Sounds and silence: an optical tomography study of language recognition at birth”. In: Proceedings of the National Academy of Science — PNAS, USA, 2003. 100 [20], págs. 11702–11705).
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Ademais, cumpre citar ainda dois artigos de autoria de Steven Pinker e do lingüista Ray Jackendoff, que destacam os seguintes fatos a apontar para uma seleção favorável à produção da fala na linhagem humana (vide: PINKER, S. e JACKENDOFF, R. “The faculty of language: what’s special about it?”. In: Cognition nº 95, 2005, págs. 201-236, e JACKENDOFF, R. e PINKER, S. “The nature of the language faculty and its implications for evolution of language”. In: Cognition nº 97, 2005, págs. 211-225):
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a) O controle do trato vocal supralaríngeo é incomparavelmente mais complexo na linguagem humana do que nas vocalizações de outros primatas — embora algumas aves e primatas consigam produzir formantes (i.e. cada um dos harmônicos nas freqüências ou “picos” de energia acústica que passam pela passagem de ar supralaríngea), as manipulações que fazem não são mais que uma pequenina fração dos gestos intrincados dos lábios, do véu palatino, da laringe, bem como da ponta, do corpo e da base da língua que os falantes de todas as línguas do planeta executam.
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b) Primatas outros que não os humanos são notórios por sua resistência natural ao treinamento condicionador de suas vocalizações, e os especialistas reconhecem que eles não demonstram nenhuma habilidade de aprender vocalizações através da imitação.
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c) Murmúrios silábicos emergem espontaneamente em bebês humanos.
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d) As palavras, como acoplamentos organizados e compartilhados de estruturas fonológicas, conceituais e gramaticais, são uma parte distintiva, do conhecimento humano, e mais: uma parte específica da linguagem. A criança parece entrar em contato com situações sociais, ou seja, na interação com outras pessoas, já demonstrando uma reação distinta, de quem antecipa que os ruídos produzidos por outros humanos são palavras. Isso faz com que a aprendizagem de palavras seja diferente da aprendizagem de quaisquer outros fatos em vários aspectos.
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e) E, embora a maior parte dos traços de inteligência e cognição de uma criança (sua capacidade de reconhecer apropriadamente as formas geométricas e as mais distintas cores, por exemplo) só venham a se demonstrar notáveis mesmo por volta da idade escolar, chama a atenção a extrema precocidade com que as crianças começam a entender os comandos vocais dos adultos e, em seguida, a produzir elas próprias suas falas, quase que ao mesmo tempo em que começam a caminhar sozinhas. Algo que pesa muito em favor de uma adaptação evolutiva que teria auxiliado na manutenção da segurança e conseguinte sobrevivência de bebês humanos no hostil ambiente ancestral em que evoluímos.
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Por fim, vale a pena destacar também a descoberta recente de que uma rara deficiência da linguagem e da fala é causada por um alelo dominante num único gene, o FOXP2. Esse gene foi seqüenciado e submetido a análises comparativas, que mostraram que sua versão normal é universal na população humana, que ele divergiu a partir do homólogo primata em fase posterior à divisão evolutiva entre humanos e chimpanzés na árvore genealógica, e que foi alvo da seleção natural em vez de ser produto de deriva genética ou outros processos evolutivos estocásticos. O fenótipo é complexo e não totalmente caracterizado, mas os especialistas estão de acordo em que as pessoas que têm alguma versão anormal desse gene apresentam notáveis déficits de articulação, produção, compreensão e julgamentos em vários domínios da gramática, combinados com dificuldades na produção de movimentos orofaciais.
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Este novo achado corrobora ainda mais a noção de que a língua evoluiu gradativamente na linhagem humana, sob a influência da seleção natural, com os genes selecionados tendo efeitos pleiotrópicos que aprimoraram múltiplos componentes por meio de novos incrementos. Além disso, dentre um grande número de loci genéticos que causam deficiências lingüísticas ou problemas relacionados, como gagueira ou dislexia, o FOXP2 é simplesmente o locus que foi identificado com a maior precisão até hoje.
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Mesmo no campo da percepção da fala, as evidências genéticas apontam para adaptação evolutiva no que tange à linguagem. Uma comparação recente dos genomas de camundongos, chimpanzés e humanos revelou um grande número de genes que são expressos no desenvolvimento do sistema auditivo e que passaram por positiva seleção na linhagem humana. Uma vez que a fala é a principal característica que diferencia os ambientes auditivos naturais de humanos e de chimpanzés, a hipótese dos pesquisadores é a de que estas mudanças evolutivas estavam, com efeito, favorecendo uma percepção acentuada da fala (vide: CLARK, A. G. et al. “Inferring non-neutral evolution from human-chimp-mouse orthologous gene trios”. In: Science, 2003, 302 [5652], págs. 1960–1963).
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Com a evolução da faculdade da linguagem, nossa espécie, agora capaz de transmitir mutuamente seus pensamentos, traduzindo-os numa língua (um código vocalizado compreendido pelo grupo), pôde trocar informações, incluindo a transmissão de quaisquer tecnologias desenvolvidas, úteis à agricultura, à pecuária, enfim, à sobrevivência em primeiro plano. Porém, apenas para lembrar os inadvertidos que já possam estar contemplando um “mistério divino” no fato de que, desde então até hoje, apenas o animal humano desenvolveu essa capacidade única, tal capacidade é tão única e útil para nós como a tromba de um elefante o é para a sua própria espécie (digo, para as duas espécies que sobrevivem até hoje: o africano e o asiático), embora seja ausente em seus parentes vivos mais próximos, como o hírax (um animalzinho parecido com um porquinho-da-índia, encontrado ao norte da África e no sudoeste da Ásia), com o qual os elefantes compartilham cerca de 90% de seu DNA.
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Além disso, se alguma outra espécie do gênero Homo tivesse sobrevivido até nossos dias em algum canto da Terra, é bem possível que testemunharíamos a linguagem desenvolvida a seu modo também nessa espécie, visto que o Homo habilis, por exemplo, que viveu há cerca de 2,5 a 2 milhões de anos, deixou esconderijos de ferramentas de pedra que podem ter sido bases de moradia ou estações locais para o corte de animais, algo que permite supor algum grau de cooperação e de tecnologia transmitida e adquirida. Ao mesmo tempo, soma-se a isso o fato de que o H. habilis foi bem generoso para conosco e nos deixou alguns de seus crânios, que conservam até hoje leves marcas do padrão de dobras de seus cérebros, onde podemos perceber, bem visíveis, grandes marcas das áreas associadas com a produção da linguagem em nós, como a área de Broca e os giros supramarginal e angular, demonstrando também que, assim como em nós, essas áreas são bem maiores no hemisfério esquerdo.
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Além disso, já citei o gene FOXP2, mas deixei de comentar alguns fatores importantes sobre ele. A principal proteína codificada por esse gene tem 715 aminoácidos, todos idênticos entre macacos rhesus, chimpanzés e gorilas, porém apresentando 1 aminoácido diferente em relação a camundongos, e 2 aminoácidos diferentes em humanos (sendo que o FOXP2 humano difere daquele dos camundongos, portanto, em 3 animoácidos dos 715 totais).
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Pois bem! Nos camundongos, sabemos que o homólogo do FOXP2 é fortemente expressado no desenvolvimento cerebral. Perturbação em duas cópias do gene causa nesses animais deficiência motora grave e até morte prematura, bem como ausência de vocalizações ultrasônicas que são naturalmente emitidas quando filhotes são afastados da mãe. Por sua vez, a perturbação de uma única cópia do gene leva a um modesto retardo no desenvolvimento mas uma significante alteração na vocalização ultrasônica em resposta a tal separação entre mãe e filhote.
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As pesquisas com o homólogo do FOXP2 em camundongos e em primatas revelaram um papel ativo do gene no desenvolvimento do cerebelo e num processo de desenvolvimento que inclui as funções de comunicação social em diversos organismos.
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Curiosamente, os 2 aminoácidos em que nosso gene difere dos primatas ocorrem no mesmo exon, e pelo menos uma dessas mutações que ocorreram no gene em nossa linhagem teve uma extrema importância funcional (uma alteração de aspergina para serina que fornece um ponto alvo para a fosforilação, que é um processo que se demonstrou mediar a transcrição nos fatores de transcrição Forkhead), além de ter sido crítica na evolução da linguagem humana, até mesmo possibilitando movimentos orofaciais mais laboriosos que são essenciais à fala porém não se desenvolvem em pessoas afetadas de anomalia nesse gene, como já dito antes.
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Há pouco tempo, um estudo sobre o Homo neanderthalensis trouxe mais algumas novidades sobre o assunto. Bem, sabemos que os neandertais, além de desenvolver ainda mais as conquistas das espécies hominídeas que os antecederam, conseguiram se adaptar a climas o mais adversos e inovaram também num outro detalhe: embora haja muita discussão entre os antropólogos sobre as interpretações quanto a se os neandertais tinham rituais religiosos variados ou apenas alguns hábitos ritualísticos, como enterrar seus mortos seguindo certos padrões habituais não necessariamente religiosos, o fato é que o comportamento ritualístico parece evidente nessa espécie.
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De qualquer forma, ainda que tais rituais tenham sido realmente expressivos de mentalidade religiosa, isso já não surpreende aos que defendem que as crenças religiosas dependem da existência de circuitos cerebrais que façam emergir uma faculdade de comunicação interpessoal, permitindo a troca de idéias entre mentes distintas, sendo, portanto, um subproduto da forma como tais circuitos funcionam e das idéias elaboradas a partir dessa capacidade de comunicação. Em outras palavras, os neandertais, para que demonstrassem tal comportamento ritualístico, quase seguramente precisariam ser dotados de linguagem, tal como nossa espécie.
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Pois bem! Essa hipótese foi corroborada pouco mais de um ano atrás pelo primeiro levantamento do genoma de neandertais fossilizados. Os pesquisadores que assinaram o estudo, publicado no periódico Current Biology (KRAUSE, J. et al. “The Derived FOXP2 Variant of Modern Humans Was Shared with Neandertals”. Vol. 17, 21, 6/11/2007, pp. 1908-1912), descobriram que o Homo neanderthalensis tinha o gene FOXP2 idêntico ao do Homo sapiens, com as mesmas duas mutações nas posições 911 e 977 do exon 7 do gene, ou seja, nas duas substituições de aminoácidos ocorridas nesse gene, desde que nossa linhagem evolutiva divergiu da dos modernos chimpanzés, que não por acaso não têm nenhum comportamento religioso — afinal, eles estão geneticamente incapacitados de desenvolverem a faculdade lingüística tal como a evoluímos nós e, pelo visto, ao menos também os neandertais.
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Feitas essas observações, permitam-me destacar o fato de que, sim, o homem é o primeiro (e, até o momento, o único) mamífero a desenvolver a linguagem. E, dando uma boa olhada nos cérebros dos macacos, esses nossos parentes próximos na árvore evolutiva, de fato algumas coisas chamam logo a atenção, no que diz respeito a este ponto diferencial. Vejamos agora que coisas são essas e por que são tão interessantes assim.
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Nos cérebros dos macacos, curiosamente algumas áreas cerebrais correspondem de forma visível a certas áreas humanas, no que diz respeito à localização, ao cabeamento de entrada e saída, e à composição celular. Para citar um exemplo, de forma muito semelhante ao que existe nos humanos, há nos cérebros dos macacos homólogos das áreas de Wernicke e de Broca, bem como um feixe de fibras conectando ambas. Nos macacos, como destaca Steven Pinker sua obra O Instinto da Linguagem, as regiões que correspondem à área de Wernicke e suas vizinhanças ativam-se no reconhecimento de seqüências de som e na discriminação entre seus próprios chamados e os de outros macacos. Por sua vez, os homólogos de área de Broca tomam parte no controle dos músculos da face, da boca, da língua e da laringe, enquanto várias sub-regiões desses homólogos recebem estímulos de partes do cérebro que são reservadas para a audição, o sentido do tato na boca, na língua e na laringe, bem como de áreas para as quais convergem correntes de informações oriundas de todos os sentidos.
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Isso nos diz algo um tanto intrigante sobre nosso ancestral comum com os macacos. Ao que parece, esse arranjo encontrado nos cérebros de nossos primos (e, como é bem possível, também em seu ancestral comum com os humanos) parece representar a base sobre a qual a evolução pôde atuar. Como apontam os fortes indícios de várias pesquisas na área, explorando provavelmente a confluência que ali ocorre de sinais vocais, auditivos e outros, ela pôde fazer com que se produzissem em nós os circuitos da linguagem, que hoje em dia estão associados em sua maior parte a essas áreas do cérebro humano, onde são bem mais desenvolvidas do que nos macacos. Daí a relevância de tais achados, principalmente tendo-se em vista que, como já destaquei aqui, vejo na evolução da linguagem humana nosso maior bem e nossa mais triste desdita. Neste segundo caso, conclusão sobre a qual ainda discorrerei com detalhes em seguida.
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O cérebro e a linguagem
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Uma primeira observação a ser feita sobre o cérebro e a linguagem é que não há associação entre competência lingüística — a capacidade de interpretar e produzir um número infinito de expressões com uma complexa organização sintática, semântica, morfológica e fonológica, desenvolvida em humanos normais por simples exposição a input lingüístico — e variação em outros domínios como habilidade lógico-matemática ou capacidade de raciocínio abstrato, visto que a “linguagem” dos pensamentos não é a linguagem proprimamente dita. Ambos dependem de módulos distintos. Não é à toa que Pinker usa o termo “mentalês” para se referir à linguagem da mente que as línguas humanas tentam traduzir em palavras. Todos os humanos neurologicamente normais desenvolvem competência lingüística, no grau de análise relevante. É uma propriedade uniforme na espécie. Por outro lado, o mesmo não se dá no tocante a outros domínios como a habilidade lógico-matemática, por exemplo.
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Nos cérebros dos macacos, curiosamente algumas áreas cerebrais correspondem de forma visível a certas áreas humanas, no que diz respeito à localização, ao cabeamento de entrada e saída, e à composição celular. Para citar um exemplo, de forma muito semelhante ao que existe nos humanos, há nos cérebros dos macacos homólogos das áreas de Wernicke e de Broca, bem como um feixe de fibras conectando ambas. Nos macacos, como destaca Steven Pinker sua obra O Instinto da Linguagem, as regiões que correspondem à área de Wernicke e suas vizinhanças ativam-se no reconhecimento de seqüências de som e na discriminação entre seus próprios chamados e os de outros macacos. Por sua vez, os homólogos de área de Broca tomam parte no controle dos músculos da face, da boca, da língua e da laringe, enquanto várias sub-regiões desses homólogos recebem estímulos de partes do cérebro que são reservadas para a audição, o sentido do tato na boca, na língua e na laringe, bem como de áreas para as quais convergem correntes de informações oriundas de todos os sentidos.
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Isso nos diz algo um tanto intrigante sobre nosso ancestral comum com os macacos. Ao que parece, esse arranjo encontrado nos cérebros de nossos primos (e, como é bem possível, também em seu ancestral comum com os humanos) parece representar a base sobre a qual a evolução pôde atuar. Como apontam os fortes indícios de várias pesquisas na área, explorando provavelmente a confluência que ali ocorre de sinais vocais, auditivos e outros, ela pôde fazer com que se produzissem em nós os circuitos da linguagem, que hoje em dia estão associados em sua maior parte a essas áreas do cérebro humano, onde são bem mais desenvolvidas do que nos macacos. Daí a relevância de tais achados, principalmente tendo-se em vista que, como já destaquei aqui, vejo na evolução da linguagem humana nosso maior bem e nossa mais triste desdita. Neste segundo caso, conclusão sobre a qual ainda discorrerei com detalhes em seguida.
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O cérebro e a linguagem
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Uma primeira observação a ser feita sobre o cérebro e a linguagem é que não há associação entre competência lingüística — a capacidade de interpretar e produzir um número infinito de expressões com uma complexa organização sintática, semântica, morfológica e fonológica, desenvolvida em humanos normais por simples exposição a input lingüístico — e variação em outros domínios como habilidade lógico-matemática ou capacidade de raciocínio abstrato, visto que a “linguagem” dos pensamentos não é a linguagem proprimamente dita. Ambos dependem de módulos distintos. Não é à toa que Pinker usa o termo “mentalês” para se referir à linguagem da mente que as línguas humanas tentam traduzir em palavras. Todos os humanos neurologicamente normais desenvolvem competência lingüística, no grau de análise relevante. É uma propriedade uniforme na espécie. Por outro lado, o mesmo não se dá no tocante a outros domínios como a habilidade lógico-matemática, por exemplo.
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Outra observação válida é que precisamos esclarecer um recorrente equívoco entre vários acadêmicos de áreas distintas no que tange à linguagem: comunicação animal não é linguagem!
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Desde a “revolução” chomskiana, em meados do século passado, a Lingüística usa o termo gramática universal para se referir à configuração básica das gramáticas de todas as línguas humanas, que, dando-se desataque a estudos como os de Pinker e Jackendoff, descobriu-se estar associada a determinado circuito que, presente no cérebro infantil, possibilita que a criança aprenda espontaneamente a gramática da língua falada ao redor. E uma primeira coisa a se compreender sobre esta gramática (que não deve ser confundida com a “gramática normativa” que aprendemos na escola, nem tampouco sintaxe aqui refere-se àquelas regras sintáticas que nossos professores nos cobravam) é que aquilo que é gramatical, chomskianamente falando, não se fundamenta na semântica. Por exemplo, considere as duas frases:
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a) Pedro dirigiu o papagaio do controle remoto aromaticamente.
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b) *Papagaio o Pedro do controle aromaticamente dirigiu remoto.
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Apesar do exemplo a) ser um nonsense, um enunciado semanticamente absurdo, qualquer falante do português aceitaria a primeira frase como sendo “gramatical”, mas o mesmo não aconteceria com a frase do exemplo b).
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Portanto, a teoria de Chomsky pode ser superficialmente resumida assim: a faculdade da linguagem, pelo que apontam as evidências, é uma propriedade real da espécie, variando pouco entre os humanos e sem análogos significativos. Ele considera a linguagem como um órgão humano, um subsistema de um sistema complexo, e postula que esse dispositivo é comum a todos os seres humanos, sendo o estágio inicial do sistema lingüístico. Esse estágio inicial recebe input (a “entrada de dados”, ou seja, a língua à qual seu aprendiz é exposto) da experiência e produz linguagem como output (a “saída de dados produzidos”).
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O estágio inicial seria uma rede fixa conectada a um painel de distribuição, onde as chaves são as opções a serem determinadas pela experiência. Se o input inicial ajusta as chaves de uma forma, temos uma língua. Se ajusta de outra forma, temos outra língua.
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Como Chomsky demonstrou, há nos cérebros humanos um conjunto de super-regras inatas que permitem que qualquer língua assimilada do ambiente seja desenvolvida sintaticamente pelo falante, não fazendo exatamente distinções entre substantivos, verbos, preposições e adjetivos, mas sim especificando as quatro categorias com uma variável, como X, por exemplo. Para título de ilustração, essas super-regras poderiam se escrever resumidamente da seguinte maneira:
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XP → (SPEC) X' YP*
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X' → X ZP*
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Que quer dizer: um sintagma é formado por um sujeito opcional (especificador), seguido de um X-barra, seguido por qualquer número de modificares; sendo que um X-barra, que é o menor tipo de sintagma, é formado por uma palavra núcleo, seguida de qualquer número de protagonistas (seus argumentos não-sujeitos).
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Trocando X, Y e Z por substantivo, verbo, adjetivo ou preposição, tem-se as regras da estrutura sintagmática que formam os sintagmas. Essa é a versão compacta do que se chama em Lingüística de “teoria X-barra”, sendo que o esquema geral dos sintagmas é ainda mais abrangente e aplica-se aos mais diversos idiomas. Para citar um exemplo que já mencionei em outro artigo, em português, o núcleo do sintagma vem antes de seus protagonistas; já em japonês, por exemplo, o verbo vem depois de seu objeto e não antes, de modo que eles dizem 水を飲む — isto é, “mizu o nomu” (água beber), em vez de “beber água”.
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Mas a regra sintática continua válida porque, numa língua em que o núcleo for final, for invertido em relação ao português, por exemplo, a mesma inversão vai ser verificada em todos os outros sintagmas do idioma. Portanto, se eles falam “água beber”, em vez de “beber água”, também dizem 学校に行く— “gakkō ni iku” (a escola para ir) —, 空の色 — “sora no iro” (céu do a cor) etc., em vez de “ir para a escola” e “a cor do céu”.
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Assim, essas super-regras inatas dão conta de criar árvores infinitas de possibilidades de composição em cada idioma, bastando apenas uma modificação que vai se dar ao contato da criança com a língua falada por perto, o que disparará as conexões sinápticas a serem fixadas para a produção desse ou daquele tipo de língua. A ordem pode ser da esquerda para a direita em cada super-regra, segundo o algoritmo:
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X' → {ZP*, X}
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Ou seja: um X-barra é formado de um núcleo X e qualquer número de protagonistas, em qualquer ordem.
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Hoje, sabe-se que o gene FOXP2 está fortemente associado à produção desses fenômenos inatos em nós. As duas mutações ocorridas no exon 7 do gene parecem ter possibilitado um novo arranjo nos circuitos neuronais que processam a linguagem em que se produzem todos esses padrões de outputs em função dos inputs recebidos.
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Uma das constatações mais interessantes disso se dá no estudo de afasias, como a de Broca ou a de Wernicke. Uma pessoa cuja área de Broca seja lesionada por traumatismo ou derrame passa a apresentar sérios déficits de linguagem. Nos raros casos em que há uma recuperação “considerável” do paciente, nota-se um curioso quadro, como no caso do Sr. Ford, um paciente entrevistado pelo neuropsicólogo Howard Gardner, citado por Steven Pinker em O Instinto da Linguagem:
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a) Ele tem perfeito controle dos músculos vocais, mas apresenta um esforço e hesitações desesperadores para falar (e não só para falar, mas também para escrever).
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b) A maior parte das dificuldades está relacionada a omissões de terminações dos tempos verbais e termos functivos gramaticais como or [ou], be [ser], e the [o(s), a(s)], apesar de sua alta freqüência na língua.
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c) Lendo em voz alta, o paciente pulava os functivos, embora lesse bem termos de conteúdo como bee [abelha] ou oar [remo], que têm praticamente a mesma pronúncia de or [ou] e be [ser].
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d) Nomeava objetos e reconhecia seus nomes perfeitamente (ou seja, o problema parece mesmo concentrado na gramática em especial).
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e) Entendia perguntas quando seu assunto principal podia ser deduzido dos termos de conteúdo, como “Uma pedra flutua na água?” ou “Você usa um martelo para cortar as coisas?” — em que podia inferir o significado a partir das representações mentais de “pedra” e “água”, bem como de “martelo” e “cortar”. Mas era incapaz de entender perguntas que exijam análise gramatical (como de sujeito ou objeto) em frases como “O leão foi morto pelo tigre; qual deles morreu?” O Sr. Ford não conseguia destacar o matador e a vítima.
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f) Suas funções intelectuais sem vínculo estreito com a linguagem, como percepção espacial, capacidade de desenhar (até mesmo com a mão esquerda, não treinada), fazer cálculos, leitura de mapas, acertar horários de relógios, fazer construções ou cumprir ordens, estavam todas preservadas. De fato, seu QI não-verbal era acima da média.
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Enfim, é desse tipo de módulo mental, instalado muito provavelmente como resultado das duas mutações no gene FOXP2 que o difere da versão encontrada nos chimpanzés, que os animais carecem em seus sistemas de comunicação, que está muito aquém das proezas permitidas pela faculdade humana da linguagem.
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Acho relevante destacar ainda que a faculdade de linguagem é um módulo cognitivo autônomo. E não custa nada eu repetir aqui alguns simples exemplos ilustrativos disso:
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a) Conseguimos falar, sem problemas, frases do tipo: Estou vendo uma laranja ao lado de uma maçã, porém nenhuma delas está à direita da outra. Podemos falar isso, mas ninguém consegue visualizar em sua mente uma maçã ao lado de uma laranja, sem que uma esteja à direita da outra.
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b) Conseguimos falar, sem problemas: O gnomo fugiu para uma décima-quinta dimensão, onde ele se esconde, ali permanecendo, sem estar em lugar nenhum. Agora, embora possamos construir frases assim sem nenhuma dificuldade, é-nos impossível visualizar mentalmente o tal gnomo numa outra dimensão onde permaneça escondido, sem estar em lugar nenhum. Em nossa visão mental, ele sempre estará em algum lugar. Sempre haverá um fundo por trás de seus contornos, seja ele claro, escuro, colorido, como for. Sempre haverá um espaço onde o gnomo estará contido, mesmo que seja um espaço vazio, como que flutuando no vácuo. E, se tentarmos ampliar sua imagem, no intento de driblarmos essa limitação de nossa visualização mental, fazendo-o se estender por todo o campo visual mental, o fato é que estaremos apenas transformando o gnomo no próprio pano de fundo que não conseguimos tirar dali.
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Por outro lado, a situação contrária também acontece. Quantas vezes não vivenciamos a situação de estar com algo em mente que, quando tentamos explicar a alguém, não encontramos a forma de traduzi-lo em palavras de forma que nosso interlocutor construa a mesma visualização mental que temos? Isso é tão corriqueiro que chega a ser curioso que tão poucas pessoas atentem para essa clara evidência de que o módulo lingüístico é distinto do módulo de representações mentais.
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No que concerne às características ímpares da linguagem, há que se destacar ainda um outro ponto: a reanálise. A reanálise é um produto da criatividade combinatória discreta da faculdade da linguagem que, em termos de analogia, tem mais a ver com lendas ou piadas, que são enriquecidas de detalhes ou mesmo reelaboradas a cada novo relato, do que com alguma analogia que pudéssemos tentar fazer com a evolução biológica ou cultural, já que muitas inovações lingüísticas não se parecem com mutações, evoluções ou empréstimos aleatórios. É por isso que, embora as regras gramaticais das línguas faladas mudem rapidamente ao longo da história, elas não degeneram, pois a reanálise é uma fonte inesgotável de novas complexidades. Assim como elas tampouco precisam se diferenciar progressivamente, visto que as gramáticas podem pular entre os encaixes que a gramática universal chomskiana torna disponíveis na mente de cada humano normal.
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Muitas regras fonológicas surgiram quando ouvintes de alguma comunidade reanalisaram uma fala rápida e coarticulada. Num dialeto imaginário do português, em que os falantes não tenham ativação de nenhuma regra fonética que produzisse vozeamento distintivo em fricativa labiodental (bem como sua inibição) resultando em fomenas distintivos (v de “vaca” e f de “faca”), seus falantes geralmente pronunciariam apenas “faca”. Mas alguma circunstância poderia levar um falante a pronunciar a consoante de forma vozeada (eu já ouvi um amigo bêbado reclamar que estava com muita “vome”). Algum ouvinte poderia atribuir uma regra de vozeamento de fricativas labiodentais, talvez na hora de fazer uma distinção de acepção da palavra ou no ato de cunhar um novo termo.
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Isso não apenas pode ocorrer, como já ocorreu diversas vezes na história das línguas. No inglês, por exemplo, foi exatamente o que fez com que o v fosse assimilado à língua — pois, no inglês antigo, não havia v; o verbo starve (sentir fome extrema) era originalmente steorfan. Naquela época, uma regra de pronúncia havia se fixado, levando ao vozeamento automático do f toda vez que ele aparecesse entre duas vogais. E uma palavra que era, então, escrita como “ofer” era pronunciada como “ôuver”. Com o tempo, os ouvintes acabaram reanalisando o v como um fonema separado, e não uma forma de pronunciação de f, o que resultou em que a atual grafia da palavra em questão, por exemplo, é over no inglês moderno, ao passo que v e f coexistem como fonemas separados. Hoje, os falantes de inglês conseguem diferenciar palavras como waver (oscilação) e wafer (tipo de bolinho folhado e fino); porém, o rei Etelvoldo de Wessex (um dos sete reinos em que estava dividida a Inglaterra no século 9) não teria conseguido ver qualquer distinção entre uma e outra.
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De qualquer forma, regras fonológicas, tal como as regras morfosintáticas determinadas pela gramática universal, uma vez ativadas durante o processo de aquisição lingüística, passam a ser produzidas pelos falantes do dialeto ou língua de forma espontânea, sem qualquer necessidade de decoreba.
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Para demonstrar como a coisa funciona em nossa própria língua materna (o português), darei um exemplo de como essas regras, após ativadas em nossos cérebros à recepção do input, levam-nos a seguir suas normas espontaneamente, sem que jamais tivéssemos de aprendê-las na escola.
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Tomemos os seguintes pares de palavras:
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Arroz branco.Arroz pronto.Arroz velho.Arroz frio.Arroz grego.Arroz caro.
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Se começarmos a recitar essa seqüência de pares de palavras num ritmo normal, poderemos notar um fenômeno fonológico muito interessante acontecendo em nossa pronúncia. O “z” final de arroz será sempre pronunciado com o som vozeado do “z” de zebra em todos os pares em itálico, porém, nos pares em negrito, o mesmo “z” final será pronunciado com o som sibilante do “s” de sapo. A regrinha elementar que todos sabemos, mas ninguém estudou na escola (e, portanto, até mesmo os analfabetos a obedecem em seus enunciados) é a que nos obriga a vozear essa consoante final sempre que seguida de palavra começada em consoante vozeada (o que alguns chamam de “sonora”), e desvozeá-la quando a palavra seguinte começar com uma consoante desvozeada (o que alguns chamam de “surda”).
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Estrangeiros aprendendo o português como língua estrangeira e falantes de uma língua destituída de tal regra, como já inibiram a emergência dessa regra durante a aquisição de sua própria língua, ou terão de memorizá-la e treiná-la, ou produzirão esses sons de maneira equivocada, carregando seu sotaque estrangeiro.
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Um parêntese sobre a comunicação animal versus a faculdade humana da linguagem
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Outro dia, perguntaram-me se eu conhecia algum trabalho que tivesse demonstrado que a comunicação animal, em termos técnicos, não poderia ser classificiada como “linguagem animal”. Nem tive de ir longe atrás de um exemplo. Na obra que já citei aqui, O Instinto da Linguagem: como a mente cria a linguagem (São Paulo: Martins Fontes, 2002), o lingüista e cientista cognitivo de Harvard, Steven Pinker, após salientar com detalhes as características distintivas entre a comunicação animal e a linguagem humana, faz o seguinte resumo dessa distinção:
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Obviamente, a linguagem é tão diferente dos sistemas de comunicação de outros animais quanto a tromba do elefante é diferente das narinas de outros animais. Os sistemas de comunicação não-humanos baseiam-se em uma dentre três organizações: um repertório finito de chamados (um para avisar da presença de predadores, um para reivindicar território etc.), um sinal analógico contínuo que registra a magnitude de algum estado (quanto mais vivaz a dança da abelha, mais ela expressa a riqueza da fonte de alimento para as colegas da colméia), ou uma série de variações aleatórias sobre um tema (o canto de um pássaro repetido a cada vez com um novo tratamento: um Charlie Parker com penas). (...) a linguagem humana organiza-se de forma bem diferente. O sistema combinatório discreto denominado "gramática" torna a linguagem humana infinita (não há limite para o número de palavras ou frases complexas numa língua), digital (obtém-se esta infinidade pelo rearranjo de elementos discretos em determinadas ordens e combinações, e não pela variação de algum sinal ao longo de um continuum como o mercúrio num termômetro) e composicional (cada uma das combinações infinitas tem um significado diferente previsível a partir do significado de suas partes e das regras e princípios que as ordenam)..Até mesmo o sítio da linguagem humana no cérebro é especial. Os chamados vocais dos primatas são controlados não por seu córtex cerebral mas por estruturas nervosas filogeneticamente mais antigas do tronco cerebral e do sistema límbico, estruturas profundamente relacionadas com a emoção. Vocalizações humanas distintas da linguagem, como soluços, risos, gemidos e gritos de dor, também são controlados subcorticalmente. As estruturas subcorticais controlam até mesmo as imprecações que se seguem à chegada de um martelo num dedo, que emergem como tique involuntário na síndrome de Tourette, e que podem ser a única coisa que resta da fala em afásicos de Broca. (...) a verdadeira linguagem tem por localização o córtex cerebral, em particular a região à esquerda do sulco lateral. (PINKER, op. cit., págs. 427-428)
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No livro, há descrições detalhadas dessas diferenças.
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Quando citei a passagem, a pessoa que me havia feito a pergunta comentou: “Pelo visto, ele não chegou a analisar a capacidade dos cachorros de entender mais de 800 palavras e a dos chimpanzés de conseguir falar por linguagem de sinal com um vocabulário de mais de mil símbolos, inclusive aprendendo a formar frases simples a até cunhando novos termos e composições”.
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Ao que tive de treplicar. Afinal, se há uma coisa de que estão cientes todos os que conhecem os trabalhos de Chomsky, Pinker, Jackendoff, Hauser e outros que estudam linguagem e cognição humana, bem como comunicação e cognição animal no MIT, em Harvard e outras instituições, é que esses estudos com animais citados pelo rapaz com quem eu dialogava partiram de notórios equívocos behavioristas do século passado, levando a interpretações exageradas e leituras extremamente distorcidas dos dados dos experimentos realizados. No livro mencionado, bem como em vários artigos científicos publicados por Pinker, Hauser, Chomsky, Jackendoff e Fitch, faz-se uma séria reavaliação da suposta “linguagem animal”, levando-se em conta as novas descobertas nos campos da Lingüística, da Neurolingüística e da cognição animal. Achados importantíssimos que os adestradores ignoravam.
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Após a descoberta do papel do gene FOXP2 no desenvolvimento dos circuitos neurais da linguagem, bem como das evidências do próprio módulo mental que lida com as estruturas algorítmicas chomskianas, que tudo indica funcionar independentemente de outros módulos cognitivos, como já destacado, tornou-se imprescindível uma revisão desses alegados experimentos com “linguagem animal”, em especial as alegações de que primatas haviam aprendido a Língua Americana de Sinais (ASL, na sigla inglesa).
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O que essa revisão trouxe à tona foi:
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1) Animais como cães e gatos que, supostamente, reconheciam palavras humanas na verdade apresentavam nada distinto de comportamentos reforçados por condicionamento reflexo. Eles não “reconheciam” as palavras (como quem as entende). Eles simplesmente reagiam ao padrão de seqüências vocálicas a que eram repetidamente expostos e repetiam comportamentos que eram condicionados a fazer em seu adestramento.
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2) Em geral, quanto mais contundentes eram as afirmações sobre as habilidades do animal, mais escassos eram os dados disponíveis para a avaliação da comunidade científica. (Além do que, a maioria dos adestradores se recusou a fornecer seus dados primários, e Beatrice e Alan Gardner, os treinadores da famosa chimpanzé Washoe, até ameaçaram processar outro pesquisador porque ele usou imagens de um de seus filmes com a chimpanzé — os ÚNICOS dados disponíveis sobre as supostas habilidades de Washoe — num artigo crítico do estudo.)
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3) Este pesquisador (Herbert Terrace), junto com Laura Ann Petitto, Richard Sanders e Tom Bever, tentaram repetir os procedimentos adotados no treinamento de Washoe com um parente da chimpanzé, chamado Nim Chimpsky. Porém, dessa vez, os pesquisadores tabularam e analisaram cuidadosamente os sinais de sua aparente aquisição da ASL, ao passo que outros pesquisadores analisaram cada pormenor de TODOS os videoteipes e dados publicados sobre outros primatas que alegadamente se expressavam por sinais.
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Qual foi a conclusão unânime de todos esses estudos de revisão feitos independentemente? Não acredite em tudo o que você vê no Fantástico!
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Só para citar o comentário de Pinker sobre todas as pesquisas com os primatas que “aprenderam a linguagem de sinais”:
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Para começo de conversa, os macacos não “aprenderam a Língua Americana de Sinais”. Essa afirmação absurda baseia-se no mito de que a ASL é um sistema rudimentar de pantomimas e gestos e não uma língua plena com fonologia, morfologia e sintaxe completas (características que Pinker demonstra existir de forma patente na língua de sinais falada por americanos que nasceram surdos e, conseqüentemente, ficaram mudos). Na verdade, os macacos não tinham aprendido nenhum sinal da ASL..
As suspeitas disso haviam começado tempos antes, quando a famosa primatologista Jane Goodall, visitando o projeto de adestramento de símios que supostamente aprendiam a ASL, observou que os supostos “sinais da língua” eram muito semelhantes aos vários gestos que ela própria já observara nos chimpanzés em estado selvagem. Não havia visto nada de mais, a cientista.
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As pesquisas revisando os estudos confirmaram isso. Os alegados “sinais” não eram nada parecidos com os sinais da ASL. E o golpe final veio de um grupo de surdos que falavam pela Língua Americana de Sinais. Eles, vendo os supostos “sinais” dos macacos, deram o veredicto: nada daquilo era sinal da ASL! Os chimpanzés estavam se amparando muito mais nos gestos de seu repertório natural do que aprendendo os sinais arbitrários da ASL, que possui, o que muitos não-lingüistas ignoram, estrutura fonológica combinatória de formas de mãos, movimentos, localizações e orientações.
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Mas os psicólogos, discípulos do behaviorismo de Skinner, numa atitude bem pouco cético-científica, iam lendo frases inteiras em tudo quanto fosse gesto dos animais. O que, não por acaso, um dos pesquisadores que acompanhou o experimento original, que era também deficiente auditivo que usava a ASL, foi obrigado a reconhecer: seus companheiros ingenuamente viam sinais em tudo o que os chimpanzés faziam, mas nada daquilo eram sinais da ASL. (As observações dele foram anotadas num registro que Pinker reproduz na página 433 de O Instinto da Linguagem.)
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Por outro lado, num período assaz recente da história, a Nicarágua deu ao mundo um exemplo fabuloso de como a coisa é bem diferente com relação aos humanos.
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Em 1979, o governos sandinista chegou ao poder naquele país e, dentre suas medidas, reformou o sistema educacional. Foram criadas as primeiras escolas para deficientes auditivos. O enfoque dessas escolas, no entanto, era o natimorto método da leitura labial e da concentração na fala, técnica que fracassou em todo lugar que foi experimentada. Porém, nos parques e ônibus escolares, as crianças, agrupadas, interagindo (lembram da teoria da zona proximal de desenvolvimento de Vygostiky?, pois então...), começaram a inventar, sozinhas, seu próprio sistema de sinais. Esse sistema foi o que mais tarde se consolidou como a Língua Nicaragüense de Sinais (LNS), com diferentes graus de fluência e muito rústica, praticamente um pidgin (isto é, uma cadeia precária de palavras — neste caso, de sinais — que varia muito em ordem e muito pobres em termos gramaticais). Mas foi apenas o pontapé inicial!
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As crianças que nasceram pouco depois, que passaram a ir a escola quando as LNS já era utilizada pelos deficientes auditivos a torto e a direito, desenvolveram uma língua de sinais incrivelmente mais complexa e rica. As crianças, espontaneamente, introduziram várias estratégias gramaticais ausentes na LSN e, portanto, passaram a depender menos de circunlóquios sugestivos.
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Por exemplo, um usuário de LSN pode ter um sinal para “falar com” e depois tem de fazer um gesto que vá da posição do enunciador para a posição do receptor da mensagem. Mas um usuário do Idioma de Signais Nicaragüense (ISN), como passou a ser chamada a nova variedade de língua de sinais criada pelas crianças, modifica o próprio sinal, arrastando-o num mesmo movimento de um ponto que representa o falante para um outro ponto que representa o ouvinte, numa estratégia que, em termos formais, é idêntica à flexão verbal em função da concordância, nas línguas faladas. E isso é apenas um exemplo trivial das distinções notáveis.
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Em suma, tudo isso deixa bem cala a mensagem: a comunicação animal não é o mesmo que a faculdade humana da linguagem — isso é fato! As mutações genéticas que instalaram em nossa espécie esses circuitos específicos para sua produção (desde a divergência de nossa linhagem com o galho evolutivo dos modernos chimpanzés) simplesmente não ocorreram nas versões do gene em outros animais.
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Nenhum lingüista, principalmente um que esteja familiarizado com as descobertas mais recentes na Genética e na Neurolingüística, confunde comunicação animal com linguagem. Isso é análogo à confusão dos leigos sobre o sentido de evolução na Biologia e no senso comum, onde os significados são bem diferentes.
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A linguagem e os pensamentos: ingredientes para o bolo da fé
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Então, temos uma faculdade mental especial: a linguagem. E ela tem módulo autônomo, que funciona independentemente de outros módulos cognitivos em nossas mentes. A primeira coisa que podemos concluir disso é que, toda vez que alguém nos diz algo como “Meu inglês é tão avançado que eu já até penso em inglês”, tal pessoa está assinando um risível atestado de ignorância em Lingüística. E por quê? Simples: porque ninguém pensa em inglês! Aliás, ninguém pensa em idioma nenhum. A “linguagem” do pensamento — o “mentalês”, como Pinker a chama — não é a língua que falamos.
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O fato de que discursamos internamente em nosso idioma, com uma voz que narra em off as imagens mentais que construímos, sobrepondo essa voz interior por sobre a visualização, é que nos faz cometer esse corriqueiro equívoco. No entanto, como já demonstrado aqui, pensamos coisas que não conseguimos traduzir para a linguagem e, por outro lado, falamos coisas que não conseguimos traduzir em imagens mentais.
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Ao mesmo tempo, é óbvio que o funcionamento conjunto dos circuitos da linguagem e dos demais módulos cognitivos acabam interagindo. Por exemplo: quando um produto intermediário é armazenado na mente humana, em vez de num CD ou num papel, isso é normalmente chamado pelos psicólogos de memória de trabalho. (Basta pensar em quando, num papel, fazemos uma soma e rabiscamos um dígito em cima de uma coluna para não perdermos o número que precisa ser adicionado à coluna — somando 1.453 + 3.564 + 14.289 → “3 + 4 = 7, + 9 = 16, sobe 1...” Pois bem, a memória de trabalho é fazer justamente isso, porém na mente, em vez de na folha de papel.)
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Acontece que as duas formas mais vívidas de memória de trabalho são as imagens mentais, também chamadas de esboço visuoespacial, e pedaços desse discurso interior a que me referi acima, também chamado de circuito fonológico. As pessoas costumam usar seu circuito fonológico para guardar um número de telefone na cabeça, para fazer aritmética mental e para acompanhar os sentidos de direita e esquerda quando seguem instruções de caminho que alguém lhes deu ou se lembram de lugares. O fato de que a língua possui um lado físico — som e pronúncia — acaba tornando-a útil como meio para a memória de trabalho, pois permite que a informação seja temporariamente transferida para as partes auditivas e motoras do cérebro (o que de fato acontece), liberando capacidade nos sistemas centrais onde trafega a informação mais abstrata.
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Dado curioso, nesse sentido, é que muitos cientistas da cognição sustentam que a mente humana herdou de nossos ancestrais mamíferos dois sistemas para rastrear quantidades. Um deles é um sistema de estimativa por analogia, em que as quantidades são avaliadas de modo aproximado, relacionando-as a alguma magnitude contínua na cabeça, como a vaga idéia de “quantidade de coisas”, ou a extensão de uma linha imaginária. O segundo sistema rastreia quantidades exatas, mas só até um limite muito curto, por volta de 3 ou 4. Nenhum dos dois é adequado para pensar em quantidades que sejam ao mesmo tempo grandes e exatas, como 9, ou 37, ou 187.148. Para essas, é preciso aprender, na infância, um sistema numérico e operações aritméticas.
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Não é difícil concluir que as crianças da savana africana ou os índios de várias tribos amazônicas não têm contato com um sistema educacional que promova o ensino desse tipo de sistema e operações na infância, bem como tampouco têm real necessidade de aprender a desenvolver o raciocínio matemático complexo, já que isso não é útil para a sobrevivência no ambiente em que se encontram — por isso mesmo, algumas tribos podem até possuir um sistema de contagem ligeiramente mais extenso, embora longe de ser algo complexo, enquanto outras ficam só na limitação que os próprios macacos também têm: a de rastrear números exatos apenas em pequenas quantidades, como 1, 2, 3 ou 4. Não houve nem há necessidade para desenvolvimentos como os citados aqui.
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De fato, sabemos que macacos conseguem rastrear pequenas quantidades exatas, como 1, 2, 3 ou 4. Mas também sabemos que macacos não têm linguagem. Logo, é presumível que eles realizem tal operação de contagem valendo-se de imagens mentais, mas com certeza não do circuito fonológico (que eles não têm). Já os caçadores-coletores africanos ou os índios brasileiros, por sua vez, embora no meio em que vivem prescindam de matemática complexa, fazem o rastreamento de pequenas quantidades tal como nós das sociedades letradas: usando o esboço visuoespacial e o circuito fonológico. Um pirahã pode não contar até mais de 3, mas conta 1, 2 e muitos, valendo-se dessas mesmas duas ferramentas úteis à memória de trabalho. Além disso, um bebê pirahã pode aprender toda a matemática complexa que utilizamos, desde que lhe seja ensinado dentro da fase crítica de desenvolvimento cortical (tal como aliás ocorre com a gente). Aprendizado tardio, como a educação de adultos demonstra, é geralmente limitado — nenhum analfabeto de uma vida inteira torna-se um gênio da Literatura, da Filosofia ou da Física Quântica, depois de passarem pela educação em fase tão tardia do desenvolvimento cerebral.
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Mas, enfim, essa complexa interação dos circuitos da linguagem e demais circuitos cognitivos, à medida que vem sendo desvendada, vai nos ajudando a entender como o cérebro trabalha a assimilação de conceitos, por exemplo, algo que interfere enormemente naquilo em que as pessoas acreditam, no que depositam sua fé.
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Acerca de um desses processos, no início de 2008, passamos a entender um pouco do que ocorre no cérebro humano quando assimilamos uma proposição qualquer (seja ela factual ou não) como dado verdadeiro. Por meio de mapeamento por ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla inglesa), pôde-se verificar que, na avaliação e assimilação de alguma proposição, determinadas regiões do córtex pré-frontal medial, da ínsula anterior, do lobo parietal superior e do núcleo caudado agem como mediadores, nos processos de aceitação ou rejeição de alguma proposição como verdadeira ou falsa.
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O que torna tal constatação interessante aqui é o fato de que, com o desenvolvimento da linguagem no Homo sapiens, a assimilação de um dado transmitido a alguém (por meio da língua falada) e a aceitação do novo dado como sendo verdade pelo receptor da mensagem, acaba sendo um processo curiosamente governado, em parte, pelas mesmas áreas do cérebro que estão sabidamente relacionadas com nossa memória e aprendizado, e que são as mesmas que utilizamos para julgar, por exemplo, se um determinado sabor ou aroma nos é agradável ou não. Áreas que usamos para avaliar itens concretos, coisas palpáveis no mundo ao nosso redor, são ativadas para processo de armazenamento de dados (e, curiosamente, mesmo de conceitos que são muitas vezes abstratos ou mesmo fantasiosos), desde que aceitemos tal coisa como sendo verdade.
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O estudo em questão foi realizado por Sam Harris em seu programa de doutorado em Neurociências pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e publicado na revista Annals of Neurology, sério periódico da Associação Neurológica Americana (vide: HARRIS, S., SHETH, S. A. & COHEN, M. S. “Functional neuroimaging of belief, disbelief and uncertainty”. Annals of Neurology, Vol. 63, nº 2, 2008, págs. 141-147).
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Como nos mostram os dados, podemos compreender melhor por que aquilo em que acreditamos nos parece tão sólido, tão concreto, tão “real” (mesmo que não seja algo legitimamente factual): tal sensação de solidez, de concretude, de “verdade verdadeira e quase palpável” é produzida como resultado pelas áreas cerebrais que participam do processo de armazenagem de tal proposição aceita individualmente bem como de outros processos os mais distintos (memória, aprendizado, avaliação de aspectos de objetos concretos...). E sim: isso quer dizer que o cérebro apresenta as mesmas ativações quando uma pessoa aceita como verdade um dado óbvio como “O fogo queima a pele se em contato com ela”, ou quando um cientista aceita a validade de uma teoria pela análise de suas evidências corroborantes, pelo teste de suas hipóteses e pela confirmação prática de suas leis, mas também quando um supersticioso aceita como verdade que deixar os chinelos virados para baixo traz má sorte ou que demônios aparecem para as pessoas que xingam na quaresma.
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Assim, para resumir, podemos perceber agora que acreditar em algo (seja algo factual ou não) faz daquilo em que se acredita algo concreto, algo tão verdadeiro quanto as teclas do computador com que agora digito este texto. Acreditar é tornar real para si o objeto da crença!
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Somando-se a esses dados, em agosto último, o periódico científico Nature Reviews Neuroscience (Vol. 9, págs. 646 – 564, agosto/2008) publicou um artigo de autoria do Dr. Prof. Shihui Han, da Universidade de Pequim (China), e do Dr. Prof. Georg Northoff, da Universidade de Magdeburg (Alemanha), que parece demonstrar que tanto o ambiente cultural ao nosso redor pode deixar algumas marcas em nossas mentes quanto o fato de acreditar ou não em Deus pode alterar conexões cerebrais. Ou seja, para deixar bem claro o que se quer dizer aqui, descobriu-se que o cérebro de um ateu e de um crente (no sentido de alguém que creia num Deus não importa a religião) costumam tomar caminhos neuronais diferentes na hora de executar uma mesma tarefa.
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Os pesquisadores selecionaram pessoas declaradamente não-religiosas e outras de religião cristã, e fizeram a elas as mesmas perguntas. Essas perguntas consistiam em julgar a si mesmas e a pessoas famosas. Eles deveriam classificar as pessoas citadas pelo pesquisador como: corajosas, desleais, infantis e outros adjetivos. Ou seja, algo aparentemente simples, do que se esperaria uma resposta cerebral semelhante. Ao mesmo tempo, enquanto essas pessoas respondiam as perguntas, eram submetidas a uma Ressonância Magnética Funcional, onde é possível ver que áreas do cérebro estão sendo ativadas a cada momento.
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Para uma rápida exposição: o córtex frontal é a região do cérebro envolvida no raciocínio, na tomada de decisões, em julgamentos do que é certo e errado, bom e ruim. Sua região dorsomedial (que fica na parte de cima, bem no meio do córtex frontal) é ativada quando tentamos nos colocar no lugar de outra pessoa, num exercício de buscar interpretar o que ela estaria pensando ou quais seriam suas emoções em dado momento. Nós sempre usamos essa parte do córtex para imaginar, por exemplo, se o outro está bem ou mal, baseando-se na leitura de sua expressão facial ou de seu comportamento. Essa função cognitiva é hoje muito conhecida como “teoria da mente”. A região ventromedial (que fica na parte debaixo do córtex frontal, bem no meio), por sua vez, é responsável pela nossa auto-percepção, como nós nos julgamos. Ela é ativada quando pensamos em nós próprios: se somos fortes ou fracos, atraentes ou feios, se estamos felizes ou deprimidos, se nosso comportamento ontem na casa dos pais da namorada foi certo ou errado. Em outras palavras, é nessa área do cérebro que se estabelece a autoconsciência de cada indivíduo.
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O que torna tal constatação interessante aqui é o fato de que, com o desenvolvimento da linguagem no Homo sapiens, a assimilação de um dado transmitido a alguém (por meio da língua falada) e a aceitação do novo dado como sendo verdade pelo receptor da mensagem, acaba sendo um processo curiosamente governado, em parte, pelas mesmas áreas do cérebro que estão sabidamente relacionadas com nossa memória e aprendizado, e que são as mesmas que utilizamos para julgar, por exemplo, se um determinado sabor ou aroma nos é agradável ou não. Áreas que usamos para avaliar itens concretos, coisas palpáveis no mundo ao nosso redor, são ativadas para processo de armazenamento de dados (e, curiosamente, mesmo de conceitos que são muitas vezes abstratos ou mesmo fantasiosos), desde que aceitemos tal coisa como sendo verdade.
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O estudo em questão foi realizado por Sam Harris em seu programa de doutorado em Neurociências pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e publicado na revista Annals of Neurology, sério periódico da Associação Neurológica Americana (vide: HARRIS, S., SHETH, S. A. & COHEN, M. S. “Functional neuroimaging of belief, disbelief and uncertainty”. Annals of Neurology, Vol. 63, nº 2, 2008, págs. 141-147).
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Como nos mostram os dados, podemos compreender melhor por que aquilo em que acreditamos nos parece tão sólido, tão concreto, tão “real” (mesmo que não seja algo legitimamente factual): tal sensação de solidez, de concretude, de “verdade verdadeira e quase palpável” é produzida como resultado pelas áreas cerebrais que participam do processo de armazenagem de tal proposição aceita individualmente bem como de outros processos os mais distintos (memória, aprendizado, avaliação de aspectos de objetos concretos...). E sim: isso quer dizer que o cérebro apresenta as mesmas ativações quando uma pessoa aceita como verdade um dado óbvio como “O fogo queima a pele se em contato com ela”, ou quando um cientista aceita a validade de uma teoria pela análise de suas evidências corroborantes, pelo teste de suas hipóteses e pela confirmação prática de suas leis, mas também quando um supersticioso aceita como verdade que deixar os chinelos virados para baixo traz má sorte ou que demônios aparecem para as pessoas que xingam na quaresma.
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Assim, para resumir, podemos perceber agora que acreditar em algo (seja algo factual ou não) faz daquilo em que se acredita algo concreto, algo tão verdadeiro quanto as teclas do computador com que agora digito este texto. Acreditar é tornar real para si o objeto da crença!
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Somando-se a esses dados, em agosto último, o periódico científico Nature Reviews Neuroscience (Vol. 9, págs. 646 – 564, agosto/2008) publicou um artigo de autoria do Dr. Prof. Shihui Han, da Universidade de Pequim (China), e do Dr. Prof. Georg Northoff, da Universidade de Magdeburg (Alemanha), que parece demonstrar que tanto o ambiente cultural ao nosso redor pode deixar algumas marcas em nossas mentes quanto o fato de acreditar ou não em Deus pode alterar conexões cerebrais. Ou seja, para deixar bem claro o que se quer dizer aqui, descobriu-se que o cérebro de um ateu e de um crente (no sentido de alguém que creia num Deus não importa a religião) costumam tomar caminhos neuronais diferentes na hora de executar uma mesma tarefa.
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Os pesquisadores selecionaram pessoas declaradamente não-religiosas e outras de religião cristã, e fizeram a elas as mesmas perguntas. Essas perguntas consistiam em julgar a si mesmas e a pessoas famosas. Eles deveriam classificar as pessoas citadas pelo pesquisador como: corajosas, desleais, infantis e outros adjetivos. Ou seja, algo aparentemente simples, do que se esperaria uma resposta cerebral semelhante. Ao mesmo tempo, enquanto essas pessoas respondiam as perguntas, eram submetidas a uma Ressonância Magnética Funcional, onde é possível ver que áreas do cérebro estão sendo ativadas a cada momento.
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Para uma rápida exposição: o córtex frontal é a região do cérebro envolvida no raciocínio, na tomada de decisões, em julgamentos do que é certo e errado, bom e ruim. Sua região dorsomedial (que fica na parte de cima, bem no meio do córtex frontal) é ativada quando tentamos nos colocar no lugar de outra pessoa, num exercício de buscar interpretar o que ela estaria pensando ou quais seriam suas emoções em dado momento. Nós sempre usamos essa parte do córtex para imaginar, por exemplo, se o outro está bem ou mal, baseando-se na leitura de sua expressão facial ou de seu comportamento. Essa função cognitiva é hoje muito conhecida como “teoria da mente”. A região ventromedial (que fica na parte debaixo do córtex frontal, bem no meio), por sua vez, é responsável pela nossa auto-percepção, como nós nos julgamos. Ela é ativada quando pensamos em nós próprios: se somos fortes ou fracos, atraentes ou feios, se estamos felizes ou deprimidos, se nosso comportamento ontem na casa dos pais da namorada foi certo ou errado. Em outras palavras, é nessa área do cérebro que se estabelece a autoconsciência de cada indivíduo.
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No experimento, quando pediram para ateus e cristãos julgarem a si mesmos bem como o comportamento de outras pessoas (pessoas famosas), foi uma curiosa revelação perceber que eles ativaram áreas diferentes do cérebro exatamente conforme a classificação da pessoa testada quanto a suas crenças. Na hora de fazerem seus julgamentos, principalmente na hora de qualificar a si próprios ou seu próprio comportamento, os cristãos ativavam o córtex pré-frontal dorsomedial e os indivíduos não-religiosos ativavam a região ventromedial, de modo que, considerando-se a respectiva função dessas duas regiões, concluiu-se que os cristãos apresentavam a resposta de se julgar “pondo-se no lugar de Deus”, já que sua religião lhes ensina que a moral se estrutura a partir da “perspectiva de Deus”. Uma operação psicológica típica da atribuição mental ou “teoria da mente”: na hora de julgarmo-nos, colocamo-nos no lugar de Deus e imaginamos como ele nos julgaria. Por sua vez, os não-religiosos, ao que tudo indica, julgam-se a partir do referencial de sua própria história de vida e suas características próprias, sem se colocarem na posição de um observador externo. Ao assim procederem, ativam o córtex pré-frontal ventromedial, responsável por executar esse tipo de tarefa.
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A esta altura, um cínico poderia perguntar: “Mas dá mesmo para saber se os crentes estão avaliando os outros e a si mesmos colocando-se de fato na perspectiva moral de Deus ou Jesus?” De forma precisa assim, não! Eles podem também estar fazendo seus julgamentos morais a partir do ponto de vista do Diabo, quem sabe? Ou do espírito desencarnado de Chico Xavier. Podem até estar adotando a perspectiva moral do deus Unkulunkulu dos zulus africanos.
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Agora, o que se sabe, com certeza, é que eles fazem julgamentos morais colocando-se na perspectiva de outra pessoa que não eles próprios: pois desativam a área ventromedial do córtex pré-frontal, responsável por nossa auto-percepção, e ativam a dorsomedial, que usamos apenas para nos colocarmos no lugar de alguém, quando, por exemplo, tentamos imaginar o que Fulano poderia estar pensando de nós, ou o que Sicrano estaria tramando contra nós, ou ainda quando pedem a você para tentar se colocar no lugar da Marisa, que tentou suicídio outro dia, e você se imagina sendo a mulher e vivenciando a experiência de ver o marido e o filho decapitados entre as ferragens de seu carro batido na traseira de um caminhão, procurando compreender melhor quais poderiam ter sido suas emoções. Enfim...
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A verdade é que, como o código moral cristão está diretamente associado com a figura de seu deus, os pesquisadores concluíram, muito coerentemente, que essa outra pessoa em cuja perspectiva os cristãos invariavelmente se colocam na hora de emitirem juízos morais deve ser seu próprio deus. E condiz com o fato de que os ateus não manifestam o mesmo padrão de ativação.
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De qualquer forma, o que esses dois estudos nos revelam é muito intrigante e, ao mesmo tempo, perturbador. Primeiramente, vimos que o que torna o objeto de nossas crenças real para nós são as vias neuronais pelas quais dados lingüísticos são assimilados — como nossos cérebros não são perfeitos, frutos de algum projeto inteligente, acabam cometendo, digamos, o “pecado” de processar dados factuais, concretos, pelos mesmos canais que dados abstratos, fantasiosos ou irracionais, desde que acreditemos no dado como nos foi transmitido. Além disso, vimos que, dentre as mais distintas crenças humanas, embora seja bem possível que nossas crenças ideológicas também apresentem seus efeitos ainda não-estudados sobre o mecanismo computacional de nossos cérebros, já sabemos que ao menos as crenças religiosas resultam em outputs diferenciados, quando comparados àqueles de cérebros de pessoas sem religião, em especial no que diz respeito à forma como julgamos os outros e a nós mesmos.
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Agora, já entendemos por que aquilo em que acreditamos nos parece tão real (mesmo que não seja, na realidade), bem como sabemos que nossas crenças, em especial as religiosas, afetam nossa maneira de pensar, fazendo com que mesmo nosso julgamento das pessoas e de nós mesmos seja regido por áreas distintas do córtex frontal. Fica apenas uma pergunta: como foi que a seleção natural acabou levando à evolução em nós de cérebros tão propensos a acreditar acriticamente em coisas que podem afetar consideravelmente nossa maneira de viver e de encarar o mundo?
De qualquer forma, o que esses dois estudos nos revelam é muito intrigante e, ao mesmo tempo, perturbador. Primeiramente, vimos que o que torna o objeto de nossas crenças real para nós são as vias neuronais pelas quais dados lingüísticos são assimilados — como nossos cérebros não são perfeitos, frutos de algum projeto inteligente, acabam cometendo, digamos, o “pecado” de processar dados factuais, concretos, pelos mesmos canais que dados abstratos, fantasiosos ou irracionais, desde que acreditemos no dado como nos foi transmitido. Além disso, vimos que, dentre as mais distintas crenças humanas, embora seja bem possível que nossas crenças ideológicas também apresentem seus efeitos ainda não-estudados sobre o mecanismo computacional de nossos cérebros, já sabemos que ao menos as crenças religiosas resultam em outputs diferenciados, quando comparados àqueles de cérebros de pessoas sem religião, em especial no que diz respeito à forma como julgamos os outros e a nós mesmos.
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Agora, já entendemos por que aquilo em que acreditamos nos parece tão real (mesmo que não seja, na realidade), bem como sabemos que nossas crenças, em especial as religiosas, afetam nossa maneira de pensar, fazendo com que mesmo nosso julgamento das pessoas e de nós mesmos seja regido por áreas distintas do córtex frontal. Fica apenas uma pergunta: como foi que a seleção natural acabou levando à evolução em nós de cérebros tão propensos a acreditar acriticamente em coisas que podem afetar consideravelmente nossa maneira de viver e de encarar o mundo?
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Um último aspecto dessa interação entre os circuitos da linguagem e os demais circuitos cognitivos que gostaria de destacar aqui é algo que Pinker discute em seu mais recente livro Do Que É Feito o Pensamento: A língua como janela para a natureza humana (São Paulo: Cia. das Letras, 2008).
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É muito interessante notar que, enquanto lesões no córtex e na matéria branca subjacente ao longo da fenda horizontal (a fissura silviana) no hemisfério esquerdo costumam causar afasia, ou seja, a perda da linguagem articulada, os neurologistas desde o início dos estudos de afasias perceberam que os pacientes podem manter a habilidade de falar palavrões. Segundo o que hoje se sabe, falar palavrões em voz alta ou ouvir palavrões ditos por outras pessoas ativam áreas mais profundas e antigas do cérebro, sugerindo que epítetos tabus fiquem armazenados na forma de fórmulas pré-fabricadas no hemisfério direito (o hemisfério oposto ao que abriga a maior parte dos circuitos da linguagem). Essas fórmulas estão no extremo oposto de um contínuo que tem na outra extremidade o discurso calculado, em que combinações de palavras expressam combinações de idéias, seguindo regras gramaticais.
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Como Pinker destaca, isso não quer dizer que o hemisfério direito possua algo como um módulo profano, mas que seus recursos lingüísticos estão confinados a fórmulas decoradas, em vez de a combinações governadas por regras. Como alguns estudos demonstraram, o hemisfério direito guarda um vocabulário respeitável de palavras, pelo menos no que diz respeito à compreensão. Nele também podem ficar armazenados equivalentes idiossincráticos a formas governadas por regras, como os verbos irregulares (Dronkers, N., Pinker, S. & Damasio, A. R. “A linguagem e as afasias”. Em Kandel, E. R. et al. Princípios da Neurociência. São Paulo: Ed. Manole, 2002). Sua ativação freqüentemente acompanha a utilização de fórmulas decoradas mais longas, como letras de música, orações, pontuadores de conversa como “hãã”, “nóóó”, “é mesmo!”, e iniciadores de frases como “eu acho” e “não é possível”.
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Além disso, é interessante que o hemisfério direito esteja associado às emissões de palavrões, quando sabemos que este hemisfério está mais envolvido com as emoções, em especial as de carga negativa. Agora, é importante salientar que a incompreensão dos cientistas ainda é grande quanto a todos os detalhes desse complexo funcionamento da circuitaria nesse tipo de processamento. Por exemplo, é possível que não seja exatamente o córtex cerebral do hemisfério esquerdo que deflagre os epítetos, mas uma estrutura cerebral mais antiga em termos evolutivos, os gânglios basais. Estes já foram implicados no ato de xingar por duas linhas de evidencias.
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Uma delas é um estudo sobre um homem que havia sofrido um derrame nos gânglios basais do lado direito. Se nos casos de afasia, pacientes perdem a linguagem articulada, mas xingam que é uma beleza, neste caso, o homem era capaz de conversar fluentemente, em frases perfeitamente gramaticais, mas não conseguia cantar músicas que antes conhecia, nem recitar orações que sabia desde criança e, voilà, não conseguia falar nenhum palavrão, nem mesmo quando se lhe davam o começo da palavra para que ele apenas a completasse. Ele não sabia.
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Além disso, os gânglios basais têm um papel bem mais conhecido nas emissões de palavrões. Como se sabe, em pacientes com síndrome de Tourette, os gânglios de base apresentam anormalidades, em parte hereditárias. O resultado é que os ditos sistemas executores do cérebro, que monitoram o comportamento originário do resto do cérebro e interferem nele, passam a não apresentar sua funcionalidade censora de costume, e o sintoma mais alardeadamente divulgado da síndrome é um tique vocal que consiste em gritar obscenidades, tabuísmos étnicos e outros tipos de agressão verbal, o que não ocorre com todos os pacientes de Tourette, mas dependentemente da extensão das lesões causadas pelo dano nos gânglios basais.
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Bem... Em todo caso, de fato não se pode negar que as pesquisas sobre os circuitos neuronais que subjazem aos mais variados aspectos da linguagem humana ainda têm muito a desvendar. Estamos ainda num estágio muito precoce das pesquisas. Mas penso ser interessante apontarmos alguns achados já feitos, visto que eles já nos dão um bom suporte evidencial da singularidade da faculdade da linguagem em nossa espécie, tão distinta da comunicação animal.
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Por fim, os pontos destacados sobre a singularidade da linguagem em nossa espécie (embora haja indícios já apresentados de que o homem de Neanderthal tenha desenvolvido circuitos lingüísticos bem similares aos nossos), bem como de sua relação interativa com os demais circuitos cognitivos, não permitem que entendamos o fato de que apenas a espécie humana tenha crenças religiosas nem virtude de mero acaso nem em função de algum módulo da religião geneticamente instalado em nós. A linguagem é fundamental para o câmbio interpessoal de idéias, sem o que nenhum conjunto de crenças religiosas poderia ser passado adiante e reelaborado um sem número de vezes, ao longo de nossa história. A linguagem é instrumento essencial para a disseminação de “idéias infecciosas”, tal como as chama o filósofo Daniel Dennett, dentre as quais aquelas que associamos às crenças e práticas religiosas.
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Da gênese da religiosidade humana
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Como já destacado aqui, nos primórdios da humanidade houve o nascimento da linguagem humana, após mutações genéticas aleatórias terem eventualmente produzido alguns de nossos ancestrais capazes de compreender enunciados vocalizados e assimilar seu significado. A criança capaz de compreender os alertas dos adultos não se arriscava, como as outras que não tinham tal capacidade. No inóspito ambiente ancestral onde nossos cérebros se desenvolveram, crianças sem linguagem afastavam-se dos adultos de sua tribo e caíam em precipícios, eram atacadas por algum animal, comiam alguma planta venenosa, em suma, colocavam a vida em risco em virtude da simples carência de linguagem.
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De fato, isso parece convergir com outros dados provenientes de outros estudos. A esta altura, por exemplo, já não surpreende tanto percebermos que, enquanto muitas das capacidades de inteligência de uma criança só se desenvolverão por volta da idade escolar, a linguagem, por outro lado, manifesta-se muito cedo, curiosamente quase na mesma época em que a criança começa a andar.
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Mas é claro que isso por si só não significaria muita coisa, afinal, os macacos também não têm linguagem e estão aí até hoje. Mas a palavra-chave aqui é seleção natural. Os macacos ainda estão aí, como os demais animais, todos sem linguagem, porque não houve nessas espécies os múltiplos passos da seleção natural atuando sobre a variabilidade genética, que conduziu ao desenvolvimento do instinto da linguagem, como aconteceu na linhagem que levou ao Homo sapiens.
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Todos os benefícios proporcionados pela linguagem no ambiente ancestral (segurança ao saber obedecer alertas, capacidade de troca de experiências e informações, ensino e aprendizagem de técnicas recém-desenvolvidas, etc.) fizeram a lâmina ser implacável com os sem-linguagem, inviabilizando seu sucesso reprodutivo, levando-os à extinção. A propósito, por mais irônico que pareça, até mesmo a fofoca não é um universal que ultrapassa barreiras culturais por questão de mera coincidência. No ambiente ancestral, os mexericos tinham algumas consideráveis utilidades. Para citar um único exemplo, serviam para alertar um macho sobre uma fêmea não-confiável que poderia estar fazendo-o criar filhos de outro macho — lembrem-se de que, na pré-história humana, se uma mulher sempre podia ter certeza de que um filho era dela, a coisa não era assim tão óbvia para o homem. Nesse cenário, a fofoca poderia beneficiar o “corno” alertado, impedindo-lhe de gastar tempo criando filhos de outro homem e de fracassar na propagação de seus próprios genes, bem como traria benefícios ao fofoqueiro, a quem o avisado ficaria devendo uma. Ou seja, outra utilidade da fofoca era a de servir de instrumento para forjar alianças.
Como já destacado aqui, nos primórdios da humanidade houve o nascimento da linguagem humana, após mutações genéticas aleatórias terem eventualmente produzido alguns de nossos ancestrais capazes de compreender enunciados vocalizados e assimilar seu significado. A criança capaz de compreender os alertas dos adultos não se arriscava, como as outras que não tinham tal capacidade. No inóspito ambiente ancestral onde nossos cérebros se desenvolveram, crianças sem linguagem afastavam-se dos adultos de sua tribo e caíam em precipícios, eram atacadas por algum animal, comiam alguma planta venenosa, em suma, colocavam a vida em risco em virtude da simples carência de linguagem.
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De fato, isso parece convergir com outros dados provenientes de outros estudos. A esta altura, por exemplo, já não surpreende tanto percebermos que, enquanto muitas das capacidades de inteligência de uma criança só se desenvolverão por volta da idade escolar, a linguagem, por outro lado, manifesta-se muito cedo, curiosamente quase na mesma época em que a criança começa a andar.
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Mas é claro que isso por si só não significaria muita coisa, afinal, os macacos também não têm linguagem e estão aí até hoje. Mas a palavra-chave aqui é seleção natural. Os macacos ainda estão aí, como os demais animais, todos sem linguagem, porque não houve nessas espécies os múltiplos passos da seleção natural atuando sobre a variabilidade genética, que conduziu ao desenvolvimento do instinto da linguagem, como aconteceu na linhagem que levou ao Homo sapiens.
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Todos os benefícios proporcionados pela linguagem no ambiente ancestral (segurança ao saber obedecer alertas, capacidade de troca de experiências e informações, ensino e aprendizagem de técnicas recém-desenvolvidas, etc.) fizeram a lâmina ser implacável com os sem-linguagem, inviabilizando seu sucesso reprodutivo, levando-os à extinção. A propósito, por mais irônico que pareça, até mesmo a fofoca não é um universal que ultrapassa barreiras culturais por questão de mera coincidência. No ambiente ancestral, os mexericos tinham algumas consideráveis utilidades. Para citar um único exemplo, serviam para alertar um macho sobre uma fêmea não-confiável que poderia estar fazendo-o criar filhos de outro macho — lembrem-se de que, na pré-história humana, se uma mulher sempre podia ter certeza de que um filho era dela, a coisa não era assim tão óbvia para o homem. Nesse cenário, a fofoca poderia beneficiar o “corno” alertado, impedindo-lhe de gastar tempo criando filhos de outro homem e de fracassar na propagação de seus próprios genes, bem como traria benefícios ao fofoqueiro, a quem o avisado ficaria devendo uma. Ou seja, outra utilidade da fofoca era a de servir de instrumento para forjar alianças.
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E isso é apenas um exemplo trivial do quanto o desenvolvimento da linguagem foi vital para a evolução humana. Toda a cultura e tecnologia que produzimos ao longo dos milênios tiveram início com a evolução dessa faculdade, sem a qual nada disso seria possível. Todavia, essa faculdade tão preciosa aos humanos trouxe consigo um subproduto, um efeito colateral da adaptação evolutiva de que resultou, que acarretou mais prejuízos do que vantagens, embora ainda se possa ver alguns benefícios de uma certa perspectiva que vou abordar mais adiante. Em todo caso, o que importa destacar aqui é que, uma vez que o subproduto negativo está diretamente associado ao produto positivo da evolução, somos obrigados a conviver com ele. E do que estou falando, afinal de contas?
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Bem, o fato é que todos os dados que citei até aqui indicam que, no ambiente ancestral, a linguagem não apenas emergiu como um ajuste adaptativo evolutivo que beneficiou a espécie humana, mas passou a desenvolver-se num estágio notavelmente precoce, acompanhando os passos da criança, o que corrobora a idéia de que a linguagem servia para salvaguardar as crianças aventureiras, impedindo-as de se arriscar. O mecanismo de aceitação acrítica das palavras dos adultos como valor de verdade, fazendo com que aquilo que diziam e que a criança assimilava como factual, adquirisse contornos bem mais sólidos na percepção infantil, trouxe o benefício direto mais óbvio: num exemplo meramente ilustrativo, impediu que muitos moleques travessos se metessem em cavernas escuras, onde poderia haver animais nocivos ou outros perigos, por medo do monstro de fogo ou do demônio das sombras que os adultos diziam que vivia lá dentro. É uma tática que muitos pais utilizam ainda hoje com os filhos, até mesmo em situações que nem envolvem algum risco — como quando dizem para a criança tratar de dormir logo, antes que o Bicho-Papão a encontre acordada tarde da noite.
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Porém, o subproduto negativo desse mecanismo, que envolve linguagem e cognição, é que as mentes infantis são ingenuamente predispostas à credulidade. As crianças acreditam facilmente em Papai Noel, Coelho da Páscoa, super-heróis com poderes extraordinários, etc., e, ainda que a mente vá se tornando mais crítica e avaliativa à medida que crescem, muitas de suas crenças podem ficar profundamente enraizadas, principalmente se houver pressão externa (cultural) contra sua supressão — o que não ocorre com o Coelhinho da Páscoa, mas é muito freqüente no que diz respeito às crenças religiosas.
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E eis o que muito provavelmente ocorreu na aurora da humanidade: com o desenvolvimento da linguagem, os pensamentos de um puderam ser transmitidos a outros, quaisquer pensamentos, bons ou ruins. O deslumbre humano, em face do mundo natural ainda tão incompreensível, sua condição semelhante à dos prisioneiros no “mito da caverna” de Platão, levou o homem primitivo a fazer uma leitura animista da natureza: sua intuição levou-o a atribuir aos elementos celestes avistáveis (o Sol, a Lua, as estrelas), aos elementos da natureza (como os rios, o mar, as montanhas, as florestas, e as rochas), aos seres vivos (animais e vegetais) e aos fenômenos naturais (a chuva, o vento, o dia e a noite) um conceito abstrato, um tipo de princípio vital e pessoal, uma invisível ânima. Com a ingênua credulidade infantil, os seres humanos se viram presas fáceis dessas informações, e as crenças animistas propagaram-se como um vírus em meio aos humanos primitivos.
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Com o avanço das técnicas de agricultura e pecuária, dentre outras, as sociedades foram surgindo e desenvolvendo-se. Os chefes tribais viraram reis. E, tal como as crianças aceitavam passivamente a autoridade dos adultos, o povo aceitava a autoridade de seu líder — e suas crenças pessoais, que passavam a ser impostas a todos. (Outra vez, não é surpresa que os antropólogos não conheçam nenhum povo antigo que não professasse a mesma fé de seus reis ou líderes.) As crenças animistas tomariam em breve o caminho do politeísmo, criando deuses cujo simbolismo representava as mais diversas manifestações da natureza e da vida. E assim surgiram deuses da chuva, do sol, da noite, da agricultura, do amor, da guerra, etc. Até que, por fim, a variação nas crenças pessoais, subseqüentemente transmitidas e facilmente tornadas epidêmicas, fariam com que, há 3750 anos, durante a Idade do Bronze, surgisse na Ásia Central, a primeira visão religiosa de culto prestado a um único deus supremo e criador de tudo (Ahura Mazda), embora ainda houvesse a crença em outras criaturas espirituais menores, todavia não dignas de adoração.
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Entre os dogmas dessa religião fundada por Zaratustra, estão alguns que se espalhariam e infectariam as crenças de outros povos, em especial das religiões monoteístas que mais tarde se desenvolveram no Oriente Médio: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Dentre os princípios zoroastristas que alcançaram essas outras religiões estão: 1) a imortalidade da alma; 2) a vinda de um messias; 3) a futura ressurreição dos mortos, e 4) um juízo final para a humanidade.
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Daí em diante, como bem se sabe, do monoteísmo judaico emergiu o cristianismo, nos primeiros séculos de nossa era, seguido do islamismo maometano, no século VII, três religiões que marcaram profundamente a história humana, influenciando nossa cultura — no caso do Ocidente, marcada sobretudo pela visão judaico-cristã do mundo e da vida, de modo tão acentuado que, sob sua sombra, o substantivo comum deus acabou adquirindo, ao longo da história recente, os traços da divindade bíblica ao ponto extremo de tornar-se substantivo próprio: pois já não é mais o severo Yahweh dos desertos; hoje ele é simplesmente Deus.
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Enfim, se não há dúvidas quanto à importância da evolução da linguagem em nossa espécie, de como ela favoreceu nossa sobrevivência e desenvolvimento cognitivo e intelectual de forma inquestionável, por outro lado, a arquitetura neural de nossos cérebros, a forma como estão predispostos a assimilar proposições aceitas como verdadeiras (mesmo que não o sejam, de fato) de forma a dar-lhes contornos de concretude, bem como a forma como os processos de aceitação das proposições de adultos como geralmente verdadeiras são mais passivos e acríticos na infância, acabou tudo por fazer de nós seres ingenuamente vulneráveis principalmente às crenças que nos são transmitidas em nossos primeiros anos de vida. Se tais crenças continuarem sendo alimentadas enquanto crescemos, teremos um adulto crendo piamente no que quer que lhe tenham ensinado, sentindo uma sensação de verdade concreta e inquestionável naquilo em que acredita.
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Conclusão
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Bem, neste texto repeti muitas coisas que já havia dito em artigos anteriores. Porém, procurei desta vez me focar exclusivamente no tema das raízes de nossa predisposição à credulidade, em especial às crenças religiosas, acrescentando aos velhos dados e argumentos novas informações.
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Para concluir, gostaria de abordar um último ponto a que Pinker fez alusão em seu discurso na Freedom from Religion Foundation. A certa altura, ele disse:
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E eis o que muito provavelmente ocorreu na aurora da humanidade: com o desenvolvimento da linguagem, os pensamentos de um puderam ser transmitidos a outros, quaisquer pensamentos, bons ou ruins. O deslumbre humano, em face do mundo natural ainda tão incompreensível, sua condição semelhante à dos prisioneiros no “mito da caverna” de Platão, levou o homem primitivo a fazer uma leitura animista da natureza: sua intuição levou-o a atribuir aos elementos celestes avistáveis (o Sol, a Lua, as estrelas), aos elementos da natureza (como os rios, o mar, as montanhas, as florestas, e as rochas), aos seres vivos (animais e vegetais) e aos fenômenos naturais (a chuva, o vento, o dia e a noite) um conceito abstrato, um tipo de princípio vital e pessoal, uma invisível ânima. Com a ingênua credulidade infantil, os seres humanos se viram presas fáceis dessas informações, e as crenças animistas propagaram-se como um vírus em meio aos humanos primitivos.
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Com o avanço das técnicas de agricultura e pecuária, dentre outras, as sociedades foram surgindo e desenvolvendo-se. Os chefes tribais viraram reis. E, tal como as crianças aceitavam passivamente a autoridade dos adultos, o povo aceitava a autoridade de seu líder — e suas crenças pessoais, que passavam a ser impostas a todos. (Outra vez, não é surpresa que os antropólogos não conheçam nenhum povo antigo que não professasse a mesma fé de seus reis ou líderes.) As crenças animistas tomariam em breve o caminho do politeísmo, criando deuses cujo simbolismo representava as mais diversas manifestações da natureza e da vida. E assim surgiram deuses da chuva, do sol, da noite, da agricultura, do amor, da guerra, etc. Até que, por fim, a variação nas crenças pessoais, subseqüentemente transmitidas e facilmente tornadas epidêmicas, fariam com que, há 3750 anos, durante a Idade do Bronze, surgisse na Ásia Central, a primeira visão religiosa de culto prestado a um único deus supremo e criador de tudo (Ahura Mazda), embora ainda houvesse a crença em outras criaturas espirituais menores, todavia não dignas de adoração.
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Entre os dogmas dessa religião fundada por Zaratustra, estão alguns que se espalhariam e infectariam as crenças de outros povos, em especial das religiões monoteístas que mais tarde se desenvolveram no Oriente Médio: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Dentre os princípios zoroastristas que alcançaram essas outras religiões estão: 1) a imortalidade da alma; 2) a vinda de um messias; 3) a futura ressurreição dos mortos, e 4) um juízo final para a humanidade.
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Daí em diante, como bem se sabe, do monoteísmo judaico emergiu o cristianismo, nos primeiros séculos de nossa era, seguido do islamismo maometano, no século VII, três religiões que marcaram profundamente a história humana, influenciando nossa cultura — no caso do Ocidente, marcada sobretudo pela visão judaico-cristã do mundo e da vida, de modo tão acentuado que, sob sua sombra, o substantivo comum deus acabou adquirindo, ao longo da história recente, os traços da divindade bíblica ao ponto extremo de tornar-se substantivo próprio: pois já não é mais o severo Yahweh dos desertos; hoje ele é simplesmente Deus.
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Enfim, se não há dúvidas quanto à importância da evolução da linguagem em nossa espécie, de como ela favoreceu nossa sobrevivência e desenvolvimento cognitivo e intelectual de forma inquestionável, por outro lado, a arquitetura neural de nossos cérebros, a forma como estão predispostos a assimilar proposições aceitas como verdadeiras (mesmo que não o sejam, de fato) de forma a dar-lhes contornos de concretude, bem como a forma como os processos de aceitação das proposições de adultos como geralmente verdadeiras são mais passivos e acríticos na infância, acabou tudo por fazer de nós seres ingenuamente vulneráveis principalmente às crenças que nos são transmitidas em nossos primeiros anos de vida. Se tais crenças continuarem sendo alimentadas enquanto crescemos, teremos um adulto crendo piamente no que quer que lhe tenham ensinado, sentindo uma sensação de verdade concreta e inquestionável naquilo em que acredita.
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Conclusão
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Bem, neste texto repeti muitas coisas que já havia dito em artigos anteriores. Porém, procurei desta vez me focar exclusivamente no tema das raízes de nossa predisposição à credulidade, em especial às crenças religiosas, acrescentando aos velhos dados e argumentos novas informações.
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Para concluir, gostaria de abordar um último ponto a que Pinker fez alusão em seu discurso na Freedom from Religion Foundation. A certa altura, ele disse:
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Uma maneira de se reformular a questão “Por que a crença religiosa é tão universalmente difundida?” é se perguntar: quem se beneficia? Uma outra maneira de se colocar a questão é que se deve distinguir os possíveis benefícios da religião para os que produzem a crença religiosa — a autoridade estabelecida dos xamãs e sacerdotes etc. — dos benefícios para os que consomem a religião — os paroquianos, a congregação, os fiéis. A resposta pode ser bem diferente para um caso e outro. Deve-se distinguir a questão “Que bem haverá em sacerdotes, xamãs etc. inculcando crenças religiosas nas pessoas?” da questão “Que bem haverá na aceitação da crença religiosa por parte dos crentes?”
(...)
A religião tem efeitos práticos óbvios para aqueles que a produzem. No que diz respeito aos consumidores, há possíveis adaptações emocionais em nosso desejo de saúde, amor e sucesso, possíveis adaptações cognitivas em nossa psicologia intuitiva, e muitos aspectos de nossa experiência que parecem fornecer provas em favor da existência de almas. Junte tudo isso e você desenvolverá uma forte atração para um mundo de almas que realizem nossos mais caros desejos.
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Cumpre esclarecer que o que, quando Pinker fala de experiências em nossas vidas que parecem fornecer evidências de que almas existam, está remetendo-se a um trecho de seu discurso onde disse:
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Cumpre esclarecer que o que, quando Pinker fala de experiências em nossas vidas que parecem fornecer evidências de que almas existam, está remetendo-se a um trecho de seu discurso onde disse:
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Talvez a onipresente crença em espíritos, almas, deuses, anjos etc., consista de nossa psicologia intuitiva em estado de delírio. Se você estiver propenso a atribuir uma entidade invisível chamada “mente” aos corpos de outras pessoas, é um curto passo até começar a imaginar que mentes existam independentemente dos corpos. Afinal de contas, não dá para se erguer a mão e tocar a mente de outra pessoa; você está sempre executando um salto inferencial. É apenas uma questão de dar um passo inferencial a mais dizer que a mente não está invariavelmente abrigada num corpo.
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Pois bem! Tendo deixado claro este ponto, fica a conclusão de mais um longo artigo. Sabemos que evoluiu em nossos cérebros uma arquitetura neuronal tal que nos possibilitou o desenvolvimento da mais surpreendente de nossas faculdades: a linguagem. Sem sombra de dúvidas, uma ferramenta imprescindível para todo o progresso de nossa espécie até nosso estágio presente. Todavia, não tendo sido produto de nenhum design inteligente, mas resultado de evolução cumulativa não inteligentemente dirigida no decorrer de milhares e milhares de anos, esses mesmos arranjos neuronais nos tornaram seres espantosamente propensos à credulidade em conceitos transmitidos a nós, principalmente na infância (quando, não por coincidência, começamos nossa educação religiosa, antes mesmo da educação escolar normal).
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Ao mesmo tempo, esse mesmo cérebro que nossa linhagem evoluiu também traz a propriedade computacional de arquivar indiscriminadamente como dado factual, mesmo aquilo que de fato não o seja — de novo, processo que é ainda mais corriqueiro e eficaz na infância, quando acreditamos em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Bicho-Papão (e quando, não por coincidência, somos ensinados sobre as maravilhas do céu para os menininhos bonzinhos e os horrores e sofrimentos eternos nas chamas do inferno para os que não fazem o que o Papai do Céu quer).
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Portanto, de forma paralela às mudanças causadas pelo desenvolvimento da linguagem em nossa espécie, vemos o surgimento e a manutenção longeva de um subproduto de tal adaptação, alimentado sobretudo por elementos culturais que não por acaso persistem nas mais variadas sociedades. Afinal, ao considerarmos a intrigante pergunta de duas vias de Pinker — o que ganham com a religião os que a produzem, e o que ganham os que a consomem? — as respectivas respostas, mas principalmente a da primeira delas, pode nos revelar um dos motivos mais determinantes da manutenção milenar de práticas e práticas de doutrinação religiosa: os benefícios ganhos pelos que representam a autoridade religiosa.
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É claro que não há vendedores sem consumidores. Mas todos nós sabemos que nem sempre um vendedor de sucesso é o que nos vende o que é melhor para nós. Tal como o sucesso do McDonald’s não se baseia no quão saudável seus produtos são para os consumidores, mas sim nas eficientes campanhas de marketing, podemos dizer que o sucesso da religião não se sustenta tanto em seus benefícios para os consumidores, mas na estratégia utilizada na doutrinação, a fim de garantir, acima de tudo, os interesses dos que doutrinam na fé.
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É óbvio que ao menos dois fatores precisam ser ressaltados:
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1) Nem todos os líderes religiosos agem com base em interesses deliberados, embora muitos decerto o façam. Com efeito, tal interesse pode subjazer à sua consciência, imperceptivelmente imiscuído nas raízes de sua motivação interior.
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2) Nem todos os representantes da religião obtêm benefícios materiais ou que favoreçam suas chances reprodutivas, visto que há monges que fazem votos de pobreza e padres com votos de castidade, por exemplo. Porém, tanto num caso como no outro estamos falando de efeitos colaterais da prática religiosa a longo prazo: nenhuma das religiões mais primitivas de nossa história incentivava à castidade e à abdicação de conforto material. O desenvolvimento dessas práticas é muito posterior à experiência humana com a religião e tem muito mais raízes culturais e contextuais, é fruto de melhor elaboração da crença original. Além do mais, os religiosos que perfazem esses grupos ilustrativos, não se o pode discutir, são a minoria dentre os representantes da religião.
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De qualquer forma, a pergunta insiste em ecoar em nossas cabeças: o que os que produzem as crenças religiosas têm a ganhar com a perpetuação da religião? Bem, acho que nenhum de nós, depois de avaliar um pouquinho a questão, terá dificuldades em concluir que o mundo seria bem mais difícil para papas, bispos, pastores, rabinos, califas e aiatolás, caso tivessem que passar a viver de outra coisa, em vez de gozar do conforto material de que carece grande parte dos fiéis que os sustentam, enquanto ganham a vida com essa exploração milenar desse primitivo mecanismo de credulidade que há em nossos cérebros (e de que tratei aqui), que nos faz propensos a aceitar ingenuamente como certezas as “verdadeiras verdades” que nos prega, à sua respectiva maneira, cada uma dessas distintas correntes religiosas de nossos tempos.
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POST SCRIPTUM:
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Recentemente, foi publicado um estudo no periódico Proceedings of the National Academy of Science — PNAS (Kapogiannis, D. et al. “Cognitive and neural foundations of religious belief.” PNAS, 9/Mar./2009) que não faz mais do que corroborar o que afirmei aqui, bem como vem acrescentar a este texto alguns curiosos novos dados. Se a linguagem parece ter sido a ferramenta que possibilitou a troca de idéias entre mentes humanas no ambiente ancestral, a mentalidade e comportamento religiosos desenvolvidos a partir dessa nova capacidade, ao que indica o estudo, passaram a ser processados pela circuitaria básica que subjaz à teoria da mente (capacidade de atribuir estados mentais a outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destas atribuições), o que sustenta ainda mais a hipótese de que a religiosidade ocorreu como um subproduto das adaptações básicas associadas à essa capacidade, notavelmente dependente de nossos módulos lingüístico e de representação mental.
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Além disso, ajuda a entender ainda mais os resultados do experimento dos doutores Han e Northoff, citados neste artigo (HAN, S. & NORTHOFF, G. “Culture-sensitive neural substrates of human cognition: a transcultural neuroimaging approach.” Nature Reviews Neuroscience, vol. 9, pp. 646 – 564, agosto/2008).
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Aliás, que um estudo tenha encontrado uma relação entre os circuitos mentais da ToM (teoria da mente) e a religiosidade chega a ser quase como a descoberta da roda, se paramos para pensar bem a respeito. Afinal, essa já parecia uma inferência bem plausível a partir de alguns dados conhecidos que indicam que há mais manifestações de pensamentos e comportamentos religiosos em esquizofrênicos do que em autistas, bem como de estudos que ajudam a compreender isso, no que demonstram que os circuitos e os processos psicológicos associados à ToM apresentam sérios déficits funcionais em quadros de distúrbios do espectro do autismo, ao passo que distúrbios do espectro da esquizofrenia apresentam um sabido excesso dessas mesmas habilidades mentais — ou seja, uma “overdose” de ToM.
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Como conclui o artigo da PNAS:
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Os achados sustentam a visão de que a religiosidade está incorporada aos processos cognitivos e às redes cerebrais utilizadas na cognição social, em vez de ser algo sui generis. A evolução destas redes foi provavelmente impelida por seus papéis primários na cognição social, na linguagem e no raciocínio lógico. A cognição religiosa, ao que tudo indica, emergiu como uma combinação atípica desses vários processos cognitivos evolutivamente importantes. Diferenças individuais mesuráveis nessas competências essenciais (teoria da mente, imaginação etc.) podem predizer padrões específicos de ativação cerebral em resposta a estímulos religiosos. A estrutura identificada neste estudo reflete a religiosidade (ou falta dela) em membros da moderna sociedade ocidental. Religiões tribais e não-ocidentais podem engajar os processos cognitivos e as redes identificadas aqui ou engajar outras novas redes. (Tradução minha)
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A conclusão dos pesquisadores é de que, independentemente de se poder ou não poder provar que deuses existam, ao menos as crenças religiosas sabemos que existem. E os processos cerebrais que as produzem podem ser experimentalmente estudados, como o estudo demonstra. Bem como vamos, a partir desses novos achados, compreendendo melhor por que algumas pessoas assimilam subjetivamente essas crenças como verdades válidas sobre o mundo, mesmo que nenhuma evidência factual as corrobore. Vamos entendendo cada vez mais os processos que subjazem a assimilação e manutenção dessas crenças.
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